🧭 MMPH · Cap.8 — A Ação das Forças Externas Ambientais sobre o Navio

Mapa Mental PH (aula enxutíssima) · Santos, A Manobrabilidade do Navio no Séc. XXI · I.08-MN · Área I do edital · só o que cai, em esquemas · ✎ marque lacunas e oclusões para revisão ativa
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Quais sãoTrês forças externas: vento, corrente e onda. Análise complexa e específica de cada navio.
Regra geral do capítulo: quanto menor a quantidade de movimento do navio, maior o efeito das forças ambientais. Por isso importa na baixa velocidade da manobra portuária.
  • Efeito pode ser desvantajoso ou, bem aproveitado, virar aliado de quem manobra.
  • Prático/comandante se antecipam: compensam ângulo de ataque/abatimento na asa-casco com a manobra de caranguejar (crabbing).
  • Usam os valores prevalecentes das forças para dimensionar a tração estática (bollard pull) dos rebocadores.
Método mais precisoEnsaios com modelos em escala reduzida. A força resultante é decomposta nos eixos do navio, gerando os coeficientes adimensionais de força e momento, válidos para navios de geometria similar. Para vento e corrente, só as componentes no plano horizontal.
Força aerodinâmicaMesmo em mar calmo e sem vento, o navio em movimento sente força aerodinâmica (o ar parado é atravessado pelo casco acima d'água). Perto do mar a velocidade do vento cai muito: é a camada-limite atmosférica.
VentoSímboloO que é
VerdadeiroVTWDe causas naturais, existe no ponto com ou sem o navio. O "zero" é o ar parado (still air).
Relativo / aparenteVAWSoma vetorial do vento verdadeiro com a velocidade do navio VS. É o que de fato incide sobre o casco.
Fig. 144
Fig. 144 — Relacao entre o vento verdadeiro e o aparente

Correção de altura (camada-limite)

PIANCCorrigir tomando a medição a 10 metros como referência, por lei de potência de expoente n.

Vz = V10·(z/10)1/n n = 5 (fraco), 7 (moderado), 10 (forte)

Fig. 142
Fig. 142 — Velocidade relativa do ar empregada no calculo das forcas aerodinamicas
Na prática adota-se n = 7, como recomenda a OCIMF (associável à escala Beaufort).

Perto da água o vento verdadeiro é pequeno e domina a velocidade do navio; subindo, o vento verdadeiro cresce e passa a dominar. Referência em navios = altura média da projeção lateral do casco (velocidade abreviada Vw).

Fig. 143
Fig. 143 — Camada-limite do vento junto a superficie do mar
Quando pesaCresce na baixa velocidade, canal restrito, atracação/desatracação — sobretudo em navios de grande área vélica: contêineros, ro-ro, graneleiros/petroleiros em lastro, passageiros. Em muitos portos é o principal fator ambiental.
Duas regras antigas que NÃO valem mais como gerais: (1) seguir reto caranguejando se razão vento/navio ≤ 10 (só valia p/ Liberty/Victory da 2ª Guerra, em águas profundas); (2) navio com superestrutura a ré e sem carga sempre orça ao vento — graneleiros/petroleiros em lastro arribam com vento pela bochecha quando parados ou muito lentos.
Origem da forçaQuase só a diferença de pressão de vorticidades (baixa pressão) que se desprendem nos cantos do casco. Os pontos de separação não dependem do número de Reynoldsforças e momentos do vento independem do número de Reynolds, logo os coeficientes de túnel de vento valem em escala real (navios geossimilares).

Fórmulas gerais (coeficientes adimensionais)

Xw = ½·ρar·CXw·AT·Vw² Yw = ½·ρar·CYw·AL·Vw² Nw = ½·ρar·CNw·AL·L·Vw²

  • Xw = força longitudinal (surge); Yw = lateral (sway); Nw = momento em guinada (yaw).
  • Força longitudinal usa área transversal AT; força lateral e momento usam área longitudinal AL.
Fig. 145
Fig. 145 — Area velica (em cinza) de um navio de passageiros
EscopoPetroleiros/graneleiros de 16.000 a 500.000 TPB, sem carga no convés e superestrutura a ré. Publicações OCIMF (VLCCs / Mooring Equipment Guidelines), recomendadas por MSC e FAL da IMO.
Convenção OCIMFVento contado de zero na popa, p/ BE ou BB, até 180° na proa.
Regra do sinal do momento (OCIMF): coeficiente negativo → o navio orça (contra o vento); positivoarriba (a favor) — independe de BE ou BB.
Coef.Comportamento (alvo de prova)
CXw longitudinalPositivo = tendência a vante. Em lastro com proa cheia (em U) e vento entre alheta e través → tende a vante (contraintuitivo), pela baixa pressão dos grandes vórtices. Com proa fina (em V) o efeito não aparece.
CYw lateralMais intuitivo: abatimento no mesmo sentido do vento. Coef. e força maiores em lastro (coef. maior + área projetada maior).
CNw momentoCarregado: sempre orça ao vento, qualquer ângulo, exceto exatamente pela proa/popa. Em lastro parado: entre proa e ~10° antes do través → arriba; demais ângulos orça.
Fig. 146
Fig. 146 — Convencao de sinais OCIMF do vento

