AN Cap. 3 — Classificação dos Navios

1. Visão geral

Fonte: FONSECA, Maurílio M. Arte Naval. v. 1. 8. ed. Rio de Janeiro: Marinha do Brasil, 2019. Cap. 3.

Edital: Anexo 2-A, item II.8 — Classificação dos navios.

Este capítulo organiza o universo das embarcações em grandes famílias. O Fonseca abre com uma classificação geral por três critérios (fim a que se destinam, material do casco e sistema de propulsão) e, em seguida, desce ao detalhe de cada grande grupo: navios de guerra (Seção B), navios hidroceanográficos (Seção C), navios mercantes (Seção D), embarcações e navios em geral — recreio, serviços especiais, material e propulsão (Seção E) e, por fim, aerobarcos e veículos sobre colchão de ar (Seção F).

Para o prático, dominar essa tipologia é saber, de imediato, com que tipo de navio se vai lidar: a forma do casco, o calado típico, a manobrabilidade, a presença de propulsor lateral, o sistema de propulsão e as restrições operacionais decorrem da classe a que o navio pertence.

Memorize a espinha do capítulo pelas seis Seções (A a F): A geral; B guerra; C hidroceanográficos; D mercantes; E embarcações em geral (material e propulsão); F aerobarcos/VCA.
Limite de fonte (transparência de escopo): este material cobre o item II.8 do Anexo 2-A com base exclusivamente no Fonseca Arte Naval (Cap. 3), que é qualitativo. Os parâmetros operacionais comerciais dos itens II.30.2 (tipos de navios mercantes com dados de projeto) e II.30.5 (faixas de DWT, GT/TEU, LOA, boca e calado por classe comercial), bem como o tratamento detalhado pelo PIANC (Anexo 2-B, item II.13), não constam do Fonseca e, por decisão de fidelidade à fonte única, não são incluídos aqui — devem ser estudados nas fontes próprias.

2. Classificação geral (Seção A)

Os navios e embarcações menores podem ser classificados, de modo geral, por três critérios principais (art. 3.1).

CritérioCategorias
Quanto ao fim a que se destinam(1) de guerra; (2) hidroceanográficos; (3) mercantes; (4) de recreio; (5) de serviços especiais.
Quanto ao material de construção do casco(1) de madeira; (2) de ferro ou de aço; (3) de plástico reforçado com fibra de vidro; (4) de ferro cimento.
Quanto ao sistema de propulsão(1) a vela; (2) a remos; (3) propulsão mecânica; (4) sem propulsão.

As Seções seguintes desenvolvem cada família. As Seções B a D detalham o critério do fim (guerra, hidroceanográficos, mercantes); a Seção E retoma os critérios de material do casco e de propulsão; a Seção F trata das embarcações de alta velocidade que escapam à forma clássica de casco.

3. Navios de guerra (Seção B)

3.1 Generalidades

Navio de guerra: navio construído especialmente para conduzir campanhas navais ou que esteja sob comando militar, arvorando flâmula ou pavilhão e a bandeira do país a que pertence (art. 3.2).

Os navios de guerra classificam-se em navios de combate e navios auxiliares. Os de combate destinam-se a ações ofensivas, dotados de armas capazes de infligir ao inimigo o maior dano possível. Os auxiliares são todos os empregados no suprimento, manutenção e reparo dos demais navios de guerra e instalações navais, transporte de tropas, remoção de feridos etc.; em geral, designados de acordo com o emprego.

Tênder: navio que serve como base a determinada classe de navios, com oficinas para reparos, paióis de sobressalentes, suprimentos e alojamentos para as tripulações desses navios.

Antigamente, na disposição clássica de uma Esquadra para batalha, os navios mais poderosos constituíam a linha de batalha, daí a denominação de navios de linha dada aos encouraçados e cruzadores de batalha; cruzadores pesados e leves, contratorpedeiros e demais navios menores eram os navios ligeiros (menos armados e protegidos, mas de grande velocidade e mobilidade). Porta-aviões e submarinos constituíam grupos à parte.

Não usar como classificação geral hoje: as expressões navios de linha e navios ligeiros ainda podem ser citadas, mas não devem constituir base para uma classificação geral de todos os navios de combate. Aviões e mísseis tornaram ilimitadas as distâncias de combate, e não é provável que Forças Navais modernas se defrontem em linha de batalha.

Na Segunda Guerra Mundial, a unidade básica de combate foi a Força-Tarefa (FT), força especialmente organizada para cumprir determinada tarefa; como a tarefa pode variar, varia também a composição da FT, que não é, portanto, de constituição padronizada.

A propulsão nuclear trouxe aumento extraordinário de velocidade e autonomia praticamente ilimitada. Nos submarinos, nada (a não ser a fadiga da tripulação) os obriga a vir à superfície. Nos navios de superfície nucleares, eliminaram-se chaminé, admissões de ar e grandes tanques de combustível; reduziram-se superestruturas, permitindo novos equipamentos eletrônicos e grandes antenas de radar, e os navios podem manter-se totalmente fechados, reduzindo a vulnerabilidade e o perigo de contaminação por agentes biológicos e radioativos.

Os navios modernos não têm grandes canhões: quase todos são armados com mísseis e canhões automáticos de pequeno calibre e tiro rápido, podendo transportar bombas antissubmarino, torpedos, minas e helicópteros. A bateria principal é constituída por mísseis superfície-superfície ou superfície-ar.

Classificação fluida: não se pode mais estabelecer uma classificação rígida de navios de guerra. Incluir um navio ligeiro como cruzador leve, fragata ou contratorpedeiro depende de classificação arbitrária da Marinha de cada país — não há linha divisória entre deslocamento, armamento e velocidade, e cada navio tem hoje funções múltiplas. Quanto à propulsão, todos os tipos são empregados: turbina a vapor, turbina a gás, motores diesel de alta velocidade e propulsão nuclear.

3.2 Porta-Aviões e Navio-Aeródromo (NAe)

Os porta-aviões são navios dotados de capacidade de transportar aeronaves de asa fixa ou rotativas, tripuladas ou não (VANT), com convés capaz de efetuar o lançamento dessas aeronaves. Há algum tempo foram substituídos pelos NAe (art. 3.3).

NAe (Navio-Aeródromo): navio capaz de transportar, lançar, recolher e, após procedimentos de rotação, lançar novamente aeronaves de asa fixa e rotativas, tripuladas ou não. Leva a aviação a áreas distantes sem pistas terrestres utilizáveis e deve operar, manter, abastecer e reparar as aeronaves com rapidez e eficiência.

Um NAe é, quase sempre, parte integrante de uma FT. As tarefas das aeronaves embarcadas são: (1) patrulha e observação de Forças Navais de superfície, submarinos e aeronaves inimigas; (2) ataques a Forças Navais, navios isolados e instalações de terra; (3) proteção do próprio navio, de suas aeronaves ou de outros navios contra a aviação adversária; e (4) busca e ataque a submarinos.

Estrutura característica

A principal característica estrutural é o grande Convés de Voo corrido, sem obstruções, servindo para pista e espotagem das aeronaves. Todas as instalações que devem estar no passadiço, ou próximas dele, concentram-se numa superestrutura lateral, tão estreita quanto possível, em geral a boreste, chamada Ilha. Cobertas abaixo ficam as instalações de manutenção; a primeira coberta é o hangar. Hangares e oficinas exigem grandes espaços livres de obstruções; por isso não se encontram pés-de-carneiro, predominando a estrutura transversal, como nos navios-tanques.

Há dois ou três elevadores grandes e rápidos (1/4 a 1/3 da largura do convés). O convés de voo é reforçado para receber aviões a jato mais pesados, tornando-se o convés resistente do navio, em alguns casos encouraçado; é um convés em ângulo, permitindo que os aviões desçam a 8 a 10 graus para bombordo da linha de centro, de modo que o avião possa decolar novamente caso não pegue o cabo do aparelho de parada, sem pôr em perigo o lançamento de outros aviões na proa — fainas de lançamento e recolhimento simultâneas. Catapulta e sistema de espelhos para orientar o pouso reduziram o tempo de lançamento e tornaram as descidas mais seguras.

Os NAe desenvolvem grandes velocidades e têm boa estabilidade de plataforma; nas operações o navio mantém a proa na direção de onde vem o vento, com velocidade suficiente para um vento aparente no convés de cerca de 30 nós.

Vulnerabilidade: a proteção de couraça é bem menor que a dos encouraçados e cruzadores; a proteção subaquática é a qualidade mais deficiente. O grande convés elevado é um alvo maior que o de qualquer navio de igual deslocamento, e os NAe transportam grande quantidade de gasolina de aviação, bombas e artefatos — inflamáveis perigosos. São navios de grande poder ofensivo que precisam de cobertura de outros navios e de seus próprios aviões de caça.

