🧭 MMPH · Cap.9 — Efeitos de Águas Rasas

Mapa Mental PH (aula enxutíssima) · Santos, A Manobrabilidade do Navio no Séc. XXI · I.08-MN · Área I do edital · só o que cai, em esquemas · ✎ marque lacunas e oclusões para revisão ativa
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Escopo do cap.Água rasa mas limpa = fairway (pouco profunda, sem paredes nem margens). Restrição lateral (canal, margens) fica no cap. seguinte.
Tudo gira num único parâmetro: a razão de profundidade h/T = profundidade ÷ calado. Quanto menor h/T, mais forte o efeito de águas rasas.
SNAMEDo ponto de vista da manobra, h/T ≤ 3 já é águas rasas; acima disso os efeitos somem.

Classificação PIANC (Bulletin 77, 1992, item 4.4.4)

CategoriaRazão h/T
Águas profundash/T > 3,0
Meio rasas1,5 < h/T < 3,0
Rasas1,2 < h/T < 1,5
Muito rasash/T < 1,2
Limite operacional duro (PIANC): a folga abaixo da quilha (FAQ) não deve ser menor que 5% em baixas velocidades — margem já reconhecidamente pequena.
Fig. 206
Fig. 206 — Crescimento do tamanho dos navios ao longo das decadas

Água acelera mais sob o casco cai a pressão aumentam afundamento e trim mudam inércia, sustentação, arrasto, empuxo e força do leme

Sinal presenciado a bordo
Respostas às ações de controle ficam mais lentas.
RPM do propulsor cai — quedas de até 15% nas razões mais baixas.
Velocidade do navio cai, chegando a 30% nas razões mais baixas.
Vibração súbita (novas frequências ressonantes de casco e propulsor).
Diâmetro tático da curva de giro pode aumentar até 100% (praticamente dobrar).
Em geral aumentam distância e tempo de parada — mas não em todos os navios (depende de h/T, potência a ré, velocidade inicial).
Eficiência do leme costuma diminuir nas razões muito baixas.
O navio quebra a guinada com mais facilidade; os overshoots do zigue-zague ficam menores.
Força lateral do propulsor e seu momento aumentam (a vante e a ré).
Onda irradiada (sobretudo na proa) fica mais alta.
Fig. 207
Fig. 207 — Razoes de profundidade: aguas rasas, meio rasas e profundas
Não generalizar: nem todo efeito piora o governo. Overshoots menores e facilidade de quebrar a guinada parecem bons, mas vêm com respostas mais lentas e manobras mais longas.
O marco1977, Golfo do México: 1ºs testes de manobra em escala real em águas rasas, com o petroleiro Esso Osaka (278 mil TPB).
MARAD + guarda costeiraAIMSExxonLab. DavidsonLincoln Crane Jr.cmt. G. Gomes
Resultados (1979)Três razões de profundidade: 1,2 · 1,5 · 4,2.

9.3.1 Curva de giro & estabilidade

  • Diâmetro tático: +75% na razão 1,2; <20% na razão 1,5.
  • Quebrar a guinada: reduzida em 1,5, aumentada em 1,2 (zigue-zague em coasting, máquina parada).
Fig. 215
Fig. 215 — O efeito de coasting num zigue-zague 20/20
Fig. 208
Fig. 208 — Influencia da profundidade na curva de giro do Esso Osaka carregado
Instabilidade dinâmica inerente justamente na razão 1,5 — confirmada pela curva espiral em escala real.

9.3.2 Parada & controle do aproamento

Efeito principalNa parada em baixa velocidade, o aproamento desvia para boreste — até cerca de 90 graus na razão 1,2.

Máquina atrás força lateral do propulsor (passo direito) predomina sobre o leme deriva do casco a bombordo aproamento cai para boreste

Fig. 209
Fig. 209 — Efeito da profundidade num zigue-zague em coasting
Fig. 210
Fig. 210 — Resultado de um teste espiral em escala real
Fig. 211
Fig. 211 — Desvio de aproamento e distancia de parada por razao de profundidade
Com máquina atrás, o controle do leme se perde. Entre 1,5 e 1,2 a distância de parada fica praticamente independente da profundidade.
Parada controladaLeme + RPM juntos mantêm o aproamento quase constante — ao custo de distância cerca de 3 vezes maior que só com máquina atrás.
Fig. 212
Fig. 212 — Parada simples, com leme e parada controlada (leme + RPM)
Crane: o aproamento pode ser mantido nas 3 razões mesmo a 1,5 nó, máquina parada, com kicking ahead (pequenas palhetadas a vante) + leme.

