🧭 MMPH · Cap.4 — Estabilidade de Movimento

Mapa Mental PH (aula enxutíssima) · Santos, A Manobrabilidade do Navio no Séc. XXI · I.08-MN · Área I do edital · só o que cai, em esquemas · ✎ marque lacunas e oclusões para revisão ativa
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DefiniçãoEstabilidade = capacidade de retornar ao equilíbrio assim que cessa a ação momentânea de uma força externa. No navio: perturbado por força/momento, tende a voltar ao estado anterior depois que a perturbação cessa.
Rumo ≠ aproamento: rumo = caminho efetivamente percorrido; aproamento = direção para onde a proa aponta. Com deriva β ≠ 0 são vetores diferentes — a estabilidade de movimento analisa o rumo.

Controles fixos × móveis

CategoriaComo mantém a trajetória
Controles fixossem intervenção do timoneiro, leme em zero → é a estabilidade em linha reta
Controles móveissó mantém com leme/atuador ativo → estabilidades direcionais e posicional
"Navio estável" sem qualificar = estabilidade em linha reta com controles fixos (meta usual de projeto).

Lyapunov e variáveis de estado

Lyapunov(1857–1918) método direto: julga a estabilidade pelos atributos de estado, sem resolver as equações diferenciais de movimento.
Variáveis de estadoMenor conjunto que descreve o sistema; no plano horizontal = u, v, r (surge, sway, yaw).
OrigemClassificação de Arentzen e Mandei (1961), no estudo de submarinos — vale para todo navio de superfície.
TipoControleAtributo mantidoTrajetória final
Linha retafixo (leme zero)linha retareta, novo rumo (sentido pode mudar)
Direcional — índices complexosleme ativoreta + sentidoreta, sentido original, transitório oscilatório
Direcional — índices reaisazimutalreta + sentidoreta, sentido original, transitório monotônico
Posicional≥ 3 atuadores (DP)reta + sentido + posiçãoidêntica à inicial (referencial inercial)
Fig. 43
Fig. 43 — Estabilidade vs instabilidade em linha reta com leme fixo — trajetorias
Em linha reta ≡ dinâmica ≡ direcional com controles fixos — três nomes, uma definição. Estável → segue em rumo novo; instável → gira em raio constante com leme em zero.
Posicional exige atuadores ≥ graus de liberdade: no plano horizontal são 3 (surge, sway, yaw) → mínimo de 3 atuadores. Navio de leme único nunca atinge estabilidade posicional, por mais automação que tenha. DP típico = 2 azimutais a ré + 1 bow-thruster a vante.

Hierarquia ascendente linha reta direcional complexos direcional reais posicional

Fig. 47
Fig. 47 — Instabilidade direcional com indices reais
Fig. 44 e 45
Fig. 44 e 45 — Estabilidade direcional com indices complexos: estavel (Fig.44) vs instavel (Fig.45) — painel duplo no PNG
Fig. 46
Fig. 46 — Estabilidade direcional com indices reais (com timoneiro/piloto)

Com controles fixos, a única estabilidade matematicamente possível num navio autopropelido é a de linha reta — o arrasto da empenagem (popa) contrabalança o momento de Munk.

Fig. 48
Fig. 48 — Estabilidade posicional — trajetoria igual a inicial
Fig. 49
Fig. 49 — Instabilidade posicional

