Trabalhos do Marinheiro

1. Visão geral — por que estudar Trabalhos do Marinheiro

Trabalhos do marinheiro, também chamados obras do marinheiro, são os diferentes trabalhos de bordo pelos quais as lonas e os cabos se prendem, são emendados ou se fazem fixos, ou ainda são preparados para qualquer aplicação especial (Fonseca, p. 215). Eles compõem o vocabulário operacional do convés, e somente a prática intensa os fixa de verdade.

Este capítulo agrupa as famílias clássicas: falcaças, nós, voltas, malhas, aboçaduras, botões, alças, mãos, estropos, costuras, pinhas, rabichos, gaxetas, coxins e redes. Nós e voltas são entrelaçamentos feitos à mão, pelos quais os cabos se prendem pelo chicote ou pelo seio. Quando bem dados, aumentam de resistência sob esforço e podem ser desfeitos com facilidade pela mão do homem. Quando mal dados, podem recorrer no momento exato em que o cabo recebe tensão, ou ficar mordidos a ponto de só saírem cortados.

A razão de uma amarração ser sempre menos resistente que o próprio cabo é simples (art. 8.2). No vivo do cabo, o esforço se distribui uniformemente pelos cordões. No ponto de amarração, dobras acentuadas e distorções concentram a carga sobre um cordão ou sobre um número limitado de fios de carreta. Quando o cabo sofre tração demasiada, a ruptura quase sempre acontece exatamente no nó, na volta ou na costura.

Para o prático, este capítulo importa por três razões muito concretas: (1) a escada de quebra-peito pela qual ele embarca depende da escolha correta de cabo e de costuras; (2) a faina de fundeio, de espia em cabeço, de reboque e de aboçar cabos tensionados é cotidianamente regida por nós e voltas específicas; (3) o içamento de carga, com seus estropos e ângulos de pernada, contém pegadinhas que cobram vidas quando ignoradas.

Fonte: FONSECA, M. M. Arte Naval. v. 1, 8. ed. RJ: Marinha do Brasil, 2019. Capítulo 8.

Edital: Anexo 2-A, Área II, item II.10

2. Conceitos fundamentais — anatomia do cabo e tipos de entrelaçamento

Sem esta seção, nada do capítulo é compreensível. As três regiões do cabo, a distinção entre nó/volta/costura e o quadro de resistências percentuais são o ABC do marinheirismo.

2.1 Cabo solteiro: vivo, seio e chicote

Cabo solteiro é um pedaço de cabo que não tem aplicação especial e que está à mão para ser empregado em qualquer mister (Fonseca, p. 215). Nele identificamos três regiões:

  • Vivo do cabo — parte tracionada, suposta de grande comprimento e sob esforço determinado, ou que apenas dá volta em um objeto.
  • Seio do cabo — qualquer parte intermediária, compreendendo dobras.
  • Chicote — parte da extremidade livre, geralmente falcaçada para não descochar.

Quando o cabo passa em torno de um objeto qualquer dando uma só volta de circunferência, sem morder nem dar nó, dá uma volta singela. Dando duas ou mais voltas de circunferência em torno do mesmo objeto, dá voltas redondas. Esta distinção atravessa todo o capítulo.

Fig. 8-1
Fig. 8-1 Fig. 8-1 (Cabo solteiro)

2.2 Distinção entre nó, volta e costura

A diferença é fundamental:

TrabalhoDefiniçãoReversível?Aplicação
Nó / VoltaEntrelaçamento manual do chicote ou seio em torno do próprio cabo ou objetoSim (pela mão)Amarração temporária
CosturaEmenda permanente pelo entrelaçamento dos próprios cordõesNãoEmenda definitiva
AboçaduraNó volumoso para emenda rápida de espiasSim, mas com esforçoEmergência rápida em espia (não gurne em cabrestante)
Regra prática: para amarração temporária, nó ou volta. Para emenda definitiva, costura. Para emergência rápida em espia fora do cabrestante, aboçadura.

2.3 Resistência percentual das amarrações (Columbian Rope)

O quadro experimental da Columbian Rope Company (Auburn, NY, EUA) é a referência clássica do Fonseca. Cabo seco em condição normal = 100%; cabo único = 111%.

Tipo de amarraçãoResistência (% do cabo)
Cabo único111%
Cabo seco100%
Costura de mão100%
Costura de mão seca em sapatilho95-90%
Costura redonda85%
Volta de fateixa76%
Volta de ribeira / volta redonda + 2 cotes70-65%
Laís de guia60%
Volta de fiel60%
Nó de escota55%
Nó direito45%
Meia-volta45%
Leitura imediata: costura supera qualquer nó. Entre nós, o laís de guia (rei dos nós) retém apenas 60% — é o preço da praticidade. Nó direito e meia-volta caem para 45%, menos da metade.

3. Voltas — entrelaçamentos dados em torno de um objeto

As voltas constituem a Seção A do Fonseca, dos artigos 8.3 a 8.23. São dadas, com o chicote ou com o seio de um cabo, em torno de um objeto qualquer. Formam a base prática do convés.

3.1 Voltas elementares: meia-volta, cote e volta de fiador

  • Meia-volta (art. 8.4) — volta usada comumente nos embrulhos. Dá-se com o chicote de um cabo. Pouco uso isolado a bordo; serve como base de outros nós. Um cabo com meia-volta perde mais da metade da força.
  • Cote (art. 8.6) — volta singela em que uma das partes do cabo morde a outra. Raramente usado isolado; serve para rematar outras voltas.
  • Volta de fiador (art. 8.5) — em forma de número 8. Dá-se passando o chicote em torno e por trás, metendo-o no seio. Aplica-se no chicote do tirador de uma talha para não desgurnir. Superior à meia-volta porque não fica mordida.
Fig. 8-2
Fig. 8-2 Fig. 8-2 (Meia-volta)
Fig. 8-3
Fig. 8-3 Fig. 8-3 (Volta de fiador)
Fig. 8-4
Fig. 8-4 Fig. 8-4 (Cote)

3.2 Volta de fiel — singela e dobrada

A volta de fiel singela (art. 8.7) é o entrelaçamento mais usado a bordo. Consiste em dois cotes dados um contra o outro, de modo que os dois chicotes saiam por entre eles e em sentidos contrários. Serve para passar um fiel ou uma adriça em torno de balaústre, olhal ou pé-de-carneiro. Também para amarrar um cabo fino em torno de um mais grosso, como nos enfrechates amarrados aos ovéns das enxárcias.

Condição crítica: a volta de fiel exige tensão constante. Sob tensão flutuante, tende a abrir-se; nesses casos, deve ser rematada com cote ou botão.

A volta de fiel dobrada (art. 8.8) começa e termina como a singela, mas tem uma volta a mais entre o primeiro e o último cote. O primeiro cote é mordido com volta redonda. Nunca recorre — por isso é largamente usada para aguentar qualquer cabo em torno de outro mais grosso, em pé-de-carneiro, para amarrar fiéis das macas ou para aboçar um cabo.

Fig. 8-5
Fig. 8-5 Fig. 8-5 (Volta de fiel singela)
Fig. 8-6
Fig. 8-6 Fig. 8-6 (Volta de fiel pelo seio)
Fig. 8-7
Fig. 8-7 Fig. 8-7 (Volta de fiel dobrada)

3.3 Voltas em torno de objeto fixo: singela e redonda com cotes

  • Volta singela e dois cotes (art. 8.9, Fig. 8-8) — serve para amarrar um cabo ao anete de um ancorote, à boça de uma embarcação, ao arganéu de uma boia. Se apenas um cote remata, o chicote precisa ser abotoado. Recorre se o chicote não estiver abotoado. Os dois cotes devem ser dados no mesmo sentido.
  • Volta redonda e dois cotes (Fig. 8-9) — admite uso em espia amarrada em cabeço. Cautela importante: coloca-se pedaço de madeira separando os dois cotes ou abotoa-se o chicote, porque sob tensão grande a volta tende a recorrer.
Fig. 8-8
Fig. 8-8 Fig. 8-8 (Volta singela e dois cotes)
Fig. 8-9
Fig. 8-9 Fig. 8-9 (Volta redonda e dois cotes)

3.4 Voltas da ribeira e mordidas em gatos

  • Volta da ribeira (art. 8.10) — uma volta em torno do objeto, seguida de um cote em que o chicote se enleia em torno do próprio cabo. Serve para amarrar mastros, antenas e objetos leves.
  • Volta da ribeira e cote (art. 8.11) — cote prévio + volta da ribeira. Dá mais segurança (objeto preso em duas partes). Útil para madeiro rebocado.
  • Volta singela mordida em gato (art. 8.12) — cote dado sobre um gato. Assim que o cabo recebe esforço, o vivo morde o chicote. Serve para prender com presteza a qualquer gato fixo.
  • Volta redonda mordida em gato (art. 8.13) — mais segura que a singela.
Hoje em desuso: ambas as voltas mordidas em gato cedem espaço para o balso singelo pelo laís de guia — só se recorre à volta mordida quando o chicote é curto demais para dar o laís.
Fig. 8-10
Fig. 8-10 Fig. 8-10 (Volta da ribeira)
Fig. 8-11
Fig. 8-11 Fig. 8-11 (Ribeira e cote)
Fig. 8-12
Fig. 8-12 Fig. 8-12 (Volta singela mordida)