9.3.3 Regra para girar

Reduzir a velocidade ao mínimo seguro e então acelerar para ganhar controlabilidade — vale para rasas e meio rasas.
FonteYasukawa e Kobayashi (1995): 4 modelos livres — contêinero, gaseiro grande, cargueiro especial e o próprio Esso Osaka. A razão de profundidade afeta o giro de modos diferentes por tipo de navio.
TipoDiâmetro tático ao reduzir h/TQuem é
N — normalAumenta de forma monotônica (sempre cresce)Navios esbeltos
U — instávelAumenta, mas ganha instabilidade dinâmica perto de 1,5Formas cheias (tanque Esso Osaka)
S — pequenoDiminui ao reduzir a profundidadeBoca larga, calado pequeno (rebocador compacto)
Pegadinha clássica: é falso que "o diâmetro tático sempre aumenta em águas rasas" — só vale para N e U; no tipo S ele diminui e o navio fica mais fácil de governar.
Fig. 216
Fig. 216 — Efeito da razao de profundidade na curva de giro por tipo de navio

9.4.1 Por que a curva fechada de emergência é perigosa

  • Nos tipos N e U, girar em águas rasas não perde tanta velocidade quanto em águas profundas.
  • Logo, curva fechada para frear é não aconselhável: pouca perda de velocidade + pouco espaço + diâmetro tático quase dobra.
Fig. 219
Fig. 219 — Manter o rumo e quebrar a guinada (petroleiro aliviador 5k TPB)
Fig. 217
Fig. 217 — Perda de velocidade no giro do VLCC Esso Bernicia
Por isso muitos portos exigem rebocadores escort: a força de governo vem do rebocador, em modo indireto, com cabo longo (Hensen, Tug Use in Port).

9.4.2 Estabilidade em linha reta

  • Em geral a estabilidade dinâmica aumenta ao reduzir a profundidade: contêinero e graneleiro Panamax, instáveis em profundas, ficaram estáveis em rasas.
  • Razão 1,2: overshoots do zigue-zague bem menores, mas o tempo de manobra aumenta.
  • Ao entrar em rasas, a velocidade cai cerca de 30% nas razões de 1,10 a 1,40 mesmo mantendo a potência.
Fig. 218
Fig. 218 — Estabilidade em linha reta por tipo de navio
Fig. 224
Fig. 224 — Forcas e momento do casco em funcao do angulo de deriva (n=0, r=0)
Fig. 220
Fig. 220 — Overshoots do zigue-zague (graneleiro 70k TPB)

9.4.3–9.4.4 Força lateral & parada

  • Força lateral do propulsor amplificada em rasas (Inoue, 1980, VLCC, coef. de avanço J) — vira força de controle útil com o navio lento (pequenas palhetadas).
  • Inoue: com a queda de h/T, a distância de parada diminui e os desvios laterais aumentam; deriva inicial a boreste alonga a parada.
  • O aumento da distância de parada a partir de velocidade moderada não é regra geral (aliviador de 2 eixos, contêinero e graneleiro Panamax, de 12 nós, podem não aumentar).
Fig. 222
Fig. 222 — Coeficiente da forca lateral do propulsor por razao de profundidade
Fig. 223
Fig. 223 — Coeficiente do momento em yaw induzido pelo propulsor
Fig. 226
Fig. 226 — Distancia de parada, desvio lateral e variacao de aproamento por razao
Fig. 227
Fig. 227 — Efeito do angulo de deriva inicial na parada
Fig. 228
Fig. 228 — Aumento da distancia de parada em aguas rasas
Fig. 229
Fig. 229 — Trajetorias de parada que nao aumentam em aguas rasas (h/T=4,2)
Por que fica lerdo (sluggish)Reação do fluido à aceleração/desaceleração é maior em rasas: massa e momento de inércia adicionais chegam a aumentar de 4 a 5 vezes os valores de águas profundas.
Número-marco: na razão 1,2 com ângulo de deriva de 10°, a força lateral é cerca de cinco vezes maior do que em águas profundas (Bogdanov, 1987). Crescimento fortemente não linear.
Fig. 233
Fig. 233 — Coeficiente de momento em yaw em funcao do angulo de deriva