Coeficientes levantados com o navio parado e águas parelhas. Cuidado de parada: em lastro de proa cheia com vento aparente de través, dificulta parar.

Fig. 147
Fig. 147 — Proa fina (em V) e proa cheia (em U) de petroleiros
Fig. 148
Fig. 148 — Coeficiente longitudinal do vento Cxw - petroleiro
Fig. 149
Fig. 149 — Coeficiente de forca lateral do vento Cyw - petroleiro
Fig. 150
Fig. 150 — Coeficiente de momento em yaw do vento CNw - petroleiro
Dois tiposTanques esféricos e tanques prismáticos. Coeficientes obtidos como os do petroleiro, navio parado.
  • Longitudinal: leve tendência a vante com vento de través; o de tanque esférico é mais empurrado por vento de ré/alhetas e tem mais dificuldade para parar.
  • Lateral: os dois tipos diferem pouco entre si, mas com coeficientes maiores que o petroleiro em lastro: ~20% maior no esférico e ~10% maior no prismático.
  • Momento (yaw): sinal oposto ao do petroleiro em lastro. Parados: orçam com vento pelas bochechas e arribam com vento pelas alhetas. No prismático, o momento de bochecha chega a quase o dobro do de alheta.
Fig. 151-152
Fig. 151-152 — Gaseiros de tanques esfericos e de tanques prismaticos

Com velocidade, tendem a arribar com vento verdadeiro entre bochecha e alheta (o aparente fica quase de través).

Fig. 153
Fig. 153 — Coeficiente longitudinal do vento Cxw - gaseiros
Fig. 154
Fig. 154 — Coeficiente de forca lateral do vento Cyw - gaseiros
Fig. 155
Fig. 155 — Coeficiente de momento em yaw do vento CNw - gaseiros
OrigemProf. Werner Blendermann (Hamburgo, anos 1990) ensaiou em túnel série de mercantes atuais. Publicado em Resistance and Flow (SNAME); diretriz para superestruturas modernas, inclusive offshore.
Convenção SNAMEDifere da OCIMF: vento de zero na proa até 180° na popa. A leitura do sinal é a mesma: negativo orça, positivo arriba.
Fig. 156
Fig. 156 — Convencao de sinais SNAME do vento
Padrão que se repete: os maiores momentos de guinada aparecem com vento pelas alhetas ou bochechas (em geral maior pela alheta). Com velocidade, o aparente tende ao través.
Navio (parado/lento)Orça / arriba no través
Ro-Roorça ao vento; alheta dificulta parar/ré
Contêinero carga plenaorça ao vento; sem tendência avante/ré
Petroleiro carregadosempre orça (exceto 0°/180°); maior momento pela bochecha
Petroleiro em lastroorça entre popa e pouco avante do través; arriba entre proa e pouco antes do través
Offshore de apoiotende a arribar; coef. quase constante até ~30° da proa/popa (bom p/ DP)
Navio-sondaorça com vento de alheta; arriba com vento de bochecha
Fig. 157
Fig. 157 — Tabela de caracteristicas dos navios de Blendermann
Fig. 158
Fig. 158 — Coeficiente de momento CN do vento - Ro-Ro (SNAME)
Fig. 159
Fig. 159 — Coeficientes Cx, Cy e CN do vento - conteinero carga plena
Fig. 162
Fig. 162 — Coeficiente de momento CN do vento - cargueiro multiproposito
Fig. 163
Fig. 163 — Coeficientes Cx, Cy e CN do vento - petroleiro carregado (SNAME)
Fig. 164
Fig. 164 — Coeficientes Cx, Cy e CN do vento - petroleiro em lastro (SNAME)
Fig. 165
Fig. 165 — Coeficientes do vento - ferry de porte reduzido
Fig. 166
Fig. 166 — Coeficientes do vento - embarcacao offshore de abastecimento I (PSV)
Fig. 167
Fig. 167 — Coeficientes do vento - embarcacao offshore de abastecimento II
Fig. 168
Fig. 168 — Coeficientes do vento - navio-sonda / drillship
Lição: não há regra geral para o comportamento do navio ao vento — muitas vezes contraintuitivo. Conhecer os coeficientes é fundamental para planejar a manobra e posicionar os rebocadores.
Fig. 160
Fig. 160 — Coeficientes do vento - conteinero II (carga crescente para a re / meia carga)
Fig. 161
Fig. 161 — Coeficientes do vento - conteinero III sem carga no conves

