ContextoCap.5 tratou da wave resistance; este cap. trata da outra componente maior, a viscous resistance. Aqui ondas e todo efeito de superfície livre são desprezados.
Duas consequências imediatas
- O Froude number torna-se irrelevante → o único parâmetro de semelhança restante é o Reynolds number.
- A pressão hidrostática some → sobra só a hydrodynamic pressure (índice "hd" é omitido no capítulo).
Toda componente viscosa (Cap.4) nasce da boundary layer em torno do casco. Como a camada-limite 3-D do navio não tem solução simples, monta-se a complexidade por etapas.
Placa plana (§6.3) › corpos 2-D (§6.4) › axissimétricos (§6.5) › 3-D (§6.6) › casco real (§6.7)
Sistema de coordenadas body-fitted (§6.1)
Por quêResolver a camada-limite é bem mais conveniente num sistema ajustado ao casco (curvilíneo, em geral não-ortogonal) que no cartesiano global. Dentro da camada-limite pode-se usar sistemas ortogonais.
| Eixo | Direção | Nome |
|---|---|---|
| x | ao longo da superfície, na direção do escoamento na borda da camada | longitudinal |
| y | normal à superfície | normal |
| z | na superfície, em ângulo reto com x (sistema dextrogiro) | lateral |
Descrição física (§6.2.1)
No-slip conditionA velocidade relativa entre superfície sólida e fluido é zero — o fluido "cola" na parede por ação molecular. Afastando-se, a velocidade cresce numa região fina: a boundary layer, que cobre todo o casco e em geral engrossa a jusante.
Na proa: laminar (velocidade sobe suave) › ponto de neutral stability › região transicional (turbulent bursts) › turbulenta
- Camada turbulenta: parte interna = viscous sublayer (ainda quase laminar). Eddies de vários tamanhos: menor (escala de Kolmogoroff) ~0,1 mm; maior ~espessura da camada (0,1 m em modelo, 1–10 m em escala real).
- Tensão de cisalhamento 2-D: σyx = μ·∂u/∂y (6.1) — cisalhamento longitudinal ∝ gradiente normal de velocidade; μ = viscosidade dinâmica.
- Efeito macroscópico dos eddies → turbulent (eddy) viscosity μt; μeff = μ + μt (6.2/6.3).
μ é propriedade do fluido (quase constante); μt NÃO é propriedade do fluido — depende das flutuações e varia pelo escoamento.
Teoria de 1ª ordem (§6.2.2) — Prandtl (1904)
Divide o escoamento numa região junto à parede/esteira (viscosidade domina) e uma externa onde ela é desprezível — chamada, inconsistentemente, inviscid. Motivo: não é μ menor, é o gradiente de velocidade desprezível fora da camada.
- Aproximação 1: a pressão é constante através da camada-limite (na direção normal).
- Aproximação 2: a distribuição de pressão vem, em 1ª ordem, de uma solução inviscid que ignora a camada.
- Procedimento eficiente: calcula a pressão inviscid (Cap.5) → resolve a camada-limite com essa pressão prescrita (evita o acoplamento velocidade–pressão).
Grandezas locais (§6.2.3)
Espessura δDefinida onde u atinge um % dado da velocidade de borda Ue — usam-se 99% e 99,5% (o % tem de ser informado).
| Grandeza | Fórmula | Para quê |
|---|---|---|
| Displacement thickness δ1 | ∫(1 − u/Ue)dy (6.4) | déficit de fluxo de volume; iterar a solução inviscid contra a camada |
| Momentum thickness θ | ∫(u/Ue)(1 − u/Ue)dy (6.5) | estimar resistência |
Placa plana: RF = ρ·b·Ue²·θ (6.6) — RF até um ponto é proporcional à momentum thickness ali (b = largura).
Atrás da placa θ se mantém constante → perfil medido a jusante dá o atrito. Se medido longe o bastante (pressão não perturbada), a (6.6) dá a viscous resistance TOTAL (atrito + forma + rugosidade), não só o atrito — base do wake-survey.
Cf = τw / (½ρUe²) (6.7) local › CF = RF / (½ρU∞²S) (6.8) total
Simplificação-chavePressão constante e não perturbada ao longo da placa → Ue ≈ U∞.
Laminar — solução de Blasius (§6.3.1)
- Solução "similar": todos os perfis coincidem ao escalar em y. u/U∞ = f(y/x·√Rnx); Rnx = U∞x/ν (Reynolds local).