Histórico: a primeira decolagem de avião de rodas em navio foi feita por Eugene Ely, em 1910, no cruzador americano Birmingham. O primeiro navio de guerra a usar catapulta foi o americano North Carolina (1916). O precursor dos primeiros porta-aviões, com convés grande e safo, foi o inglês Argus (1918); em 1922 surgiram os primeiros aparelhos de parada no pouso.

Tipos: não há padronização — cada Marinha adota um sistema. De modo geral, dividem-se em grandes NAe (convencionais ou nucleares, como o norte-americano Classe Gerald R. Ford, o francês Charles De Gaulle — único NAe nuclear não-americano —, o chinês Liaoning e o russo Admiral Kuznetzov) e pequenos NAe (como o italiano Giuseppe Garibaldi e o tailandês Chakri Narubet, que operam aviões VSTOL da família Harrier). O Minas Gerais, desativado em outubro de 2001, foi o último de sua classe, com aviões convencionais leves Skyhawk A-4 (designados AF-1 na Marinha brasileira).

3.3 Porta-Helicópteros

São navios projetados para realizar operações de lançamento e recolhimento de helicópteros (art. 3.4). Na sua grande maioria, também são navios com capacidade de realizar Operações Anfíbias. Classes como os USS Wasp e USS America possuem hangares de serviço completo, grande convés para veículos militares, acomodações para centenas de tropas e embarcações de desembarque.

A Marinha do Brasil adquiriu em 2018 o Porta-Helicópteros Multipropósito Atlântico (PHM Atlântico A140), antigo HMS Ocean da Marinha britânica, capaz de operar simultaneamente até sete aeronaves em seu convés de voo, podendo utilizar todos os tipos de helicópteros dos Esquadrões da Marinha do Brasil (Seahawk SH-16, Cougar UH-15 A/B, Lynx AH-11B, Esquilo UH-12/13, Bell Jet Ranger III IH-6B e Super Puma UH-14).

PHM Atlântico — característicaValor
Deslocamento (plena carga)22.107 toneladas
Comprimento203,43 metros
Boca34,4 metros
Calado6,6 metros
Tripulação491 (206 DAE) militares
Capacidade de tropa830 militares
Aeronaves embarcadas18 helicópteros
Convés de voo170 x 31,7 metros
Fig. 3-2
Fig. 3-2 Fig. 3-2 — PHM Atlântico

3.4 Submarinos (S)

Submarino: navio capaz de realizar imersão de forma controlada, operando predominantemente abaixo da superfície do mar (art. 3.5). Tem grande capacidade de ocultação quando imerso, relativa independência do ambiente e mobilidade tridimensional, conferindo a vantagem da iniciativa ao aproximar-se do inimigo sem ser detectado.

Possui grande raio de ação, elevada capacidade de detecção e grande poder de destruição (torpedos, mísseis de cruzeiro e antinavio). Em contrapartida, os submarinos convencionais têm reduzida velocidade de cruzeiro (< 8 nós), dificuldades de comunicações e reduzida capacidade de armazenamento de armamento. São empregados principalmente em ataque ao tráfego marítimo e às Forças Navais, operando geralmente isolados; também em coleta de dados, reconhecimento de costa hostil e lançamento/recolhimento de Forças Especiais.

Classificação

Dividem-se em dois grandes grupos:

GrupoSubtipoEmprego
Nucleares (energia de reator)SSN — nucleares de ataquetarefas similares aos convencionais
SSBN — nucleares lançadores de mísseis estratégicoselemento das forças estratégicas de dissuasão
Convencionais (baterias)diesel-gerador via esnórquel; ou AIP (motor Stirling de circuito fechado, células de combustível)ataque ao tráfego e às Forças Navais
AIP não dispensa o esnórquel: a propulsão independente do ar carrega as baterias sem esnórquel, mas sua autonomia é limitada a algumas semanas; findo esse prazo, o submarino passa a operar como convencional clássico com baterias alimentadas pelo conjunto diesel-gerador.

Características físicas principais

São constituídos por um casco resistente, capaz de suportar a pressão da coluna d\'água, de seção circular ou quase circular, com forma assemelhada à de um charuto. No casco duplo, o casco resistente é circundado por um casco exterior; o espaço entre eles abriga tanques de lastro e de óleo combustível. No casco simples, geralmente apenas os tanques de lastro são externos ao casco resistente.

Os Tanques de Lastro (TL) têm válvulas (suspiros) na parte superior, operadas hidraulicamente, e saída livre para o mar na parte inferior. Na superfície, os TL ficam com suspiros fechados e cheios de ar; na imersão, abrem-se os suspiros e a água entra por baixo. Para retornar à superfície, com suspiros fechados injeta-se ar nos TL, que expulsa a água pela saída inferior. Os Tanques de Compensação (TC) mantêm a flutuabilidade neutra e a estabilidade longitudinal, controlando trim e banda.

Para controle e manobra, o submarino normalmente possui três lemes: o vertical (rumo), o horizontal a vante (profundidade) e o horizontal à ré (inclinação do casco). Submarinos modernos substituem os lemes vertical e horizontal à ré por um conjunto de lemes em X, com controle unificado. Em cota periscópica emprega-se o periscópio (óptico) ou o periscópio optrônico (imagens digitalizadas).

Os convencionais, como os da Classe Tupi, dispõem de motores diesel (MCP), motores elétricos de corrente contínua e baterias; quando mergulhados, usam o esnórquel para acionar os MCP e carregar as baterias.

Fig. 3-3
Fig. 3-3 Fig. 3-3 — Submarino Classe Tupi

O esnórquel consiste em dois tubos verticais de aço, içáveis/arriáveis hidraulicamente: um para aspiração do ar e outro para descarga dos gases dos MCP; o tubo de descarga é mais curto, para evitar reaspiração dos gases e permitir descarga dentro d\'água, dificultando a visualização. Os tubos de torpedo ficam geralmente na proa.

Os submarinos têm equipamentos de navegação inercial, astronômica e por satélite (GPS). Alguns lançam mísseis de cruzeiro contra alvos de superfície e terrestres, e mísseis balísticos com ogivas nucleares — caso dos SSBN americanos da Classe Ohio, em serviço entre 1980 e 1997, que deslocam 18.700 toneladas submersos e transportam mísseis Trident-1 (alcance superior a 4.000 milhas), com 24 tubos para mísseis e quatro tubos de torpedo.

Fig. 3-4
Fig. 3-4 Fig. 3-4 — Submarino Classe Ohio

Histórico

A história do submarino liga-se ao desenvolvimento do torpedo. O Housatonic, bloqueando Charleston em 1864, foi o primeiro navio afundado por torpedo amarrado à proa de um submarino. Em 1624 o holandês Cornelius Van Drebel construiu o primeiro submarino conhecido, a remos, que imergiu a 5 metros. O francês Narval, de Max Laubeuf, concluído em 1900, foi o primeiro submarino de casco duplo.

Fig. 3-5
Fig. 3-5 Fig. 3-5 — Submarino Narval

Os motores diesel foram usados em submarinos americanos em 1912, eliminando as desvantagens dos motores a gasolina. Em 14 de junho de 1952 a Marinha americana iniciou a construção do Nautilus, primeiro navio de propulsão nuclear do mundo, incorporado à Esquadra em 30 de setembro de 1954; navegou imerso sob a calota polar de 23 de julho a 5 de agosto de 1958.

Fig. 3-6
Fig. 3-6 Fig. 3-6 — USS Nautilus

Com a propulsão nuclear o submarino adquiriu forma diferente: casco em forma de gota, proa bulbosa, vela fina; a velocidade de cruzeiro do SSN pode chegar a mais de 30 nós submerso. É o caso dos SSN americanos da Classe Virgínia, em serviço a partir de 2004, com grande capacidade stealth: deslocamento de 7.800 t, 114,8 m de comprimento, boca de 10,36 m, calado de 9,75 m, velocidade máxima na superfície de 25 nós (superior a 35 nós mergulhado), quatro tubos horizontais para torpedos MK-48, mísseis Harpoon e minas, além de lançadores verticais de mísseis de cruzeiro Tomahawk.

Fig. 3-7
Fig. 3-7 Fig. 3-7 — SSN Classe Virgínia

Países como Alemanha (IKL-212), Japão e Suécia (Gotland) desenvolvem e operam convencionais com propulsão AIP, que prescinde do esnórquel na maior parte do tempo, tornando-os mais difíceis de localizar; usam diesel-elétrica clássica na maior parte do tempo e o AIP apenas próximo da área de missão, pois a autonomia desse tipo é reduzida (duas a três semanas).