3.5 Bocas-de-lobo, volta de fateixa, tortor

  • Boca-de-lobo singela (art. 8.14) — amarração provisória, pelo gato, de qualquer aparelho de içar, ou de cabo (pelo seio ou chicote) a gato fixo. O cabo é dobrado, o chicote passa por trás de uma parte e por cima do seio, e o gato penetra pelos dois seios. O cabo porta melhor pelo chicote. Substitui as voltas mordidas em gato com maior segurança.
  • Boca-de-lobo dobrada (art. 8.15) — mesmos fins; serve também para cortar (diminuir o tamanho) um estropo singelo. Os dois seios são enleados e o gato passa por dentro deles.
  • Volta de fateixa (art. 8.16) — volta redonda + cabo passando com cote por dentro da volta redonda. Chicote rematado por botão ou segundo cote. Volta clássica para amarrar espia a ancorote, fiel a balde, prancha de costado.
  • Volta de tortor (art. 8.17) — serve para aguentar o passador em um merlim quando se quer rondar voltas que atracam dois cabos. Também para falcaçar ou para prender um cabo a um gato (como a boca-de-lobo). Aplicação típica: amarração das pranchas de costado.
  • Volta redonda mordida e cote (art. 8.18) — dificilmente recorre; quanto maior o esforço, mais apertada fica. Era empregada antigamente para dar volta às adriças e escotas das velas; está em desuso.
Fig. 8-13
Fig. 8-13 Fig. 8-13 (Boca-de-lobo singela)
Fig. 8-14
Fig. 8-14 Fig. 8-14 (Boca-de-lobo dobrada)
Fig. 8-15
Fig. 8-15 Fig. 8-15 (Volta de fateixa)
Fig. 8-16
Fig. 8-16 Fig. 8-16 (Volta de tortor)
Fig. 8-17
Fig. 8-17 Fig. 8-17 (Volta redonda mordida e cote)

3.6 Voltas de encapeladura, trincafiadas e falida

  • Volta de encapeladura singela (art. 8.19) — começa como volta de fiel; serve para aguentar mastro ou antena ao alto, encapelando a parte central no topo do mastro, com as outras pernadas servindo de plumas amarradas ao convés.
  • Encapeladura dobrada (art. 8.20) — três seios em vez de dois. Somente para enfeite.
  • Encapeladura em cruz (art. 8.21) — substitui alça provisória. Usada em pesqueiros com pau de carga de madeira. Também ornamental.
  • Voltas trincafiadas (art. 8.22) — série de cotes (voltas singelas mordidas) dadas sucessivamente com o mesmo cabo. Feitas com o trincafio das macas para ferrá-las; ferrar toldos e velas. Com merlim, marcam ponto num cabo ou compõem botão provisório.
  • Volta falida (art. 8.23) — série de voltas alternadas dadas entre dois objetos quaisquer. Serve para atracar dois cabos, dar botão provisório, unir duas peças, amarrar cabo alceado a mastro. Base de badernas, portuguesas e peitos de morte. Para dar volta a uma espia ou cabo de laborar em torno de dois cabeços, cunhos ou malaguetas, é o entrelaçamento de eleição.
Fig. 8-18
Fig. 8-18 Fig. 8-18 (Encapeladura singela)
Fig. 8-19
Fig. 8-19 Fig. 8-19 (Encapeladura dobrada)
Fig. 8-20
Fig. 8-20 Fig. 8-20 (Encapeladura em cruz)
Fig. 8-21
Fig. 8-21 Fig. 8-21 (Voltas trincafiadas)
Fig. 8-22
Fig. 8-22 Fig. 8-22 (Volta falida)

4. Nós — entrelaçamentos do cabo sobre si mesmo

A Seção B do Fonseca (arts. 8.24 a 8.36) trata dos nós dados com o chicote ou seio do cabo sobre si mesmo.

4.1 Laís de guia e família dos balsos

O laís de guia (art. 8.24) é o rei dos nós. Muito usado a bordo, é dado com presteza e nunca recorre. Forma uma alça ou um balso, que pode ser de qualquer tamanho, mas não corre como um laço. Serve para fazer alça temporária numa espia, ou para ligar duas espias que não devem trabalhar em cabrestante.

Para dar o laís de guia, se o cabo for de diâmetro moderado, segura-se a parte b na mão direita e a parte d na mão esquerda, faz-se o seio x, e basta fazer o chicote seguir a linha pontilhada para completar o nó. Se o diâmetro for grande, procede-se de modo semelhante mantendo o cabo sobre o convés.

Emprego prático: amarração temporária de embarcações pequenas (e até contratorpedeiros) ao arganéu de uma boia. Passa-se o chicote pelo arganéu e dá-se o laís no seio do cabo dentro da embarcação. Ela fica amarrada pelo balso, fácil de desfazer pelo pessoal de bordo.
  • Balso singelo (art. 8.25) — seio ou alça que resulta de um laís de guia dado no próprio cabo, formando apenas um seio.
  • Balso de calafate (art. 8.26) — laís com uma volta a mais por dentro da alça antes de completar o nó. Aguenta homem trabalhando no costado ou mastro com as mãos livres: senta-se em um seio e gurne cabeça e braços pelo outro, ficando o nó no peito. Permite descer homem a paiol invadido por fumaça com segurança.
  • Balso dobrado (art. 8.27) — dois seios formados por duas voltas redondas com o chicote antes do laís. Mesmos usos do calafate. Pode ser passado em torno de objeto a içar, servindo de estropo.
Fig. 8-23
Fig. 8-23 Fig. 8-23 (Laís de guia)
Fig. 8-24
Fig. 8-24 Fig. 8-24 (Balso de calafate)
Fig. 8-25
Fig. 8-25 Fig. 8-25 (Balso dobrado)

4.2 Balso pelo seio, americano, de correr e corrente

  • Balso pelo seio (art. 8.28) — começa como laís de guia mas o seio passa por fora do outro seio antes de apertar. Empregado onde se necessita resistência maior que a do balso singelo, ou quando não se pode tomar o cabo pelo chicote. Também para pendurar homem.
  • Balso americano (art. 8.29) — duas voltas em cabo sem que nenhuma corra; extremidades passam pelo centro cruzando e saindo pelas laterais. Manobra para retirar ferido de porão ou pendurar homem no mastro.
  • Balso de correr (art. 8.30), também laís de guia de correr — laço formado por balso singelo dado em torno do seio do próprio cabo. Para alça de correr com presteza.
  • Corrente (art. 8.31) — série de voltas para diminuir comprimento de cabo que não sofre esforço. Vedação estética: não se usa a corrente nos fiéis de toldos — esses devem ser diminuídos com voltas redondas bem unidas, dadas com o chicote sobre o vivo do cabo.
Fig. 8-26
Fig. 8-26 Fig. 8-26 (Balso pelo seio)
Fig. 8-27
Fig. 8-27 Fig. 8-27 (Balso de correr)
Fig. 8-28
Fig. 8-28 Fig. 8-28 (Corrente)

4.3 Cataus, azelha, pescador, moringa

  • Catau de reboque (art. 8.32) — dobra no seio do cabo, principalmente para esconder ponto fraco do cabo; também encurta. Reforçado por botão redondo esganado ou duas taliscas de madeira. Em cabo de bitola muito grande, basta abotoar.
  • Catau de bandeira (art. 8.33) — nó dos sinaleiros para levar bandeiras ao tope do mastro. Uma vez no tope, puxa-se uma pernada e o catau se desfaz, liberando a bandeira.
  • Nó de azelha (art. 8.34) — dado com o seio do cabo. Marca um cabo ou merlim pelo seio. Útil para tomar medidas das velas com merlim, marcando os punhos. Também encurta linha.
  • Nó de pescador (art. 8.35) — toma o seio, forma alça, coloca outra parte. Dobra-se o cabo no seio e passa-se esse extremo por cima de uma parte e por baixo de outra. Muito usado pelos pescadores para encurtar linha escondendo ponto coçado.
  • Nó de moringa (art. 8.36) — dobra o cabo pelo seio, coloca a dobra sobre duas partes, forma dois seios, passa um seio dentro do outro. Para alça permanente (lambaz) ou enfeite. Antigamente pendurava moringas de asa em veleiros.
Fig. 8-29
Fig. 8-29 Fig. 8-29 (Catau de reboque)
Fig. 8-30
Fig. 8-30 Fig. 8-30 (Nó de azelha)
Fig. 8-31
Fig. 8-31 Fig. 8-31 (Nó de pescador)
Fig. 8-32
Fig. 8-32 Fig. 8-32 (Nó de moringa)

5. Nós para emendar dois cabos pelos chicotes

A Seção C do Fonseca (arts. 8.37 a 8.45) reúne os nós que ligam dois cabos pelos chicotes — incluindo o par direito vs. torto (pegadinha clássica) e as cinco aboçaduras.

5.1 Nó direito e nó torto

O nó direito (art. 8.37) é o método mais antigo e, em terra, o mais empregado, para unir dois chicotes ou dois cordões. Dá-se fazendo primeiro uma meia-volta com ambos os chicotes e depois outra meia-volta em sentido inverso ao da primeira. Qualidade: não recorre. Defeito: muito difícil de desfazer uma vez rondado.

Restrições: desfaz-se por si mesmo se os cabos são de tamanhos ou materiais diferentes. Nunca em aparelhos de laborar nem em emenda de espias. Aplicação clássica: amarrar os rizes das velas.

O nó torto (art. 8.38) é dado como o direito, mas as duas meias-voltas são feitas num mesmo sentido. Confunde-se muito com o direito, mas não é usado a bordo porque recorre.

Sentido das meias-voltasRecorre?Uso a bordo
DireitoInversos entre siNãoSim, em cabos finos / rizes
TortoMesmo sentidoSimNão usado
Fig. 8-33
Fig. 8-33 Fig. 8-33 (Nó direito)
Fig. 8-34
Fig. 8-34 Fig. 8-34 (Nó torto)

5.2 Nó de escota — singelo, dobrado, de rosa

  • Nó de escota singelo (art. 8.39) — une dois cabos pelos chicotes, ou chicote a olhal/mão/alça. Muito usado para amarrar a uma bandeira a adriça que não tem gato. Também para dar volta à boça de embarcação miúda na mão do cabo de cabeço de pau de surriola. Particularmente útil para cabos finos ou de bitolas diferentes.
  • Nó de escota dobrado (art. 8.40) — o chicote faz uma volta redonda em vez da singela. Maior segurança. Usado para emendar duas espias, especialmente quando uma tem alça ou são de tamanhos diferentes; nesse caso a espia de maior grossura forma a alça.
  • Nó de escota de rosa (art. 8.41) — para unir dois cabos de bitolas diferentes.
Fig. 8-35
Fig. 8-35 Fig. 8-35 (Escota singelo)
Fig. 8-36
Fig. 8-36 Fig. 8-36 (Escota dobrado)
Fig. 8-37
Fig. 8-37 Fig. 8-37 (Escota de rosa)

5.3 Nós de correr, fio de carreta e frade

  • Nó de correr (art. 8.42), também chamado nó de pescador — para emendar dois cabos com meia-volta em cada chicote em torno do outro.
  • Nó de fio de carreta (art. 8.43) — para emendar dois fios de carreta. Separam-se em duas metades, formando quatro cordões, que se entrelaçam como nó direito. Em desuso.
  • Nó de frade (art. 8.44) — limita ângulo de leme de embarcações miúdas; também ornamentação.
Fig. 8-38
Fig. 8-38 Fig. 8-38 (Nó de correr)
Fig. 8-39
Fig. 8-39 Fig. 8-39 (Fio de carreta)
Fig. 8-40
Fig. 8-40 Fig. 8-40 (Nó de frade)

5.4 Aboçaduras — emenda rápida de espias

As aboçaduras (art. 8.45) servem para emendar duas espias com rapidez e segurança. Restrição operacional: são nós volumosos demais para serem usados quando o cabo tiver de gurnir em cabrestante ou retorno qualquer.

