🧭 MMPH · Cap.4 — O Mar Irregular e Confuso

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Os dois "mares"

TipoComo é
irregularondas de alturas e períodos variados numa mesma direção
confusotrens de onda de direções diferentes superpostos
O mar real não é onda regular: descreve-se por estatística, via espectro do mar — não por forma determinística.

Marcos históricos (a virada estatística)

  • Rayleigh: a lei básica do mar seria a aparente falta de qualquer lei → saída pela análise espectral (raiz em Fourier).
  • Sverdrup e Munk (1947): introduzem a altura significativa e um período médio p/ ondas de vento aleatórias.
  • Longuet-Higgins (1952): alturas estatisticamente independentes; máximos seguem a distribuição de Rayleigh.
  • St. Denis e Pierson (1953): aplicam o princípio da superposição ao movimento do navio em mar irregular.
Resposta do navio a mar irregular = soma das respostas a ondas regulares, sobre todas as frequências.
Só os histogramas de altura (Fig. 132) e de período (Fig. 133) não relacionam altura × período: p/ um mesmo período há várias alturas, e vice-versa.

Sinal irregular → soma de senoides

FourierA amplitude no tempo é um sinal irregular escrito por série de Fourier como somatório de ondas regulares no domínio da frequência.

ζ(t) = a0 + Σ aicos ωit + Σ bisin ωit forma equivalente em fase aleatória ζ(t) = a0 + Σ āicos(ωit − δi)

SuperposiçãoOndas lineares → basta somar as componentes: ζ123 = ζ(t) já resulta visivelmente irregular (Fig. 134).
Análise reversa: do sinal ζ(t) no tempo recupera-se cada onda regular geradora — escolhe-se ω, obtém-se a amplitude a(ω), e a fase ε diz se começa por crista ou cavado.
Fig. 131
Fig. 131 — Figura 131 — série temporal da elevação da superfície do mar
Fig. 132
Fig. 132 — Figura 132
Fig. 133
Fig. 133 — Figura 133 (multipainel)
Fig. 134
Fig. 134 — Figura 134
MarDimensãoGeração
irregularbidimensionalvento sobre grande área, cristas contínuas na direção do vento
confusotridimensionalcruzamento de ondas de tempestades de direções diferentes (Fig. 135)
O confuso é o mais comum na natureza; mas admite-se que o irregular bidimensional tenha efeito máximo sobre um corpo dentro dele.

A energia define o mar

ChaveNão se define pela forma (nunca repete o padrão). Define-se pela energia total por m² = soma das energias das pequenas ondas.

Energia da onda regular (Cap. 1) = ρg·h²/8 por m² total E = (ρg/S)·⅛·(h1²+h2²+…) soma dos quadrados das alturas

O espectro

  • Espectro do mar = energia distribuída segundo as frequências das ondas (ordenada = energia por unidade de frequência; área = energia total).
  • Fig. 137
    Fig. 137 — Figura 137 — espectro de energia (histograma e curva de densidade) (multipainel)
  • Exige continuidade: mar = número infinito de ondas de frequências ligeiramente diferentes e alturas pequenas → curva suave (Fig. 138). Poucas ondas fariam o padrão repetir em grupos.
  • Construído da alta frequência (ondas curtas) p/ baixa: com o vento persistindo surgem ondas mais longas até o mar totalmente desenvolvido; o pico desloca-se p/ as baixas frequências.
  • Fig. 139
    Fig. 139 — Figura 139 — densidade espectral do mar (mar desenvolvido e parcial)
Fig. 135
Fig. 135 — Figura 135
Fig. 138
Fig. 138 — Figura 138 (multipainel)
PremissaSuperfície = muitas senoides de frequências próximas de um ω comum = mar de banda estreita. Período contado por duas passagens sucessivas pelo zero (Fig. 140).