Fig. 3-8
Fig. 3-8 Fig. 3-8 — Submarino IKL-212

Programa brasileiro (PROSUB)

Desde 2008 a Marinha do Brasil desenvolve o PROSUB, com o objetivo de negar o uso do mar pelo inimigo. Inclui quatro convencionais da Classe Riachuelo (S-Br) — Riachuelo (S-40), Humaitá (S-41), Tonelero (S-42) e Angostura (S-43) —, concebidos para ataque, com 1.870 t de deslocamento em imersão, 71,62 m de comprimento, 6,2 m de diâmetro, 12,3 m da quilha ao tope da vela, 5,4 m de calado médio, 35 leitos efetivos (+ três reversíveis) e sistema de combate capaz de lançar torpedos, minas e mísseis.

Fig. 3-9a
Fig. 3-9a Fig. 3-9a — Concepção Submarino Classe Riachuelo (S-Br)

Em paralelo, o Submarino com Propulsão Nuclear Brasileiro (SN-BR), iniciado em julho de 2012, percorre quatro Fases (A — Concepção e Estudos de Exequibilidade; B — Projeto Preliminar, 2013–2017; C — Projeto de Detalhamento; D — Construção, início previsto para 2020 e conclusão para o final de 2029). Será ideal para dissuasão em águas profundas, com a autonomia como principal característica: pode ficar submerso por tempo indeterminado. Deverá ter cerca de 100 m de comprimento, 9 m de diâmetro, 6.000 t de deslocamento, mergulhar a 350 m e navegar acima de 20 nós; receberá o nome de Álvaro Alberto.

Fig. 3-9b
Fig. 3-9b Fig. 3-9b — Concepção artística do Submarino SN-BR

3.5 Cruzadores

São navios de tamanho médio, grande velocidade, proteção de casco moderada, grande raio de ação, excelente mobilidade e armamento de médio calibre rápido (art. 3.6). Mísseis de longo alcance são as principais armas de um cruzador moderno, capacitando-o a prover defesa antiaérea e antinavio a um grupo de batalha nucleado em um NAe, além de lançar mísseis de cruzeiro estratégicos e táticos. Possuem grande capacidade A/S (sonares, helicópteros orgânicos, torpedos, foguetes) e guerra eletrônica.

Principais tarefas: (1) proteção de grupo de batalha nucleado em NAe; (2) cobertura de FT e apoio a operações anfíbias; (3) guerra de corso contra a navegação mercante; (4) ataque a alvos estratégicos; (5) escolta de comboios.

Tipos: até a Segunda Guerra eram classificados em pesados e ligeiros — a base não era o tamanho, e sim o armamento: pesados tinham canhões de mais de 6 polegadas na bateria principal; ligeiros, canhões menores. Os cruzadores de batalha, comparados aos encouraçados, tinham canhões de mesmo calibre mas em menor número, maior velocidade e menor couraça.

Pesado × ligeiro — não é tamanho: a distinção clássica baseia-se no calibre da bateria principal (mais de 6 pol = pesado), não no porte do navio.

Hoje a denominação tornou-se fluida, variando de Marinha para Marinha. Predominam os cruzadores lançadores de mísseis guiados (6.000 a 10.000 t, dois a quatro canhões de até 5 polegadas, grande quantidade de mísseis antiaéreos e antinavios, boa capacidade A/S), podendo operar com dois helicópteros de médio porte. Histórico: descendem das antigas fragatas; o Long Beach (1959, 14.000 t) foi o primeiro navio de guerra de superfície de propulsão nuclear. O primeiro cruzador de mísseis guiados da Classe Ticonderoga foi lançado em 1981.

Fig. 3-10
Fig. 3-10 Fig. 3-10 — Cruzador Classe Ticonderoga

3.6 Contratorpedeiros

Versáteis e os mais numerosos navios de guerra do mundo. São de grande velocidade (mais de 30 nós), grande mobilidade, pequena autonomia, tamanho moderado e pequena proteção estrutural (art. 3.7). Armamento principal: mísseis de curto e longo alcance, torpedos, canhões e helicópteros.

Executam todos os tipos de tarefa: proteção de grupo de batalha em NAe; guerra antissubmarino; ataques a navios de superfície e alvos em terra; defesa antiaérea e antimíssil; apoio a operações anfíbias; esclarecimento e piquete radar; escolta de comboios.

Os modernos possuem mísseis de cruzeiro de longo alcance, canhões de 4,5 ou 5 polegadas de tiro rápido, mísseis antinavio, lançadores de torpedo, mísseis antiaéreos a várias distâncias, helicópteros e link de dados. A Marinha americana possui contratorpedeiros com grande capacidade de defesa nuclear e tecnologia stealth.

Tecnologia stealth: todo e qualquer artifício usado para dificultar a detecção do navio pelo inimigo — superfícies e bordas em ângulo (evitando ângulos retos) para reduzir a assinatura radar; resfriamento de gases de descarga para reduzir a assinatura infravermelha; equipamentos elétricos internos para diminuir a assinatura acústica.

Histórico: o escocês Robert Whitehead construiu o primeiro torpedo de autopropulsão em 1864; os primeiros torpedeiros com torpedos Whitehead foram construídos de 1875 a 1880. O navio destinado a combatê-los — maior, mais rápido, com canhões de médio calibre — ficou conhecido como contratorpedeiro; logo dotado também de torpedos, foi tomando o lugar dos próprios torpedeiros. Os maiores dos últimos anos são os da Classe Spruance (8.040 t, turbina a gás, mais de 30 nós); os mais modernos da Marinha americana são os da Classe Arleigh Burke.

3.7 Fragatas

Intimamente ligadas aos contratorpedeiros, cumprem os mesmos tipos de tarefa e têm características semelhantes — os navios se confundem (art. 3.8).

Fragata × contratorpedeiro: em geral, a fragata tem menor deslocamento, menor velocidade e menor quantidade de armamento que o contratorpedeiro — mas isso está longe de ser regra geral e varia de Marinha para Marinha.

Empregos: ataques a navios de superfície; guerra antissubmarino; defesa antiaérea e antimíssil; apoio a operações anfíbias; esclarecimento e piquete radar; escolta de comboios; guerra de corso e combate ao narcotráfico. Seu principal emprego é em operações de superfície e antissubmarino.

As fragatas americanas da Classe Oliver Hazard Perry (primeira unidade comissionada em 1977) usam mísseis Standard e Harpoon, armamento de 76 e 20 mm, dois tubos triplos de torpedo (MK-32), turbina a gás e dois helicópteros orgânicos.

Fig. 3-12a
Fig. 3-12a Fig. 3-12a — Fragata Classe Oliver Hazard Perry

As mais modernas incorporam tecnologias stealth (ex.: francesas da Classe Lafayette, consideradas as mais difíceis de detectar). As fragatas brasileiras da Classe Greenhalgh são bastante versáteis, com boa capacidade de armamento e sensores nos diversos ambientes de guerra. A Marinha do Brasil também possui as fragatas da Classe Niterói, modernizadas com o sistema Siconta-Mk 11 e mísseis Aspide.

Fig. 3-12b
Fig. 3-12b Fig. 3-12b — Fragata Classe Greenhalgh

3.8 Corvetas (CV)

Apareceram nos fins do século XVIII para substituir a fragata e o brigue em missões de reconhecimento ofensivo — o brigue era fraco demais e a fragata, forte demais (art. 3.9). Na Segunda Guerra foram empregadas pelos aliados em patrulha antissubmarino e escolta de comboios; eram navios pequenos, de 500 a 1.100 toneladas, e velocidade de 12 a 18 nós.

Atualmente, devido aos altos custos das fragatas e contratorpedeiros, as corvetas readquirem importância. As corvetas brasileiras da Classe Inhaúma têm boa capacidade A/S, mísseis antinavio, canhão de duplo emprego e defesa antiaérea/antimíssil de curta distância, podendo operar um helicóptero. A Corveta Barroso, da Classe de mesmo nome, construída pelo Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, é uma evolução da Classe Inhaúma e a corveta mais moderna da Marinha do Brasil.

Fragatas leves: devido à sua complexidade e armamento, algumas Marinhas classificam corvetas como a Barroso como fragatas leves.
Fig. 3-13
Fig. 3-13 Fig. 3-13c — Corveta Classe Barroso

3.9 Navios e embarcações de desembarque

Operações anfíbias (art. 3.10): a operação anfíbia refere-se, normalmente, a um ataque lançado do mar por uma Força-Tarefa Anfíbia (ForTarAnf) sobre litoral hostil ou potencialmente hostil. Comporta quatro modalidades: assalto anfíbio, incursão anfíbia, demonstração anfíbia e retirada anfíbia.

