🧭 MMPH · Cap.3 — Asa-Casco e Derivadas Hidrodinâmicas

Mapa Mental PH (aula enxutíssima) · Santos, A Manobrabilidade do Navio no Séc. XXI · I.08-MN · Área I do edital · só o que cai, em esquemas · ✎ marque lacunas e oclusões para revisão ativa
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A grande analogia do capítulo

Leitmotiv"O casco do navio é uma asa em movimento submetido a um ângulo de ataque (ângulo de deriva), e o leme é o seu flape." (Santos, p.~34)
  • Cap.2 montou o lado inercial (massas, momentos); Cap.3 monta as forças hidrodinâmicas sobre o casco em manobra.
  • Ferramenta matemática = expansão em série de Taylor em torno do equilíbrio (navio em rumo) → nascem as derivadas hidrodinâmicas (taxas de variação de cada força/momento com cada grau de liberdade).
O leme não gira o navio — apenas impõe o β inicial que faz a hidrodinâmica do casco girá-lo.

Marcos históricos

AnoPesquisadorContribuição
1875William FroudeTeoria do corpo duplo (modelo de baixa velocidade)
1911George H. Bryan1º a usar derivadas (aeronáuticas); equações em 6 GdL
1922Max MunkMomento puro em corpo alongado em fluido ideal
1937Weinblum1ª transposição das derivadas para a manobra naval
1952Jones (NACA)Fórmula de Jones: CL/CD de asas de baixa razão de aspecto
1964Abkowitz (MIT)Série de Taylor em 6 GdL → marco do tratamento não linear
1970NorrbinTeoria do quadrado absoluto (v|v|, r|r|)
~1980ObokataCasco como asa de baixa razão de aspecto (teoria de Jones aplicada)

A transferência de conhecimento inverteu: até os anos 1930 a arquitetura naval alimentava a aviação (Taylor, Hunsaker fundam o NACA); depois a física aeronáutica (Prandtl, Munk, Jones) passou a alimentar a hidrodinâmica do navio.

O navio é uma asa de área muito grande e razão de aspecto muito baixa (envergadura=calado, corda=comprimento).
Asa de aviãoAsa-casco
Razão de aspecto6 a 12 (alta)0,03 a 0,06 (calado/comprimento)
CL por áreaaltobaixo — mas área enorme → força lateral grande
Arrasto induzidomenormuito mais relevante (vira "arrasto cruzado")

Ângulo de ataque β

β (deriva)Ângulo entre o eixo longitudinal e o vetor velocidade resultante. Gera a sustentação lateral.
Sem β, não há sustentação lateral — só arrasto longitudinal puro.
Fig. 15
Fig. 15 — , são a força de sustentação e a força de arrasto conjunta, como apresentado na figura 15.
  • Cada seção transversal x tem seu próprio β(x), L(x) e D(x); a força total é a integral ao longo do comprimento.
  • β(x) local difere do global por causa da guinada r (ângulo de ataque local ∝ r·d/u0).
Fig. 16
Fig. 16 — cionada com o calado, e a corda com o comprimento do navio, como apresentado na figura 16.
Trim, calado variável e apêndices alteram L(x) e D(x) → alteram as derivadas. Skeg à popa desloca o centro de pressão para ré e aumenta a estabilidade direcional.

Três componentes do arrasto

ComponenteOrigem
Resistência friccionalAtrito na camada-limite; domina em baixa velocidade
Amortecimento potencial (arrasto de forma)Diferencial de pressão frente↔ré; cresce com a velocidade
Descolamento de vórticesCamada-limite descola em quinas/apêndices/popa abrupta
Corpo duploFroude (1875): para Fr < 0,25 despreza-se a irradiação de ondas; a superfície livre vira plano rígido espelhado → razão de aspecto efetiva = 2·T/L.
Paradoxo de d'Alembert: a teoria potencial prevê arrasto zero em corpo submerso; o arrasto real vem de viscosidade e descolamento.
Fig. 19
Fig. 19 — Casco do navio espelhado empregado na teoria do corpo duplo 2D

Sustentação — teoria da circulação

A sustentação da asa-casco é no plano horizontal, NÃO no vertical — é a força lateral (β≠0) que faz o navio guinar, não a que impede afundar (essa é o empuxo).

Kutta-Joukowski L = ρ · Γ · v circulação Γ (vórtices livres) gera sustentação L

Fig. 18
Fig. 18 — Distribuição de velocidade e pressão ao longo de um corpo 2D

Distribuição elíptica de Prandtl + lei de Biot-Savart; teoria consolidada por Lanchester (1908).