O Fonseca apresenta cinco variantes:

  • (a) Com dois laises de guia, passando um balso por dentro do outro.
  • (b) Com cotes + chicotes abotoados e esganados para maior segurança.
  • (c) Com dois cotes em cada espia.
  • (d) Cabos dobrados passando um seio por dentro do outro, com cotes aguentados por botão em cruz + botão redondo.
  • (e) Aboçadura constituída somente por botões em cruz.
Fig. 8-41
Fig. 8-41 Fig. 8-41 (Aboçadura)

6. Trabalhos feitos nos chicotes — falcaças, pinhas, botões

A Seção D do Fonseca (arts. 8.46 a 8.76) — o trecho mais denso em manobras de marinheirismo do capítulo.

6.1 Falcaça — definição e seis métodos

Sempre que se corta um cabo é necessário falcaçá-lo (art. 8.46). A falcaça é o meio mais correto e mais usado para impedir que o chicote do cabo descoche. Consiste em dar em torno dos cordões certo número de voltas redondas com fio de vela ou merlim. Largura da falcaça = diâmetro do cabo (regra geral).

MétodoCaracterísticaQuando usar
1º — Comum (Fig. 8-42a)Merlim dobrado sobre chicote, voltas redondas; chicote enfiado no seio; rondado e cortadoFalcaça padrão
(Fig. 8-42b)Começa com seio; voltas sobre chicote do merlim; dobra-se merlim, continuaVariação rápida
Como o 2º mas com nó direito escondido entre dois cordõesAcabamento limpo
4º — Esganada pela cocha (Fig. 8-42c)Com agulha e repuxo; passa-se a agulha sob cordão; voltas sobre chicote curto; agulha atravessa cordõesUm dos mais seguros
5º — Esganada (Fig. 8-42d)Descocha chicote; seio do merlim em volta de cordão; voltas com seio folgado; aperta com chicote fixoFalcaça reforçada
6º — Trincafiada (Fig. 8-43)Meias-voltas diametralmente opostasFalcaçar pelo seio; ornamentar
Fig. 8-42a
Fig. 8-42a Fig. 8-42a (Falcaça comum)
Fig. 8-42b
Fig. 8-42b Fig. 8-42b (Segundo método)
Fig. 8-42c
Fig. 8-42c Fig. 8-42c (Esganada pela cocha)
Fig. 8-42d
Fig. 8-42d Fig. 8-42d (Esganada)
Fig. 8-43
Fig. 8-43 Fig. 8-43 (Trincafiada)

6.2 Pinhas — intercalação simétrica dos cordões

A pinha (art. 8.47) consiste numa intercalação simétrica dos cordões de um cabo, feita geralmente no chicote, que é descochado em certo comprimento. No lugar em que deve começar a pinha, falcaça-se sempre o cabo para não descochar mais durante o trabalho.

Aplicações: trabalho de enfeite; aguentar cabo de vaivém em olhal; impedir que chicote passe por gorne; dar peso à retinida para atingir ponto distante no arremesso. As principais são:

PinhaArt.Característica
Singela (Fig. 8-44)8.48Intercala cordões para cima; pode substituir falcaça em emergência
Nó de porco (Fig. 8-45)8.50Inverso da singela — intercala para baixo
Falcaça francesa8.52Nó de porco + costura idêntica à de mão
Dobrada (Fig. 8-46)8.53Pinha singela + nó de porco em cima, ambos dobrados; uma das mais usadas
Colhedor singela/dobrada (Figs. 8-47/8-48)8.54/8.55Cordão passa por fora dos outros dois pela direita
Boça (Fig. 8-49)8.56Pinha singela + chicote enfiado no seio adjacente à direita
Rosa singela/dobrada (Fig. 8-50)8.57/8.58Três cordões dobrados sobre o próprio cabo
Fixa (Fig. 8-51)8.59Andorinhos de lanchas, tirantes das escadas de quebra-peito; nos fiéis do leme, limita ângulo de guinada
Cesta (Fig. 8-52)8.60Sinaleiros nas adriças, pandulho de areia dentro; nas retinidas
Lambaz (Fig. 8-53)8.61Lambaz e ornamentação
Cruzada / Retinida (Fig. 8-54)8.62Pinha de retinida — pandulho para alcançar ponto distante no arremesso
Abacaxi (Fig. 8-55)8.63Tamanho ilimitado; ornamental; pés-de-carneiro, cana do leme
Fig. 8-46c — Pinha dobrada (C)
Fig. 8-46c Pinha dobrada (C)
Fig. 8-46b — Pinha dobrada (B)
Fig. 8-46b Pinha dobrada (B)
Fig. 8-46 — Pinha dobrada (A)
Fig. 8-46 Pinha dobrada (A)
Fig. 8-44
Fig. 8-44 Fig. 8-44 (Pinha singela)
Fig. 8-45
Fig. 8-45 Fig. 8-45 (Nó de porco)
Fig. 8-46
Fig. 8-46 Fig. 8-46 (Pinha dobrada)
Fig. 8-47
Fig. 8-47 Fig. 8-47 (Colhedor singela)
Fig. 8-48
Fig. 8-48 Fig. 8-48 (Colhedor dobrada)
Fig. 8-49
Fig. 8-49 Fig. 8-49 (Pinha de boça)
Fig. 8-50
Fig. 8-50 Fig. 8-50 (Rosa singela)
Fig. 8-51
Fig. 8-51 Fig. 8-51 (Pinha fixa)
Fig. 8-52
Fig. 8-52 Fig. 8-52 (Cesta)
Fig. 8-53
Fig. 8-53 Fig. 8-53 (Lambaz)
Fig. 8-54
Fig. 8-54 Fig. 8-54 (Cruzada/retinida)
Fig. 8-55
Fig. 8-55 Fig. 8-55 (Abacaxi)

6.3 Botões — voltas redondas sobre duas pernadas

Botões (art. 8.64) são voltas redondas de arrebém, linha, merlim ou fio de vela, dadas em torno de duas partes de cabo para prendê-las definitivamente. Tomar um botão chama-se abotoar.

Servem para alcear qualquer volta aguentando o chicote ou um seio ao vivo do próprio cabo, fazer malha de redes, compor aboçaduras ou encapeladuras, amarrar dois gatos iguais ou um gato de tesoura, amarrar olhal a peça fixa.

BotãoCaracterísticaQuando usar
Redondo (Fig. 8-56)Série de voltas redondas (~7); chicote por dentro + coteEsforço pequeno ou igual nas duas pernadas
Redondo esganado (Fig. 8-57)+ 2-3 voltas redondas terminando em volta de fiel (singela ou dobrada)Esforço apenas em uma pernada
Redondo coberto e esganado (Fig. 8-58)Nº ímpar de voltas (7 ou 9) + cobertura de voltas no mesmo sentido (6 ou 8) + volta de fielO mais forte; alcear cabo em sapatilho
Falido (Fig. 8-59)Dado com volta falida; 5-10 voltasEsforço desigual nas duas pernadas (talha que suporta peso); cabrilhas
Portuguesa (Fig. 8-60)Alterna volta falida e volta redonda, ~11 voltas em médiaCabos de aço, esforço só numa pernada; mais segura que os redondos
Cruzado (Fig. 8-61)Voltas redondas em duas direções perpendicularesCabos cruzados
Alça de botão redondo (Fig. 8-62)Botão redondo formando alça pelo seioAlça permanente no seio de um cabo
Fig. 8-56
Fig. 8-56 Fig. 8-56 (Botão redondo)
Fig. 8-57
Fig. 8-57 Fig. 8-57 (Redondo esganado)
Fig. 8-58
Fig. 8-58 Fig. 8-58 (Coberto e esganado)
Fig. 8-59
Fig. 8-59 Fig. 8-59 (Botão falido)
Fig. 8-60
Fig. 8-60 Fig. 8-60 (Portuguesa)
Fig. 8-61
Fig. 8-61 Fig. 8-61 (Botão cruzado)

6.4 Outros trabalhos — badernas, barbela, peito de morte, arreatadura, cosedura

  • Badernas (art. 8.72) — botões provisórios tomados com mialhar ou fio de carreta, nos tiradores das talhas, colhedores das enxárcias, brandais e cabos de laborar, para não arriarem.
  • Barbela (art. 8.73) — espécie de botão tomado nos gatos para não desengatarem, principalmente quando a carga deve ser suportada por algum tempo. Duas a quatro voltas redondas + voltas perpendiculares; remata-se com nó direito nos dois chicotes.
  • Peito de morte (art. 8.74) — nome dos botões falidos, redondos ou portuguesas esganados como na barbela, quando empregados para prender mastaréu ao que lhe fica embaixo, ou dois paus que se cruzam para formar uma cabrilha.
  • Arreatadura (art. 8.75) — voltas de cabo com que se arreatam mastros, vergas etc., quando trincados ou partidos. Taliscas de madeira anulam a folga.
  • Cosedura (art. 8.76) — qualquer botão dado para apertar alças do poleame, gargantas dos estais, encapeladuras dos ovéns, com mialhar, arrebém, linha ou merlim.
Fig. 8-63
Fig. 8-63 Fig. 8-63 (Barbela)
Fig. 8-64
Fig. 8-64 Fig. 8-64 (Peito de morte)
Fig. 8-65
Fig. 8-65 Fig. 8-65 (Arreatadura)

7. Costuras de cabos — emendas permanentes por entrelaçamento dos cordões

As costuras abrem a Seção F do Fonseca (arts. 8.78 a 8.83). Diferentemente dos nós, são emendas permanentes feitas pelo entrelaçamento dos próprios cordões.

