MN Cap. 5 — Controle e Governo (Nomoto)

1. Visão geral — controle e governo do navio

O Cap. 4 do Santos resolveu o problema estático da estabilidade direcional: dado o casco com leme em zero, ele mantém rumo (C > 0) ou cai em curva permanente (C < 0)? Este Cap. 5 transita do binário estável/instável para a dinâmica de controle: quão rápido o navio responde ao leme e com que defasagem temporal. O paradigma muda do polinômio característico para os índices de Nomoto, que sintetizam as 10 derivadas hidrodinâmicas do Cap. 3 em apenas 2 parâmetros utilizáveis: o ganho de regime permanente K e a constante de tempo T.

A ferramenta experimental central deste capítulo é a curva de zigue-zague — manobra padrão IMO que mede o overshoot de aproamento e revela na prática os valores de K e T do navio. Os critérios IMO 137(76) (zigue-zague 10°/10° e 20°/20°) são alvos diretos de prova: o prático precisa conhecer os ângulos máximos de overshoot permitidos em função de L_PP/V.

Conceito-alvo de prova: o ponto pivô — posição no casco onde o ângulo de deriva local é zero. Posição variável: em regime estacionário fica próximo da proa; no transitório inicial fica próximo do centro. É o ponto em torno do qual o navio "gira" da perspectiva visual do prático.

Subitens do edital cobertos (Anexo 2-A, I.8.7):

  • 8.7.1 Definições (5.1) — qualidade, governabilidade, manobrabilidade.
  • 8.7.2 Controle do movimento (5.2) — sistema de controle em laço fechado.
  • 8.7.3 Curva de zigue-zague (5.3) — procedimento experimental Kempf.
  • 8.7.4 Medidas numéricas zigue-zague (5.4) — overshoot, tempos t_A, t_S.
  • 8.7.5 Índices de Nomoto (5.5) — T_1, T_2, T_3, K e suas interpretações.
  • 8.7.6 Sway + ponto pivô (5.7) — FOCO DE PROVA.
  • 8.7.7 Modelo K-T (5.8) — equação simplificada T·$\dot{r}$ + r = K·δ_R.
  • 8.7.8 Interpretação física (5.9) — K = ganho de regime; T = lentidão.
  • 8.7.9 Boa manobrabilidade (5.10) — critérios qualitativos.

Subseções 5.11-5.15 (determinação experimental, zigue-zague com K/T, dados experimentais, projeto, critérios IMO numéricos) cobertas como apoio didático — não-explícitas em itens 8.7.x mas relevantes para prova.

Para o prático. Os índices K e T de Nomoto resumem em 2 números o caráter de manobra do navio: K alto = navio que "puxa rápido" em regime permanente; T alto = navio "preguiçoso" no início da guinada. A combinação K/T determina o ângulo de overshoot — daí o critério IMO 10°/10° (overshoot máximo permitido em manobra de 10° leme). Saber esses números antes de embarcar é saber o que esperar da resposta ao leme.

Fonte: SANTOS, Edson Mesquita dos. A Manobrabilidade do Navio no Século 21. Conapra, 2021. Cap. 5 — Análise da Habilidade de Controle e Governo do Navio.

Edital: Anexo 2-A, área I (Manobrabilidade), item 8.7 — subitens 8.7.1 a 8.7.9. Cap. 5 inteiro prescrito no Anexo 2-B (item I, ref. 8 — Santos).

2. Definições (5.1)

A habilidade de controle e governo do navio é o conjunto de propriedades que permitem ao operador (timoneiro ou piloto automático) impor uma trajetória desejada ao navio mediante atuação do leme e, opcionalmente, de outros atuadores (propulsores azimutais, bow-thrusters). Diferencia-se da estabilidade direcional do Cap. 4: estabilidade responde "o navio mantém rumo sem leme?"; controle responde "com leme, quão bem o navio segue o comando?".

