🧭 MMPH · Cap.3 — Movimento do Navio em Ondas Regulares

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ProblemaSeakeeping = resposta do navio às ondas. Mar real é irregular; parte-se do mar regular (altura, comprimento e período constantes) → trata-se como oscilação harmônica forçada.
Adota-se a abordagem linear: amplitudes de movimento e de onda divididas pelo comprimento L são pequenas → vale a teoria das pequenas perturbações.

Os 6 graus de liberdade

ÍndiceMovimentoTipo
1 · 2 · 3surge (x) · sway (y) · heave (z)translações
4 · 5 · 6roll (φ) · pitch (θ) · yaw (ψ)rotações

Equação de movimento escrita nos eixos solidários ao navio (não inercial), via 2ª lei de Newton.

Fig. 71
Fig. 71 — Figura 71 — trem de ondas regulares (λ, altura H, celeridade C)
Fig. 72
Fig. 72 — Figura 72 — os 6 graus de liberdade do navio (surge/sway/heave, roll/pitch/yaw)

Frequência de encontro ωe

OrigemMesmo princípio do efeito Doppler: com velocidade do navio, o comprimento aparente da onda muda e o navio "recebe" outra frequência.

ωe = ω(1 − (ωV/g)·cosμ) V = velocidade do navio μ = aproamento relativo onda/navio

Fig. 73
Fig. 73 — Figura 73 — definições SNAME do navio em ondas regulares
  • Mar de través (μ = 90°): cosμ = 0 → ωe = ω.
  • Mar de proa: cosμ negativo → ωe sempre positiva.
  • Mar de popa (following seas): cosμ positivo → ωe sobe, atinge máximo, cruza o zero e fica negativa.
  • Fig. 74
    Fig. 74 — Figura 74 — ângulos de aproamento à onda (proa 180°, popa 0°, través 90°)
Fig. 75
Fig. 75 — Figura 75
Em following seas uma mesma ωe corresponde a duas frequências de onda distintas — não há solução única. ωe positiva aí significa que as ondas ultrapassam o navio.

Ex. (Lloyd): navio a 20 nós (10,3 m/s), mar pela popa, |ωe| = 0,2 rad/s → surgem três ondas fisicamente válidas com igual módulo de ωe. Por alhetas (μ=45°), ondas de 50 a ~400 m têm ωe quase igual (~0,3 rad/s).

Três tipos de movimento segundo a frequência

TipoDescrição
Na frequência da ondaexcitação linear na faixa com energia; em navios cai em períodos de 6 a 20 s.
Deriva médiacarregamento permanente de 2ª ordem; nula no plano vertical; no horizontal (surge/sway/yaw) o navio abate (sem restauração).
Deriva lentasó em mar irregular; frequências muito baixas ligadas ao grupo de ondas; excursões lentas mas de grande amplitude.

Abordagem por um grau de liberdade

  • heave, pitch e roll são fortemente acoplados (roll→heave, pitch→heave); têm forças de restauração hidrostáticas.
  • surge, sway e yaw: não têm forças de restauração; pesam menos na oscilação; sway e yaw sofrem mais a deriva das ondas.
  • Simetria longitudinal desacopla: força em x não produz sway.
Broaching: com mar de ré + baixa frequência de encontro, embarcações de baixa altura metacêntrica podem ficar atravessadas às ondas — risco de emborcar.

Navio parado, forçado para baixo e solto: empuxo > peso → sobe; inércia → passa do equilíbrio; peso > empuxo → freia. Movimento harmônico simples (sem amortecimento).

Força de restauração hidrostática

cr = ρg·Awp Awp = L·B·Cwp (área de flutuação) mesmo conceito do TPC (toneladas por centímetro de imersão)

Fig. 79
Fig. 79 — Figura 79

Massa adicional & massa virtual

Massa adicional a33Ao acelerar o navio acelera-se também fluido junto ao casco, que reage. NÃO é massa acrescentada — é uma força de resistência do fluido; se aceleração = 0, a33 = 0.
Massa virtual = Δ + a33 (massa do navio + massa adicional). a33 é da mesma ordem de grandeza da massa do navio → determiná-la é decisivo.

Frequência e período naturais

ωnz = √( ρg·Awp / (Δ + a33) ) Tnz = 2π·√( (Δ+a33) / ρg·Awp )

Fig. 81
Fig. 81 — Figura 81 — movimento harmônico simples: fasor projetado na senoide
Menor área de flutuação → maior período natural. Por isso semissubmersíveis e navios Swath (small waterplane area twin hull) sofrem pouco a ressonância com as ondas dominantes.
AmortecimentoQuando importa
Potencial (ondas irradiadas)velocidadedomina em pequenos deslocamentos
Viscoso (camada-limite, vórtices)velocidade²só em grande amplitude (desprezível no heave linear)

O discriminante decide o regime

DiscriminanteRaízesRegime
< 0complexas conjugadassubamortecido (oscila)
= 0reais iguaiscrítico (não oscila)
> 0reais distintassuperamortecido (não oscila)
Fig. 82
Fig. 82 — Figura 82
No navio o amortecimento é sempre menor que a massa virtual → discriminante sempre < 0 → o movimento é sempre subamortecido (decaimento exponencial oscilatório).