Método

  • Pequena perturbação: se decai → estável; se cresce → instável; se volta ao equilíbrio inicial → estabilidade assintótica.
  • Ferramenta: expansão em série de Taylor em torno do equilíbrio, só termos lineares → derivadas hidrodinâmicas avaliadas no ponto de equilíbrio.
  • Amortecimento natural = arrasto da popa (empenagem) — fonte física que torna o navio localmente estável.
Equilíbrio inicialMovimento retilíneo uniforme: v0 = 0, r0 = 0, u0 ≠ 0.
Exceção — propulsor ímpar (ou vários girando no mesmo sentido): sempre existe pequeno ângulo de deriva natural → v0 ≠ 0. Desloca a curva espiral lateralmente no gráfico r × δ.
Simetria xzZera as derivadas cruzadas → sistema reduzido a termos em v, r, v̇, ṙ (base das equações de 4.5).
Notação SNAMEPadronizada em 1952: Xu, Yv, Yr, Nv, Nr… — convenção internacional que permite comparar navios/modelos de origens diferentes.
HipóteseCentro de gravidade no plano de simetria (yG = 0) → sistema acopla apenas sway (v) e yaw (r).
  • Linearizar em torno de u0, v = 0, r = 0 descarta termos não lineares (xG·r², u·r, v·r).
  • Surge desacoplado — resolvido em separado. Sway e yaw ficam acoplados via Yr·r e Nv·v.
  • Para navios usuais Y′ ≈ 0 e N′ ≈ 0 → equações desacopladas nos termos de aceleração; acoplamento persiste só na velocidade.
Princípio de D'Alembert → coloca o sistema na forma homogênea (lado direito = 0), pré-requisito da análise por autovalores.
Condição de ensaioSó reações à pequena perturbação em mar profundo e calmo; leme mantido em zero (δR = 0) durante toda a análise — é o que garante razão de guinada nula em rumo.
Limite de validade: a forma linear vale só para β pequeno (tipicamente β > 25° já invalida) e velocidade não muito baixa. Manobra de grande amplitude (giro, atracação) exige o modelo cross flow do Cap. 3.
SoluçãoForma exponencial v′(t) = v′0·eσt, onde σ são os índices de estabilidade.
Sinais de σResultado
Ambos negativosv′, r′ decaem → assume novo aproamento mas mantém reta → estável
Pelo menos um positivov′/r′ crescem → curva de giro constante com leme zero → instável

Matricial B·Ẋ + C·X = 0 Cauchy Ẋ = A·X, com A = −B⁻¹·C det(σI − A) = 0 A·σ² + B·σ + C = 0

Cuidado de notação: as matrizes B, C das equações não são os escalares A, B, C do polinômio. No polinômio, A é escalar.
Surge (4.6.1): σ = Xu / (m − X). Como Xu < 0 sempre (resistência ao avanço), o surge é sempre estável — desde que haja velocidade avante u0 > 0 suficiente.

Condição frequentemente esquecida: estabilidade completa exige C > 0 nos graus sway-yaw E u0 > 0 (sem velocidade avante, β = −v/u0 vai a infinito).

Critério formalambos σ negativos ⇔ C/A > 0 E B/A > 0 (item I.8.6.6 do edital).
  • A > 0 sempre (massas + massas adicionais, Y′ e N′ negativas).
  • B > 0 sempre (inércias virtuais × amortecimentos Y′v, N′r negativos).
Redução prática: como A e B são sempre positivos em navio convencional, tudo se reduz a C > 0C é o discriminante da estabilidade dinâmica.
Sinal de CComportamento com leme zero
C > 0estável — mantém rumo
C < 0instável — gira em raio constante
C = 0fronteira de estabilidade (evitada no projeto)
Condição equivalenteN′v·Y′r < N′r·Y′v. Fisicamente: o momento estabilizador (vorticidades da popa / empenagem) supera o momento desestabilizador (momento de Munk).
Instabilidade ≠ falha de projeto: muitos petroleiros/graneleiros grandes são intencionalmente instáveis em linha reta para garantir manobrabilidade. Casco esbelto (L/B alto) tende a estável; casco achatado (B/T alto) tende a instável mas manobrável.

A — massas e inércias adicionais

A ≈ (Δ′ − Y′)·(I′z − N′)Y′ (massa adicional em sway) e N′ (inércia adicional em yaw) são sempre negativas (a massa adicional se opõe à aceleração) → A sempre positivo. Termos não dependem da viscosidade.

Massa adicional: observada por Dubuat (1776); expressão exata da esfera por Green (1833) e Stokes (1843).

Fig. 52
Fig. 52 — Fatores de forma f das derivadas de massa adicional em funcao de C_b e L/B (painel duplo no PNG)
Fig. 54
Fig. 54 — Coeficiente de massa adicional em funcao de C_b para diferentes L/B
Fig. 50
Fig. 50 — Casco navio em linha reta com angulo de ataque zero