2.1 Manobrabilidade × governabilidade × estabilidade direcional

  • Manobrabilidade (manoeuvrability) — capacidade do navio de mudar de rumo ou de trajetória sob comando. Engloba curva de giro (Cap. 6), zigue-zague (este Cap.), parada (Cap. 7).
  • Governabilidade (course-keeping ability) — capacidade do navio de manter um rumo desejado, com leme ativo. Quantificada pelos índices de Nomoto.
  • Estabilidade direcional (Cap. 4) — capacidade de retornar à linha reta após perturbação, com leme em zero (controles fixos).
Tensão estrutural. Os três conceitos têm relações não-lineares: navio com alta estabilidade direcional pode ter baixa manobrabilidade (Cap. 4, trade-off). Navio com instabilidade direcional moderada pode ter alta governabilidade se o controle (leme + timoneiro) for adequado — mas requer ação constante. A escolha de projeto naval consiste em achar o ponto ótimo desse equilíbrio.

3. O controle do movimento do navio (5.2)

O movimento do navio é controlado em laço fechado (closed-loop): a saída do sistema (trajetória real) é comparada à referência (trajetória desejada); a diferença gera um erro que aciona o controlador (timoneiro ou piloto automático), que comanda o leme, que aplica força ao casco, que altera a trajetória — fechando o ciclo.

Fig. 75
Fig. 75 Fig. 75 — Diagrama do sistema de controle (manual ou automático): laço fechado entre trajetória desejada → erro → controlador → leme → navio → trajetória

3.1 Componentes do laço de controle

ElementoFunçãoSinal de entradaSinal de saída
Trajetória desejadaReferência (rumo, posição)ψ_ref
Erro de trajetóriaComparador (subtrator)ψ_ref e ψ_atualε = ψ_ref − ψ_atual
Controle manual/automáticoTimoneiro ou piloto automáticoεForça/comando δ_c
Dispositivo de controleMáquina do lemeδ_c (comando)δ (ângulo real)
Máquina do leme + lemeAtuador físicoδForça e momento no casco
NavioPlanta (dinâmica do casco)Força + momento + perturbaçõesTrajetória real (ψ, x, y)
O timoneiro também é um controlador. Em governo manual, o cérebro do timoneiro fecha o laço: olha o agulha (ψ_atual), compara com o rumo prescrito (ψ_ref) e atua no leme proporcionalmente ao erro percebido. Pilotos automáticos modernos implementam algoritmos PID (Proporcional-Integral-Derivativo) que reproduzem matematicamente esse comportamento — e o melhoram em precisão e consistência.

4. Curva de zigue-zague — manobra definitiva de controle (5.3–5.4)

A curva de zigue-zague é a manobra definitiva que avalia, em conjunto, a estabilidade direcional E a habilidade de controle do navio. Idealizada por Kempf e padronizada pelo IMO na resolução 137(76), é o ensaio clássico para extrair os índices de Nomoto.

4.1 Procedimento experimental (Kempf, padrão IMO)

  1. Estabilizar o navio em rumo reto com velocidade pré-selecionada por ~1 min.
  2. Comandar leme a um ângulo δ (ex.: +10° para boreste) — primeira execução.
  3. Aguardar o ângulo de aproamento ψ atingir o valor comandado ψ_c (ex.: 10°).
  4. Reverter leme instantaneamente para −δ (ex.: −10° para bombordo) — segunda execução.
  5. Aguardar ψ atingir −ψ_c (ex.: −10°).
  6. Reverter novamente para +δ — terceira execução. Continuar pelo menos 4 execuções.
Fig. 76
Fig. 76 Fig. 76 — Curva zigue-zague: primeiro e segundo overshoot do ângulo de aproamento (ψ vs t)
Fig. 77
Fig. 77 Fig. 77 — Tempos característicos t_A (alcance) e t_S (sobrepasso) ao longo das execuções
Fig. 78
Fig. 78 Fig. 78 — Detalhes do primeiro e segundo overshoot com velocidade angular do leme
Fig. 79
Fig. 79 Fig. 79 — Sobrepasso da trajetória lateral do navio durante o zigue-zague
Fig. 80
Fig. 80 Fig. 80 — Trajetória medida real em zigue-zague 10°/10° (avanço/L_PP vs afastamento/L_PP)