9.5.1 Por que crescem tanto

Casco = asa de baixa razão de aspecto perto do fundo teoria do corpo duplo: em profundas razão de aspecto efetiva = 2T/L h/T → 1: condição "sem cross flow" junto ao fundo termos lineares de velocidade crescem muito; os quadráticos ficam para trás

Fig. 231
Fig. 231 — Aumento da massa adicional (x, y, z) por razao de profundidade
Fig. 232
Fig. 232 — Coeficiente de forca lateral em funcao do angulo de deriva
Fig. 234
Fig. 234 — Aumento das derivadas lineares hidrodinamicas em aguas rasas

9.5.2 Efetividade do leme

Em rasas a força na asa-leme até aumenta, mas não vira mais eficiência para guinar: o ponto de aplicação caminha para a frente (interação) e diminui o momento (F. Hess, 1977).
Fig. 238
Fig. 238 — Influencia da profundidade nos coeficientes do leme (Hess)
Conclusão de Hess: ao reduzir a profundidade, a força lateral do leme aumenta, mas seu momento em yaw diminui — mais força, menos eficácia para guinar.
PIANCFazer testes em tanque (ou usar dados existentes) para várias razões h/T. Para navios-padrão há metodologias empíricas — o livro traz duas.
§9.6.1 Ankudinov (1997)Corrige os coeficientes lineares do casco em sway e yaw por regressão (subscrito sw = shallow water). Função de B, CB e L.

§9.6.2 Hirano e Takashina

IdeiaEstimar as derivadas lineares em rasas a partir das de profundas via uma "efetiva razão de aspecto do navio".
DerivadaCoef. λ de referência
Força lateral por vel. lateral (Yv′)λ = 2,3
Momento em yaw por vel. lateral (Nv′)λ = 1,7
Momento em yaw por vel. de guinada (Nr′)λ = 0,7
Fig. 239
Fig. 239 — Derivadas hidrodinamicas lineares em funcao da velocidade lateral v
Fig. 242
Fig. 242 — Derivadas hidrodinamicas lineares em funcao da velocidade de guinada r
O que éSquat = mudança da posição vertical do navio em movimento. Ocorre em profundas e é amplificado em rasas. Combina afundamento total + mudança dinâmica de trim.
Fig. 243a
Fig. 243a — Como o campo de pressoes se altera em aguas rasas

§9.7.1a Onde ocorre o squat máximo

  • Mercantes: em geral pela proa, sobretudo formas cheias (petroleiros, graneleiros); formas finas às vezes pela popa.
Regra de Barrass (1979): squat máximo pela popa se CB < 0,7; pela proa se CB > 0,7. Römisch equivale: proa se CB > 0,1·Lpp/B.
Grandes navios: afundamento de 1 a 2 metros a velocidades altas — suficiente para tocar o fundo numa transição abrupta para águas muito rasas.

§9.7.1b Número de Froude de profundidade

Fh = V / √(g·h) fração da velocidade crítica √(g·h) (máxima propagação de perturbação em água rasa)

  • Navios de deslocamento não passam de ~Fh = 0,6 (tanque) ou 0,7 (contêinero).
  • Tuck (1966–67) separou dois regimes: subcrítico (Fh < 1) e supercrítico (Fh > 1).
Descoberta de Tuck: no subcrítico predomina o afundamento; no supercrítico predomina o trim. Resultou numa curva adimensional quase universal, quase independente da forma do casco.

Hipóteses: escoamento incompressível, invíscido e irrotacional (Reynolds ~109, corpo esbelto) → vale a teoria potencial (equação de Laplace). Termo Fh²/√(1−Fh²) cresce sem limite quando Fh → 1.

Universo15 métodos (ordem histórica), todos para águas rasas sem restrição lateral (fairway) (figura 247).
Método (ano)O que o caracteriza
Tuck simplificado (1966)Coef. de forma C1 = 0,02; squat pela proa.
Hooft (1974)Constante típica 1,96 (1,9–2,03).
Huuska e Guliev (1976)Aperfeiçoa Hooft; fator de canal trapezoidal Ks = s1 + 0,76 (s1 = 0,03).
ICORELS (1980)Coef. Cs = 2,4 (formas cheias), até 1,75 (esbeltos).
Barrass I (1979–81)Velocidade em nós, CB, área As = B·T e largura de influência weff.
Norrbin (1986)Squat pela proa, válido para Fh baixo.
Römisch (1989)Squat na proa e na popa; exige a velocidade crítica Vcr.
Millward I / II (1990 / 1992)I: calado T não entra. II: retira B, insere T.
Barrass III (2006)A que melhor acompanha a média para formas cheias.
Ankudinov (2009)Com o USACE; duas partes (afundamento médio + trim). Não vale para Fh > 0,6.

