Rebocadores Cap. 4 — Segurança do Rebocador

1. Visão geral

Fonte: SILVA, Otávio Augusto Fragoso Alves da; GONÇALVES, Marcelo Campello Cajaty. Rebocadores Portuários. 1. ed. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Praticagem (CONAPRA), 2002 — Capítulo 4: Segurança do Rebocador. Edital: Anexo 2-A, Área II (Arte Naval), item 4 — II.4 Rebocadores · código de obra II.12.

Embora a maioria das situações de risco seja bem conhecida pelos práticos e mestres de rebocador, o capítulo frisa a importância de tratar a questão da segurança do rebocador em qualquer trabalho sobre o assunto: "Quanto mais se sabe sobre os riscos, melhor se pode antecipá-los."

O capítulo trata de dois riscos principais. O primeiro diz respeito à estabilidade do rebocador — especialmente nos convencionais com cabo passado no gato —, podendo levar ao emborcamento. O segundo diz respeito à interação entre o casco do navio e o do rebocador durante a aproximação. O capítulo cobre ainda outros problemas menores, mas também geradores de risco.

2. O risco de emborcamento por tração no gato

O gato sob tensão e o dispositivo de disparo de emergência

O principal risco de um rebocador atuando numa manobra é quanto à estabilidade, especialmente nos rebocadores convencionais com cabo passado no gato.

O gato pode não abrir sob tensão forte. É importante saber, de início, que o gato do rebocador costuma não abrir quando está sob tensão muito forte, mesmo sendo dotado de dispositivo de disparo de emergência. Essa limitação é o motivo pelo qual as situações a seguir são tratadas como risco de acidente, e não como mera imprecisão de manobra.

Cabo passado na proa do navio

Um rebocador convencional de cabo passado na proa de um navio com seguimento, ou sob corrente acentuada, especialmente quando o navio está girando, deve tomar cuidado para não puxar muito no través, sob o risco de ser ultrapassado pelo navio, passando para uma posição de espringue, o que pode resultar no emborcamento. Nesse momento, a única atitude que o prático pode tomar é tentar quebrar o seguimento do navio, enquanto o mestre do rebocador tenta abrir o gato para largar o cabo.

Cabo passado na popa do navio — mudança de bordo

Da mesma forma, um rebocador convencional de cabo passado na popa do navio correrá o mesmo risco ao passar de um bordo para o outro do navio com seguimento a vante e/ou em situação de corrente acentuada. Se em algum momento desta passagem o rebocador portar com força pelo cabo, é grande o risco de emborcar, especialmente se a tração for exercida perpendicularmente. Mais uma vez, a única atitude que o prático pode tomar é tentar quebrar o seguimento do navio ou, se possível, criar um seguimento a ré.

Risco de emborcamento conforme a posição do cabo
Posição do caboSituação de riscoConsequênciaÚnica atitude possível
Na proa do navioNavio com seguimento ou corrente acentuada, especialmente girando; rebocador puxa muito no través e é ultrapassadoPassagem para posição de espringue, podendo resultar em emborcamentoPrático tenta quebrar o seguimento do navio; mestre tenta abrir o gato
Na popa do navioMudança de bordo com o navio de seguimento a vante e/ou corrente acentuada; rebocador porta com força pelo caboRisco de emborcar, especialmente com tração perpendicularPrático tenta quebrar o seguimento do navio ou criar seguimento a ré

3. Dispositivos que alteram o ponto de aplicação da tração

Gob rope

Como forma de reduzir o risco, é frequente, especialmente em portos europeus, a utilização de dispositivos que permitem alterar a posição do ponto de aplicação da força de tração ao longo do eixo diametral do rebocador. A opção mais conhecida é a fixação de um cabo (gob rope) o mais a ré possível na popa do rebocador, com um moitão ou manilha instalado no chicote, por onde é passado o seio do cabo de reboque. O comprimento do gob rope pode ser constante ou variar, se controlado por um guincho.

O sistema evita que a tração seja perpendicular ao eixo diametral, mesmo na mudança de bordo pela popa, permitindo até que, em baixa velocidade, o rebocador se posicione popa com popa com o navio. Este dispositivo é obrigatório nos rebocadores convencionais que operam nos portos alemães.

Buzina a ré

Outro sistema, mais simples mas menos eficiente, é a criação de um segundo ponto de tração fixo mais a ré através de uma buzina ou olhal que possa ser aberto para a passagem do seio do cabo de reboque, quando necessário. É claro que, ao aproximarmos o ponto de aplicação da força de tração da posição dos propulsores, mais difícil fica o governo do rebocador quando porta pelo cabo, exigindo maior habilidade do mestre.

Gob rope x buzina a ré
AspectoGob ropeBuzina a ré
O que éCabo fixado o mais a ré possível na popa, com moitão/manilha no chicote, por onde passa o seio do cabo de reboqueSegundo ponto de tração fixo mais a ré, através de buzina ou olhal que pode ser aberto para a passagem do seio do cabo
ComprimentoConstante ou variável, se controlado por guinchoFixo
EfeitoEvita tração perpendicular ao eixo diametral mesmo na mudança de bordo pela popa; permite posicionar popa com popa em baixa velocidadeMenos eficiente; quanto mais próximo dos propulsores, mais difícil o governo quando o rebocador porta pelo cabo
ObrigatoriedadeObrigatório nos rebocadores convencionais que operam nos portos alemãesNão mencionada

4. Interação entre os cascos e aproximação do rebocador

Controle pelo prático e normas da Autoridade Marítima

O segundo principal problema com a segurança do rebocador diz respeito à interação entre o casco do navio e o do rebocador. Este fato pode ser parcialmente controlado pelo prático ao solicitar que o rebocador, principalmente o da proa, só se aproxime quando a velocidade for reduzida. As normas da Autoridade Marítima Brasileira estabelecem que a passagem de cabo da proa do navio para o rebocador deve ser feita por retinida e geralmente definem uma velocidade máxima para o navio sendo assistido por rebocador de cabo passado.