7.1 Definição, vantagens, ferramentas

Costuras são emendas permanentes de dois chicotes, ou de um chicote ao seio do cabo, por meio de entrelaçamento dos cordões. As três costuras clássicas:

CosturaConstruçãoAplicaçãoDiâmetro final
RedondaCordões de um cabo trançados entre os do outro, no sentido contrário ao da cochaEstropos; emendar espias/cabos que não gurnem em poleameDuplica no ponto da costura
De mãoChicote dobrado formando alça; costurado no próprio cabo com costura redondaFormar alça permanente; "mão de encapeladura"Maior na alça
De laborarDescocha-se cordão de cada cabo, substituindo-o por cordão do outro; meia-volta a cada parEmendar cabos que devem gurnir em poleameMantém o original

Vantagens das costuras sobre nós/aboçaduras: (1) maior resistência à tração; (2) melhor gurnir em cabrestante ou retorno. Diminui a resistência em 10-15% (art. 8.2), dependendo da habilidade.

Mínimo de 4 ou 5 cochas. As costuras podem ser feitas em cabos de fibra ou aço, mas nestes últimos são muito mais difíceis e raramente executadas a bordo. Antes de qualquer costura, falcaçam-se provisoriamente os cordões e os cabos nos pontos onde a costura começa.

Ferramentas: macete e passador. Para cabos modernos de dupla trança: passador de aço, empurrador e fita adesiva.

7.2 Costura redonda

(art. 8.79) Descocham-se os cordões em cerca de três vezes a circunferência do cabo, falcaçam-se os chicotes, cabos a beijar com cordões alternados. Dá-se botão provisório no grupo de cordões do cabo A. Cocha-se cordão sobre um e sob o seguinte do cabo B, no sentido contrário ao da cocha. Repete-se com os outros dois cordões. Retira-se o botão provisório e cocham-se os cordões de B em A. Cada operação repete-se duas vezes mais para cada um dos seis cordões. Bate-se a costura com macete e corta-se o que sobra (não muito rente).

Para melhor aparência e maior resistência: descocham-se cordões um pouco maior, corta-se 1/3 dos fios de carreta, cocha-se mais uma vez, corta-se metade dos fios restantes, cocha-se outra vez.

Limitação cardinal: a costura redonda é o mais forte meio de unir dois cabos, mas faz o cabo duplicar de diâmetro no ponto da costura, expondo os cordões a atrito extra. Por isso não se usa em cabos de laborar.
Fig. 8-67
Fig. 8-67 Fig. 8-67 (Costura redonda)

7.3 Costura de mão

(art. 8.80) Descocha-se o cabo em ~3 vezes a circunferência. Dobram-se os cordões sobre o seio no ponto onde começa a costura, ficando a mão do tamanho desejado. Cocha-se o cordão do meio sob o primeiro cordão. Cordão da esquerda sobre o primeiro e cochado sob o segundo. Vira-se o cabo 180°. Dá-se ao cordão da direita uma torcida no sentido da cocha dele e mete-se sob o terceiro cordão. Repete-se duas vezes mais, como na costura redonda.

Quando o olho da mão é grande e próprio para encapelar no tope de um mastro, a costura recebe nome especial: mão de encapeladura.
Fig. 8-68
Fig. 8-68 Fig. 8-68 (Costura de mão)

7.4 Costura de laborar

(art. 8.81) Descocham-se os chicotes em ~12 a 15 vezes a circunferência dos cabos. Colocam-se a beijar com cordões alternados. Descocha-se um cordão a₁ do cabo A; em seu lugar cocha-se o cordão b₁ do cabo B; meia-volta para aguentar. Descocha-se um segundo cordão; cocha-se o cordão correspondente do primeiro cabo. O terceiro par permanece sem ser descochado. Em cada par dá-se uma meia-volta; cocha-se cada cordão duas vezes com todos os fios, mais uma vez com metade, outra vez com metade dos que sobraram.

Principal fim: manter na emenda o mesmo diâmetro do cabo original, permitindo que ele passe com facilidade nos gornes. É um pouco mais fraca e exige mais cabo que a redonda — mas é a única que serve para cabos de laborar.

Fig. 8-69
Fig. 8-69 Fig. 8-69 (Costura de laborar)

7.5 Cabos modernos — trançado de 8 cordões e dupla trança

Cabo trançado de 8 cordões (art. 8.82): descocha-se ~4× a circunferência, falcaçam-se cordões com fita gomada, separam-se aos pares (2 direita + 2 esquerda). Espicha de madeira de bitola compatível. Abre-se cocha da direita para esquerda, passam-se 2 cordões de cima do lado direito; depois da esquerda para a direita, 2 do lado esquerdo. Vira-se o cabo e repete. Pronta após 4 a 5 passes.

Fig. 8-70 — Cabo naval de dupla trança
Fig. 8-70 Cabo naval de dupla trança

Cabo naval de dupla trança (art. 8.83): costura de mão somente para cabo novo; mantém ~90% da resistência média. Ferramentas: passador de aço, empurrador, fita adesiva. Confecção em 11 passos: (1) estabelecer medidas — pontos R e X; (2) extrair alma; (3) marcar alma (marcas 1, 2, 3); (4) marcar cobertura para chanfrar; (5) colocar cobertura dentro da alma; (6) chanfro; (7) recolocar alma na cobertura (T até Z); (8) marcar alma na extremidade com volume reduzido; (9) embutir alma exposta; (10) acabamento a pontos; (11) costura de fechamento em três etapas com nó quadrado final em dois planos perpendiculares.

Fig. 8-70
Fig. 8-70 Fig. 8-70 (Cabo dupla trança)
Fig. 8-71a
Fig. 8-71a Fig. 8-71a (Passo 1 — medidas)
Fig. 8-71b
Fig. 8-71b Fig. 8-71b (Passo 2 — extração alma)
Fig. 8-71c
Fig. 8-71c Fig. 8-71c (Passo 3 — marcação)
Fig. 8-71d
Fig. 8-71d Fig. 8-71d (Passo 4 — chanfro marcação)
Fig. 8-71e
Fig. 8-71e Fig. 8-71e (Passo 5 — cobertura na alma)
Fig. 8-71f
Fig. 8-71f Fig. 8-71f (Passo 6 — chanfro)
Fig. 8-71g
Fig. 8-71g Fig. 8-71g (Passo 7 — recolocar alma)

8. Alças, embotijos, gaxetas, coxins e rabichos

O grande bloco intermediário da Seção F. Reúne alças/emendas especiais (arts. 8.84-8.89), proteção de cabos (8.77), embotijos (8.90-8.104), gaxetas (8.105-8.116), pinhas de anel/coxins (8.117-8.127) e rabichos (8.128-8.130).

8.1 Alças e emendas especiais

  • Garruncho (art. 8.84) — anel de metal ou cabo, preso no gurutil das velas latinas, nas forras dos rizes para os impunidouros, nos punhos das escotas. Nos toldos e velas pequenas usam-se ilhoses.
  • Auste (art. 8.85) — modo antigo de ligar dois cabos pelos chicotes; cordões alternados metidos entre os cordões do outro. Em desuso.
  • Costura de boca-de-lobo (art. 8.86) — emenda dois cabos ou liga pedaço de cabo ao seio de outro. As emendas são feitas com costuras de mão. Usada para encapelar em mastro/antena onde sejam necessárias as duas pernadas separadas. Substitui com vantagem a encapeladura por alça de botão redondo quando as duas pernadas não devem partir do mesmo ponto.
  • Alça trincafiada (art. 8.87) — falcaça-se o cabo, descocham-se cabo e cordões, cepo de madeira de circunferência igual à da alça. Voltas trincafiadas em torno da alça. Para chicotes de cabos-guias, terminar gaxetas e rabichos, e qualquer alça pequena onde costura de mão não cabe.
  • Alça para corrente (art. 8.88) — emenda cabo de fibra a uma corrente, quando esta gurne em poleame. Descocha-se cabo um pouco maior que o necessário para costura de mão; dois cordões metidos no último elo da corrente; remate com costura de laborar e costura de mão.
  • Unhão singelo (art. 8.89) — emenda de dois cabos pelos chicotes formando espécie de pinha. Usado antigamente para emendar ovéns, brandais, estais quando cortados. Em desuso.
Fig. 8-72
Fig. 8-72 Fig. 8-72 (Garrunchos)
Fig. 8-73
Fig. 8-73 Fig. 8-73 (Auste)
Fig. 8-74
Fig. 8-74 Fig. 8-74 (Costura boca-de-lobo)
Fig. 8-75
Fig. 8-75 Fig. 8-75 (Alça trincafiada)
Fig. 8-76
Fig. 8-76 Fig. 8-76 (Alça para corrente)

8.2 Engaiar, percintar, trincafiar, forrar, encapar

Cinco trabalhos (art. 8.77) que protegem uma costura ou cabo exposto ao tempo:

TrabalhoMaterialFunção
EngaiarLinha alcatroada, merlim alcatroado ou arrebémSegue cada cocha do cabo; impede umidade; guarnece cochas; superfície lisa para percintar/forrar
PercintarTiras de lonas/brim alcatroadas (percintas)Enrola em espiral seguindo a cocha. Cabo de aço: antes passa camada de zarcão. Sempre no sentido da cocha
TrincafiarFios de vela ou linha de ramiAmarra as percintas com voltas de trincafios ou tomadouros
ForrarVoltas redondas de merlimCobre cabo já engaiado/percintado. Sentido contrário ao da cocha. Macete de forrar
Encapar / emangueirarLonaCobre com lona; costura com ponto de bigorrilha chato
Atenção: percinta-se e engaia-se no sentido da cocha; mas forra-se no sentido contrário à cocha.
Fig. 8-66
Fig. 8-66 Fig. 8-66 (Engaiar, percintar, forrar, encapar)

8.3 Embotijos — trançado externo sobre cabos e defensas

O embotijo (art. 8.90) é trançado com que se cobrem balaústres, pés-de-carneiro, cabos grossos, defensas ou outros objetos. Feito com merlim, fio de vela e similares. Tipos principais:

  • De canal de 2 cordões (Fig. 8-78) — cotes alternados direita/esquerda.
  • De canal de 3+ cordões (Fig. 8-79) — cotes em sentidos alternados; nós uns embaixo dos outros.
  • De cordões duplos (Fig. 8-80) — três cordões duplos.
  • Em leque de 2/3 cordões (Figs. 8-81a/b) — cotes sucessivos para direita, depois esquerda.
  • De canal, 3 cordões cada lado (Fig. 8-82) — seis pedaços, três de cada lado em pontos diametralmente opostos.
  • De cotes para dentro (Fig. 8-83) — excelente para defensa de embarcação miúda. Merlim madre 25-30× o comprimento dá voltas redondas; cada merlim dá cotes para dentro.
  • De cotes para fora (Fig. 8-84) — mesmo princípio, superfície mais lisa.
  • De defensa (Fig. 8-85) — cobrir defensas grandes, especialmente balão ou formas irregulares (proa de rebocadores). Feito com um só cordão; duas voltas redondas iniciais; cotes sobre elas; novos cotes nos seios anteriores.
  • De nós de porco (Fig. 8-86) — qualquer número ≥3 cordões; podem ser nós de pinha (espiral se mesmo sentido).
  • De cotes em 1 cordão (Fig. 8-87) — voltas redondas + cote no fim de cada uma; espiral se mesmo sentido.
  • De meias-voltas — meias-voltas encostadas; número par de cordões.
  • De rabo de cavalo (Fig. 8-88) — mesmo trançado das linhas de adriça. Feito sempre por duas pessoas, com número par de cordões.
  • De rabo de raposa ou agulha (Fig. 8-89) — número ímpar de merlins; merlim/fio fino numa agulha passa alternadamente por cima de 2 e por baixo de 2; resulta em espiral (pelo número ímpar).
  • De 4 cordões em cotes alternados (Fig. 8-90).
Fig. 8-78
Fig. 8-78 Fig. 8-78 (Canal 2 cordões)
Fig. 8-79
Fig. 8-79 Fig. 8-79 (Canal 3+ cordões)
Fig. 8-80
Fig. 8-80 Fig. 8-80 (Cordões duplos)
Fig. 8-81a
Fig. 8-81a Fig. 8-81a (Leque 2)
Fig. 8-81b
Fig. 8-81b Fig. 8-81b (Leque 3)
Fig. 8-82
Fig. 8-82 Fig. 8-82 (Canal 3 cada lado)
Fig. 8-83
Fig. 8-83 Fig. 8-83 (Cotes para dentro)
Fig. 8-84
Fig. 8-84 Fig. 8-84 (Cotes para fora)
Fig. 8-85
Fig. 8-85 Fig. 8-85 (De defensa)
Fig. 8-87
Fig. 8-87 Fig. 8-87 (Cotes 1 cordão)
Fig. 8-88
Fig. 8-88 Fig. 8-88 (Rabo de cavalo)
Fig. 8-89
Fig. 8-89 Fig. 8-89 (Rabo de raposa)
Fig. 8-90
Fig. 8-90 Fig. 8-90 (4 cordões alternados)

8.4 Gaxetas — trançados ornamentais ou funcionais

Gaxeta (art. 8.105) é trançado utilizado para fins ornamentais em molduras, fiéis, fundas, cortinas e similares. Feita com merlim, fio de vela e similares. Para um principiante, convém amarrar os cordões em olhal ou balaústre e numerar ou dar letras aos cordões.

GaxetaCordõesRegra/Aplicação
Simples de 3 (Fig. 8-91)31 esquerda + 2 direita; alterna cordão da extrema sobre o central
Plana / inglesa (Fig. 8-92)≥3 (par e ímpar)"Cordão da extrema por cima do adjacente e por baixo do seguinte"
De rabo de cavalo ou redonda de 4 (Fig. 8-93)4Sempre trabalha com cordão externo, por baixo de um e por cima do outro
Portuguesa (Fig. 8-94)5Grupos 3-2; trabalha cordão da extrema do lado com 3
Quadrada ou de quatro faces (Fig. 8-95)8/12/16Por baixo dos do mesmo lado, a meio do grupo oposto, por cima da metade, volta pelo dentro
Coberta de 9 (Fig. 8-96)9Grupos 5-4; por cima de 2 e por baixo de 2 do grupo oposto
Francesa de 7 (Fig. 8-97)7Grupos 4-3; sobre 2 e depois alternadamente por baixo/por cima
De meia-cana (Fig. 8-99)8Plana de um lado, três faces do outro (prisma semi-hexagonal)
Laminada (Fig. 8-100)Ímpar ≥5Substitui borracha de vedação de portas estanques e eixo propulsor
Cilíndrica4Fiel de cortina; grupos 2-2 cruzados
Fig. 8-91
Fig. 8-91 Fig. 8-91 (Simples 3)
Fig. 8-92
Fig. 8-92 Fig. 8-92 (Plana)
Fig. 8-93
Fig. 8-93 Fig. 8-93 (Rabo de cavalo)
Fig. 8-94
Fig. 8-94 Fig. 8-94 (Portuguesa)
Fig. 8-95
Fig. 8-95 Fig. 8-95 (Quadrada)
Fig. 8-96
Fig. 8-96 Fig. 8-96 (Coberta 9)
Fig. 8-97
Fig. 8-97 Fig. 8-97 (Francesa 7)
Fig. 8-98
Fig. 8-98 Fig. 8-98 (Simples 3 dobrados)
Fig. 8-99
Fig. 8-99 Fig. 8-99 (Meia-cana 8)
Fig. 8-100
Fig. 8-100 Fig. 8-100 (Laminada)

8.5 Pinhas de anel e coxins

Pinha de anel (art. 8.117) — ornamental em pés-de-carneiro, corrimãos, balaústres, ferros de toldo. Feita com merlim, linha, cabo fino ou tiras de lona sobre cabo mais grosso ou objeto cilíndrico. Muitas vezes recebe verniz.

  • De 3 cordões singela / dobrada / tríplice (Fig. 8-101).
  • De 4 cordões (Fig. 8-102) — chicote livre passa por baixo das duas voltas dadas.
  • Fixa a um cabo (Fig. 8-103) — costura/abotoa merlim ao seio; 3 pernadas; nó de porco + nó de pinha. Em cabos-guias ou cabos onde um homem sobe apoiando os pés nas pinhas.

Coxins (art. 8.121) — trançados com cordões de cabo descochado, com muitas aplicações: capachos, defensas, proteção de portalós, entradas de embarcações. Distinguem-se das gaxetas pela maior largura, e dos embotijos por serem planos.

CoximConstrução
Francês (Fig. 8-104)Cordões pelo meio numerados; troca alternada com ajudante = trançado de rabo de cavalo
Espanhol (Fig. 8-105)Cordões dobrados pelo meio; nós de porco da esquerda para a direita; cordões laterais como enchimento
Russo (Fig. 8-106)Idêntico ao espanhol mas com nós de pinha singela em vez de nós de porco (de trás para frente)
De tear (Fig. 8-107)Cordões + merlim entre pernadas; pernadas cruzadas
Português (Fig. 8-108)Entrelaçamento horizontal de cordões de cabo descochado
Turco (Fig. 8-109)Capachos de escada de portaló, quadros de trabalhos marinheiros, proteção de carga
Fig. 8-101
Fig. 8-101 Fig. 8-101 (Anel 3 cordões)
Fig. 8-102
Fig. 8-102 Fig. 8-102 (Anel 4 cordões)
Fig. 8-103
Fig. 8-103 Fig. 8-103 (Anel fixa)
Fig. 8-104
Fig. 8-104 Fig. 8-104 (Coxim francês)
Fig. 8-105
Fig. 8-105 Fig. 8-105 (Coxim espanhol)
Fig. 8-106
Fig. 8-106 Fig. 8-106 (Coxim russo)
Fig. 8-107
Fig. 8-107 Fig. 8-107 (Coxim de tear)
Fig. 8-108
Fig. 8-108 Fig. 8-108 (Coxim português)
Fig. 8-109
Fig. 8-109 Fig. 8-109 (Coxim turco)

8.6 Rabichos — embotijamento no chicote

Rabicho (art. 8.128) — trabalho de embotijamento feito nos chicotes dos cabos. Três funções: (1) embelezar; (2) não deixar descochar; (3) tornar o cabo mais fácil de gurnir em moitão ou retorno.

  • Rabicho de rabo de raposa (Fig. 8-110, art. 8.129) — falcaça a 6× a circunferência; descocha cordões; fios de carreta trançados 2 a 2 (par) ou simples; madre formada pelos fios internos com voltas trincafiadas. Pode tomar forma de espiral se o número de filaças é ímpar.
  • Rabicho de rabo de cavalo (art. 8.130) — prepara o cabo como no anterior; entrelaçamento externo é embotijo de rabo de cavalo. Feito por dois homens, número par de filaças.
Fig. 8-110
Fig. 8-110 Fig. 8-110 (Rabicho rabo de raposa)

9. Defensas — proteção de embarcações atracadas

Art. 8.131. Para o prático, as defensas industriais modernas são especialmente relevantes — toda atracação passa por elas.

9.1 Defensas comuns

As defensas comuns do Fonseca foram extensivamente utilizadas no passado. Consistem em saco de lona forte cheio de cortiça granulada, borracha ou pedaços de cordões de cabo de fibra usado. O saco é coberto por embotijo e amarrado por um fiel. Leves, podiam ser conduzidas e manobradas por um só homem.

Confecção: costura-se a lona forte; estropo de anel de tamanho adequado; enche-se até 1/4 da capacidade; coloca-se o estropo; acaba-se o enchimento; costura-se a parte de cima deixando comprimento de estropo para fora = alça. O cabo amarrado à alça chama-se fiel.