ModalidadeDescrição / propósito
Assalto anfíbioA mais completa: ataque do mar para, mediante desembarque, estabelecer firmemente uma Força em terra (conquistar área, negar instalações ao inimigo, estabelecer base avançada).
Incursão anfíbiaPenetração rápida ou ocupação temporária seguida de retirada planejada (destruir/neutralizar objetivos, obter informações, criar diversão, capturar/resgatar pessoal e material).
Demonstração anfíbiaAproximação do território inimigo, inclusive com meios que caracterizam um assalto, sem desembarque efetivo de tropas (confundir o inimigo).
Retirada anfíbiaRetirada de Forças de um litoral hostil, de forma ordenada e coordenada.

A sequência de fases compreende planejamento, embarque, ensaio, travessia e assalto. Caracterizam-se por grande mobilidade e flexibilidade, exigindo navios e embarcações de tipos e tamanhos variados.

Tipos de meios anfíbios

  • Navios de desembarque (ND) — navios de alto-mar que transportam e desembarcam tropas, carga e viaturas até a costa do objetivo (navegando, fundeados ou abicados à costa).
  • Embarcações de desembarque (ED) — quase sempre transportadas nos navios de desembarque, de onde são lançadas ao mar perto das praias.
  • Viaturas anfíbias — únicos meios combatentes realmente anfíbios; lançam-se ao mar junto à praia e prosseguem em terra (exceto os hovercrafts modernos, que também prosseguem em terra).

Características principais dos ND e ED

  • Pequeno calado — para maior aproximação das praias; nos que abicam, fundo chato (para não adernarem) e hélices acima da quilha (para não tocarem o fundo).
  • Âncoras na popa — auxiliam a manutenção de posição durante a abicagem e a manobra de retração da praia.
  • Lemes voltados para vante / lemes de flanco — somente nas embarcações que abicam; auxiliam a manobrabilidade na retração e a posição quando abicadas.
  • Grande capacidade de operações aéreas — para o emprego conjunto do movimento navio-terra (MNT) e do movimento helitransportado (MHT).
Vulnerabilidade quando abicadas: embarcações de fundo chato são bastante sujeitas à ação das vagas e de difícil manobrabilidade. Modernamente, não são empregadas nas primeiras vagas — primeiro vêm viaturas anfíbias e hovercrafts; as embarcações entram nas vagas subsequentes.

Navios de desembarque

  • NDAA — Navio de Desembarque e Assalto Anfíbio: o maior tipo destinado à guerra anfíbia (15.000 a 40.000 t); desembarca tropas e equipamentos por aeronaves, helicópteros, embarcações de desembarque e veículos anfíbios. Ex.: Classes Tarawa (LHA) e Wasp (LHD) da Marinha americana.
Fig. 3-14
Fig. 3-14 Fig. 3-14 — NDAA Classe Wasp
  • NDC — Navio de Desembarque de Comando: provê comando e controle aos comandantes da Força anfíbia; múltiplos equipamentos de comunicação. Ex.: Classe Blue Ridge (LCC), 18.000 t.
Fig. 3-15
Fig. 3-15 Fig. 3-15 — NDC Classe Blue Ridge
  • NDCC — Navio de Desembarque de Carros de Combate: transporta tropas e carga em operações anfíbias, ribeirinhas e apoio logístico móvel; encalha em praia para desembarcar viaturas por grande rampa na proa e/ou popa. Possui propulsor lateral (bow thruster), um ou dois conveses de voo e porta para embarque/desembarque. Ex.: Classe Newport (LST) — NDCC Matoso Maia e NDCC Almirante Sabóia (incorporado em 2009 à Marinha do Brasil).
Fig. 3-16a
Fig. 3-16a Fig. 3-16a — NDCC Matoso Maia
Fig. 3-16b
Fig. 3-16b Fig. 3-16b — NDCC Almirante Sabóia
  • NDD — Navio de Desembarque e Doca: mais de 10.000 t; opera helicópteros e reabastece navios de pequeno porte; por alagamento dos tanques de lastro e abertura de portas na popa, cria um porto flutuante no convés. Ex.: Classes Anchorage, Whidbey Island e Harpers Ferry (LSD).
  • NDTD — Navio de Desembarque, Transporte e Doca: sucessor do NDD (Classes Austin LPD desde 1965 e Santo Antonio desde 2002, esta acima de 20.000 t); transporta cerca de 700 fuzileiros navais e hangara uma aeronave.
  • NDM — Navio Doca Multipropósito: transporta tropas, veículos, helicópteros, equipamentos, munições e provisões; opera em alta e baixa intensidade (inclusive missões humanitárias). Ex.: NDM Bahia.
NDM Bahia — característicaValor
Deslocamento (plena carga)12.000 toneladas
Comprimento168 metros
Boca23,5 metros
Calado5,2 metros
Tripulação288 militares
Capacidade de tropa412 militares
Convés doca1.732 m²

O NDM Bahia foi incorporado em 15 de dezembro de 2015, ampliando as capacidades de Operações Anfíbias, Comando e Controle de grandes áreas oceânicas e apoio à Defesa Civil.

Fig. 3-17
Fig. 3-17 Fig. 3-17 — NDM Bahia
  • NTrT — Navio-Transporte de Tropa: acima de 5.000 t, mais de 100 m, 12 a 18 nós; construído para operações anfíbias, mas não pode abicar na praia — transporta tropa, carga e embarcações de desembarque no oceano. Ex.: Custódio de Mello, Ary Parreiras e Soares Dutra (ex-Marinha do Brasil).
Fig. 3-18
Fig. 3-18 Fig. 3-18 — NTrT Classe Ary Parreiras

Embarcações e viaturas de desembarque

  • EDCG — Embarcação de Desembarque de Carga Geral: cerca de 40 m, proa quadrada que se abre como prancha; hélices protegidos, lemes de flanco e âncora na popa. São as maiores embarcações de desembarque de casco rígido.
Fig. 3-19
Fig. 3-19 Fig. 3-19 — Embarcação de Desembarque de Carga Geral
  • EDVM — Embarcação de Desembarque de Viaturas e Material: tipos EDVM 6 e EDVM 8; batelão aberto, de fundo chato retangular, proa quadrada retrátil usada como prancha; participam de vagas anteriores às das EDCG.
  • EDVP — Embarcação de Desembarque de Viaturas e Pessoal: pequena (~12 m); transporta pessoal e viaturas pequenas (até 1/4 de tonelada); não tem fundo chato, o que a impede de ser transportada em conveses doca; é içada por aparelhos de força.
Fig. 3-20
Fig. 3-20 Fig. 3-20 — EDVM
Fig. 3-21
Fig. 3-21 Fig. 3-21 — EDVP
  • EDGR — Embarcação de Desembarque Guincho Rebocador: empregada para instalação dos pontões e desencalhe das demais embarcações de desembarque.
  • CCAnf — Carro de Combate Anfíbio: casco estanque sobre lagartas; na água, as lagartas agem como pás de roda (propulsão e governo); levemente blindado; pode atingir praia defendida.
  • CLAnf — Carro Lagarta Anfíbio: carroceria estanque com pequena blindagem sobre lagartas; transporta tropas, armas, munição e suprimentos; tem propulsão hidrojato no mar (vantagem sobre o CCAnf), mas ultrapassa recifes pior que o CCAnf.
Fig. 3-22
Fig. 3-22 Fig. 3-22 — CLAnf
  • Embarcação de Desembarque Pneumática: balsa de borracha com câmara de ar dividida em compartimentos e vigamento interno leve; quase sem calado, usa-se em águas muito rasas; em geral a remos (silenciosa), para desembarque de grupos precursores. Capacidade: dez homens.
Fig. 3-23
Fig. 3-23 Fig. 3-23 — Embarcação de Desembarque Pneumática
  • Hovercraft: embarcação que se desloca sobre colchão de ar, trafegando sobre terra plana e sobre o mar; velocidades superiores a 40 nós (até 70 nós em algumas classes russas); equipada para desembarque anfíbio e patrulha. É a embarcação mais moderna para desembarque anfíbio (tratada em detalhe na Seção F).
Fig. 3-24
Fig. 3-24 Fig. 3-24 — Hovercraft

3.10 Mineiros, varredores e caça-submarinos

  • Navios Mineiros ou lança-minas (NM) — semeiam campos de minas, ofensivamente em águas usadas pelo inimigo ou defensivamente em águas próprias; os que operam em águas inimigas devem ser velozes (art. 3.11.1).
  • Navios-Varredores ou caça-minas (NV) — limpam portos e áreas onde se sabe ou suspeita haver minas (art. 3.11.2). Podem ser de madeira, fibra ou aço não magnético; têm equipamentos amagnéticos e motores elétricos de corrente contínua, para baixa assinatura magnética.
Varredor × caça-minas — diferença está na sofisticação técnica: o varredor efetua varreduras (acústica, magnética, mecânica ou combinada) para provocar, por excitação, a destruição da mina. O caça-minas detecta, investiga e neutraliza a mina (sonar, veículo remotamente dirigido e mergulhadores) — demanda mais tempo, porém com maior eficiência para limpar áreas minadas ou abrir um canal varrido.
Fig. 3-25
Fig. 3-25 Fig. 3-25 — Navio-varredor Classe Aratu

Caça-Submarinos (CS): navio menor que as corvetas, de único emprego na guerra A/S (art. 3.12); atualmente em desuso, pois sonares e armas A/S modernos exigem plataformas maiores. Na Segunda Guerra a Marinha brasileira empregou dois tipos: o de casco de ferro (280 t, 50 m, 20 nós) e o de casco de madeira (95 t, 33 m, 15 nós). Eram de grande mobilidade, mas o pequeno tamanho não dava boa estabilidade de plataforma com mau tempo.