B — derivadas de amortecimento

  • Yv sempre negativa (força lateral oposta a v; proa e popa somam).
  • Fig. 51
    Fig. 51 — Derivada Y_v sempre negativa — forca Y vs velocidade lateral v
  • Nr sempre negativo (momento oposto à rotação; proa e popa somam momentos negativos).
  • Yr ambígua: proa e popa competem — proa domina → negativa; popa domina → positiva.
  • Fig. 57
    Fig. 57 — Momento N — soma de proa e popa, sempre negativo para r positivo
    Fig. 58
    Fig. 58 — Forca Y vs razao de guinada r — popa vs proa dominante
Fig. 55
Fig. 55 — Derivada Y_v — diagrama asa-casco com angulo de deriva beta
Fig. 56
Fig. 56 — Diagrama pontos B (proa) e S (popa) com velocidade angular r

C — o parâmetro crítico Nv

N′v = N′v(Munk) + N′v(L)desestabilizador + estabilizador.
  • Munk (potencial): N′v(Munk) = −(k2 − k1)·Δ′. Lamb (Cambridge, 1849–1934) mostrou que k2 > k1 sempre → Munk sempre desestabilizador.
  • Sustentação (viscosa): N′v(L) = Y′v(L)·xp/L. O centro de pressão lateral xp é pequeno e negativo (≈ −0,1·L) em navio bem construído (skegs/leme a ré) → componente estabilizadora.
Fig. 60
Fig. 60 — Momento de Munk — forcas de pressao em corpo alongado (fluido ideal vs real)
Fig. 61
Fig. 61 — Coeficientes k1 e k2 de Lamb para elipsoides — base do sinal sempre negativo do Munk
Bulbo ou proa cheia desloca xp para vante (positivo) → navio mais instável em linha reta, porém mais manobrável.
Nr é predominantemente viscoso, sempre grande e negativo; o peso na integração faz cada metro de skeg de popa multiplicar o amortecimento por fator quadrático. Yv usa a fórmula de Jones (asas de baixa razão de aspecto, a < 0,2).
Fig. 59
Fig. 59 — Formula de Jones (Prandtl-Jones) para asas de baixa razao de aspecto
Fig. 62
Fig. 62 — Coeficiente de massa adicional 2D c_s de Prohaska
DerivadaProa × popaSinal
Y′vsomamsempre negativa
N′rsomamsempre negativa
Y′rcompetem± (geometria)
N′vMunk × empenagem± — parâmetro mais crítico
Estabilidade alta ⇄ manobrabilidade baixa — não existe almoço grátis.
Meta de projeto (Santos)estabilidade moderada (positiva, próxima de zero); se não der, então pouca instabilidade — nunca estabilidade nem instabilidade altas.
  • Leme-skeg: com leme zero toda a área do leme atua como skeg; com leme ativo só a parte fixa. Design padrão moderno.
Para o prático: um VLCC ou Capesize tipicamente é instável em linha reta com leme fixo — projeto deliberado, não defeito. Navio que não exige correções frequentes de leme merece atenção em manobra restrita — raio de giro grande e guinada lenta.
Generalizações são tendências, não leis — "o que é verdade para uma forma de casco pode não ser para outra" (muitos fatores interagem).
VariávelEfeito na estabilidade direcional
L/B ↑ (mais esbelto)estabilidade aumenta
B/T ↑ (mais raso)estabilidade diminui, mas leme ganha autoridade relativa
Skegs na popaaumentam a estabilidade
Bulbo de proadiminui (desloca centro de pressões p/ vante)

Detalhe: N′r é independente de B/T — varia só com L/B e área de skeg a ré.

Leme-skeg de grande área: caso raro de melhoria dual — melhora estabilidade de rumo E raio de giro ao mesmo tempo.

Trim (efeito oposto)

TrimEstabilidadeDiâmetro de giro
pela popamelhoraaumenta
pela proapioradiminui
Para o prático: navio em lastro (B/T grande) = menos estável com leme zero, mas leme mais "duro" (responde bem sob controle). Navio carregado (B/T baixo) = mais estável em rumo, leme "mole" (exige mais ângulo para iniciar a guinada).
Fig. 63
Fig. 63 — Leme com skeg fixo integrado — controles fixos vs moveis
O que éteste definitivo de estabilidade direcional: relação r × δ em regime permanente. Idealizada por Roy (França, 1931); primeiro braço giratório em 1938; publicada por Saunders (1952/1953) a partir dos relatórios de Dieudonné.