Distribuição de Rayleigh (Longuet-Higgins, 1952)

P(h ≥ hi) = e−(hi/hrms hrms = valor quadrático médio (eficaz) = √(⅟M Σ hi²)

Alturas médias característicasintegrando a distribuição (Fig. 143):
AlturaValor
média geral (p=1)= 0,886 hrms
terço mais alto h1/3= 1,416 hrms = √2 hrms
décimo mais alto h1/10= 1,80 hrms
Altura significativa = média do terço (1/3) mais alto das ondas — parâmetro mais comum p/ definir a altura do mar (origem no "olhar marinheiro": reporta as maiores).
Rayleigh vale com precisão só p/ espectro estreito, e p/ a amplitude acima/abaixo do nível não perturbado (não p/ altura crista-a-cavado). Ainda assim dá excelente correlação, com precisão de engenharia, seja qual for a forma do espectro.
O espectro é estatístico, não determinístico: prevê com que frequência ocorrem alturas, mas NÃO prevê a próxima onda nem o padrão instantâneo.
EstatísticaDefinição
H mais provável (moda)altura de maior frequência de ocorrência
H médiomédia de todas as alturas
H significativa (H1/3)média do terço mais alto; 4√m0
H1/10média do décimo mais alto
Fig. 140
Fig. 140 — Figura 140
Fig. 143
Fig. 143 — Figura 143 — distribuição das alturas de onda (H médio, significativo, 1/10, 1/3)

Bretschneider (1959) — dois parâmetros

  • Função teórica mais referida; enfatizou relações de período (não de frequência). Forma: S(T) = αT³e−βT⁴.
  • Frequência de pico ω0 = (3/5)¼(2π/Tp)NÃO é o recíproco do período de pico.
  • Vários períodos-padrão: modal T0; médio T1 ≈ 0,857 T0; T2 (passagem por zero) ≈ 0,710 T0; entre cristas Tc.

Área do espectro ↔ altura significativa

Na escala quase universal (ordenada = ½ da amplitude²), a área = variância σ² = momento de ordem zero m0: E = σ² = Hs²/16Hs = 4√m0.
Outras escalasSt. Denis–Pierson: E=Hs²/8 · Bretschneider: E=hrms²=Hs²/2 · dobro dos quadrados: E=Hs².

ISSC (1964) e ITTC (1978)

Ambos derivam da altura/período médios e reduzem-se, na prática, ao próprio espectro de Bretschneider (constante 5/16 = 0,3125).

Pierson-Moskowitz (1964)

  • Sobre o formato de Neumann (1953), agora dimensionalmente correto: S(ω) = 0,0081·g²·ω−5·e−(5/4)(ω0/ω)⁴.
  • Constante de Phillips α = 0,0081 (faixa de equilíbrio, limite superior independente do vento e da pista).
  • Espectro de apenas um parâmetro (T1 ou ω0); uso restrito a mar totalmente desenvolvido, vento moderado sobre pista muito extensa.
"PM modificado" = o mesmo espectro de dois parâmetros de Bretschneider — que aliás precede o PM clássico.

JONSWAP (1973)

  • Joint Sea Wave Project, sob Hasselman e Barnett: sensores por ~160 km a oeste da costa alemã (Mar do Norte).
  • = Pierson-Moskowitz × fator de pico; γ = fator de realce (aprimoramento) do pico; σ = alargamento (σa se f<f0, σb se f>f0).
  • Valores médios do experimento: α=0,0081, γ=3,3, σa=0,07, σb=0,09. Em geral γ varia de 1 a 7.
  • Picos acentuados são comuns no Mar do Norte, com pouca tendência de "achatamento" rumo ao PM — a ponto de se questionar se o mar totalmente desenvolvido chega a ocorrer.
EspectroParâmetrosCondição de mar
Bretschneider / ISSC / ITTC2 (energia ou Hs + período de pico)totalmente desenvolvido
Pierson-Moskowitz1 (velocidade do vento)totalmente desenvolvido pelo vento
PM modificado2 (ajuste a dados)estados de mar reais
JONSWAPPM + realce de pico γpista (fetch) ou duração limitada
Fig. 144
Fig. 144 — Figura 144
Momento espectralmn = ∫0 ωn S(ω) dω — integral do espectro ponderado por ωn.
MomentoCaracteriza
tendência central
dispersão
assimetria
curtose
Momento de ordem zero m0 = variância das alturas ⇒ h1²/16 = m0h1 = 4√m0.
Frequência médiaω̄ = m1/m0 ⇒ período recíproco T1 = 2π/ω̄.