Efeito da rajada (§8.2.2.4)

PIANC rel. 117Na atracação/desatracação, multiplica-se a força média por um fator de rajada que depende da duração. Duração representativa (tempo de resposta do navio) = 30 segundos → fator de rajada de cerca de 1,38.
Fig. 169
Fig. 169 — Variacao no tempo da pressao dinamica do vento (rajada)

Técnica de caranguejar (crabbing) (§8.2.2.5)

  • Com razão vento/navio moderada: manter trajetória com ângulo de deriva controlado e leme fixo que estabiliza as forças → estabilidade em linha reta.
  • Método japonês (PIANC rel. 121): boca virtual WWF = LOA·sen β + B·cos β em função do ângulo de deriva β.
  • Sem coeficientes de túnel: regressão de Yamano e Saito; MLIT dá tabelas de leme δ e deriva β por tipo de navio.
Exemplo (contêinero pós-Panamax, razão de profundidade 1,2, 5 nós ≈4,1 m/s, vento relativo 25 nós ≈15,43 m/s a 75°): o ideal é o ângulo de deriva ~; acima disso, em baixa velocidade, desestabiliza o casco mesmo com todo o leme (arrasto vira parasita).

Recomendações sobre o vento (§8.2.2.6)

A força cresce com o quadrado da velocidade relativa: triplicar a velocidade do vento multiplica a força por nove; de 10 para 30 nós pode aumentar mais de dez vezes com rajadas.
Fig. 170
Fig. 170 — Caranguejar: equilibrio de forcas e estabilidade em linha reta
  • Em dúvida sobre a ação do vento, abortar a manobra é preferível a arriscar acidente.
  • Fig. 172
    Fig. 172 — Tabela de coeficientes de regressao da forca do vento (Yamano e Saito)
  • Dispor rebocadores considerando não só o abatimento lateral, mas o momento de guinada.
  • Com o navio em velocidade, o vento achata a curva de giro e aumenta o diâmetro tático.
  • Fig. 171
    Fig. 171 — Boca virtual em funcao do angulo de deriva (metodo japones)
Fig. 175
Fig. 175 — Trajetoria do giro do navio sob acao da forca do vento
Diferença-chave vs ventoCom velocidade moderada/alta, o ângulo de incidência da corrente é sempre pequeno (< 25°) — o navio supera a corrente. Bem diferente do vento, que fica de través.
  • Em baixa velocidade e ângulo > ~30°: forças passam a escoamento cruzado (cross flow), comportamento quadrático; com navio lento o ângulo prevalecente fica ~90°.
  • Mar aberto/profundo: correntes fracas, pouca interferência. Águas rasas/restritas/canais (curvas): altas intensidades, gradientes e circulações que prejudicam o governo.

Forças da corrente (§8.3.1)

FXc = ½·ρ·LPP·T·Vc²·CXc FYc = ½·ρ·LPP·T·Vc²·CYc Nc = ½·ρ·LPP²·T·Vc²·CNc

Iguais às do vento, trocando ar por água e as áreas vélicas pelo produto LPP·T. Efeito muito forte da folga abaixo da quilha; determinados em tanque de prova.

Velocidade média sobre o calado considera o gradiente da camada-limite do fundo (z contado da quilha p/ cima). Ex. OCIMF: corrente 2 nós (1,03 m/s) medida a 30% do calado, razão 1,1 → fator 0,95.

Fig. 176
Fig. 176 — Distribuicao da velocidade da corrente em funcao do calado
Fig. 177
Fig. 177 — Fator de correcao da velocidade da corrente (grafico OCIMF)
Todos os coeficientes de corrente variam muito com a razão de profundidade — mudam conforme o fundo se aproxima.