- Espessuras: δ = 5,0·x/√Rnx · δ1 = 1,72·x/√Rnx · θ = 0,664·x/√Rnx
- Atrito: Cf = 0,664/√Rnx · CF = 1,328/√Rn
Laminar: δ1 ≈ ⅓δ e θ ≈ ⅛δ. CF é exatamente o dobro do Cf local. Espessuras crescem como x1/2.
Transição (§6.3.2)
- Condições ideais: Rncrit ≈ 3×10⁶ — exige turbulência baixíssima, T ≈ 0,1% (só túneis de vento de alta qualidade e tanques recém-repousados).
- Valor mais realista: Rncrit ≈ 5×10⁵.
- Rugosidade crítica (Feindt): U∞ks/ν = 120 (6.18).
Em modelo (Rn menor) a transição ocorre muito mais a ré → estimula-se turbulência perto da proa para forçar transição prematura (§8).
Turbulenta (§6.3.3)
Friction velocityuτ = √(τw/ρ) = U∞√(Cf/2). Variáveis de parede: u+=u/uτ, y+=y·uτ/ν → perfil universal u+=f(y+).
| Região (wall-wake law) | Faixa y+ | Perfil |
|---|---|---|
| I. Viscous sublayer | 0 ≤ y+ ≤ 5 | u+=y+ (linear) |
| II. Buffer layer | 5 ≤ y+ ≤ 30 | transição linear→log |
| III. Logarithmic | 30 a ~500–10.000 | u+=(1/κ)log y++C |
| IV. Wake region | até a borda (a maior) | log law + wake function |
Constantesκ ≈ 0,41 (von Kármán); C ≈ 5,0; wake-strength Π = 0,55 (só para pressão constante).
Lei de potência (power law) e espessuras turbulentas
- u/Ue = (y/δ)1/n (6.30) — ruim junto à parede, boa longe dela. n ≈ 7 em Rn≈10⁷ (modelo); n ≈ 9 em Rn≈10⁹ (escala real).
- Espessuras (n=7): δ = 0,37x/⁵√Rnx · δ1 = 0,046x/⁵√Rnx · θ = 0,036x/⁵√Rnx · Cf = 0,058/⁵√Rnx.
- Turbulenta: δ1 ≈ ⅛δ, θ ≈ 1/10 δ.
Espessuras turbulentas crescem como x4/5 vs laminares x1/2 → a camada turbulenta cresce mais rápido.
Linhas de atrito e extrapolação (§6.3.4)
| Linha | Autor/ano | Fórmula / nota |
|---|---|---|
| Planks originais | W. Froude 1872/1874 | RF=f·S·Vn; n cai de 2,0 (curta) a 1,83 (15 m); planks 0,6–15 m, 0,5–4 m/s, Torquay |
| ATTC line | Schoenherr 1932 (adot. 1947) | 0,242/√CF=log(Rn·CF); roughness allowance 0,0004 |
| Hughes line | Hughes 1952/54 | CFO=0,066/(log Rn − 2,03)²; linha 2-D verdadeira de placa plana |
| ITTC-57 | Madrid 1957 | CF=0,075/(log Rn − 2)²; NÃO é placa plana pura |
A ITTC-57 fica ~12% acima da Hughes em toda a faixa de Rn → efeito de forma de 12% embutido. Só assim CT=CF+CR podia ser extrapolado por "Froude scaling".
O que a placa perde3 efeitos do caso 3-D real: gradiente de pressão longitudinal, convergência lateral de linhas de corrente e gradiente de pressão lateral. O corpo 2-D adiciona só o 1º.
Pressão & efeito de forma (§6.4.1)
A camada-limite perturba a pressão inviscid pelo efeito de deslocamento. Sem popa (esteira até o infinito) não há pressão de estagnação: a pressão na popa fica menor que a inviscid = o form effect on pressure (viscous pressure resistance) da Fig.4.1.
Gradiente de pressão longitudinal (§6.4.2)
| Gradiente | No elemento | Na camada |
|---|---|---|
| Pressão caindo (derivada <0) | acelera | cresce mais devagar; perfil mais "cheio" (fuller) |
| Pressão subindo (derivada >0) | desacelera | cresce mais rápido; perfil mais "fino" |
Transição & separação (§6.4.3–4.4)
- Transição: pressão caindo estabiliza e a atrasa; subindo, o contrário. O efeito do gradiente costuma ser mais forte que o de Rn → transição perto do 1º mínimo de pressão.
- Separação: se a subida de pressão a ré for rápida demais, a força desacelera o fluido junto à parede → linhas deixam a superfície e forma-se fluxo reverso. Zona de separação: velocidade axial média baixa, flutuações grandes.
