MN Cap. 11 — Manobras Especiais

1. Visão geral

SANTOS, E. M. dos. A Manobrabilidade do Navio no Século 21. Rio de Janeiro: CONAPRA, 2021. Cap. 11 — Manobras Especiais.

Anexo 2-A, item 4 — Controlabilidade, subitens 4.8–4.12 (parar com liberdade para guinar, rudder cycling, efeitos da máquina na guinada, coasting, equipamentos auxiliares) + reforço 4.2 (manobras-padrão) · Anexo 2-B, item I.8, Cap. 11 (Santos).

As manobras estudadas nos capítulos anteriores são as manobras definitivas — giro, zigue-zague e espiral. A IMO acrescenta a elas a parada brusca e forma o conjunto das manobras-padrão. Este capítulo trata de um terceiro grupo: as manobras especiais, usadas na prática para situações que as definitivas não cobrem.

Cada manobra especial responde a uma pergunta operacional concreta: como o navio mantém o rumo, quanto ele desvia numa emergência, como gira partindo parado, como para com liberdade para guinar, como aproveita os impelidores, como resgata um homem ao mar. O bom marinheiro precisa saber em qual tipo de navio, quando, como e em que local empregar cada uma.

Quase todas se apoiam nos equipamentos modernos de passadiço, que fornecem posição, direção e velocidade a bordo — em especial o ECDIS, que permite acompanhar a trajetória real do navio durante a execução.

Conteúdo programático (Anexo 2-A, item 4 — Controlabilidade): este capítulo cobre as manobras-padrão (4.2) e os subitens 4.8 a 4.12 — parar com liberdade para guinar, manobra cíclica do leme (rudder cycling), efeitos da máquina na guinada, coasting (controle de velocidade) e equipamentos auxiliares (impelidores).

2. Manutenção de rumo e desvio lateral

2.1. Manobra de avaliação de manutenção de rumo (§11.1)

Esta manobra mede como o rumo do navio muda quando se aplica uma força de controle, ou seja, um ângulo de leme predefinido. O resultado é um diagrama operacional do rumo contra avanço e transferência.

Fig. 326
Fig. 326 Novo rumo obtido na manobra de manutenção de rumo (mudança de aproamento de 30°)

Os ângulos usados a seguir são exemplos comuns na prática. A sequência recomendada é:

  1. estabilizar o navio em rumo reto e velocidade constante por cerca de um minuto, mantendo o maquinário em regime até o fim;
  2. carregar o leme em um ângulo inicial — por exemplo 15° para boreste — e mantê-lo;
  3. quando o aproamento variar 10° a boreste, mover o leme rapidamente para 15° a bombordo;
  4. quando a razão de guinada chegar a zero (o navio "quebra a guinada"), retornar o leme a meio — isso encerra o teste para 15°;
  5. repetir invertendo os bordos e, depois, com ângulos iniciais de 20° e 30°.

Ao final mede-se a variação da trajetória e obtém-se o novo rumo que o navio assume, para cada bordo, ao alcançar estabilidade em linha reta.

2.2. Manobra teste de rumos paralelos (§11.3)

O objetivo é descobrir quanto o navio desvia lateralmente de sua trajetória original quando faz uma manobra de emergência com todo o leme. O dado de saída é um diagrama do ângulo de leme contra o deslocamento lateral em relação ao rumo base.

  1. estabilizar o navio em rumo reto e velocidade pré-selecionada;
  2. cerca de um comprimento antes do ponto de carregamento, iniciar a aquisição de dados;
  3. carregar o leme todo para um bordo;
  4. quando o aproamento variar 30°, carregar 35° para o bordo oposto e reconduzir o navio ao aproamento original.

Ao terminar, o navio fica no mesmo aproamento inicial, porém afastado lateralmente da trajetória. A manobra é repetida invertendo os bordos, e pode haver testes adicionais para 60° e 90° de aproamento, bem como com ângulo de leme inferior a 35°.

3. Habilidade de guinada e zigue-zagues especiais

3.1. Habilidade inicial para guinar (§11.4)

Recomendada pela IMO na Resolução 137(76), mede a capacidade do navio de guinar com uma força de controle moderada do leme.

  1. estabilizar o navio em rumo reto e velocidade pré-selecionada e iniciar a aquisição de dados;
  2. carregar 10° de leme para um bordo;
  3. quando o aproamento atingir 10°, encerrar a manobra e repetir para o bordo oposto.

Pode-se repetir com 20° de leme e 20° de aproamento.