3.11 Salvamento de submarinos, canhoneiras e monitores

Navio de Salvamento de Submarinos (art. 3.13): destina-se a prestar socorro a submarinos. A Marinha do Brasil possui o NSS Felinto Perry, capaz de apoio a mergulho, resgate de submarino, reboque, abastecimento, combate a incêndio, recuperação de óleo e operações com aeronaves; equipado com câmara de recompressão, sino atmosférico (SAR), sino de mergulho de transporte e ROV para até 600 metros, além de posicionamento dinâmico.

Fig. 3-26
Fig. 3-26 Fig. 3-26 — NSS Felinto Perry
  • Canhoneiras (Cn) — navios de pequeno porte, calado e borda-livre, empregados na defesa de portos e rios; em desuso (art. 3.14.1).
  • Monitores (M) — navios de pouco calado, com couraça e forte artilharia para o tamanho, usados em rios e próximo da costa para bombardear posições (art. 3.14.2). A Marinha do Brasil dispõe do Monitor Parnaíba, incorporado à Armada em 6 de novembro de 1937, hoje o navio de guerra mais antigo do mundo em operação.
Fig. 3-27
Fig. 3-27 Fig. 3-27 — Monitor Parnaíba

3.12 Navios-Patrulha e Lanchas de Combate

Navios-Patrulha (art. 3.15): empregados na patrulha costeira e fluvial das águas sob jurisdição nacional — fiscalizar e resguardar recursos do mar territorial, zona contígua e zona econômica exclusiva; colaborar na repressão ao tráfico e comércio ilícito; controlar a área marítima; e contribuir para a segurança das instalações costeiras e plataformas de petróleo.

TipoCaracterísticas
Navio-Patrulha Fluvial (3.15.1)Pequeno porte, pouco calado, 120 a 700 t, 29 a 64 m; canhões de 40 mm, metralhadoras de 20 mm e 0.50, morteiros de 81 mm, por vezes plataforma de helicóptero. Patrulha de contrabando/tráfico/pesca, defesa de portos e foz, controle de área fluvial.
Navios-Patrulha Costeira (3.15.2)Prolongamento dos navios de guerra; pequeno deslocamento e autonomia, muito influenciados pelo tempo. Inovações como hidrofoil e hovercraft os tornaram rápidos e versáteis; muito vulneráveis à arma aérea.
Navio-Patrulha Oceânico (NPO) (3.15.3)Patrulhamento das áreas jurisdicionais (proteção de recursos na Amazônia Azul, repressão de ilícitos); em conflito, vigilância e defesa de áreas costeiras e plataformas. Brasil opera três NPO da Classe Amazonas, de grande autonomia, com capacidade de helicóptero.
Fig. 3-28a
Fig. 3-28a Fig. 3-28a — Navio-Patrulha Classe Pedro Teixeira
Fig. 3-28b
Fig. 3-28b Fig. 3-28b — Navio-Patrulha Classe Piratini
Fig. 3-29
Fig. 3-29 Fig. 3-29c — Navio-Patrulha Classe Macaé
Fig. 3-29a
Fig. 3-29a Fig. 3-29a — Navio-Patrulha Classe Bracuí
Fig. 3-29b
Fig. 3-29b Fig. 3-29b — Navio-Patrulha Classe Grajaú
Fig. 3-30
Fig. 3-30 Fig. 3-30 — NPO Classe Amazonas

Lancha de Combate (LC) ou Lancha de Ataque Rápido (LAR) (art. 3.16): as primeiras a aparecer foram as lanchas torpedeiras. São embarcações pequenas (20 a 105 t), de alta velocidade (40 a 52 nós) e grande mobilidade. Comprimento de 20 m, ou pouco mais; tripulação de dez homens. As LAR são menores (cerca de 10 m), usadas em rios para ataques surpresa. Armamento: metralhadoras de 12,7 mm e armas automáticas; atacam à noite ou com pouca visibilidade e escapam em grande velocidade, por vezes empregando fumaça; quando do tipo hidrofoil, são mais velozes.

Fig. 3-31
Fig. 3-31 Fig. 3-31 — Lancha de Combate

3.13 Encouraçados (E)

Até a Segunda Guerra Mundial, o encouraçado era considerado o navio mais poderoso, reunindo máximo poder ofensivo e defensivo (art. 3.17). Em ações da Esquadra, permanecia na linha de batalha atacando os maiores navios inimigos com canhões de grosso calibre. Também foram usados em bombardeio pesado de instalações de terra e portos, apoio a operações anfíbias e escolta dos grandes comboios.

Armamento (até a última guerra): (1) bateria principal com canhões de 12 a 16 polegadas, em torres tríplices, lançando projéteis de cerca de 1 tonelada a mais de 20 milhas; (2) bateria secundária com 15 a 20 canhões de 5 ou 6 polegadas, em torres duplas; (3) bateria antiaérea de pequeno calibre. A modernização da década de 1980 incluiu mísseis de cruzeiro e antinavio, novos sensores, defesa antimíssil, direção de tiro e três helicópteros de porte médio.

Características: em síntese, uma plataforma flutuante e móvel de canhões de grosso calibre e longo alcance, fortemente protegida por couraça e compartimentagem especial, com armamento defensivo de menor calibre.

Proteção (couraça)

A couraça é a principal proteção contra tiros de canhão; sua espessura máxima deve ser aproximadamente igual ao calibre dos canhões de navios semelhantes de outras nações. É de maior espessura nas torres e na cinta (impacto direto mais provável); nas torres e na torre de comando pode atingir 18 pol (457 mm). A couraça lateral é uma cinta de pouco mais de uma altura de coberta ao longo da parte central do casco, na linha-d\'água e um pouco abaixo. A couraça horizontal (convés encouraçado de 6 a 8 pol / 152 a 205 mm, e convés protegido inferior de cerca de 4 pol / 101 mm) protege contra bombas aéreas e tiros de grande elevação. O peso da couraça pode atingir 40% do peso total do navio.

A proteção contra explosões submarinas (torpedos, bombas e minas) é feita por duas ou três anteparas longitudinais, formando compartimentos laterais de segurança — os cóferdãs ou contraminas — cheios de óleo, de água ou vazios; o óleo e a água absorvem o choque e o calor, e os espaços vazios absorvem a compressão dos gases.

Histórico: os primeiros navios encouraçados foram a fragata francesa Gloire e a inglesa Warrior (1860). Em 1861, na Guerra Civil americana, surgiu o monitor, primeiro navio armado com dois canhões em torre giratória, com borda-livre de apenas 40 cm. Em 1906 a Inglaterra revolucionou a Arquitetura Naval com a Classe Dreadnought (suprimia a artilharia de médio calibre, 18.000 t, 21 nós); em 1910 construiu para o Brasil os encouraçados Minas Gerais e São Paulo. A Classe Iowa reuniu os últimos encouraçados americanos, com atuação na Segunda Guerra, Coreia, década de 1980 e Guerra do Golfo; as últimas unidades (USS Iowa e USS Wisconsin) foram desativadas em 2006 e tornaram-se navios-museus.

4. Navios hidroceanográficos (Seção C)

São aqueles destinados a executar atividades de caráter hidroceanográfico e de segurança da navegação (art. 3.18), quais sejam:

  • coleta de dados ambientais essenciais à confecção da Carta Náutica;
  • produção de informações para apoio à aplicação do Poder Naval e à segurança da navegação;
  • apoio à sinalização náutica; e
  • apoio ao Programa Antártico (PROANTAR).