4.2 Convenção de nomenclatura — zigue-zague α/β

A manobra é nomeada como zigue-zague α/β onde:

  • α = ângulo de leme comandado (ex.: 10°)
  • β = ângulo de aproamento alvo para reversão (ex.: 10°)

Os dois mais usados em prova:

  • Zigue-zague 10°/10° — leme ±10°, reversão a ψ = ±10°. Padrão IMO para navios convencionais.
  • Zigue-zague 20°/20° — leme ±20°, reversão a ψ = ±20°. Padrão IMO para validar comportamento em manobras mais agressivas.

4.3 Medidas numéricas extraídas (5.4)

MedidaDefiniçãoSignificado físico
1º overshoot (α_1)Diferença entre ψ máximo após primeira reversão e ψ_cQuanto o navio "ultrapassa" o alvo na primeira inversão de leme
2º overshoot (α_2)Análogo para a segunda reversãoIndicador de oscilação amortecida. α_2 < α_1 em navio bem amortecido (afirmação editorial; o livro não explicita essa relação como critério).
Tempo de alcance t_ATempo entre comando inicial e primeiro alcance de ψ_cLentidão de resposta inicial
Tempo de sobrepasso t_STempo entre primeira reversão e início da inversão de $\dot{\psi}$Inércia angular efetiva
Período T(s)Tempo entre execuções alternadas estabilizadasConstante de tempo do laço fechado
Reversão NO COMANDO, não no overshoot. Pegadinha clássica: a reversão do leme é feita quando ψ atinge ψ_c (o ALVO), não quando ψ atinge o pico de overshoot. O overshoot é uma consequência da inércia do casco após a reversão.

5. Os índices de Nomoto (5.5)

Os índices de Nomoto resolvem um problema fundamental: como reduzir o sistema de equações lineares completo do Cap. 4 (sway-yaw acoplados, 10 derivadas hidrodinâmicas) a uma equação utilizável em projeto e simulação?

A resposta de Kensaku Nomoto (anos 1950, Japão) foi parametrizar a resposta $\dot{\psi}$(t) ao leme δ_R como função de apenas 4 índices: K (ganho), T_1, T_2 (constantes de tempo do sistema de 2ª ordem) e T_3 (zero do leme). Em forma simplificada (modelo de 1ª ordem), restam apenas 2: K e T.

Fig. 81
Fig. 81 Fig. 81 — Equações características A·σ² + B·σ + C e k(E + D/σ) — k elevado vs k pequeno
Fig. 82
Fig. 82 Fig. 82 — Interpretação gráfica de raízes Nomoto com k(E + D/σ)
Fig. 83
Fig. 83 Fig. 83 — Variantes de k pequeno e k elevado (instabilidade)

5.1 Significado de T_1 e T_2 (5.5.1)

São as duas constantes de tempo do sistema de 2ª ordem completo. Cada uma corresponde a um modo de resposta dinâmica do par sway-yaw acoplado:

  • T_1 — constante de tempo dominante. Reflete a inércia virtual do navio e o acoplamento sway-yaw (Santos 5.5.1, md 3668). Tipicamente maior que T_2; geralmente apenas T_1 é empregado em projetos práticos.
  • T_2 — constante de tempo secundária. Reflete o acoplamento sway-yaw. Tipicamente menor.

5.2 Significado de K' (5.5.2)

O ganho de regime permanente K (forma adimensional K') é a razão entre a razão de guinada r em regime permanente e o ângulo de leme δ_R aplicado:

K' = r_∞ / δ_R

Fisicamente: para um leme fixo em δ_R, o navio estabiliza em uma razão de guinada r_∞ que é proporcional ao leme. K alto = navio que "puxa rápido" — pequena deflexão gera grande r. K baixo = navio "preguiçoso" — exige grande deflexão para girar.