Fig. 21
Fig. 21 — que gerem perda de sustentação, ou sustentação para baixo, como apresentado na figura 21. A intensidade desses vórtices
Fig. 20
Fig. 20 — Na figura 20, tem-se uma ilustração para apresentar a similaridade existente no desevolvimento da forç

Casco × leme — quem gira o navio

Razão de áreaO leme tem só ~1% da área do casco (~100:1). Mesmo com CL maior por área, a força lateral do casco supera muito a do leme.
"As forças de sustentação do casco criam forças e momentos muito maiores do que a força de controle de lemes." O leme é controle, não motor da guinada.

Base experimental: série NACA de aerofólios (anos 1930) → Fórmula de Jones (22/09/1952, Reynolds entre 0,4×10⁶ e 3,0×10⁶).

DefiniçãoEm fluido ideal, corpo alongado com ângulo de ataque sofre um momento puro que tende a aumentar esse ângulo. Observado por Max Munk (1922).
  • Composto de forças iguais e opostasnão há força resultante, só momento.
  • d'Alembert (força nula) é compatível com momento não nulo — Munk identificou essa lacuna.
  • Qualquer forma 3D não-esférica em meio invíscido gera momento; a esfera é a única exceção.
Fig. 23
Fig. 23 — A geração do momento de Munk, em um escoamento ideal, é apresentada na figura 23.
Sempre desestabilizador — no plano horizontal age para aumentar β; é a razão física de cascos sem leme/skeg serem naturalmente instáveis em rumo.
AplicaçãoAplicado no centro do navio; soma-se ao momento da sustentação (aplicado no centro de pressão). Juntos governam o início da guinada.

Fluido real: Horace Lamb identificou a dependência angular entre Munk e a vorticidade viscosa; Odd Faltilsen (MIT, anos 1980) aproximou essas funções.

Fig. 24
Fig. 24 — Na figura 24 tem-se a representação gráfica da dependência angular entre o momento dado pela resistênc
Fig. 25
Fig. 25 — Na figura 25 tem-se a representação gráfica da distribuição de forças laterais em um casco e o momento
Conexão Cap.4: quando Nv (estabilizadora) supera Munk → casco estável; quando não supera → exige leme ativo permanente.

Arrasto cruzado (cross flow drag)

Quando dominaNavio parado / velocidade muito baixa, OU β grande. O arrasto passa a protagonizar as forças.
  • Princípio: o arrasto é função apenas da velocidade lateral do fluido.
  • Força lateral por seção = dois vórtices de separação da camada-limite (coeficiente de forma ~1).
  • Válido enquanto v não esteja muito próxima de u — ou v > u, ou β > 25°.
Fig. 26
Fig. 26 — rasto é somente uma função da velocidade lateral do fluido, como apresentado na figura 26, e que os coeficientes de arra
Arrasto induzido (perda de sustentação pelos vórtices de ponta, na aeronáutica) = fisicamente o arrasto cruzado no casco.

O leme como flape

O que fazModifica a curvatura efetiva da asa-casco, gera sustentação adicional e controla o momento de yaw. Força normal decomposta em L, D e Yδ.
Xδ é SEMPRE negativo: D·cos β' > L·sin β' → a componente longitudinal do leme é sempre resistência. Dar leme custa velocidade.
"O ângulo de ataque do leme diminui assim que o navio começa a guinar" → a força do leme é de controle, não a que gera a guinada.
  • Influência de endireitamento E — tende a aumentar o ângulo de ataque do leme.
  • Leme na descarga do propulsor: velocidade maior que a do navio → base do kick-ahead (energiza o leme sem deslocar o navio).
  • Interação leme-casco desloca o centro de pressão para vante.
  • Fig. 27
    Fig. 27 — ção na distribuição de pressões ao longo de cada seção transversal do navio. Na figura 27 tem-se uma representação ilust
Fig. 28
Fig. 28 — A força normal, apresentada na figura 28 e que define a força lateral de controle do leme, Y/S, pode ser obtida em funçã
Fig. 29
Fig. 29 — De acordo com a figura 29, a componente Y/5 da força total do leme, X/S de arrasto total do leme em relação ao navi
Fig. 30
Fig. 30 — É importante verificar que o ângulo de ataque do leme, a, apresentado na figura 30, é dado por
"É um erro comum pensar que o momento gerado pela força do leme guina um navio." (Santos, 3.3) — o efeito do leme é indireto.