Razão de amortecimento ξ (adimensional)

ξ = b33 / bcrit bcrit = 2·√((Δ+a33)·c33) reúne massa, amortecimento e restauração

Fig. 83
Fig. 83 — Figura 83
Ordem de ξno navio, ~10⁻¹ em heave e ~10⁻² em roll.
RAOResponse Amplitude Operator = razão entre amplitude de resposta do navio e amplitude da força/onda (fator de amplificação dinâmica).
Amplitude znF0 no numerador (maior força → maior movimento); amortecimento γ no denominador (maior amortecimento → menor amplitude).

As três regiões

RegiãoFrequênciaDominaFase / movimento
1baixa (λ > L)restauraçãoem fase → navio sobe/desce com a onda
2≈ natural (ressonância)amortecimentofase π/2; movimento máximo
3alta (λ < L)inércia + massa adicionaloposição (fase π); quase sem movimento
Fig. 84Fig. 84
Fig. 84 — Figura 84
Na Região 3, com inércia dominando, quando a onda sobe o navio desce — risco por redução de borda livre. Períodos inferiores a 6 s não produzem movimento vertical no navio.
A Região 2 é a mais importante: em heave e roll o período natural fica entre 10 e 17 s — sem amortecimento a amplitude iria ao infinito.

Navio × rebocador: efeitos opostos

  • Período < 6 s: navio na Região 3 (calmo), rebocador na Região 1 → sobe/desce (crítico).
  • Período > 10 s: inverte — navio vai à Região 2 (crítica), rebocador fica na Região 1.
Fig. 85
Fig. 85 — Figura 85
Fig. 86
Fig. 86 — Figura 86

A frequência de amplitude máxima ωmáx fica um pouco abaixo de ωns; quanto maior o amortecimento, mais à esquerda da natural.

Fig. 89
Fig. 89 — Figura 89 — resposta em frequência R(ω) — amortecimento sub/crítico/supercrítico
ForçaOrigemChave
Froude-Krylov (F1)pressão da onda incidentehipótese do navio "transparente"/"fantasma" (casco não perturba a onda)
Difração (F0)onda desviada pelo casco fixo (impenetrabilidade)onda é difratada, não refletida
Radiação (FR)ondas que o casco irradia ao oscilarFR = −a·z̈ − b·ż (aceleração + velocidade)
Restauração (FS)variação da força hidrostáticaFS = −c33·z

Histórico: Froude (1861) tratou do roll dos vapores; Krylov (1896), heave e pitch — ambos usando só a pressão do campo incidente não perturbado.

Força de excitação total = difração + Froude-Krylov: FE = F1 + F0.
Armadilha: a força de restauração não é a hidrostática total — é a diferença deslocamento−empuxo instantânea. O coeficiente c33 existe só para o heave.

Equação de movimento do heave (1 GdL)

(Δ + az)·z̈ + bz·ż + cz·z = FE forma massa-mola-amortecedor forçada

Reunindo as quatro forças: Δ·z̈ = F1 + F0 + FR + FS. Toda a dificuldade está em obter os termos hidrodinâmicos a, b e FE. Num submarino totalmente submerso resta só a parcela proporcional à aceleração.

Depende dea1 e b1 não são constantes: dependem da frequência de encontro ωe (logo de μ, ω e velocidade). Limite útil: quando ω → ∞ o corpo não irradia ondas e a massa adicional independe da frequência.

Conceito proposto por Du Buat (1786): pêndulo oscila mais devagar no fluido. Esfera exata: Poisson (1831), confirmada por Green (1833). Esfera: ax = (2/3)·ρπR³. Termo só em velocidade dá zero → paradoxo de D'Alembert.

TeoriaAutorHipótese
Corpo finoMichell (1898)boca ≪ comprimento (ε=f(y)); serve à resistência, não à massa adicional
Corpo esbeltoMunk (1924)calado ~ boca, ambos ≪ L (ε=f(y,z))
Coef. de LewisLewis (1929)vibração de alta frequência + mapeamento conforme de Joukowski; σ = A/(B·T)
SeparaçãoHaskind (1946)separou radiação, difração e incidência
Teoria das faixasUrsell (1949)divide o casco em ~20 seções 2D e integra ao longo de L
Strip theory: reduz o problema 3D a uma sucessão de problemas 2D. a33 total = integral seccional de a332D(x) ao longo do comprimento. Korvin-Kroukovsky & Jacobs (1957) incluíram velocidade e ωe.

Ex. Bhattacharya: a33 = 86% da massa do navio. De modo geral a33 aumenta com o coeficiente de bloco CB e com B/L.