Ainda assim, o que se observa, muitas vezes, é a impossibilidade desta manobra se o rebocador não for dotado de guincho que permita trazer o cabo, mesmo com toda a resistência oferecida pelo seu atrito com a água, especialmente quando navio e rebocador estão em movimento, e pelo próprio peso do cabo. É esta dificuldade, associada à falta de treinamento neste tipo de operação, que faz com que o mestre opte, mesmo com o risco aumentado, por se aproximar da proa a uma distância que permita à tripulação pegar o cabo com o croque e colocá-lo diretamente no gato, antes que o seio toque na água.

Efeito da corrente

Ainda, em locais de muita corrente, deve-se lembrar que a interação é proporcional à velocidade relativa do navio na água. Uma corrente pela proa do navio pode criar grande efeito de interação mesmo com pequena velocidade no fundo.

Fig. 4-1
Fig. 4-1 — Gob Rope
Fig. 4-2
Fig. 4-2 — Buzina a Ré

5. Rebocadores azimutais tipo ASD — riscos na aproximação

Aproximação pela proa do navio com seguimento

Ao contrário do que se costuma pensar, rebocadores azimutais tipo ASD correm riscos quase tão grandes quanto os convencionais, quando na aproximação da proa do navio com seguimento a vante para atuarem com cabo no gato ou guincho de ré. A maior manobrabilidade oferecida pelos propulsores azimutais não garante, em função da posição dos mesmos em relação à extremidade de trabalho escolhida, a segurança na aproximação e operação com cabo passado oferecida pelos tratores.

É comum, por este motivo, que aqueles rebocadores prefiram, na aproximação com a proa do navio, receber ou passar cabos na sua proa. Tal condição obriga, de qualquer forma, que a velocidade do navio seja reduzida, especialmente em portos mais expostos, já que o rebocador é obrigado a se aproximar e navegar de popa por distâncias às vezes longas, situação na qual seu controle pode ser dificultado pelas formas do casco somadas às condições de mar, vento e corrente.

6. Outros riscos e limite do capítulo

Riscos menores

Finalmente, outros problemas menores, mas também geradores de risco, são os relativos à operação com o cabo no costado em portos desprotegidos da ação do mar, aproximação da proa de navios com o bulbo submerso, efeito da corrente do hélice no rebocador da popa e o risco, especialmente para as tripulações, proveniente da quebra de cabos.

Certamente, é impossível cobrir todas as situações de risco que um rebocador pode enfrentar, mas as situações descritas acima são as mais comuns na maioria dos portos brasileiros e devem ser analisadas, objetivando reduzir sua ocorrência e seus efeitos.

7. Síntese para o prático

Os dois riscos centrais do capítulo são de naturezas distintas e exigem leituras diferentes na manobra. O risco de emborcamento nasce da estabilidade do rebocador convencional operando com cabo no gato: ele se manifesta quando o rebocador é ultrapassado pelo navio (passando a espringue, com cabo na proa) ou quando porta com força pelo cabo ao mudar de bordo (com cabo na popa) — e, em ambos os casos, o gato pode não abrir mesmo com disparo de emergência. O risco de interação nasce do encontro dos cascos na aproximação, sobretudo do rebocador de proa, e é agravado pela falta de guincho e pela corrente.

Os dispositivos que deslocam o ponto de aplicação da tração para mais a ré — gob rope e buzina a ré — reduzem, mas não eliminam, o risco de tração perpendicular ao eixo diametral. E a maior manobrabilidade dos rebocadores azimutais tipo ASD não os isenta dos riscos da aproximação e da operação com cabo passadoquase tão grandes quanto os do convencional — quando se aproximam da proa do navio com seguimento a vante para atuar com cabo no gato ou guincho de ré: por isso, mesmo eles, preferem receber ou passar cabo pela própria proa.

Quadro-resumo dos riscos do rebocador
RiscoCausaMedida de redução citada no capítulo
Emborcamento com cabo na proaRebocador ultrapassado pelo navio, passando a posição de espringuePrático quebra o seguimento do navio; mestre tenta abrir o gato
Emborcamento com cabo na popaRebocador porta com força pelo cabo ao mudar de bordo, tração perpendicularPrático quebra o seguimento do navio ou cria seguimento a ré
Tração perpendicular ao eixo diametralPonto de tração na posição de origem — afastá-lo para é justamente o que a evita; o preço é o governo mais difícil quando o rebocador porta pelo caboGob rope (obrigatório em portos alemães) ou buzina a ré
Interação casco-a-cascoAproximação em velocidade, sobretudo do rebocador de proa; falta de guincho; corrente pela proaAproximação em velocidade reduzida; passagem de cabo por retinida; croque para pegar o cabo antes de tocar a água — que o livro apresenta como recurso adotado mesmo com o risco aumentado, não como medida que reduza o risco
Aproximação de ASD pela proa do navioPosição dos propulsores azimutais em relação à extremidade de trabalho não garante a segurança dos tratoresReceber/passar cabo pela própria proa; velocidade do navio reduzida
Riscos menoresCabo no costado em porto desprotegido; bulbo submerso; corrente do hélice na popa; quebra de caboNão detalhada além do reconhecimento do risco

O capítulo reconhece que não é possível cobrir todas as situações de risco de um rebocador — mas as descritas são as mais comuns na maioria dos portos brasileiros e devem ser analisadas, objetivando reduzir sua ocorrência e seus efeitos.