5.3 Significado de T_3 (5.5.3)

T_3 é o zero do leme — constante de tempo associada à velocidade do leme (δ̇). Conforme Santos (5.5.3, md 3689): "T_3' representa a contribuição dada pela velocidade do leme nas forças de casco ao iniciar ou quebrar uma guinada".

5.4 A equação completa de Nomoto (5.5)

T_1·T_2·ψ⃛ + (T_1 + T_2)·$\ddot{\psi}$ + $\dot{\psi}$ = K·(δ_R + T_3·δ̇_R)
Modelo de 2ª ordem com 4 índices: T_1, T_2, K, T_3.
Por que reduzir a 2 índices. Para navios convencionais em rumo de viagem, T_2 e T_3 são pequenos comparados a T_1. A equação simplificada (modelo de 1ª ordem) descarta T_2 e T_3 e fica: T·$\ddot{\psi}$ + $\dot{\psi}$ = K·δ_R, ou em notação compacta T·$\dot{r}$ + r = K·δ_R. Esse é o famoso "modelo K-T" da Section 8.

6. Análise da estabilidade direcional via índices de Nomoto (5.6)

A estabilidade direcional do Cap. 4 (C > 0) tem expressão direta nos índices de Nomoto. A condição equivalente é:

T_1 > 0 E T_2 > 0 ⟺ navio estável direcionalmente
(equivalente a C > 0 nos coeficientes do Cap. 4)
Fig. 84
Fig. 84 Fig. 84 — Equação característica com k pequeno e kE &lt; 0 (zona de instabilidade)
Fig. 85
Fig. 85 Fig. 85 — Raízes σ_1 e σ_2 da equação característica com k(E + D/σ)
Fig. 86
Fig. 86 Fig. 86 — Comparação k_1 e k_2 com kE − D/(2A)
Vantagem prática. Diferente do critério C > 0 do Cap. 4 (que exige conhecer 10 derivadas hidrodinâmicas), o critério Nomoto exige apenas extrair T_1 e T_2 da curva de zigue-zague ou da curva espiral — medidas experimentais diretas, viáveis em prova de mar. Por isso o critério IMO 137(76) é baseado em Nomoto/zigue-zague, não nas derivadas hidrodinâmicas isoladas.

6.1 Casos de estabilidade pelos sinais de T_1, T_2

T_1T_2Comportamento
> 0> 0Estável: r decai a zero com leme em zero (após transitório)
< 0> 0Instável: r cresce exponencialmente — navio entra em curva permanente
> 0< 0Instável (caso simétrico)
complexoscomplexosEstabilidade oscilatória (com índices complexos do Cap. 4)

★ 7. Sway e ponto pivô (5.7) — I.8.7.6

O ponto pivô (pivot point, P) é a posição ao longo do eixo longitudinal do casco onde a velocidade lateral local (v_local) é zero durante uma manobra de giro. Da perspectiva do observador (prático), o navio aparenta girar em torno desse ponto. É um dos conceitos mais cobrados em prova.

7.1 Definição matemática

Em qualquer ponto x do casco (medido do centro para a proa), a velocidade lateral local é: v_local(x) = v_G + x·r, onde v_G é a velocidade lateral no centro de gravidade e r é a razão de guinada. O ponto pivô x_P é onde v_local = 0, ou seja, x_P = −v_G / r. Formulação cinemática direta — derivação editorial; o Santos (5.7) emprega a razão Kv/K via função transferência.