Na Marinha do Brasil fazem parte do Grupamento de Navios Hidroceanográficos. Os mais modernos em atividade são o Navio Polar (NPo) Almirante Maximiano, que desenvolve pesquisas polares, e o Navio de Pesquisa Hidroceanográfico (NPqHo) Vital de Oliveira, equipado para pesquisas oceanográficas nas áreas de biologia e geologia marinhas.

Fig. 3-32a
Fig. 3-32a Fig. 3-32a — NPo Almirante Maximiano
Fig. 3-32b
Fig. 3-32b Fig. 3-32b — NPqHo Vital de Oliveira

5. Navios mercantes (Seção D)

Os navios mercantes destinam-se ao transporte de passageiros e mercadorias e podem ser classificados de diversos modos (art. 3.19): quanto ao fim, quanto às águas em que navegam e quanto ao tipo de construção.

5.1 Quanto ao fim a que se destinam

  • Navios de passageiros — transportam grande número de passageiros (alguns recebem carga moderada); boa velocidade, superestruturas altas e grandes espaços de acomodação. A SOLAS-1974 considera navio de passageiro o que transporta mais de 12 passageiros. Têm característica dual: parte no transporte, parte no negócio de hotelaria e entretenimento.
Fig. 3-33
Fig. 3-33 Fig. 3-33 — Navio de passageiros
  • Navios cargueiros — destinados ao transporte exclusivo de carga (alguns acomodam até 12 passageiros). Distinguem-se por formas baixas e pequenas superestruturas, podendo ter paus de carga (em desuso) ou guindastes. Historicamente, qualquer navio que não seja de passageiro nem especial (tipo navio-tanque) é um cargueiro (ex.: conteineiros, graneleiros).
Fig. 3-34
Fig. 3-34 Fig. 3-34 — Navio cargueiro
  • Navios de carga modular (full container) — a carga vem em contêineres de aço de tamanho padronizado (8 × 8 × 20 pés ou 8 × 8 × 40 pés), garantindo uniformidade de manipulação e estoque. A evolução dos modulares originou os barcaças (Lash — Lighter Aboard Ship), em que barcaças/batelões modulares são trazidos para bordo (pouco usado na atualidade).
Fig. 3-35
Fig. 3-35 Fig. 3-35 — Navios de carga modular (full container)
  • Navios de carga modular rolante (Ro/Ro) — transportadores de veículos de todos os tipos, que podem também levar contêineres sobre rodas a bordo por rampas nos bordos e na popa, posicionados por rampas internas.
  • Navios mistos — transporte simultâneo de carga e passageiros; o exemplo atual mais significativo é o Ferry Boat / Ro-Ro de Passageiros, pois navios para carga e passageiros caíram em desuso.
Fig. 3-36
Fig. 3-36 Fig. 3-36 — Navios de carga modular rolante (Ro/Ro)
  • Navios graneleiros — convés único, porões centrais para carga, tanques laterais elevados, tanques laterais inferiores ou no fundo duplo para lastro; destinados a carga seca a granel (carvão, minérios, cereais em grãos).
Fig. 3-37
Fig. 3-37 Fig. 3-37 — Navio graneleiro
  • Navios-tanques — transporte a granel líquido; os porões denominam-se tanques. Incluem petroleiros (óleo cru e derivados), gaseiros (butano, propano, gás natural liquefeito), químicos e alguns especiais. As tripulações necessitam de formação/certificação especial pelos riscos humanos e ambientais envolvidos.
  • Navios de pesca — aparelhados para a pesca, com câmaras frigoríficas para o pescado.
Fig. 3-38
Fig. 3-38 Fig. 3-38 — Navio-tanque

5.2 Quanto às águas em que navegam

  • Longo curso — transporte de cargas ou passageiros entre portos de diferentes países.
  • Cabotagem — transporte entre portos ou cidades de um mesmo país (via marítima ou vias navegáveis interiores). Entre países próximos integrados por acordos preferenciais: grande cabotagem (Mercosul) ou Short Sea Shipping (União Europeia e EUA).
  • Fluviais e de lagos — transporte entre dois portos fluviais (navegação interior); pequeno calado e superestruturas relativamente altas.
  • Apoio marítimo — apoio logístico a embarcações e instalações de pesquisa ou exploração de minerais e hidrocarbonetos.

5.3 Quanto ao tipo de construção

Os armadores classificam os mercantes pelo tipo de construção do casco, que depende do tamanho e do comércio a que se destina. É difícil, à primeira vista, dizer a que tipo um navio pertence, pois a classificação considera robustez da estrutura, forma do casco, número de pavimentos e particularidades das superestruturas. A tendência é padronizar a construção. Nos cargueiros modernos há tendência de aumentar o número de porões (geralmente quatro ou cinco, chegando a sete nos maiores). Os contêineres buscam aumento de capacidade, já na chamada "Sexta Geração".

6. Embarcações e navios em geral (Seção E)

6.1 Embarcações de recreio e de serviços especiais

Embarcações de recreio (art. 3.20): de propriedade particular, classificam-se em embarcações de cruzeiro (conforto das instalações) e embarcações de regatas (grande velocidade).

Navios e embarcações de serviços especiais (art. 3.21): diversos tipos de equipamento especial, sendo os mais usuais:

  • Navios de salvamento — aparelhagem para reparo e salvamento de embarcações avariadas, encalhadas ou submersas; em geral com aparelho de reboque.
  • Navios de cabo submarino — instalação e reparo de cabos submarinos.
  • Dragas — retiram material do fundo em portos, rios e canais; de sucção ou de escavação (fundos de areia/lama) ou tipo especial para pedra. Podem ter propulsão mecânica ou ser sem propulsão; podem ter porão ou fazer-se acompanhar de lameiros (batelões).
  • Rebocadores — pequenos navios de grande robustez, alta potência de máquina e boa mobilidade, para reboque e apoio marítimo (offshore), podendo prestar outros socorros (combate a incêndio, esgoto). Podem ser de alto-mar ou de porto.
Fig. 3-39
Fig. 3-39 Fig. 3-39 — Rebocador
  • Embarcações quebra-gelos (ice-breakers) — não há embarcações desse tipo no Brasil.
  • Barcas — transporte marítimo de uma a outra margem de um rio, baía etc.
  • Embarcações de práticos — geralmente a motor (a remo nos portos menores), de casco robusto para resistir aos embates das ondas e à atracação aos navios em qualquer condição de tempo e mar.
  • Embarcações de porto — executam serviços normais no porto (fiscalização alfandegária e de polícia marítima, auxílio à atracação, carga, descarga, abastecimento).
Vedação às embarcações de porto: não são construídas para a navegação no mar; não lhes é permitido sair barra afora — tanto pelas Capitanias dos Portos quanto pelas companhias seguradoras — exceto em casos especiais.

6.2 Quanto ao material do casco

  • Navios de madeira (art. 3.22) — quilha, roda de proa, cadaste, cavernas, vaus, longarinas e forros são de madeira. Pouco empregada hoje em navios de grande porte, mas usual em embarcações pequenas. A carena pode ser revestida de cobre ou zinco contra moluscos, vegetação e o gusano.
  • Navios de ferro (art. 3.23) — casco todo de peças de ferro; foram um estágio na transição da madeira para o aço.
  • Navios de aço (art. 3.24) — hoje a quase totalidade dos navios é de aço doce.
Vantagens do casco metálico (aço) sobre a madeira: economia de peso ou aumento de resistência; maior facilidade de construção e reparo; maior segurança contra alagamento (compartimentagem mais fácil); menor perigo de incêndio; maior capacidade interior; possibilidade de aumentar comprimento e deslocamento; possibilidade de formas quaisquer (maior fineza); maior durabilidade.

As antigas desvantagens do aço já estão removidas: o magnetismo do casco sobre as agulhas é evitado por compensações, metais diamagnéticos e agulhas giroscópicas; a habitabilidade melhora com ventilação, aquecimento e refrigeração; corrosões e incrustações diminuem com pinturas e docagens frequentes.

  • Navios de plástico reforçado por fibra de vidro (art. 3.25) — muito construídos até o fim do século XX; demanda caiu frente ao alumínio, sobretudo pela conscientização ambiental. Na década de 1980 chegou-se a construir embarcações em fibra de até 50 metros.
  • Navios de ferro cimento (art. 3.26) — surgiram com as dificuldades da Primeira Guerra; principal qualidade era o baixo custo. Hoje pouquíssimas embarcações usam esse material, pelo peso e baixa qualidade de acabamento.

6.3 Quanto ao sistema de propulsão

Navios a vela ou veleiros (art. 3.27): movidos pela ação do vento nas velas; alguns têm motor de pequena potência para calmaria ou entrada/saída de portos.