Cuidado de embotijo: numa defensa comum, a metade superior tem os cotes em posição exatamente inversa dos da metade inferior.
TipoAplicaçãoFixação
Chata ou charuto (Fig. 8-111a)Navios e embarcações miúdas, temporáriaPor fiel
De balão (Fig. 8-111b)IdemPor fiel
Cilíndrica vertical / garrafa (Fig. 8-111c)Rebocadores e miúdas, temporáriaPor fiel
Cilíndrica horizontal (Fig. 8-111d)Rebocadores e miúdas, permanente junto ao verdugoDois fiéis
Da roda / meia-lua (Fig. 8-111e)Bico de proa de rebocadores e lanchas; permanentePermanente
Circular (Fig. 8-111f)Pneus usados + embotijo; furo para escoamentoPermanente
Para cais (Fig. 8-112)Flutuantes de madeira ou feixes de cabos velhos/lenhaAmarrada ao cais

9.2 Defensas industriais modernas

O Fonseca cataloga 11 tipos. Para o prático, são as mais relevantes — cada cais moderno tem uma combinação delas.

TipoOrigemCaracterística decisivaOnde se emprega
Cilíndricas (Fig. 8-113a)Anos 30Não exigem fixação ao cais — suspensas por correntes/barras; baixo custoPraticamente todos os cais; cargueiros, graneleiros, pesqueiros, rebocadores
Arco / V (Fig. 8-113b)Maior absorção de energia; alternativa às cilíndricas; fixadas no cais (vertical ou horizontal)Embarcações de pequeno e médio porte
Cônicas (Fig. 8-113c)Desempenho inferior às modulares; absorção elevadaCargueiros, graneleiros, contêineres, petroleiros, gases
Elementos / modulares (Fig. 8-113d)Última geraçãoPrincípio do arco/V; áreas pequenas para fixação; vertical, horizontal ou alternadaNavios de grande porte
Célula / tambor (Fig. 8-113e)1969Cilíndrica flangeada nas extremidades; excelente absorçãoFixada na parede do cais
Pneumáticas Yokohama (Fig. 8-113f)1959 (Yokohama)Baixa densidade — flutuam em contato com a água; fixadas por correntes; podem ser esvaziadasCais com grande amplitude de maré; atracação navio-navio; navios sensíveis a pressão no casco
Hidropneumáticas (Fig. 8-113g)Tipo pneumático na vertical; parcialmente cheia com água + peso inferiorExclusivamente para submarinos
Flutuantes de espumaMeados de 1970Mesmo danificadas continuam funcionando; 4 níveis de rigidezAtracação navio-navio; cascos sensíveis
Donut (Fig. 8-113h)Montadas em estacas; translação conforme maré; baixo custoEntrada de eclusas, proteção de cantos
Giratórias / de pneusBaixa absorção de energia — não adequadas para atracaçãoGuia em entradas de eclusas, estruturas estreitas
Proteção de naviosEm borracha; instaladas nos bordos, proa e popaNavios pequenos
Fig. 8-113a
Fig. 8-113a Fig. 8-113a (Cilíndrica)
Fig. 8-113b
Fig. 8-113b Fig. 8-113b (Arco/V)
Fig. 8-113c
Fig. 8-113c Fig. 8-113c (Cônica)
Fig. 8-113d
Fig. 8-113d Fig. 8-113d (Modular)
Fig. 8-113e
Fig. 8-113e Fig. 8-113e (Célula/tambor)
Fig. 8-113f
Fig. 8-113f Fig. 8-113f (Pneumática Yokohama)
Fig. 8-113g
Fig. 8-113g Fig. 8-113g (Hidropneumática)
Fig. 8-113h
Fig. 8-113h Fig. 8-113h (Donut)

10. Pranchas, escadas, lanças, cabrilhas e amarrações estruturais

Equipamentos pesados de manobra (arts. 8.132 a 8.155). Para o prático, a seção das escadas de quebra-peito é prioritária — é por elas que ele embarca.

10.1 Pranchas para mastreação e costado

  • Prancha para mastreação / guindola (Fig. 8-114, art. 8.132a) — tábua de pelo menos 20 cm de largura, comprimento usual de 60 cm (acomoda um só homem). Quatro furos, dois em cada extremidade. Cabo solteiro de cerca de 4,30 m. Aparelha-se gurnindo um chicote em cada furo e cruzando diagonalmente por baixo; os dois chicotes ligados por costura redonda; seios superiores abotoados em alça única; fiel amarrado por nó de escota singelo ou dobrado. Empregada em pintura/reparos de mastros.
  • Prancha para o costado (Fig. 8-115, art. 8.132b) — tábua com dois travessões aparafusados nas extremidades (mantêm a prancha afastada da superfície). Pode ser para 1 ou 2 homens. Volta de tortor sob o travessão; laís de guia no seio, partes iguais (caso contrário, prancha camba para o lado de uma pernada).
Fig. 8-114
Fig. 8-114 Fig. 8-114 (Prancha guindola)
Fig. 8-115
Fig. 8-115 Fig. 8-115 (Prancha costado)

10.2 Escadas de quebra-peito e norma IMO 2011

Equipamento sensível do prático (art. 8.133). Quatro tipos básicos no Fonseca:

TipoAplicaçãoCaracterística
Comum, pau de surriola (Fig. 8-116A)GeralDegraus 30 cm × 30 cm de espaçamento; sapatilho na dobra preso por botão redondo; botão redondo de 7-8 voltas acima e abaixo de cada degrau
Popa (Fig. 8-116B)Popa dos navios e outras partesComo a anterior; pernadas ligadas por costura redonda na parte inferior
Para práticos (Fig. 8-116C)Embarque de práticos no costadoMais robusta; 4 furos por degrau; dois pedaços de cabo, ~4 m a mais que duas vezes o comprimento; botão redondo esganado de cada lado
Cones de madeira (Fig. 8-116D)Uma só pernada com costura de mão; cones truncados Ø 10-12 cm; pinha de anel fixa a 38 cm entre si
De cabo (Fig. 8-117)Degraus formados pelos próprios nós do cabo; voltas redondas envolvendo dois seios

Cabo recomendado para escada de práticos: cabo de linho alcatroado, 4 cordões, 51 mm (2 polegadas) de circunferência; pesa 0,238 kg/m; em aduchas de 366 m; carga de ruptura mínima 1.400 kg.

SOLAS V/23 + Resolução A.1045(27) — 27ª Assembleia Geral da IMO, 2011: aprovação da decisão do MSC (Comitê de Segurança Marítima) sobre procedimentos de transbordo dos práticos a bordo, definindo requisitos e detalhes técnicos das escadas de embarque (pilot ladder).
IMPA (International Maritime Pilots Association) — campanha mundial pela segurança no embarque e desembarque dos práticos. Cabe ao prático assegurar-se de que todos os equipamentos estão em boas condições, corretamente instalados e seguros para uso.
Fig. 8-116
Fig. 8-116 Fig. 8-116 (Escadas A-D)
Fig. 8-117
Fig. 8-117 Fig. 8-117 (Escada de cabo)

10.3 Lanças, cabrilhas e tripés

Lança improvisada (Fig. 8-118, art. 8.134) — viga única apoiada em soleira, com tope aguentado por 3 ou 4 cabos/teques. Capacidade depende da madeira, ângulo, dimensões e equipamento.

Equipamento (7 itens): lança (viga forte); soleira (com cavidade) ou cantoneiras soldadas em aço; plumas — 3 a 120° ou 4 em ângulo reto; amantilho (geralmente a pluma oposta à inclinação); braçadeira (gola de ferro com olhais); peias (3 a 120° para cargas grandes); estropo; aparelho de içar (talha patente ou comum com patesca).

Modo de aparelhar: volta de encapeladura singela ou volta de fiel no tope; ponto do pé com 4 pontos no convés a ~2× o comprimento da lança; iça-se com a pluma de ré servindo de amantilho.

Fig. 8-118 — Lança improvisada
Fig. 8-118 Lança improvisada
Cuidados: (1) ao mover lateralmente a carga, fazer por partes; (2) ângulo máximo permitido = 30° em relação à vertical; (3) quanto mais pesada a carga, maior cuidado; (4) sem conhecer capacidade, usar a carga de trabalho da parte mais fraca.

Cabrilha (Fig. 8-119, art. 8.135) — duas vigas cruzadas em tesoura; mantidas ao alto por plumas. Amarração das vigas por portuguesa ou botão redondo esganado. Estropo no ponto de cruzamento. Mesmos fins da lança; maior segurança; desvantagem: carga só se move na direção perpendicular ao plano que passa pelos dois paus.

Modo de aparelhar a cabrilha: volta de fiel + 10-15 voltas falidas + 2 voltas redondas esganando + voltas de fiel. Abertura dos pés = 1/3 da distância dos pés ao ponto de cruzamento. Duas plumas: pluma de vante amarrada à viga que ficará à ré; pluma de ré na que estiver a vante. Quanto mais próximo da vertical, maior compressão nos paus e menor tração nas plumas.

Cabrilha em tripé (Fig. 8-120, art. 8.136) — três vigas; uma entre as outras duas com tope em sentido oposto; 10-15 voltas redondas em torno das três + voltas perpendiculares; volta de fiel na viga interna. Pesos grandes em direção vertical, quando o ponto de amarração não pode ser deslocado. Distância entre os pés = 1/3 da distância ao cruzamento.