7.2 Posição variável — regime permanente vs transitório

O ponto pivô NÃO é fixo no casco. Sua posição varia conforme a fase da manobra:
  • Regime permanente (giro estabilizado): x_P fica à frente do centro de gravidade, tipicamente entre 0,30 e 0,40 do comprimento à frente do CG (Santos 5.7, md 3891). A proa "puxa para fora" da curva enquanto a popa "varre" para dentro.
  • Transitório inicial (logo após carregar leme): x_P fica próximo do centro de gravidade. À medida que a guinada se desenvolve, x_P migra para frente até a posição estacionária. ✎ Derivação editorial — não consta explicitamente no Cap. 5 do Santos.
  • Curva de giro a vante: x_P entre a meia-nau e a proa. ✎ Consistente com o item anterior em regime permanente.
  • Marcha à ré com governo do leme: x_P pode passar para atrás do centro (perto da popa) — o navio "gira em torno da popa" do ponto de vista visual. ✎ Conhecimento geral de manobrabilidade; o Cap. 5 do Santos não aborda marcha à ré.

7.3 Implicações práticas para o prático

Como o prático "vê" o ponto pivô. Quando o navio começa a guinar para boreste em regime estacionário, a proa varre o setor de boreste enquanto a popa varre o setor de bombordo — e o "centro" aparente do giro é o ponto pivô (próximo da proa). Isso explica por que: (1) atracar/desatracar exige consciência de qual extremidade do navio se desloca mais; (2) rebocadores são posicionados pensando no ponto pivô (rebocador na popa tem mais alavanca quando P está perto da proa); (3) o navio com headway tende a girar "puxado pela proa", enquanto sternway inverte o sentido — o navio gira "puxado pela popa".
Não confundir com centro de pressão (x_p, do Cap. 4). O x_P deste capítulo (ponto pivô, cinemático) é diferente do x_p do Cap. 4 (centro de pressão lateral das forças hidrodinâmicas). Embora ambos sejam pontos sobre o eixo longitudinal, têm naturezas e localizações distintas: x_p (centro de pressão) é negativo (atrás do centro, ~−0,1·L); x_P (ponto pivô) em regime de giro é positivo (à frente do centro).

★ 8. Modelo K-T de Nomoto (5.8) — I.8.7.7

O modelo K-T é a equação simplificada de Nomoto, derivada do modelo completo (Section 5) descartando T_2 e T_3 (pequenos em navios convencionais em rumo de viagem). É o modelo dinâmico mais usado em simuladores de ponte, projetos de piloto automático e análises de manobrabilidade.

8.1 A equação K-T

T·$\dot{r}$ + r = K·δ_R
onde:
r = razão de guinada (rad/s ou °/s)
$\dot{r}$ = aceleração angular (derivada de r no tempo)
δ_R = ângulo de leme (rad ou °)
K = ganho de Nomoto (1/s)
T = constante de tempo de Nomoto (s)
Fig. 88
Fig. 88 Fig. 88 — Resposta ψ(t) ao degrau de leme: regime permanente $\dot{\psi}$ = K·δ_R + atraso temporal

8.2 Solução para degrau de leme (resposta canônica)

Para um leme aplicado em t = 0 com magnitude δ_R constante, a solução de r(t) é:

r(t) = K·δ_R · (1 − $e^{−t/T}$)

Interpretação:

  • Em t = 0: r = 0 (navio em rumo).
  • Em t → ∞: r → K·δ_R (regime permanente).
  • Em t = T: r ≈ 63% do valor de regime — definição da "constante de tempo".
  • Em t = 3T: r ≈ 95% do regime — considera-se equilíbrio prático.

8.3 Qualidade de governo e os índices K, T (5.8.1)

Fig. 89
Fig. 89 Fig. 89 — Qualidade de governo: K grande/T pequeno vs K pequeno/T grande
KTCaráter do navio
GrandePequenoNavio dócil e rápido: leme produz grande r em pouco tempo. Boa manobrabilidade. Típico de fragatas, rebocadores.
GrandeGrandeNavio gira muito mas com atraso. Característica de cargueiros grandes com leme grande.
PequenoPequenoResposta rápida mas curta amplitude. Pouco comum.
PequenoGrandeNavio "duro" e lento: leme produz pouco e demora. Típico de VLCC, graneleiros muito grandes.