Navios de propulsão mecânica (art. 3.28): a energia mecânica é fornecida por sistemas de propulsão acionados a vapor (convencional ou nuclear), por motores de combustão interna, por turbina a gás ou diesel-elétrico (MGP/MEP ou baterias). O movimento de rotação é transmitido a uma linha de eixo com um hélice na extremidade (de passo fixo ou variável). O OQN deve conhecer as possibilidades e limitações do sistema de propulsão; no passadiço deve haver tabelas e curvas de velocidade e de giro.

Máquinas a vapor (art. 3.28.1)

  • Máquinas alternativas (3.28.1.1) — tipo mais antigo, que substituiu rapidamente as velas; baixa velocidade de rotação e ligação direta ao eixo do hélice. Não são mais utilizadas.
Fig. 3-40
Fig. 3-40 Fig. 3-40 — Máquina alternativa
  • Turbinas a vapor (3.28.1.2) — usadas até meados dos anos 1970 em navios de grandes potências e altas velocidades. Ocupam menos espaço (sobretudo em altura), fornecem grandes potências com menor consumo, operação mais simples e torção uniforme.
Turbina é irreversível: exige instalar uma turbina para marcha AV e outra para marcha AR. As instalações usuais têm três turbinas (alta, média e baixa pressão) por eixo, com redutores de velocidade entre o eixo da turbina e o do hélice.
Fig. 3-41
Fig. 3-41 Fig. 3-41 — Turbina a vapor

Tipos de redução: engrenagens redutoras (o mais empregado; relação entre 1/28 e 1/50); redutor hidráulico (água/óleo sob pressão; elimina a turbina de marcha AR); redutores de corrente (transmissão por correntes, adotada pela Marinha americana em alguns rebocadores na Segunda Guerra, não comparável aos demais); e propulsão turboelétrica (redução por motores elétricos).

  • Propulsão turboelétrica (3.28.1.2.d) — turbinas no mesmo eixo de geradores de corrente alternada de grande velocidade, que transmitem energia a motores elétricos de baixa velocidade nos eixos dos hélices. Maior flexibilidade de instalação e elimina a turbina de marcha AR, porém maior custo e maior peso por CV. Foi muito usada em porta-aviões, encouraçados, cruzadores e navios de passageiros velozes.
Fig. 3-42
Fig. 3-42 Fig. 3-42 — Propulsão turboelétrica

Motores diesel (art. 3.28.2)

Adequados para navios de velocidade moderada e constante.

Vantagens do diesel: eliminam caldeiras e condensadores (economia de peso e espaço); dispensam água de alimentação e consomem menos combustível (cerca de 175 g/CV-hora, contra ~350 g das máquinas a vapor mais modernas); são reversíveis, com potência praticamente igual em AR e AV (superioridade de manobra sobre a turbina, cuja potência AR é limitada a 50% da AV); consumo nulo no porto; combustível mais barato (derivados residuais).
Desvantagens do diesel: exigem instalação de ar comprimido para partida e injeção; maior custo de instalação; maiores serviços de manutenção e inspeção periódica; necessitam sistema de purificação de maior capacidade; o óleo lubrificante deve neutralizar os metais residuais.

As instalações diesel podem ser: de propulsão direta (motores de baixa velocidade acionam diretamente o eixo); de redutores de engrenagem ou hidráulicos (motores de alta velocidade, menor peso e tamanho, maior flexibilidade); e diesel-elétrica (motores diesel ligados a geradores que alimentam motores síncronos nos eixos; inversão de marcha por ligações elétricas). Nos navios modernos, a propulsão usa corrente alternada (gerada em voltagens maiores, permitindo máquinas e cabos menores).

Comparação entre as máquinas propulsoras (art. 3.28.3)

TipoConjugado / comportamento em sobrecargaEmprego típico
Máquina alternativa (em desuso) e motor dieselConjugado motor constante (não depende das rotações); maior perda de velocidade ao aumentar a resistênciaMercantes em geral; navios de guerra de velocidade moderada/baixa
Turbinas e motores elétricosPotência constante (conjugado aumenta quando caem as rotações); perda de velocidade ~1/3 da dos diesel, mas maiores esforços no eixo e no propulsorNavios de guerra que exigem altas velocidades ou reserva de potência

As Sociedades Classificadoras exigem eixos de maior diâmetro e pás mais fortes nos propulsores de navios a turbina ou a motor elétrico. Navios de cabotagem e de pequeno porte (rebocadores), de baixa velocidade e pouca potência (até 2.000 CV), empregam muito o motor diesel.

Turbinas a gás (art. 3.28.4)

Muito empregadas em aviação, aplicam-se em navios de guerra de alta velocidade. Diferentemente do diesel (compressão, combustão e expansão no mesmo cilindro, com impulso intermitente), na turbina a gás a compressão se dá numa unidade, a massa de ar passa por um queimador e a expansão se faz por turbinas, com potência aplicada ao eixo de modo contínuo.

Vantagens da turbina a gás: muito mais leve (um motor a gasolina pesa ~6 vezes mais, um diesel ~12 vezes mais, para igual potência); instalação simples; ocupa pouco espaço; partida rápida mesmo em baixa temperatura e rápido ajuste às variações de carga; menos vibrações e menor número de pessoas para operação/manutenção; quase não gasta óleo lubrificante.

6.4 Propulsão nuclear

Fissão — combustão × fissão (art. 3.29.a): na combustão ordinária, uma quantidade insignificante de massa é convertida em energia (ao queimar carvão, menos de um bilionésimo da massa). Numa reação físsil, aproximadamente um milésimo da massa é convertido em energia calorífica.

A fissão ocorre em raros elementos, como o Urânio-235: quando um nêutron atinge e é absorvido por um núcleo de U-235, forma-se um novo núcleo que se parte em dois mais leves, perdendo massa (que vira energia) e desprendendo dois ou três nêutrons e fragmentos de fissão. Cada nêutron pode causar nova fissão — a reação em cadeia. Controlada e mantida, serve como fonte de energia para produzir vapor e acionar as turbinas de propulsão.

Combustíveis nucleares (art. 3.29.b): três materiais físseis são adequados — Urânio-235, Plutônio-239 e Urânio-233. Material fértil é a substância que não sustenta por si a reação, mas pode ser convertida em físsil num reator. O único físsil natural é o U-235 (apenas 0,7% do urânio natural; o restante é U-238); Pu-239 e U-233 são artificiais, da absorção de nêutrons por U-238 e Tório-232. Usa-se urânio enriquecido (aumenta a proporção de U-235), processo ainda muito caro.

Reator nuclear (art. 3.29.c)

Reator nuclear: aparelho em que a fissão em cadeia é iniciada, mantida e controlada, de modo que a energia seja desprendida numa produção constante sob a forma de calor.

Além do combustível, as partes componentes usuais são:

ComponenteFunção / material
ModeradorReduz a velocidade dos nêutrons. Materiais: água leve (a mais usada, abundante e barata), água pesada (muito cara), berilo, carbono.
ResfriadorCircula no núcleo removendo o calor e transmitindo-o ao gerador de vapor. Materiais: água leve, água pesada, sódio líquido, carbono, ar seco.
Barras de controleControlam a produção de nêutrons (a potência é proporcional à densidade de nêutrons). Feitas de cádmio e boro (absorvem nêutrons). Arriadas totalmente, cortam a reação em cadeia.
RefletorInvólucro que evita dispersão e vazamento de nêutrons, devolvendo-os à reação (economia de material físsil). Material igual ao do moderador.
BlindagemImpede/reduz a passagem da radioatividade: térmica (envolve o reator) e biológica/secundária (em torno do circuito primário). Materiais: concreto, aço, água, chumbo, plásticos.
EstruturaCarcaça e invólucro: alumínio, zircônio, berilo, aço carbono e aço inoxidável.
Água pressurizada: como a água tem baixa temperatura de vaporização, para que não vaporize nas serpentinas e no núcleo deve ser mantida sob pressão — diz-se que o reator é de água pressurizada. A água de altíssima pureza é corrosiva acima de ~200 °C, exigindo desmineralização contínua.

Tipos de reator (art. 3.29.d): pelo arranjo do combustível e do moderador — heterogêneo (combustível sólido, separado do moderador) ou homogêneo (combustível e moderador misturados em solução). Pela energia dos nêutrons — rápidos, térmicos ou intermediários.

Instalação nuclear de propulsão marítima (art. 3.29.e)

O sistema pode ter dois circuitos separados. O circuito primário contém os materiais radioativos: a água de circulação (resfriador) recebe o calor do núcleo e o transmite ao secundário por geradores de vapor; como trabalha sob pressão, há um tanque de pressurização, bombas e serpentinas, tudo numa câmara blindada. O circuito secundário tem o equipamento de uma instalação clássica de vapor (exceto caldeiras): turbinas de propulsão, condensadores, bombas, aquecedores e turbo-geradores.