Fig. 99
Fig. 99 — Figura 99 — integração seccional do casco
Fig. 100
Fig. 100 — Figura 100
Fig. 103
Fig. 103 — Figura 103 — teoria das faixas (strip theory)
Fig. 105
Fig. 105 — Figura 105 — coeficiente de massa adicional C (formas de Grim) — família por B/T e βₙ (multipainel)
Limitações da strip theory: só corpos esbeltos (L/B > 3); despreza viscosidade; falha em baixas frequências com mar de ré (contornada forçando a excitação a zero); ignora ondas divergentes em Froude > 0,4.
Origem físicaDissipação de energia pelas ondas irradiadas; força ∝ velocidade vertical (F = bij·ż). O valor sai da conservação de energia: trabalho do casco = energia carregada pelas ondas irradiadas.
Fig. 108
Fig. 108 — Figura 108 — massa adicional adimensional Ā — família por B/T e βₙ (multipainel)
No plano horizontal de navios mercantes o amortecimento dominante é viscoso (ausente na teoria potencial); o amortecimento por ondas só pesa aí para Froude > 0,30.
bij tende a zero nos dois extremos de frequência: oscilação muito lenta quase não irradia onda; muito rápida gera ondas desprezíveis. É decisivo na ressonância (limita a amplitude); longe dela governa a fase.

Conclusões de testes

  • Amortecimento em heave ∝ ao quadrado da área do plano de flutuação.
  • Seções em V amortecem mais que seções em U para igual área de flutuação.
  • Quanto maior a velocidade de avanço, menor o amortecimento em heave (figuras 110 e 111).
Fig. 110
Fig. 110 — Figura 110 — amortecimento de arfagem vs frequência (L/B, B/T, C_B)
Efeito SmithFator exponencial de decaimento com a profundidade, e−kT: a pressão da onda sobre o casco diminui à medida que o calado T aumenta. Documentado por W. E. Smith (1883).
RAOFunção de transferência = razão entre amplitude do movimento e amplitude da onda (com o fator e−kT).

Comportamento típico (3 regimes)

FrequênciaRAOResposta
→ 0 (ondas longas)RAO = 1navio acompanha a onda em heave
≈ naturalmáximomovimento máximo
alta (ondas curtas)→ 0quase não responde
Maior amplitude de resposta com mar pelo través (todo o navio acompanha a onda; resposta pode superar a própria onda); menor resposta com mar de vante. Pico um pouco antes da frequência natural.

Notação complexa (z = ẑ·e−iωt): cada derivação temporal vira apenas um fator → a equação diferencial vira produto algébrico. O movimento do navio fica sempre atrasado em relação à onda e à força.

Fig. 115
Fig. 115 — Figura 115
Definiçãopitch θ(t) = rotação em torno do eixo y; movimento com restauração (momento que se opõe ao afastamento, linear para pequenos ângulos).

c55 = −Δg·GML raio de giração kyy = 0,24L a 0,26L momento de inércia virtual = Iyy + a55

Momento adicional a55 é da mesma ordem do próprio (cy ≈ 1) — constatado por Gerritsma. Período natural: navio de 300 m ≈ 12 s; de 200 m ≈ 10 s.
Com mar de través (μ→π/2) o pitch é nulo em qualquer frequência. A excitação se anula em razões L/λ ≈ 1,5; 2,5; 3,5 (cristas e cavados equilibrados, sem trim) e tem pico em L/λ ≈ 0,5.

Amortecimento vem sobretudo da irradiação de ondas; b55 via teoria das faixas. Resposta máxima com mar de proa.

Definiçãoroll φ(t) = rotação em torno do eixo x; restauração linear via GMT.
Roll produz poucas ondas e dissipa pouca energia → amortecimento potencial é insuficiente. É obrigatório incluir amortecimento viscoso (efeitos não lineares + apêndices como quilhas de balanço). A teoria do potencial, boa para heave e pitch, falha no roll.
  • Raio de giração kxx = 0,4B; momento de inércia Ixx ≈ 0,16·ρ∇B².
  • Momento adicional em roll é pequeno: 10 a 20% do natural → adota-se a44 = 0,15·Ixx.
  • Projeto (Japão): GMT = C1·B/25, com C1 = 1.
EmbarcaçãoPeríodo natural de roll
Navios mercantes10 a 17 s
Rebocadores / offshore5 a 7 s

Precisão do período de roll depende essencialmente da estimativa de GMT. Momento de excitação obtido pela relação de Haskind (evita resolver a difração explicitamente).

Fig. 129
Fig. 129 — Figura 129 — amplitude do momento de excitação |F₀| vs frequência (fases μ)
Fig. 130
Fig. 130 — Figura 130 (multipainel)
surge, sway e yaw: não possuem restauração — as equações reaproveitam as formulações anteriores retirando os termos de restauração. Coeficientes corrigidos para ωe combinando valores do navio parado com termos em V.

Heave–pitch acoplado

AutoresFormulado em 1957 por Korvin-Kroukovsky & Winnifred R. Jacobs (Stevens Institute). Duas equações que trocam energia por coeficientes cruzados dos índices 3 (heave) e 5 (pitch).

Sway–roll–yaw acoplado

Sistema 3×3Índices 2 (sway), 4 (roll) e 6 (yaw), ligados pelo produto Δzg (CG acima da linha das forças hidrodinâmicas).
No sistema sway–roll–yaw, só o roll (índice 4) tem restauração (via c44·φ). Solução por autovalores ou pelos agrupamentos P…X do determinante.