8.4 Obtenção experimental de K e T (5.8.2)

Método clássico: curva até razão de guinada constante. O navio é estabilizado em rumo, o leme é carregado a um ângulo δ_R fixo (ex.: 15°) e aguarda-se r atingir regime permanente. Os índices são extraídos por:

  • K = r_∞ / δ_R — diretamente da razão de guinada estabilizada (Santos 5.8.2, md 4216).
  • T — obtido por integração de $\dot{\psi}$(t): o tempo t_P em que a integral cruza ψ(t) = 0 corresponde ao atraso T (Santos 5.11, md 4250–4254). Esse "tempo de atraso" é o intervalo entre o comando do leme e o instante em que a razão de guinada começa a crescer perceptivelmente.
Fig. 90
Fig. 90 Fig. 90 — Trajetórias de giro com K=0,15 fixo e T variando — espirais de avanço/transferência

8.5 Rapidez de resposta — alcance e atraso (5.8.3)

Dois parâmetros adicionais capturam a "agilidade" do navio:

  • Alcance (advance) — distância percorrida pela proa entre o comando inicial do leme e o instante em que r atinge regime permanente. Cresce com T·u_0 (T·velocidade avante).
  • Atraso (lag) — tempo entre o comando do leme e o início perceptível da guinada. Diretamente proporcional a T.
Fig. 91
Fig. 91 Fig. 91 — Rapidez de resposta do casco: atraso T+t_1/2 para atingir razão de guinada final
Para o prático. Navio com T grande significa que após dar leme você AINDA terá que esperar antes de ver a proa começar a girar. Em águas restritas, isso muda drasticamente o ponto onde se deve iniciar a guinada — antecipação obrigatória. Navios VLCC famosos exigem antecipação de 1-2 comprimentos do casco antes do ponto desejado.

9. Interpretação física de K e T (5.9)

Esta section conecta os índices abstratos K e T às derivadas hidrodinâmicas do Cap. 3 e à física da manobra.

9.1 O que K significa fisicamente

Em termos das derivadas hidrodinâmicas, K é aproximadamente:

K = N_δ / N_r
onde N_δ é o momento de yaw gerado pelo leme (por unidade de δ) e N_r é o amortecimento de yaw (sempre negativo).

Significado: K grande = leme produz muito momento (N_δ alto) ou amortecimento é fraco (|N_r| baixo). Em ambos os casos, o navio gira muito por unidade de leme.

9.2 O que T significa fisicamente

T' = Coeficiente do momento de inércia virtual / Coeficiente do momento de amortecimento em yaw
(Santos 5.9, md 4148). A "inércia virtual" inclui I_z + |N_$\dot{r}$| MAIS a contribuição do acoplamento sway-yaw (md 4134) — não é apenas a inércia rotacional pura.

Significado: T grande = inércia virtual alta ou amortecimento fraco (|N_r| baixo). Em ambos os casos, o navio resiste a iniciar a guinada.

Compromisso K-T. Numerador e denominador de K e T têm fatores comuns. Aumentar a área do leme aumenta |N_δ| e |N_r| simultaneamente — pode aumentar K mas diminuir T (efeito favorável). Mas aumentar a área de skeg na popa aumenta |N_r| significativamente — diminui T mas também diminui K (compromisso entre estabilidade e ganho).

9.3 Sinais de K e T

  • Em navio direcionalmente estável: K > 0 E T > 0.
  • Em navio direcionalmente instável: T < 0 (a definição matemática implica que o termo dominante muda de sinal). Significa que a resposta cresce exponencialmente — navio não atinge regime permanente sem controle ativo.