Fig. 3-43
Fig. 3-43 Fig. 3-43 — Esquema de uma instalação nuclear de água pressurizada

A água que deixa o reator é radioativa (pode perder a radioatividade em 5 a 10 minutos, mas as impurezas a mantêm por mais tempo); por isso o circuito primário é blindado, e o acesso só é possível após parada do reator. O vapor que deixa o gerador não é radioativo, pois não sofre bombardeio de nêutrons nem contato direto com a água do primário. A partida exige fonte de energia independente (gerador diesel de emergência) e baterias de reserva.

Aplicação em navios de guerra (art. 3.29.f): as primeiras instalações foram nos submarinos americanos Nautilus (reator de água pressurizada) e Sea Wolf (reator de sódio líquido, substituído em 1959 por um similar ao do Nautilus). Depois, a energia nuclear foi aplicada em navios de superfície (NAe, cruzadores, fragatas, contratorpedeiros).

Vantagens da propulsão nuclear: raio de ação praticamente ilimitado mesmo em altas velocidades (o Nautilus navegou 62.560 milhas com um núcleo de combustível); eliminam-se grandes tanques de combustível e navios-tanques de abastecimento; menor perigo de incêndio e maior resistência a danos; nenhum oxigênio necessário ao sistema e fim do problema de descarga de gases. Para o submarino, permanência oculta em imersão por longo tempo; para o navio de superfície, convés livre de chaminés e maior resistência à guerra química/atômica.
Desvantagens da propulsão nuclear: o peso, o custo inicial da instalação e o alto preço dos combustíveis empregados.

6.5 Embarcações sem propulsão

São movimentadas a reboque, em geral para serviços em portos, rios e lagos (art. 3.30). As principais:

  • Pontões ou flutuantes — plataformas flutuantes, geralmente retangulares, para serviços diversos.
  • Pontões de amarração — para suspender boias e colocar/retirar amarrações fixas; dispõem de um ou dois gavietes na proa (peça robusta com rodete onde labora a amarra ou o cabo).
  • Cábreas — pontão com aparelho de manobra de pesos; as grandes têm tanques de lastro para modificar o compasso longitudinal; embarcam/desembarcam grandes pesos sem necessidade de atracar o navio ao cais.
  • Batelão, saveiro, alvarenga — embarcações robustas de fundo chato, para desembarque ou transbordo de carga; alvarenga é designação muito usada na costa Nordeste do Brasil.
  • Lameiros — grandes embarcações de ferro com caixas de ar nas extremidades e portas no fundo; transportam a lama das dragagens dos portos.

7. Aerobarcos e veículos sobre colchão de ar (Seção F)

Introdução (art. 3.31): navios e embarcações têm a vantagem de serem sustentados pela água e se moverem numa superfície relativamente plana. Mas a superfície da água impõe elevado consumo de energia para velocidades altas (referência: acima de 30 nós), porque ondas, vagas e vento consomem parte da energia da propulsão; essa parcela cresce, em média, exponencialmente com a velocidade e é maior quanto menor a razão comprimento/boca.

A solução para altas velocidades é sair da superfície — para baixo (submergindo, como os submarinos) ou para cima (decolando). Os que decolam mas continuam dependentes da superfície chamam-se, em inglês, surface skimmers. Entre eles: os que se apoiam em colchões de ar (VCA — hovercraft); os que se sustentam em hidrofólios submersos (aerobarcos); e as embarcações de casco planador (lanchas).

Desenvolvimento (art. 3.32): o primeiro aerobarco que funcionou foi construído em 1905 pelo italiano Enrico Forlanini; em 1918, Alexander Graham Bell atingiu 61,5 nós num aerobarco. A Guerra do Golfo evidenciou os VCA como embarcações de desembarque; os hovercrafts foram criados em 1955 pelo engenheiro inglês Christopher Cockrell. Na prática, VCA e aerobarcos mostraram-se vantajosos apenas numa estreita faixa de utilização (operações anfíbias, defesa costeira, cenários com submarinos nucleares inimigos).

EDCA — Embarcações de Desembarque sobre Colchão de Ar (LCAC): usadas em operações de desembarque por Marinhas de China, EUA, França, Grécia, Inglaterra e Rússia. As LCAC norte-americanas levam ~60 t, atingem quase 50 nós e avançam sobre terra ao chegar à praia, ultrapassando obstáculos de pouco mais de um metro; não são afetadas pela onda de choque de minas ou torpedos. A russa Classe Zubr é a maior em operação (550 t, mais de 60 nós).
Fig. 3-44
Fig. 3-44 Fig. 3-44 — NDD operando com EDCA

O aerobarco (art. 3.33)

O aerobarco comporta-se como embarcação comum quando parado ou em baixa velocidade (casco sustentado pela água). Com o aumento da velocidade, a sustentação dos hidrofólios cresce; quando ela se iguala ao peso, ocorre a decolagem e o casco se eleva acima da superfície, reduzindo muito a resistência ao avanço.

Há três configurações básicas de hidrofólios, das quais depende a estabilidade em voo:

Configuração de hidrofólioCaracterística
Estabilização natural por proximidade da superfície (shallow-draft submerged foils)Só funciona em águas tranquilas; o hidrofólio perde sustentação ao se aproximar da superfície. Muito usado pelos soviéticos em rios, lagos e canais (ex.: Classe Raketa).
Estabilização natural por equilíbrio de área imersa (surface piercing foils)Parte dos hidrofólios fica acima da superfície; naturalmente estável após a decolagem. É o tipo conhecido no Brasil. Torna-se desconfortável com ondas além de certo tamanho.
Totalmente submersos, com estabilização por dispositivos de controle (fully submerged foils)Depende de controle automático (semelhante ao piloto automático de aeronaves); obtém plataforma quase totalmente estável até certo limite de mar. Empregado em aerobarcos de oceano (protótipos Tucumcari e Flagstaff).
Fig. 3-45
Fig. 3-45 Fig. 3-45 — Aerobarcos Classe Raketa (hidrofólios)
Fig. 3-46
Fig. 3-46 Fig. 3-46 — Comportamento do aerobarco em relação ao mar
Limite da cavitação: a dificuldade para os aerobarcos ultrapassarem cerca de 60 nós é a cavitação nos hidrofólios — bolhas de gás se expandem nas regiões de baixa pressão e colapsam, com implosões que podem erodir a superfície (crateramento). A solução teórica são hidrofólios supercavitantes (até ~100 nós), de difícil obtenção prática.

O veículo sobre colchão de ar — VCA (art. 3.34)

VCA: veículo cujo peso é total ou parcialmente suportado por um colchão de ar, gerado pelo movimento do veículo ou por ventiladores.
Tipo de sustentaçãoComo o colchão é mantido
AerodinâmicaDepende da velocidade do veículo para ser gerado e mantido (inclui o WIG — wing in ground effect / asa com efeito do solo).
AerostáticaColchão mantido sob pressão por ventiladores e contido sob o veículo por jatos periféricos, saias ou anteparas laterais (conceitos de câmara plena e jato periférico, este patenteado por Cockrell).

A saia flexível foi um desenvolvimento fundamental para os VCA de sustentação aerostática, pois permite vencer obstáculos e ondas. Quanto a serem ou não anfíbios:

  • VCA anfíbio — depende de propulsão aérea (hélice ou jato de ar, tão ruidoso quanto uma aeronave); por estar "voando", é afetado pelo vento e tem dificuldade para manobrar e manter posição.
  • VCA não anfíbio — pode ser propulsionado por hélices submersos e governado por lemes dentro da água (manobrabilidade superior); permite substituir as laterais da saia por anteparas rígidas. É o caso do NES (Navio de Efeito de Superfície), de casco duplo tipo catamarã.

As EDCA americanas penetram em 70% dos litorais do mundo (contra 20% das embarcações anteriores); o navio-doca pode ficar a mais de 20 milhas da costa, possibilitando ataques de surpresa, com as EDCA vencendo essa distância em ~30 minutos, inclusive em praias com fundo de coral onde EDVM e EDCG não operariam.

Perspectivas (art. 3.35): seria ilusão imaginar que aerobarcos e VCA substituiriam navios e aeronaves na maioria de seus empregos; não são a única nem a melhor solução na maioria dos casos em que altas velocidades importam. Podem, porém, prover plataformas rápidas e estabilizadas, atraentes para muitos usos, mas sua obtenção só tem lógica quando resulta de uma necessidade definida. Persistem dificuldades (cavitação nos hidrofólios, custo elevado dos veículos de grande porte). Destaca-se o uso de VCA na guerra anfíbia: as EDCA são uma inovação capaz de tornar rapidamente obsoleto quase tudo o que lhe é anterior.