T1: m0, m1 T2 (cruzamento por zero): (T2/2π)² = m0/m2 Tc (entre cristas): (Tc/2π)² = m2/m4

Para p=5, q=4, todas as relações reduzem-se às do espectro de dois parâmetros; todos os mn têm forma fechada (função gama) — sem integração numérica.

Mesmo princípio das ondas: obtém-se o movimento do navio ao quadrado = soma dos quadrados dos movimentos regulares numa frequência. Vantagem: um mesmo espectro de mar gera diferentes espectros de resposta de diferentes navios.

Três formas de avaliar a resposta

teoria hidrodinâmicatestes de modelo em tanquemedições em escala real no mar

O elo: RAO²

RAOResponse amplitude operator = quadrado da função transferência (método do Cap. 3). Multiplica-se a altura espectral pelo RAO² na mesma frequência.

SR(ω) = |RAO(ω)|² · S(ω) espectro de resposta = espectro do mar × RAO² em cada frequência

Sequência (heave)

  • Escolher espectro de mar — recomenda-se o ITTC quando nenhum outro tiver sido escolhido.
  • Transformar da frequência absoluta p/ a frequência de encontro, preservando a área (energia constante): Sζe) = Sζ(ω)·g/(g − V·cos μ); largura depende de V e do rumo relativo μ.
  • Da área do espectro de resposta vêm as características do movimento: m0=variância do deslocamento, m2=da velocidade, m4=da aceleração.
Deslocamento significativo da resposta: ηs = 4√m0 (mesma forma da altura significativa); frequência média ω̄ = m1/m0.
Fig. 148
Fig. 148 — Figura 148 — espectro de resposta / encontro Sζ(ωe) com pico deslocante
Fig. 150
Fig. 150 — Figura 150
Por quêP/ calcular as forças sobre o navio, leva-se o resultado da frequência ao tempo por dois conceitos: resposta ao impulso + integrais de convolução.

Impulso e delta de Dirac

2ª lei F = Ṗ integrando, impulso I = ∫F dt = P1 − P2 Δt→0: força impulsiva F = I·δ(t−τ) (delta de Dirac)

Convolução

Resposta ao impulsoForça unitária → resposta g(t) que só perdura p/ t > τ. Força arbitrária = sucessão de impulsos → resposta total:

g(t) = ∫0t f(τ)·r(t−τ) dτ integral de convolução (força × resposta ao impulso)

Cummins (1962) — força das ondas no tempo

  • Equação de movimento em 6 graus de liberdade: reúne excitação, massa adicional aij, amortecimento bij e restauração cij.
  • Não se isola a aceleração instantânea (há termos fora de fase desconhecidos). Cummins separa o escoamento em reação instantânea + parcela que persiste e decai.
  • Essa parcela = convolução com a função de memória (retardação) Kij. Como bij(ω) é a transformada de Fourier em cosseno de Kij, é preciso o amortecimento em todas as frequências p/ reconstruir a resposta no tempo.
Fig. 152
Fig. 152 — Figura 152
DefiniçãoValor extremo = o maior entre os máximos que podem ocorrer durante um número de observações ou um intervalo de tempo (Fig. 155).

Por que os extremos importam

SituaçãoRisco
green water no convéscompromete estabilidade transversal intacta (águas profundas)
roll rápido e amplolança contêineres à água; carga a granel corre além do ângulo de repouso
aceleração vertical 0,10 a 0,20 glimite p/ enjoo em navios de passageiros
mar de proa / slammingobriga a reduzir velocidade
águas rasasprobabilidade de tocar o fundo → margem de UKC (folga abaixo da quilha)

Método de Ochi

  • Numa distribuição de Rayleigh, p/ largura de banda ε ≤ 0,9 (faixa que atende à análise de movimento do navio), a amplitude do extremo é dada em função do nº de observações n.
  • Como interessa mais o extremo em função do tempo T (horas), exprime-se n via razões de momentos m2/m0 e m4/m2.
  • Resultado: fator de pico × desvio-padrão √m0 — o termo entre colchetes elevado a ½ é o fator de pico.
Esses extremos vêm de previsões estatísticas da teoria linear: não valem em mar extremo, mas atendem à maioria das condições operacionais do navio.
Fig. 155
Fig. 155 — Figura 155
Fig. 156
Fig. 156 — Figura 156 — valores extremos da amplitude em função do número de ciclos N