10. Conceito de navio com boa manobrabilidade (5.10)

O Santos resume os atributos que caracterizam um navio com "boa manobrabilidade" do ponto de vista do prático e do operador:

  • Estabilidade direcional — mantém rumo com pouca correção de leme em viagem.
  • Resposta ágil ao leme — T pequeno: pouco atraso entre comando e início da guinada.
  • Razão de guinada de regime alta o suficiente — K adequado para a missão; rebocadores e navios em águas restritas precisam K alto; cargueiros oceânicos podem ter K menor.
  • Overshoot moderado — α_1 dentro dos critérios IMO; não há "sobrepasso" exagerado que dificulta o controle pelo timoneiro.
  • Raio de giro consistente — diâmetro tático conhecido e repetível, sem assimetrias graves entre bordos.
  • Distância de parada (head-reach) razoável — capacidade de parar em distância previsível (tema do Cap. 7).
Santos (5.10, p. 118): "Quanto maior a razão K'/T', melhor será a manobrabilidade do navio". Essa razão é exatamente o parâmetro de Norrbin P (Section 12.2) — síntese numérica direta do compromisso entre ganho de guinada e lentidão de resposta.
Trade-off K' × T' (Santos 5.10, p. 119). O aumento de T' produz aumento da estabilidade em linha reta mas redução da estabilidade direcional (capacidade de governo) — o navio fica mais "duro" e mais resistente a correções. Inversamente, T' baixo melhora a resposta ao controle mas reduz a estabilidade passiva. O projetista busca o ponto ótimo desse trade-off.
Não existe "navio universalmente bom". Boa manobrabilidade depende do contexto operacional. Petroleiros e graneleiros grandes têm T' alto (resposta lenta) — adequados a viagem oceânica mas exigem antecipação em portos confinados. Por isso o projeto naval moderno usa simuladores de manobra portuária para validar índices K-T contra a operação esperada.

11. Determinação experimental de K e T (5.11)

Vários métodos extraem K e T de ensaios de mar:

  • Curva de giro até regime permanente — método 5.8.2: aplica leme fixo, mede r_∞ e a inclinação inicial.
  • Análise da curva de zigue-zague — relaciona K e T ao ângulo de overshoot e ao período. Método mais usado em provas de mar IMO.
  • Análise de resposta a entradas senoidais — em modelos em tanque, aplica-se δ_R(t) senoidal e analisa a resposta no domínio da frequência.
  • Identificação de sistemas (system identification) — método estatístico moderno: aplica perturbações pseudo-aleatórias e ajusta parâmetros K, T a um modelo ARMA.

12. Zigue-zague e índices K/T + Parâmetro de Norrbin (5.12)

12.1 Ângulo de overshoot e os índices K e T (5.12.1)

Para a manobra de zigue-zague α/α (mesmo ângulo de leme e de inversão), o primeiro ângulo de overshoot α_1 tem expressão analítica em função de K, T, α e da velocidade U:

O comportamento qualitativo é claro:

  • α_1 cresce com K — navio "mais agressivo" gera mais overshoot.
  • α_1 cresce com T — navio "preguiçoso" demora a reagir à reversão de leme, daí maior overshoot.
  • α_1 cresce com U — em alta velocidade, mais sobrepasso (mais espaço percorrido antes da reversão fazer efeito).
Fig. 92
Fig. 92 Fig. 92 — Resposta a degrau de leme: ψ(t) com K·δ·T como overshoot + tempos t_1 e T
Fig. 93
Fig. 93 Fig. 93 — Curva zigue-zague completa: 8 fases com δ_1...δ_4 + ψ_e e ψ_e² nos picos de overshoot

12.2 Parâmetro de Norrbin (5.12.2)

O parâmetro de Norrbin P é uma medida adimensional do ganho de manobra obtida pela substituição de t' = 1 na equação de primeira ordem de Nomoto. A definição do Santos (5.12.2, md 4411):

P = K' / T'
(razão entre o ganho de guinada adimensional K' e a constante de tempo adimensional T')

Significado físico: P pequeno = navio responde pouco ao leme (T' alto domina = navio "preguiçoso"); P grande = navio responde fortemente (K' alto domina = navio "ágil"). A tabela de Clarke apresentada por Santos (5.12.2 / 5.13) mostra valores medidos de P entre 0,33 e 7,87 para diferentes classes de navios.