Sequência causal da guinada

Leme impõe β inicial surge momento de Munk (aumenta β) sustentação do casco cresce e amplifica razão de guinada r aumenta leme perde efetividade inércia adicional + amortecimento viscoso crescem giro constante

O navio não acelera angularmente para sempre: os amortecimentos crescem com r até equilibrarem os momentos pró-giro (Munk + sustentação + leme) → razão de guinada constante = movimento circular uniforme.

Três arrastos que estabilizam o giro

  • Arrasto pela teoria da circulação — vórtices livres (Kutta-Joukowski); principal amortecimento de yaw em mar aberto.
  • Arrasto cruzado nas pontas — vórtices de proa/popa (equivalem aos vórtices de ponta de asa); relevante em β grande.
  • Arrasto cruzado nas seções transversais — separação de pressões; base do modelo de cross flow.
Fig. 31
Fig. 31 — A figura 31 apresenta uma sequência esquemática do desenvolvimento dos momentos desde o acionamento d
Fig. 32
Fig. 32 — Na figura 32 tem-se a representação das vorticidades geradas em navio guinando para boreste, que compõ
O leme perde efetividade porque seu ângulo de ataque diminui à medida que o ângulo de deriva do casco aumenta — por isso o sistema converge para o raio de giro permanente.
O problemaSem excitação externa, as forças hidrodinâmicas dependem de 6 variáveis do plano horizontal — velocidades (u, v, r) e acelerações (u̇, v̇, ṙ).

Xhid, Yhid, Nhid = f(u, v, r, u̇, v̇, ṙ)

A série de Taylor transforma essa função multivariável na soma de termos com coeficientes — as derivadas hidrodinâmicas — mensuráveis independentemente (tanque, CFD, prova de mar).

Duas categorias

CategoriaNasce deExemplos
Amortecimentovelocidade do cascoXu, Yv, Yr, Nv, Nr
Massa adicionalaceleração do cascoX, Y, Y, N, N
NotaçãoPadronizada pela SNAME (1952) — usada até hoje. Ex.: Xu = derivada de X em relação a u.
Truncamento na 3ª ordem — válido para Fr < 0,3, faixa que cobre a maioria das manobras. Condição: função e derivadas contínuas e não tendem ao infinito.

Três hipóteses simplificadoras (X)

  • 2ª lei de Newton → força linear na aceleração; anula termos de aceleração de 2ª/3ª ordem.
  • Sem acoplamento velocidade-aceleração → elimina os termos cruzados.
  • Simetria boreste-bombordo (plano xz) → anula todos os termos ímpares em v e r.
Fig. 33
Fig. 33 — Forças e momento no corpo e na sua "imagem espelhada'"
X é função PAR de v e de r (X(β)=X(−β)); Y e N são funções ÍMPAR (Y(v)=−Y(−v)). Dependência quadrática escrita como v·|v| para manter paridade.
DerivadaSignificadoSinal
XMassa adicional longitudinal (único termo de aceleração que sobra em X)Negativo
Xu, XuuResistência em linha reta (curva R×V)Xu < 0
Xvv, XrrArrasto adicional por β ou r → perda de velocidade na curvaNegativo
YvSustentação lateral — cresce com βSempre negativa
Y, YMassa/inércia adicional lateralNegativo/varia
NvMomento de yaw por v — derivada de estabilidade direcionalCrítica (Cap.4)
NrAmortecimento de guinadaSempre negativa
Fig. 34
Fig. 34 — X em relação a v 2 é dada por v I v 1, resultando nas possíveis curvas 1 e 3 da figura 34, a curva 2 correspondendo ao c
Resultado N negativo para r positivo (proa e popa somam momentos negativos) é a base física do amortecimento de guinada — sem Nr<0, o navio girando aceleraria indefinidamente.
Fig. 35
Fig. 35 — ocidade u 0, sendo forçado a girar em torno do centro O, como pode ser visto na figura 35.

Termos cruzados sway-yaw (Yvr, Yv|r|) não se anulam — a maioria dos navios não é simétrica no plano yz (proa ≠ popa).