Fig. 8-118
Fig. 8-118 Fig. 8-118 (Lança)
Fig. 8-119
Fig. 8-119 Fig. 8-119 (Cabrilha)
Fig. 8-120
Fig. 8-120 Fig. 8-120 (Cabrilha em tripé)

10.4 Manobras com espias e cabos em uso

Operações cotidianas regidas por nós e voltas (arts. 8.137 a 8.149). As mais críticas para o prático:

  • Amarrar verga a mastro (Fig. 8-121, art. 8.137) — voltas iniciais + voltas redondas sobre voltas falidas entre as duas vigas, terminando com voltas de fiel; OU 4-6 voltas redondas + voltas perpendiculares + nó direito.
  • Regular tensão sem macaco (Fig. 8-122, art. 8.138) — pedaço de madeira no seio do cabo; posição regula tensão. Para estais solecados em úmido e tesados em seco.
  • Volta a espia em cabeço (Fig. 8-123, art. 8.139) — alça da espia (costura de mão) OU laís de guia formando balso singelo. Com duas espias, a segunda é passada por dentro da alça da primeira antes de ir ao cabeço — permite retirar qualquer das duas sem interferência.
  • Volta à boça em cabeço (Figs. 8-124, 8-125, 8-126, art. 8.140) — volta de fiel OU voltas redondas e dois cotes; pelo seio, manobra específica.
  • Volta a espia em dois cabeços (Fig. 8-127, art. 8.141) — voltas falidas. Fibra: cote em um dos cabeços ou abotoam-se as duas voltas mais altas. Cabo de aço: sempre abotoa. Observação: a primeira volta da espia é no segundo cabeço a contar da direção de onde ela vem.
  • Aboçar / trapear um cabo (Fig. 8-128, art. 8.142) — manobra crítica para o prático. Cabo solteiro de diâmetro menor que o cabo a aboçar. Um chicote no cabeço com volta de fiel; outro no vivo do cabo com dois cotes simples ou um cote dobrado (preferível) + 3-4 voltas redondas não unidas. Sentido das voltas (cocha ou contrário) não influi na resistência. Soleca-se o chicote do cabo devagar até a boça receber todo o esforço.
Fig. 8-128 — Aboçar ou trapear um cabo
Fig. 8-128 Aboçar ou trapear um cabo
Vedação cardinal (art. 8.142): nunca se aboça um cabo de aço com um cabo de fibra. Pode-se usar outro cabo de aço ou pequena corrente (primeiro elo preso por manilha). Prefere-se aboçar pela corrente, com cuidado para não amassar os cordões do cabo de aço.
  • Trapa de duas pernadas (art. 8.143) — mesma função que a trapa/boça de uma pernada, com maior segurança; não dá torção na espia.
  • Volta a cabo em cunho (Fig. 8-129, art. 8.144) — voltas falidas. Primeira volta passa por cima do cunho — o esforço sobre o vivo força o cabo de encontro ao cunho. Última volta com cote.
  • Volta a cabo em malagueta (Fig. 8-130, art. 8.145) — voltas falidas como no cunho. Cabo dirigido para cima: alça primeiro pela malagueta, depois pela outra parte. Para baixo: alça por baixo da malagueta.
  • Pendurar aducha (Figs. 8-131/8-132, art. 8.146) — seio do cabo a ~1 m do ponto onde se deu volta; aducha em pandeiro; 2-3 voltas redondas em torno; seio por dentro da parte superior da aducha.
  • Gurnir cabo em cabrestante (Fig. 8-133, art. 8.147) — homem ao socairo colhe o brando no cabo que sai, impedindo cavalgar voltas na saia. Regra de ouro: evitar voltas sobrepostas e voltas mordidas; manter-se safo do vivo do cabo porque pode romper-se.
  • Badernas (art. 8.148) — quando peso é demasiado para aguentar o tirador à mão, morde-se a talha: voltas falidas entre duas pernadas da beta.
  • Amarração dos enfrechates (Fig. 8-134, art. 8.149) — alça pequena amarrada aos ovéns por botão redondo esganado + volta de fiel. Alças horizontais para eliminar acúmulo de água de chuva.
Fig. 8-133 — Gurnir um cabo num cabrestante
Fig. 8-133 Gurnir um cabo num cabrestante
Fig. 8-121
Fig. 8-121 Fig. 8-121 (Verga a mastro)
Fig. 8-122
Fig. 8-122 Fig. 8-122 (Regular tensão)
Fig. 8-123
Fig. 8-123 Fig. 8-123 (Espia em cabeço)
Fig. 8-124
Fig. 8-124 Fig. 8-124 (Boça com fiel)
Fig. 8-126
Fig. 8-126 Fig. 8-126 (Boça pelo seio)
Fig. 8-127
Fig. 8-127 Fig. 8-127 (Espia 2 cabeços)
Fig. 8-128
Fig. 8-128 Fig. 8-128 (Aboçar/trapear)
Fig. 8-129
Fig. 8-129 Fig. 8-129 (Cabo em cunho)
Fig. 8-130
Fig. 8-130 Fig. 8-130 (Cabo em malagueta)
Fig. 8-131
Fig. 8-131 Fig. 8-131 (Aducha grande)
Fig. 8-132
Fig. 8-132 Fig. 8-132 (Aducha pequena)
Fig. 8-133
Fig. 8-133 Fig. 8-133 (Gurnir cabrestante)
Fig. 8-134
Fig. 8-134 Fig. 8-134 (Enfrechates)

11. Lonas, redes e utensílios do marinheiro

Arts. 8.150 a 8.157 — fechamento da Seção F.

11.1 Redes — agulha, calibre, nó de escota

Para confecção utilizam-se agulha de rede e calibre. A agulha contém o pedaço de merlim; o calibre determina o tamanho das malhas. As redes formam-se por nós de escota (embora as malhas possam também usar nós direitos). Calibre 20 cm = malhas de ~10 cm.

RedeAplicaçãoCaracterísticas
Abandono / salvamento (Fig. 8-136)Abandono do navio, salvamento da tripulaçãoCaçoilos circulares de cortiça (flutua); 5 tirantes (2 laterais + 3 centrais); cutelo superior/inferior; aranha = 1/4 do comprimento + fiel; 8-10 m × 3,5 m
Desembarque / abordagem (Fig. 8-137)Operações anfíbias, praia hostilMalhas 30-33 cm; tirantes fixos aos cabos maiores por costura redonda pela cocha + botões redondos
Balaustrada (Fig. 8-138)Proteção do pessoal/material ou ornamentoMalhas com nó direito ou nó de escota; amarrada às balaustradas com volta de fiel ou botão redondo
Carga (Fig. 8-139)Embarque/desembarque de cargaTipo fundo fechado (mais indicada) e fundo aberto; tralha em estropo de anel com 4 punhos; malhas por cote pela cocha (mais indicado) ou botão cruzado

Volta aos fiéis de toldo (Fig. 8-140, art. 8.151) — voltas redondas entre o ilhós do toldo e o vergueiro; voltas redondas perpendiculares; dobra-se o chicote e mete-se no meio das primeiras voltas, ficando mordida.

Fig. 8-136 — Rede de abandono ou salvamento
Fig. 8-136 Rede de abandono ou salvamento
Fig. 8-135
Fig. 8-135 Fig. 8-135 (Rede)
Fig. 8-136
Fig. 8-136 Fig. 8-136 (Abandono)
Fig. 8-137
Fig. 8-137 Fig. 8-137 (Desembarque)
Fig. 8-138
Fig. 8-138 Fig. 8-138 (Balaustrada)
Fig. 8-139
Fig. 8-139 Fig. 8-139 (Rede de carga)
Fig. 8-140
Fig. 8-140 Fig. 8-140 (Fiéis de toldo)
Fig. 8-141
Fig. 8-141 Fig. 8-141 (Alça a mastro)
Fig. 8-142
Fig. 8-142 Fig. 8-142 (Tesar peias)

11.2 Pontos de coser lonas

A lona (art. 8.155) é tecido de algodão. Tipos: comum e grossa (fios tecidos mais juntos). Numeração inversa: lona de maior número é a mais leve (lona 8 mais leve que lona 4).

PontoFig.AplicaçãoDensidade
Bainha / costura8-143Coser dois panos pelas ourelas, bainhas em toldos/velas/capas
Livro8-144Forrar objetos com lona8-9 pontos / 10 cm
Bigorrilha redondo8-145aEmendar duas lonas com pequena beira, por dentro12 pontos / 10 cm
Bigorrilha chato (por fora)8-145bForrar cabo/objeto, dobras prévias12 pontos / 10 cm
Bigorrilha chato (por dentro)8-145cIdem12 pontos / 10 cm
Peneira8-146Bainhas e tapar buracos1 ponto / cm
Esganado8-147Cerzir rasgões em lonas fortes, impermeabilizadas/pintadas
Cruzado8-148Cerzir rasgões com melhor acabamento
Palomba8-149Coser tralhas de toldos e velas; pela cocha ou pelo redondo
Cadeia8-150Marcar letras/números
Sapateiro / fenda8-151Coser couros — duas agulhas em sentidos opostos
Espinha de peixe8-152Coser rasgões (costura frouxa)
Espelho (concêntrico)8-153Tapar pequenos buracos em toldos/velas
Fig. 8-143
Fig. 8-143 Fig. 8-143 (Bainha)
Fig. 8-144
Fig. 8-144 Fig. 8-144 (Livro)
Fig. 8-145a
Fig. 8-145a Fig. 8-145a (Bigorrilha redondo)
Fig. 8-146
Fig. 8-146 Fig. 8-146 (Peneira)
Fig. 8-147
Fig. 8-147 Fig. 8-147 (Esganado)
Fig. 8-148
Fig. 8-148 Fig. 8-148 (Cruzado)
Fig. 8-149
Fig. 8-149 Fig. 8-149 (Palomba)
Fig. 8-150
Fig. 8-150 Fig. 8-150 (Cadeia)
Fig. 8-151
Fig. 8-151 Fig. 8-151 (Sapateiro)
Fig. 8-152
Fig. 8-152 Fig. 8-152 (Espinha de peixe)
Fig. 8-153
Fig. 8-153 Fig. 8-153 (Espelho)

11.3 Utensílios do marinheiro

  • Espicha (Fig. 8-154, art. 8.157a) — pequena haste metálica cônica com ponta em bico; abre as cochas dos cabos; furo para fiel.
  • Passador (Fig. 8-154, art. 8.157b) — semelhante à espicha, mas ligeiramente curvo e com punho dobrado em ângulo reto; bate costuras.
  • Vazador (Fig. 8-154, art. 8.157c) — utensílio de ferro com ponta em circunferência afiada; abre buracos no pano para os ilhoses.
  • Macete de bater (Fig. 8-155, art. 8.157d) — madeira com cabo; bate costuras, nós, o vazador.
  • Macete de forrar (Fig. 8-156, art. 8.157e) — com goivadura que encosta nos cabos.
  • Palheta de forrar (art. 8.157f) — madeira plana ou em meia-cana, com cabo; guia o merlim ao forrar.
  • Faca (art. 8.157g) — uma só folha, sem ponta; corta cabos e lona.
  • Gatos (art. 8.157h) — aguentam as lonas enquanto são costuradas.
  • Agulhas (art. 8.157i): lona (Fig. 8-157a) — 3 navalhas (quinas), nº 7 a 16 (maior número = menor agulha); brim (Fig. 8-157b) — semelhante à doméstica; palombar (Fig. 8-157c) — ponta achatada e curva.
  • Repuxo (art. 8.157j) — tira de couro unida pelos extremos com furo para o polegar; calçada na mão direita; dedal na palma.
  • Torquês (art. 8.157l) — corta fios de aço.
  • Remanchador (art. 8.157m) — haste de ferro troncônica; fixa o anilho no ilhós com a base do remanchador.
Fig. 8-154
Fig. 8-154 Fig. 8-154 (Utensílios)
Fig. 8-157c
Fig. 8-157c Fig. 8-157c (Agulha palombar)

12. Estropos — anéis de cabo para içar carga

Seção G do Fonseca (arts. 8.158 a 8.167). Para o prático, este é o capítulo mais imediato em segurança operacional: ângulo das pernadas e fator de segurança matam mais que cabo fraco.