Critério da IMO: o navio não deve percorrer mais de 2,5 Lpp desde o acionamento do leme a 10° (para BE ou BB) até o momento em que a variação de aproamento iguala o ângulo de leme.

3.2. Zigue-zague em baixa velocidade (§11.5)

Determina a velocidade mínima na qual o navio ainda responde ao leme. A diferença em relação ao zigue-zague comum é que aqui a máquina é parada antes de começar.

  1. estabilizar o navio, iniciar a aquisição e parar a máquina;
  2. carregar o leme todo para boreste;
  3. quando o aproamento variar 1° para boreste, carregar o leme todo para bombordo;
  4. assim que o navio quebrar a guinada, inverter de novo, repetindo até o navio não responder mais ao leme.

3.3. Zigue-zague muito pequeno — VSZZ (§11.6)

O VSZZ é um zigue-zague de 0°/5° (ψ é 0° e δ é 5°). Ele indica se o navio consegue manter o rumo num canal de acesso usando até 5° de leme — sinal de boa manobrabilidade em espaço confinado.

  1. estabilizar o navio com timoneiro experiente ou piloto automático de grande ganho proporcional e ganho derivativo zero;
  2. carregar menos de 5° de leme para boreste e esperar surgir uma razão de guinada — só então a manobra começa (ao contrário das demais, que iniciam com razão de guinada zero);
  3. quebrar a pequena guinada com 5° para o outro bordo; quando o aproamento passar pelo zero, inverter o leme;
  4. repetir no mínimo 20 vezes (em vez das três execuções dos zigue-zagues tradicionais).

O dado de interesse é o ângulo de overshoot de aproamento a longo prazo. O critério depende da razão entre velocidade e comprimento do navio: quanto maior essa razão, maiores os overshoots. Se o navio conseguir manter a trajetória, é considerado de boa manobrabilidade em canal de acesso.

4. Giro a partir do repouso e controle de velocidade

4.1. Giro acelerando a partir do zero (§11.7)

Fornece as características de giro quando o navio acelera desde o repouso, com potência máxima e todo o leme. É a situação de quem sai de um fundeadouro e precisa girar em espaço confinado.

  1. com o navio parado e máquina parada, iniciar a aquisição de dados;
  2. ordenar o ângulo de leme prescrito e, ao mesmo tempo, máquina toda força adiante, mantendo o leme fixo;
  3. encerrar quando a mudança de aproamento estiver entre 540° e 720°.

Essas variações grandes de aproamento são necessárias para corrigir vieses de corrente e vento.

4.2. Aceleração/desaceleração (§11.8)

Mede a velocidade final, a distância percorrida e o desvio lateral ao longo do tempo, para várias combinações de comandos de máquina. É o ensaio que caracteriza como o navio responde aos comandos de aceleração e de desaceleração.

Fig. 327
Fig. 327 Manobra de aceleração/desaceleração (trajetória pretendida × real, desvio lateral e alcance)
  1. estabilizar o navio e iniciar a aquisição de dados um comprimento antes;
  2. executar o comando de máquina prescrito;
  3. finalizar quando o navio atingir a velocidade final constante da agenda de teste.

Dependendo do propósito, a manobra também pode ser feita usando o controle do leme.

4.3. RPM mínima (§11.10)

Mede a capacidade de seguir navegando em velocidade baixa constante com a rotação por minuto mais baixa possível. A velocidade de partida costuma ser a máxima permitida no canal de acesso.

  1. estabilizar o navio em rumo e velocidade pré-selecionados e ajustar o aproamento para manter rumo constante;
  2. reduzir suavemente a rotação do eixo até a condição mínima;
  3. confirmar a rotação mínima por cerca de um minuto.

5. Paradas: inércia, parada livre e seguimento a ré

5.1. Inércia de parada — parada livre e parada IMO (§11.2)

Determina a distância e o tempo desde a ordem de parar a máquina até o navio atingir a velocidade mínima na qual a máquina pode ser revertida para ré. A velocidade inicial precisa ser superior a esse limite de reversão.

  1. estabilizar o navio em rumo reto e velocidade pré-selecionada por cerca de um minuto;
  2. deixar o navio percorrer cerca de um comprimento e ordenar a parada da máquina;
  3. manter até atingir a velocidade mínima definida; repetir carregando o leme para BE e depois para BB.
Ângulo de lemeNome da manobraO que significa
(leme a meio)Parada livreParada com liberdade para guinar — o navio sofre os efeitos da máquina na guinada sem correção de leme
Todo o leme (BE ou BB)Parada IMODesempenho que a Res. A.601(1987) recomenda exibir no caderno de manobras

Quando o leme fica a , a manobra é a parada livre — é a parada com liberdade para guinar. Com todo o leme (BE ou BB), é a parada IMO. A Resolução A.601(1987) da IMO recomenda exibir no caderno de manobras o desempenho do teste com o ângulo máximo de leme.