CXc longitudinal (§8.3.2.1)

Razão prof.Comportamento
> 4,4 (águas profundas)coef. constante; corrente entre bochecha e través dá grande força a vante, maior que a de popa (contraintuitivo).
1,5 (entra em rasas)grande variação, tendência geral a vante (maior na proa cheia). Ao girar em bacia, práticos controlam com máquinas a ré.
1,2 / 1,1oscilações amplificadas; proa cheia mantém tendência a vante.
Fig. 178
Fig. 178 — Coeficiente longitudinal da corrente Cxc - razao de profundidade > 4,4
Alerta operacional (razão 1,2, alvo de prova): corrente a ~30° pela proa → forte tendência a vante, cerca de 4 a 5 vezes maior que a de popa, e a inversão ocorre com só 10° de variação. Atracar/desatracar paralelo ao cais, sem angulação, com rebocadores puxa-empurra (Hensen).
Fig. 180
Fig. 180 — Coeficiente longitudinal da corrente Cxc - razao 1,5

CYc lateral (§8.3.2.2)

SensibilidadeMínimo em razão ≥ 6 (águas profundas), máximo em 1,05. Máxima no través. Aumento muito acentuado em águas rasas, mesmo com corrente a pequenos ângulos (ex. OCIMF: 2 nós a apenas da proa).

CNc momento em yaw (§8.3.2.3)

  • Cresce quando a razão de profundidade diminui. Carregado: guina contra corrente de través e entre proa e través; guina a favor entre popa e pouco antes do través.
  • Ângulo neutro (carregado, razões 6 a 1,1): ~10° do través p/ ré; em razão 1,05 fica ~20°.
  • Em lastro: momentos menores; ângulo neutro ~15° do través p/ ré (razões 4,4 a 1,5), no próprio través em 1,05 e 1,1.

Lição geral: comportamento extremamente complexo e não linear; cada navio tem curvas únicas. Simuladores são ótimos para avaliar.

Dois movimentosUm oscilatório (afeta os seis graus de liberdade) e um de deriva/abatimento não oscilatório (afeta os três graus do plano horizontal, como corrente/vento constante).
  • Ressonância: se o período dominante das ondas se aproxima do período natural, os movimentos se amplificam. No plano horizontal (surge, sway, yaw) não há forças restauradoras.
  • Resposta cresce com a altura da onda e diminui com o comprimento do navio; máxima quando o comprimento da onda iguala o do navio.
  • Ondas de período < 6 s → pouca resposta em navios > 100 m (período natural 10 a 17 s em águas profundas).

Força de 1ª e 2ª ordem (§8.4.1)

ForçaProporcional aCaracterística
1ª ordemamplitude da ondaoscila na frequência de encontro; média zero; gera as oscilações.
2ª ordem (deriva)amplitude²menor, baixa frequência, média diferente de zero — é a força de deriva, destacada em surge, sway e yaw.
Erro de interpretação (risco de acidente): supor que, por a 1ª ordem ter média zero, o navio não abateria. Errado — o navio abate pela força de 2ª ordem, não oscilatória. Funciona como um quebra-mar flutuante.
Forças de 2ª ordem (baixa frequência) são as mais importantes para manobra em baixa velocidade ou parado (V=0) — a praticagem e os canais de acesso. As de 1ª ordem vêm de RAOs; as de 2ª usam a aproximação de Newman (programas como WAMIT).
NavioPetroleiro/graneleiro handymax Romulo Almeida, navio-tipo do CIAGA; RAOs e deriva calculados no WAMIT pela Technomar.
ParticularidadeCarregadoEm lastro
LOA (m)190,0190,0
Calado (m)12,07,5
Deslocamento (t)60.66035.190
GM (m)1,75,1
T. natural de roll (s)18,3011,21
T. natural de pitch (s)9,157,64
Fig. 190
Fig. 190 — Petroleiro/graneleiro handymax Romulo Almeida

RAOs — resposta por metro de onda (§8.4.2.2)

  • Máximos: surge 1,64 m/m; sway 1,00 m/m; heave 1,10 m/m; roll 6,43 °/m (90° / 16,8 s); pitch 0,92 °/m; yaw 0,49 °/m.
  • Os períodos de ressonância diferem por grau de liberdade → os máximos verticais nunca se somam no mesmo instante (bom p/ segurança).
  • Período < 6 s: resposta vertical de navio grande é insignificante → na entrada de canal dá p/ desconsiderar a margem de onda da FAQ, desde que se monitore o período (garantir que não haja swell junto).
Fig. 197
Fig. 197 — RAO do movimento de surge

Forças de 2ª ordem — deriva (§8.4.2.3)

Ordem de grandeza que não se despreza: período 5 s (onda local), onda de apenas Hs = 2 m pelo través → deriva lateral de cerca de 90 toneladas-força (sway 868,2 kN). Com ondas longas (período > 20 s) a deriva média some.

Cada navio tem sua impressão digital hidrodinâmica, válida só para geometrias similares, na mesma frequência de encontro e mesmo padrão de ondas.

Fig. 198
Fig. 198 — RAO do movimento de sway (e roll no mesmo quadro)