13. Dados experimentais + Aplicação ao projeto (5.13–5.14)

13.1 Dados experimentais (5.13)

O Santos apresenta tabelas com valores individuais de K' e T' (Nomoto 5.8.2; Clarke 5.12.2 / 5.13). Os valores típicos abaixo são faixas síntese editorial a partir desses dados:

Síntese editorial — faixas de K' e T' por classe. A tabela original de Nomoto traz navios individuais com valores pontuais; esta é uma síntese agregada por classe. Use os valores apenas como ordem de grandeza orientativa.
ClasseK' (adim)T (s)
Cargueiros médios (handysize, supramax)0,5 a 1,520 a 80
Petroleiros e graneleiros grandes (VLCC, Capesize)1,5 a 3,080 a 300
Navios contêineros0,8 a 2,030 a 100
Fragatas, rebocadores (alta manobrabilidade)0,3 a 0,85 a 30
Tendências: navios maiores → T maior (mais inércia, mais lentos). Navios mais finos (L/B grande) → K' menor (mais estáveis, menos manobráveis).

13.2 Aplicação ao projeto (5.14)

Na fase de projeto, K e T são preditos a partir de:

  • Geometria do casco (L/B, B/T, C_b, área de skeg) → derivadas Y_v, N_r, N_v.
  • Geometria do leme (área, razão de aspecto, posição) → N_δ.
  • Configuração propulsiva (1 ou 2 hélices, azimutal, etc.).

Métodos: regressões empíricas (Inoue, Kijima), CFD, ou simulação em tanque com modelo de escala.

★ 14. Critérios IMO 137(76) (5.15)

A Resolução IMO 137(76) — Standards for Ship Manoeuvrability — estabelece critérios numéricos para validar a manobrabilidade de navios novos. Aplica-se a navios com L_PP > 100 m e a todos os gaseiros/químicos independente do comprimento.

14.1 Critério para a curva de zigue-zague 10°/10°

O 1º ângulo de overshoot α_1 deve atender:

Condiçãoα_1 máximo permitido
L_PP/U < 10 s10°
10 s ≤ L_PP/U ≤ 30 s(5 + 1/2 · L_PP/U)° (interpolação)
L_PP/U > 30 s20°

O 2º ângulo de overshoot α_2 deve atender:

Condiçãoα_2 máximo permitido
L_PP/U < 10 s25°
10 s ≤ L_PP/U ≤ 30 s(17,5 + 0,75 · L_PP/U)°
L_PP/U > 30 s40°

14.2 Critério para a curva de zigue-zague 20°/20°

O 2º ângulo de overshoot não deve exceder 25° (limite fixo, independente de L_PP/U). Santos (5.15, md 4540).

Por que duas manobras (10°/10° e 20°/20°)? A 10°/10° avalia comportamento em manobras suaves, típicas de correções de rumo em mar aberto. A 20°/20° avalia manobras agressivas, típicas de evasão (collision avoidance) ou início de curva fechada. Um navio precisa atender AMBOS os critérios.

14.3 Critério para a estabilidade direcional (curva espiral)

O critério da largura máxima do loop de histerese é definido no Cap. 4 do Santos (Resolução IMO 137(76) parte espiral) — varia de 0° (navios rápidos com L_PP/V baixo) a 12° (navios lentos com L_PP/V alto). Para detalhes numéricos, consultar Cap. 4 (Section 17 do WAL Cap.4).

Tradução prática. Os critérios IMO são desenhados para garantir que um timoneiro mediano consiga controlar o navio manualmente em situações de emergência. Navios que falham em 137(76) precisam de piloto automático sofisticado, restrições operacionais (sem manobra em águas confinadas sem rebocador), ou modificações de casco/leme.