Fig. 37
Fig. 37 — velocidade avante+ u e com velocidade lateral + v, para BE, como apresentado na figura 37, experimentaria uma força hidr
Fig. 38
Fig. 38 — Na figura 38 há um exemplo da dependência da função Y hi
Fig. 39
Fig. 39 — Yuuuu 3 e \uu 2 são zeradas devido à simetria no plano xz, como apresentado na figura 39.
As derivadas não são meros coeficientes — cada uma corresponde a um fenômeno hidrodinâmico identificável.
DerivadaTipoSignificado físico
X, Y, NMassa/inércia adicionalÁgua arrastada → amplia a inércia efetiva (massa/momento virtual); não é arrasto
YvAmortecimentoSustentação lateral; principal mecanismo de força em manobra
Y & NAcoplamentoPar de inércia adicional cruzada sway↔yaw
Nr < 0AmortecimentoAmortecimento de guinada — equilíbrio do giro permanente
Skeg, calado de ré, trim por popa e limpeza do casco aumentam |Yv| e |Nr| → melhoram estabilidade direcional. Casco sujo muda as derivadas — fato empírico conhecido pelos práticos.

Componentes em asa de baixa razão de aspecto (3.6)

Arrasto D = ½·ρ·V²·S·CD Sustentação L = ½·ρ·V²·S·CL

Fig. 41
Fig. 41 — O ângulo de deriva, �, como observado na figura 41, pode ser definido por
  • CD em cada seção = 3 partes: linha reta (β=0) + induzido quadrático em β + correção viscosa linear em V.
  • CL é linear em sin(β) — sustentação cresce linearmente com β para pequenos ângulos.
  • xcp (centro de pressões) define o momento em yaw: estabilizador vs. desestabilizador.

Forças resultantes totais (3.7)

Cada derivada é uma integral ao longo do comprimento das contribuições de arrasto + sustentação de cada seção. Decomposição YLD = YL + YD mantém rastreável a origem física.

DESTAQUE DO EDITAL (Anexo 2-B, item I, ref.8 · Anexo 2-A I.8.5.4). Hidrodinâmica das manobras de porto, com rebocadores, atracação e desatracação — onde a velocidade avante é pequena ou nula.
Fig. 42
Fig. 42 — Na figura 42, é apresentada uma visão geral dos parâmetros envolvidos na função que define a força par

Quando o cross flow domina

  • Velocidade lateral próxima da longitudinal (v ≈ u), OU
  • Ângulo de deriva β > 25°, OU velocidade muito baixa (u → 0).
As derivadas lineares (Yv·v, Nv·v) da série de Taylor NÃO valem mais — substituídas pelos termos de cross flow. Com u→0, a circulação Γ some e domina o arrasto viscoso cruzado (∝ v²).

As três forças no cross flow

GrandezaComposição
YCF (lateral)Integral de D(x)=CD(x)·T(x); velocidade efetiva por seção = v + x·r
NCF (yaw)Momentos friccionais (amortecimento) + momento de Munk (potencial, desestabilizador)
XCF (longitudinal)Principalmente friccional; para Fr < 0,1 despreza-se resistência de ondas (ITTC-57 + fator de forma k)
Quadrado absoluto (Norrbin, 1970): v² → v·|v| e r² → r·|r|, para preservar a paridade ímpar em potência quadrática.
Justificativa dos rebocadores: em baixa velocidade o leme perde efetividade e o momento de Munk amplifica → só rebocador/impelidor transversal (bow thruster) controla o navio.
Equação de movimento COMPLETA = inércia (Cap.2) + forças hidrodinâmicas das derivadas (Cap.3). 1ª vez no livro em que as duas se combinam — base dos Caps. 4 a 7.
  • Massa adicional (X, Y, Y, N, N) soma-se às massas/inércias reais → massas virtuais.
  • Navio parado / baixa velocidade: derivadas lineares substituídas pelos termos de cross flow (simulador de porto ≠ simulador de mar aberto).
  • Adimensionalização (notação prime, com ρ, L, U) → compara navios de tamanhos diferentes; padrão SNAME/IMO/ITTC.

Princípio de D'Alembert F − dp/dt = 0 equações lineares de movimento

A linearização vale só para pequenas perturbações; é inválida para β > ~15–20° ou baixa velocidade → obrigatório o modelo não-linear (cross flow).

Emprego: manobras definitivas (3.10)

"As derivadas hidrodinâmicas não são meros coeficientes... apresentam o porquê do comportamento do navio." (Santos, 3.10)
ManobraCap.Derivadas dominantes
Curva espiral4Nv, Yv, Nr → estabilidade direcional
Zigue-zague5Índices K e T de Nomoto → overshoot
Curva de giro6Yv, Nv, Yr, Nr + leme → diâmetro tático, ponto pivô
Parada / à ré7Xu, X, Xvv → head-reach
Cada índice da Pilot Card (Res. IMO A.601(15)) é consequência de um conjunto de derivadas. Alterar carga, trim, calado, apêndices ou profundidade muda as derivadas → o prático precisa antecipar o desvio do comportamento previsto.