Sequência: estabilizar ~1 min δ = +15° → +10° → +5° → +1° → 0° → −1° → … → −15° repetir no sentido inverso (dois sentidos obrigatórios)

Manter o maquinário em regime permanente = propulsão constante, não velocidade constante. Os dois sentidos revelam eventual histerese.
Fig. 64
Fig. 64 — Curva espiral em navio estavel — sigmoide sem loop
ResultadoDiagnóstico
Curva monotônica (sem loop)estável (σ negativos); inclinação na origem = intensidade
Loop de histereseinstável (σ positivos); altura/largura do loop = grau de instabilidade
Fig. 65
Fig. 65 — Histerese magnetica H vs B — analogia para curva espiral
Principal fonte de erro: tempo de espera insuficiente entre deflexões classifica navio estável como instável (Strom-Tejsen: 60 s → falso loop; sem limite → revela-se estável). Índices independem da velocidade (baixa/moderada).
Fig. 68
Fig. 68 — Strom-Tejsen — falsa impressao de instabilidade com 60s entre deflexoes consecutivas

Analogia de Abkowitz (MIT, 1964)

Estabilidade em linha reta e estabilidade transversal estática seguem os mesmos princípios: ψ̇ × δRMadriçamento × φ. GM positivo ↔ estável (uma posição de equilíbrio); GM negativo ↔ instável (múltiplas, com saltos abruptos).

Navio instável guina contra o próprio leme até certo ângulo, depois salta bruscamente para o sentido oposto.

Fig. 66
Fig. 66 — Loop de histerese na curva espiral (indices 1 a 14)
Fig. 69
Fig. 69 — Analogia Abkowitz — espiral (yaw vs leme) e estabilidade transversal (adricamento vs banda)

Espiral reversa de Bech (1968)

TesteControlaMede
Dieudonné (direta)ângulo de leme δrazão de guinada r
Bech (reversa)razão de guinada r (ex.: 0,5°/s)ângulo de leme δ necessário
  • Vantagens: mais rápida, cabe em espaços confinados, pontos em qualquer ordem temporal.
  • Estável → resultados iguais a Dieudonné. Instável → mostra o loop, mas não explora o interior (não é mais "controles fixos").
Fig. 70 (cond. B)Fig. 70 (cond. B)
Fig. 70 (cond. B) — Espiral reversa de Bech — Navio A em condicao de carregamento B (T_A=4,95m / T_F=4,75m)
Bech dá a forma do loop; Dieudonné dá a resposta com controles fixos — para o grau quantitativo de instabilidade, a espiral direta continua sendo a referência.

Plotagem conforme resolução IMO 137(76) (mesma formatação da direta).

Fig. 71
Fig. 71 — Setup do piloto automatico para espiral reversa + grafico Bech
Fig. 72
Fig. 72 — Espiral reversa de Bech — altura e largura do loop como medidas de instabilidade

Manobra de pull-out (4.12)

O que éManobra mais simples: regime permanente → leme a zero → medir r ao longo do tempo (nos dois bordos). Indica só se é estável/instável, não o grau.
r finalDiagnóstico
r → 0, curvas dos dois bordos convergemestável
r residual ≠ 0, curvas não convergeminstável

Integrado ao final da curva de giro padrão — sem manobra dedicada nem custo extra.

Fig. 73
Fig. 73 — Manobra pull-out — navio estavel vs instavel (4 paineis psi-ponto vs delta e vs t)
AplicabilidadeTodo navio > 100 m de LPP + todos os gaseiros/químicos, independentemente do comprimento.

Largura máxima do loop de histerese

LPP/V (s)Largura máxima do loop
< 9 s (navio deve ser estável)
9 a 45 s3° a 12° (interpolação linear)
> 45 s12°
LPP/V = tempo característico de resposta (tempo para o navio percorrer o próprio comprimento). Menos tempo de reação → navio precisa ser mais estável; mais tempo → mais histerese tolerada.

Espiral simplificada (4.14)

  • Ponto 1: r em regime com leme máximo (da própria curva de giro).
  • Ponto 2: leme a zero; se r → 0 o navio é estável e encerra (equivale ao pull-out).
  • Ponto 3 (só se instável): leme no sentido oposto, ângulo = metade da largura do loop permitido (item 4.13).
Navio com loop largo demais é reprovado nos padrões IMO — inviável de controlar manualmente por um timoneiro mediano. Só dá classificação estável/instável; grau quantitativo exige Dieudonné completa.
Fig. 74
Fig. 74 — Criterio IMO — margens aceitaveis da largura do loop de histerese vs L_PP/V