5.2. Parada com seguimento a ré (§11.11)

Exprime as qualidades de parada de emergência de modo semelhante ao teste de parada avante, mas partindo de um navio que já tem seguimento a ré significativo — que deve ser realístico, condizente com as condições em que o navio vai operar. A ordem dada é máquina adiante toda força.

  1. estabilizar o navio em rumo reto e velocidade a ré pré-selecionada;
  2. iniciar a aquisição de dados um comprimento antes da solicitação de máquina;
  3. ordenar máquina toda força adiante, leme a meio, mantendo o regime até o navio parar.

As informações obtidas são o tempo e a distância de parada desde o comando de toda força adiante até o navio parar.

6. Equipamentos auxiliares — impelidores (§11.9)

Esta manobra determina as características de guinada e giro usando o impelidor (bowthruster) de proa, com o navio em repouso ou em velocidade predeterminada.

A manobra é obrigatória de acordo com a Convenção SOLAS II-1, Regulamento 28.

Com o navio em repouso e máquina parada, inicia-se a aquisição de dados e ordena-se o impelidor a toda força para um bordo; o teste termina quando ele já operou 10 minutos ou mais, ou quando o aproamento variar 30°. Repete-se para o bordo oposto. A versão com velocidade constante segue a mesma lógica, partindo do navio em regime permanente. O desempenho deveria ser igual para ambos os bordos.

Cuidado na condição em lastro: pode haver redução de empuxo se o impelidor não estiver bem mergulhado. Pelo critério do ITTC, o impelidor está mergulhado quando seu eixo fica a uma profundidade de pelo menos 0,8 do diâmetro do propulsor.

O ITTC alerta ainda que, para navios de grande área vélica e pouco calado em lastro, as manobras com impelidor são muito influenciadas por mar e vento, e só devem ser feitas em áreas protegidas ou, em mar aberto, com mar excepcionalmente calmo.

7. Manobras de resgate de homem ao mar

7.1. A manobra de resgate de homem ao mar (§11.12)

Simula o resgate de quem caiu no mar; verificam-se o ângulo de leme e a trajetória ao longo do teste.

Ponto decisivo: a variável de controle é o rumo do navio (a direção real da trajetória, lida pelo ECDIS), e não o aproamento. As manobras clássicas antigas, ao contrário, controlavam pelo aproamento.

A sequência moderna carrega todo o leme para o bordo da queda; quando o navio gira entre 20° e 60° em relação à trajetória inicial, inverte para o bordo oposto até o rumo chegar a 120°–150°; depois reduz o leme gradualmente até inverter 180° o rumo inicial.

Fig. 328
Fig. 328 Manobra de resgate de homem ao mar — exemplo e principais dados a obter

A faixa correta de inversão de rumo é própria de cada navio e pode ser obtida na prática acompanhando a trajetória no ECDIS numa manobra teste inicial. No exemplo da figura, a distância C pode resultar elevada — sinal de que o teste talvez precise ser refeito para definir o rumo correto da primeira inversão do leme.

A diretriz de provas de mar do ITTC 2014 recomenda conduzir a manobra para ambos os bordos.

Fig. 329
Fig. 329 Manobra de homem ao mar conduzida para ambos os bordos (ITTC 2014)

Não confundir essa manobra com as clássicas curvas de homem ao mar, em que a variável de controle era o aproamento. Há três curvas táticas famosas:

  • Curva de Williamson (comandante John Williamson, 1943): todo o leme imediatamente para o bordo da queda; após 60° de desvio do aproamento, todo o leme para o bordo oposto; a 20° antes do aproamento inverso, leme a meio e controle suave até o aproamento oposto. É parente da curva de Boutakov, usada pelos russos na guerra com o Japão (1904–1905) para apontar rapidamente um canhão fixo no sentido oposto.
  • Curva de Scharnow: não carregar o leme de imediato — aguardar o navio percorrer dois a três comprimentos; manter o leme até um desvio de 240° do aproamento original; então todo o leme para o bordo oposto; a 20° antes do inverso, leme a meio.
  • Curva de Anderson: todo o leme imediatamente para o bordo da queda; manter até um desvio de 250°; então leme a meio, mantendo o aproamento e reduzindo a máquina.
Curva clássicaCarregar o leme inicialDesvio do aproamento até inverter o lemeFinalização
WilliamsonTodo o leme imediatamente, bordo da queda60°Leme a meio a 20° antes do aproamento inverso
ScharnowSó após percorrer 2 a 3 comprimentos240°Leme a meio a 20° antes do aproamento inverso
AndersonTodo o leme imediatamente, bordo da queda250°Leme a meio, mantendo o aproamento e reduzindo a máquina
Fig. 330
Fig. 330 As três curvas de homem ao mar: Williamson, Scharnow e Anderson