12.1 Definição, função e tipos

Estropo (art. 8.158) — pedaço de cabo cujos chicotes foram ligados por nó ou costura, formando anel que se utiliza no embarque de cargas, geralmente laçando-as ou abraçando-as. Por extensão, qualquer pedaço de cabo, corrente, lona ou sistema com que se envolve um peso a içar. Função: estabelecer a conexão entre o aparelho de içar e o peso; aumentar a capacidade de carregamento.

TipoFig.ConstruçãoAplicação
Comum8-158Cabo de fibra ou aço; chicotes em anel ligados por costura redondaGeral; fácil e seguro
Aberto8-1592 ou 4 pernadas de corrente/aço; olhal numa extremidade, gatos na outraTonéis, tubos, caixotes
Braçalote8-160Alça em cada chicote por costura redonda ou clipes
De rede8-161Rede quadrada ou retangularCarga/descarga
De lona8-162Lona quadrada com tralha de cabo de fibra; estropo comum; ponto de palomba pela cocha
Fig. 8-161 — Estropo de rede
Fig. 8-161 Estropo de rede

Os novos sistemas de carregamento tornaram raro o uso de estropos para alguns tipos: grãos por sugadores, caixas em esteiras rolantes, contêineres por guindastes com imantação. Mas o estropo continua essencial em situações específicas e na operação de praticagem.

Fig. 8-158 — Estropo comum
Fig. 8-158 Estropo comum
Fig. 8-158
Fig. 8-158 Fig. 8-158 (Estropo comum)
Fig. 8-159
Fig. 8-159 Fig. 8-159 (Estropo aberto)
Fig. 8-160
Fig. 8-160 Fig. 8-160 (Braçalote)
Fig. 8-161
Fig. 8-161 Fig. 8-161 (De rede)
Fig. 8-162
Fig. 8-162 Fig. 8-162 (De lona)

12.2 Estropos por material e construção

  • Cabo de aço (art. 8.159) — para cargas mais pesadas. Vantagem: quase sempre não partem sem aviso prévio — fios externos podem partir, mas internos aguentam temporariamente. Cabos 6×19 e 6×37 fios; ligados por costura, terminal ou olhal com sapatilho.
  • Cabo de fibra (art. 8.160) — manilha 64-101 mm de circunferência; 7-11 m de comprimento; unidos por costura redonda.
  • Corrente (art. 8.161) — geralmente abertos, não anel. 2 pernadas (tonéis, trilhos, tubos, barras) ou 4 (caixotes). Inspeções contínuas; muito pesados; depois de 1 ano de uso ininterrupto devem ser recozidos.
  • De anel (Fig. 8-163, art. 8.162) — para alcear poleame; pouco usado hoje. Pode ser de fibra ou aço; remate como costura de laborar; depois engaia-se, percinta-se, trincafia-se e forra-se.
  • Trincafiado (Fig. 8-164, art. 8.163) — fio de vela, fio de carreta, mialhar ou merlim entre dois pregos; botões provisórios; trincafia-se e forra-se. Pouco usado.
Fig. 8-163
Fig. 8-163 Fig. 8-163 (Anel)
Fig. 8-164
Fig. 8-164 Fig. 8-164 (Trincafiado)

12.3 Ângulo das pernadas e fator de segurança

Art. 8.164. A figura clássica do Fonseca representa carga de 2.000 kg sobre estropo de duas pernadas. À medida que o ângulo entre pernadas aumenta (afastam-se da vertical), a carga em cada pernada cresce de modo não trivial.

Ângulo sobre a horizontalCarga em cada pernadaComentário
90° (paralelas, sobre vertical)1.000 kg (metade)Divisão ideal
60°~1.150 kgAumento moderado
45° (ângulo ótimo)~1.400 kgMínimo aconselhado
30°2.000 kg (dobra)Crítico
15°~4.000 kg4× a carga
4.000 kg (quadruplica)Inseguro

Fator de segurança para cabos de fibra: 5 para 1. Para içar 2.000 kg com pernadas paralelas, cada pernada = 1.000 kg; fator 5 → cabo com ruptura próxima a 5.000 kg = 3 1/2 polegadas. Com 30°, esforço dobra (2.000 kg/pernada) → fator 5 → 10.000 kg de ruptura = 5 polegadas. Com 15°: esforço quadruplica → cabo de 7 1/2 polegadas.

Conclusão didática (Fonseca): não é o cabo que se torna fraco, é a carga que fica demasiada para ele. Usando o mesmo cabo de 3 1/2 polegadas nos três casos, o fator real cai de 5 para 2,5 (caso 30°) e para 1,25 (caso 15°). Muitas vezes a ruptura é devida ao ângulo pequeno ou à aresta viva da carga, e não ao cabo.

Quatro regras (art. 8.164):

  1. Conhecer o peso a içar, nunca subestimando.
  2. Escolher cabo de resistência suficiente com fator de segurança 5:1.
  3. Verificar tabela de eficiência de costuras/nós (art. 8.2), descontando a percentagem.
  4. Calcular esforço em cada pernada conforme o tipo do estropo; nunca ângulo menor que 45°.
Fig. 8-165
Fig. 8-165 Fig. 8-165 (Ângulo dos estropos)
Fig. 8-166
Fig. 8-166 Fig. 8-166 (Passar em lingada)

12.4 Passar e cortar um estropo

Passar um estropo (Fig. 8-167, art. 8.165) — três métodos:

  1. 1º método: coloca-se um extremo perpendicularmente ao cabo e sobre ele; com o outro extremo enrola-se com voltas redondas bem unidas, até restar o comprimento para passar por dentro da outra dobra e receber o gato.
  2. 2º método: segura-se um extremo perpendicularmente à espia; com o outro chicote dão-se voltas redondas no sentido perpendicular, com as duas pernadas por fora de cada volta anterior, até restar a alça.
  3. 3º método: seio do estropo perpendicular ao cabo; voltas alternadas, cruzando os dois chicotes em sentidos opostos. Para estropo muito comprido.

Cortar um estropo (art. 8.166) — encurtar sem dar nós (que ficariam mordidos sob esforço). Três métodos:

  1. (Fig. 8-168) — forma seio a, enfia seio b através de a; partes b e c juntas para receber o gato.
  2. (Fig. 8-169) — mais simples; forma seio com metade passada sob a parte fixa; seios podem ser puxados na quantidade desejada.
  3. (Fig. 8-170) — dois cotes opostos; metem-se os seios um por dentro do outro, formando duas alças.

Estropos para tonéis (Fig. 8-171, art. 8.167):

  • (A) Tonel vertical: cabo estendido no chão; tonel sobre ele; meia-volta folgada com chicote no seio; acima do tonel abre-se a meia-volta deixando passar a boca; metade do nó em cada lado; chicotes emendados com nó de escota.
  • (B) Estropo comum em torno do tonel.
  • (C) Laço de correr de um lado + volta de fiel ou dois cotes do outro.
  • (D) Tira-vira (Fig. 8-172) — içar tonéis, tubos; aplicar forças iguais nas duas pernadas; prancha inclinada facilita.
Fig. 8-167
Fig. 8-167 Fig. 8-167 (Passar um estropo)
Fig. 8-168
Fig. 8-168 Fig. 8-168 (Cortar - método 1)
Fig. 8-169
Fig. 8-169 Fig. 8-169 (Cortar - método 2)
Fig. 8-170
Fig. 8-170 Fig. 8-170 (Cortar - método 3)
Fig. 8-171
Fig. 8-171 Fig. 8-171 (Tonéis)
Fig. 8-172
Fig. 8-172 Fig. 8-172 (Tira-vira)

13. Síntese comparativa por situação operacional

Fechamento didático em mapa unificado por situação operacional. Esta é a tabela de bolso do prático no convés.

Situação operacionalEscolha técnicaPor quê
Amarrar embarcação ou objeto pequenoLaís de guiaForma alça que não corre; nunca recorre
Amarrar boça de embarcação em cabeçoVolta de fiel ou voltas redondas + 2 cotesBoça sem alça preexistente
Emendar espia em cabrestanteCostura de laborarMantém o diâmetro do cabo original — passa em poleame
Aguentar espia em par de cabeçosVoltas falidas + cote final (fibra) ou abotoamento (aço)Primeira volta no 2º cabeço a contar da direção de onde vem
Trocar ponto de espia tensionadaAboçar com cote dobrado + 3-4 voltas redondasNunca cabo de aço aboçado com cabo de fibra
Içar cargaEstropo adequado + ângulo ≥ 45° + fator 5:1Ângulo entre pernadas mata mais que cabo fraco
Embarcar pelo costadoEscada de quebra-peito tipo C (práticos)4 furos/degrau; cabo de linho 4 cordões 51 mm; SOLAS V/23 + IMO A.1045(27)
Falcaçar cabo de uso pesadoFalcaça esganada pela cocha (método 4)Um dos mais seguros
Cobrir defensa grandeEmbotijo de defensaUm só cordão, voltas redondas iniciais + cotes alternados
Encapelar mastro com duas pernadas separadasCostura de boca-de-loboSubstitui encapeladura por alça de botão redondo

Consolidação: trabalhos do marinheiro não são folclore — são o vocabulário operacional sem o qual o convés trabalha às cegas. O prático que sobe pela escada de quebra-peito, que dá voltas em cabeço, que aboça uma espia em manobra de cabrestante, é o herdeiro direto de toda essa tradição que o Fonseca codificou.

Para a prova: fixe os mnemônicos por situação operacional, treine as percentagens de resistência, e nunca esqueça que o ângulo das pernadas mata mais que o cabo que parte.