Norrbin: sb = (CB/15)·(B/Lpp)·(T/h)·VK² VK = velocidade em nós

Fig. 247
Fig. 247 — Razao entre calado e profundidade num fairway
Fig. 248
Fig. 248 — Principais dimensoes do navio usadas nas metodologias
Validades que caem em prova: Barrass → proa se CB > 0,7, popa se CB < 0,7; Ankudinov não vale para Fh > 0,6.
ExemploGraneleiro Valemax 2ª geração (calado 24 m, Lpp 350 m, boca 65 m, CB 0,87), razões 1,1 a 1,5.
Conclusão prática: a previsão que mais acompanhou a curva média foi a de Barrass III. Mas a estimativa do squat nunca deve se basear numa só metodologia (os métodos divergem bastante).

§9.7.4 Regime não permanente

  • Métodos valem para velocidade constante em águas rasas abertas.
  • Squat muda em velocidade variável: transição brusca profundas→rasas, aceleração e desaceleração.
Fig. 252
Fig. 252 — Comparacao do squat por metodo (Valemax, h/T=1,4)
Fig. 253
Fig. 253 — Comparacao do squat por metodo (Valemax, h/T=1,5)
Fig. 251
Fig. 251 — Comparacao do squat por metodo (Valemax, h/T=1,3)

§9.7.5 Cálculo numérico/experimental

Recomendação PIANC: se o ângulo de deriva neutro > , usar métodos viscosos (volumes/elementos finitos, turbulência ≥ 2 equações); abaixo de 7°, a teoria potencial basta (base de Tuck).
  • Efeitos de superfície livre (ondas de Kelvin): desprezíveis para Froude < 0,10.
  • Teste experimental: similaridade de Froude; modelo lastreado com tolerâncias apertadas (deslocamento 2%, altura do CG 3%, dimensões 1%). Ensaio de casco livre ou cativo.
Número que cai em prova: ao passar de água salgada para doce, o calado aumenta cerca de 2% a 3% (volume de deslocamento é inversamente proporcional à massa específica).
Trim estático + squatNavio com trim estático pela popa que ganhe squat também pela popa pode ter dificuldade nas curvas (a estabilidade em linha reta aumenta).
  • Barrass (1995): com muito trim inicial, o squat máximo ocorre sempre na direção do trim estático.
  • Harting e Reinking (2009, Weser/Elba): o trim dinâmico é função do calado médio e do trim estático — pode inverter. Em popa transom, o CB pode não ser indicador confiável de squat.
Fundo náutico (PIANC)Nível em que as características físicas do fundo atingem um limite crítico, além do qual o contato com a quilha causaria danos ou efeitos inaceitáveis de manobra.
Reologia × massa específica: portos europeus fixaram massa específica crítica de 1.200 kg/m³ (fácil de medir), mas o comportamento da lama depende mais da sua reologia (fluido/plástico/sólido) do que da massa específica.
Vantorre (Gent)Duas causas sobre lama: (1) propriedades reológicas (forças quando a quilha toca) e (2) ondas internas na interface água/lama (afetam mesmo sem contato).

Velocidade crítica (Vantorre): Ucr = √[ (8/27)·g·h1·(1 − ρ12) ] transição a velocidade mais alta sobre lama mais viscosa

9.8.2 Resistência, propulsão & manobrabilidade

  • Sobre lama valem os mesmos fenômenos do fundo sólido: navio mais lento, inércias adicionais e amortecimento em yaw/sway aumentam, curva de giro cresce, overshoots diminuem, estabilidade de rumo aumenta.
  • Inércia adicional em sway/yaw com quilha penetrando fundo: até 7 vezes a massa do navio (seria preciso acelerar o equivalente a 8× a própria massa).
Fig. 257
Fig. 257 — A interface agua/lama com e sem contato da quilha
Contraintuitivo: penetração limitada em lama de baixa massa específica pode ser preferível a FAQ pequena e positiva acima da interface. Já penetração maior é adversa — navio pode ficar incontrolável.

Há pouca informação confiável sobre fundo lamoso: recomenda-se avaliar cada caso primeiro em modelos físicos em escala reduzida e só depois em modelos numéricos.