Form factor 1+k (§6.4.5)
Efeito na fricçãoO corpo empacota as linhas mais junto, aumenta Ue e logo a fricção — normalmente maior que a da placa plana.
1 + k = CV/CF0 = (CF+CP)/CF0 (6.39) › CV=viscosa total › CF0=fricção da placa plana equivalente
Os dois efeitos de forma (na pressão e na fricção) são reunidos no form factor 1+k — central na extrapolação ITTC-78.
NovidadeA largura da superfície sobre a qual a camada se desenvolve varia ao longo do corpo. Linhas divergem do ponto de estagnação da proa, mais espalhadas no maior diâmetro, convergem à popa.
- Distância lateral entre linhas ∝ raio local.
- Raio aumenta (linhas divergem) → continuidade reduz o crescimento da camada; raio diminui (convergem) → crescimento aumenta.
- Resultado: crescimento inicial menor que 2-D na proa, maior na cauda.
Na popa a distância lateral →0, o que levaria a espessura ao infinito, não fosse o espalhamento radial das normais (Fig.6.12): ainda há espaço para a camada. As equações diferem das 2-D porque entra o raio do corpo.
Passo final = adicionar o gradiente de pressão lateral. Quadro completo: longitudinal (2-D) + convergência lateral (axissimétrico) + gradiente lateral (3-D).
Cross-flow & limiting streamlines (§6.6.1)
- ∂p/∂z curva o fluxo externo de lado. Como a pressão é constante em y, u²/r é igual em todo y; mas u cai junto à parede → r cai também: o fluido mais lento vira mais bruscamente → cross-flow rumo à menor pressão, zero na parede (no-slip).
- Se ∂p/∂z troca de sinal (inflexão) → perfil de cross-flow em S.
- Ângulo de cross-flow: β = tan⁻¹(w/u); na parede (l'Hôpital) βw = tan⁻¹(τwz/τwx).
A direção-limite na superfície é a direção do wall shear stress. Linhas traçadas nela = limiting streamlines — reveladas em tanque por tiras de tinta molhada arrastadas pela fricção do casco (Fig.8.10).
Separação 3-D (§6.6.2)
| Tipo | Mecanismo / comportamento |
|---|---|
| Bubble separation | fluxo deixa a superfície ao longo de uma linha divisória (fora: para trás; dentro: para frente). Mais parecida com o caso 2-D; na linha, sai em ângulo não-nulo com fricção zero |
| Vortex-sheet separation | linhas convergem, continuidade força o fluxo para fora; duas camadas se encontram, forma-se vortex sheet instável que enrola num vórtice longitudinal (Maskell, 1955) |
Double modelOndas desprezadas → a superfície livre é plano de simetria; estuda-se o casco submerso + sua imagem espelhada.
ExemploKVLCC2, VLCC muito cheio, block coefficient CB = 0,85, muito usado em validação de CFD; inviscid por painéis, viscoso por RANS.
| Tipo de camada | Efeitos (build-up, Tab. 6.1) |
|---|---|
| Placa plana | no-slip |
| 2-D | + gradiente longitudinal |
| Axissimétrico | + convergência/divergência lateral |
| 3-D | + gradiente de pressão lateral |
Pressão & bilge vortex (§6.7.1)
- Fluxo viscoso (modelo Rn = 4,6×10⁶): perto do transom a alta pressão inviscid cai 0,1–0,2 em Cp; o mínimo do bojo fica ~0,05 maior.
- Ponto de inflexão no bojo (bilge) onde ∂p/∂z troca de sinal → caso vortex-sheet → forma-se um bilge vortex.
| Bilge vortex | Comportamento |
|---|---|
| Forebody | em geral fraco; forte com bojo de raio pequeno. Reduz-se aumentando o raio do bojo ou pondo bow bulb |
| Afterbody | bem mais forte — camada mais espessa, fricção/uτ menores, fluxo interno de baixa quantidade de movimento reage mais fácil |
Seções, wake & efeitos na resistência (§6.7.2–7.3)
- No plano do propulsor: "ilha" de fluido lento (contornos 0,3–0,4) no centro, criando os "hooks" característicos (do stern bilge vortex). Teoria de 1ª ordem falha perto da popa (camada espessa demais).
- Fricção muito alta na quilha (linhas externas divergem, camada fina) e maior no forebody que no afterbody.
Trade-off do stern vortex: aumenta o arrasto, mas arredonda os contornos de velocidade no propulsor → menos variação de ângulo de ataque nas pás (melhor ruído/vibração/eficiência). Bubble separation deve ser evitada (grande perda de pressão).