7.2. A manobra de giro elíptica (§11.13)

É outra forma de resgate de homem ao mar, também controlada pelo rumo lido no ECDIS.

  1. estabelecer velocidade constante e rumo constante, iniciando a aquisição de dados um comprimento antes;
  2. carregar todo o leme para o bordo da queda;
  3. quando a curva diferir 180° da trajetória inicial, carregar todo o leme para o bordo oposto e mantê-lo até o navio voltar à trajetória inicial.
Fig. 331
Fig. 331 Exemplo da manobra de giro elíptica

8. Parar e girar sem perder o controle em espaço restrito

8.1. Manobra cíclica do leme — rudder cycling (§11.14)

Idealizada por David Clarke em 1970, durante as provas de mar do navio Esso Bernícia, a manobra cíclica do leme permite parar um grande petroleiro ou graneleiro sem perder o controle. Ela consiste de quatro guinadas parciais, com a máquina reduzida gradualmente e sincronizada com as oscilações do aproamento.

Fig. 332
Fig. 332 Efetividade do rudder cycling — provas de mar do Esso Bernícia (giro × rudder cycling × parada a ré)

Havendo espaço lateral suficiente, o rudder cycling leva vantagem sobre a parada com máquinas atrás: a trajetória é mais previsível e o alcance até parar é menor.

A execução combina comandos de leme e de máquina em sequência:

  1. estabilizar o navio na velocidade máxima de uma via de acesso e iniciar a aquisição;
  2. carregar o leme todo para BB; ao atingir o aproamento inicial menos 20°, ordenar máquina meia força adiante;
  3. ao atingir o aproamento inicial menos 40°, carregar o leme todo para BE; quando o navio quebrar a guinada, ordenar máquinas devagar adiante;
  4. ao voltar ao aproamento inicial, carregar o leme todo para BB; ao quebrar a guinada de novo, ordenar máquinas muito devagar adiante;
  5. ao voltar ao aproamento inicial, carregar o leme todo para BE e ordenar máquina toda força atrás até parar.
Fig. 333
Fig. 333 Exemplo da execução do rudder cycling — quatro guinadas parciais

Se o propulsor for de passo esquerdo — em geral um navio com único propulsor de passo controlável —, executa-se a mesma sequência começando o leme para BE e invertendo todos os bordos de comando.

8.2. A manobra de back and filling (§11.15)

Muito usada por pequenas embarcações de passageiros que, ao desatracar, precisam inverter o aproamento partindo do repouso. São barcos de menos de 100 m, pouca inércia e grande razão potência/deslocamento.

Fig. 334
Fig. 334 Exemplo da manobra de back and filling (giro a boreste)

Para um giro a boreste: leme todo a BE com máquina meia força adiante; quando o navio adquire boa razão de guinada (perto de 90°) e algum seguimento avante, ordena-se meia ou toda força a ré; o leme passa a meio e, quando o navio começa a cair a ré, vai todo a BB; após cair a ré cerca de 1 a 1,5 comprimento, ordena-se meia força adiante e leme todo a BE; a manobra termina quando o aproamento é invertido. Para um giro a bombordo, invertem-se os ângulos de leme em todos os passos.

8.3. A manobra em V (§11.16)

Realizada por embarcações de pouca inércia e muita potência de máquinas, para girar em espaço restrito.

Fig. 335
Fig. 335 Exemplo da manobra em "V"
  1. estabelecer velocidade baixa e constante, com máquina devagar adiante, em rumo constante;
  2. ordenar o leme todo a BE, por exemplo;
  3. quando o aproamento variar cerca de 90°, ordenar máquina toda força a ré e leme todo a BB;
  4. quando a variação chegar a 150°–160°, ordenar máquina adiante (meia/toda força) e leme todo a BE; a manobra termina quando a embarcação inverte o aproamento.