Efeitos de escala (§6.7.4)
δ ∝ Rn−1/5; Rn do navio é ≥2 ordens maior que o do modelo → camada relativamente muito mais fina em escala real. Em Rn = 2,0×10¹⁰: pressão de popa mais perto da inviscid, bilge vortex mais fraco, "hooks" desaparecem. Só os resultados inviscid são independentes de escala.
Por que se assume o form factor constante: em escala real o menor efeito de deslocamento reduz a viscous pressure resistance; embora o efeito na fricção suba um pouco, o efeito de forma total cai. Assume-se que a viscosa fica proporcional à fricção de placa plana.
ContextoSuperfície hydraulically smooth vale para bons modelos, não para navios reais, onde o roughness allowance pode ser considerável.
Rugosidade & fouling (§6.8.1)
Tintas SPCSelf-polishing copolymer: ficam mais lisas com o tempo (fluxo abrasa os picos) e reduzem fouling → estendem a docagem de 1,5 ano para ~5 anos.
TBT (agente SPC) era ~70% das tintas comerciais em 1999; tintas à base de estanho banidas 2003–2008 por acordo IMO → biocidas de óxido de cobre e silicones/fluoropolímeros sem biocida.
Caracterização (§6.8.2–8.3)
Referência clássicaAreia densamente empacotada: equivalent sand roughness ks, raramente conhecida para cascos.
| Superfície | ks (μm) |
|---|---|
| Vidro | 0,3 |
| Tubos novos (latão/cobre) | 1,5 |
| Ferro fundido | 250 |
| Concreto | 30–300 |
| Madeira | 20–1000 |
MAAMean Apparent Amplitude: agulha percorre 750 mm em intervalos de 50 mm; em cada, registra pico-a-vale máximo; k = média dos 15 valores. Pré-SPC: ~100 μm (navios novos), 600–700 μm (velhos).
Hydraulically smooth = rugosidade dentro do viscous sublayer (y+≤5): uτk/ν ≤ 5 → k ≤ 5ν/uτ (6.42). Como a fricção cai a ré, a rugosidade permitida aumenta rumo à popa.
Regra prática: k = 100/V (6.43) [k em μm, V em m/s] › 4 m/s (8 nós) → 25 μm › 10 m/s (20 nós) → 10 μm
Previsão & fórmula de Bowden (§6.8.4–8.6)
- Se ks é conhecida → diagrama Prandtl-Schlichting dá ΔCF; como raramente é, usam-se experimentos por MAA.
- Floating element balance: elemento ~200×200 mm rente à parede mede a força de cisalhamento (Johansson, 1984). Pipe-flow é mais barato para grandes aumentos (fouling).
Bowden (ITTC 1978): ΔCF = [105·(k/L)1/3 − 0,64]×10⁻³ (6.44), k = altura MAA.
Bowden comparou provas de mar com extrapolações de modelo sem correção e atribuiu a diferença à rugosidade → ΔCF contém outros efeitos não-contabilizados: bom para corrigir dados de modelo, não para o efeito "verdadeiro" da rugosidade. Antes de Bowden usava-se ΔCF constante = 0,0004.
Fouling dá aumentos muito maiores; barnacles ~5 mm de altura (Fig.6.28).
Há ~60 anos sabe-se que a fricção pode ser cortada abaixo da de uma superfície lisa, agindo sobre a turbulência.
| Técnica | Mecanismo | Efeito relatado |
|---|---|---|
| Polymer additives | moléculas longas alinham-se ao fluxo, amortecem oscilações transversais, atrasam transição (Polyethylene-oxide o mais popular) | até 75% a 50 ppm (Paterson & Abernathy, 1970); até 90% a 100 ppm; efeito já a 1 ppm |
| Air / microbubbles | ar na camada mais interna induz velocidade normal que reorganiza o fluxo; ou camada de ar em cavidade no fundo | até 80% com bolhas ~50 μm; difícil manter camada uniforme sob superfície horizontal |
| Compliant coatings | pele flexível (inspirada em golfinho) que amortece a turbulência | ~10% em alguns testes, mas NASA (Bushnell, 1977) não achou nenhum — positivos anteriores = erro de medição |
| Riblets | ristras estriadas (pele de tubarão), altura/espaçamento ~0,1 mm, afetam bursts no viscous sublayer | ~10% (Walsh & Lindemann, 1984); filme 3M na America's Cup 1987, hoje descontinuado |
| LEBU (large eddy break-up) | "asas"/fitas de aço em tandem ~0,75δ da superfície, quebram os maiores eddies | ~20% líquido em Rn baixo, mas no Rn de interesse o arrasto do próprio LEBU quase cancela o ganho |