1. Visão geral
Fonte: SILVA, Otávio Augusto Fragoso Alves da; GONÇALVES, Marcelo Campello Cajaty. Rebocadores Portuários. 1. ed. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Praticagem (CONAPRA), 2002 — Capítulo 6: Formação e Atualização de Práticos e Mestres. Edital: Anexo 2-A, Área II (Arte Naval), item 4 — II.4 Rebocadores · código de obra II.12.
O Capítulo 6 trata de dois processos de formação que se cruzam no convés do rebocador: a do praticante que ainda não recebeu sua carta de prático, e a do mestre de rebocador que já atua. As normas da Autoridade Marítima definem que o futuro prático deve acompanhar um determinado número de manobras a bordo dos rebocadores que atuam no porto, trocando experiências com os mestres. O capítulo mostra, porém, que essa formação fica comprometida sempre que equipamentos novos — rebocadores azimutais ou cicloidais — chegam a um porto sem nenhum programa de treinamento correspondente, tanto para o praticante quanto para o mestre já formado.
O texto está organizado em três eixos: a formação do praticante e o risco de operar equipamento novo sem preparo; a constatação de que o Brasil, em plena proliferação de rebocadores azimutais, não organizou um programa de treinamento para isso, com o contraponto do que a praticagem de Houston fez em 2001; e a atualização contínua — de práticos e de mestres — como processo que não termina com a licença, dividido em frente prática e frente teórica, esta última limitada, à época do livro, pelo fato de nenhuma publicação em português sobre manobras de navios ou uso de rebocadores contemplar os não convencionais.
2. Formação do praticante nos rebocadores
Acompanhamento de manobras e troca de experiências com o mestre
No que diz respeito especificamente aos rebocadores, as normas da Autoridade Marítima são claras ao definir as obrigações de um praticante em fase de formação como prático: ele deve acompanhar um determinado número de manobras a bordo dos rebocadores que atuam no porto. Dessa forma, tem a oportunidade de trocar experiências com os mestres, abrindo um canal de diálogo e conhecendo as características e limitações dos equipamentos.
Essa experiência, se bem aproveitada, deve levar a um uso eficiente dos rebocadores nas manobras — fator fundamental quando algum fato inesperado acontece, obrigando a decisões rápidas por parte do prático. Se bem executado o treinamento, espera-se que os praticantes, ao receberem suas cartas de prático, tenham conhecimento e saibam explorar no limite os rebocadores existentes no porto de sua habilitação.
O risco do equipamento novo sem treinamento adicional
Os problemas aparecem quando equipamentos novos chegam ao porto. A simples introdução de rebocadores azimutais ou cicloidais em portos onde só existiam rebocadores convencionais, sem nenhum treinamento adicional, pode levar a que o novo equipamento seja usado como um "rebocador de dois eixos sofisticado": nem os práticos nem os mestres terão experiência na realização das manobras especiais que só esses rebocadores podem efetuar, tampouco no uso mais eficiente deles em manobras convencionais.
3. A situação brasileira e o precedente de Houston
Proliferação de azimutais sem programa de treinamento
Atualmente, o Brasil experimenta uma proliferação de rebocadores azimutais. Salvo alguma rara exceção, nenhuma atitude tem sido tomada pelas praticagens no sentido de treinar seus membros no uso desses equipamentos. Nem mesmo o debate entre práticos e mestres sobre planos de adestramento ou sobre as possibilidades de manobra no porto tem ocorrido. Como consequência, pela falta de um programa específico, o processo de formação do novo prático fica, provavelmente, prejudicado no que diz respeito ao uso desses rebocadores.
O precedente de Houston (2001)
Essa constatação não se restringe ao Brasil. A praticagem do porto de Houston anunciou, em 2001, o início do treinamento de seus práticos em manobras com rebocadores azimutais, reconhecendo, após vários anos de utilização desses rebocadores, a necessidade de um treinamento específico.
4. Atualização contínua: as duas frentes de aprendizado
Prática e teoria
O aprendizado, de toda forma, é um processo contínuo, que não acaba quando um prático recebe sua licença — deve permear toda a vida do profissional. Como em qualquer processo de treinamento, a atualização de conhecimento deve ser feita em duas frentes: teórica e prática. Enquanto o treinamento prático pode ser desenvolvido durante o próprio trabalho, a partir de um programa organizado, a parte teórica requer uma preparação maior.
Uma sugestão do livro é criar um espaço sistemático para exposição e debate sobre aspectos técnicos do uso de rebocadores nos encontros nacionais de práticos, bem como incluir essa discussão nos cursos periódicos de aperfeiçoamento e atualização de práticos. É o que vem sendo feito nos EUA, por recomendação do National Research Council.
| Frente | Como se desenvolve | Onde o livro propõe que ocorra |
|---|---|---|
| Prática | No próprio trabalho, a partir de um programa organizado | Nas manobras reais, a bordo dos rebocadores do porto |
| Teórica | Requer maior preparação; não decorre só da rotina de trabalho | Espaço sistemático nos encontros nacionais de práticos + cursos periódicos de aperfeiçoamento e atualização — modelo já seguido nos EUA por recomendação do National Research Council |
5. Formação dos mestres de rebocador e acesso à informação técnica
Da prática intuitiva à exigência de base teórica
Os mestres de rebocador, por seu lado, enfrentam outras dificuldades. Devido às próprias características da sociedade brasileira, a maior parte dos mestres desenvolveu suas habilidades ao longo da vida profissional, aprendendo intuitivamente os principais conceitos necessários ao exercício da atividade e desenvolvendo sua perícia através da prática diária.
Essa formação — que até recentemente vinha sendo suficiente, dada a simplicidade dos rebocadores em atividade no país — passou a carecer, com o advento dos rebocadores cicloidais e azimutais, de uma base teórica mais elaborada, que permitisse a compreensão de técnicas menos intuitivas e um aperfeiçoamento da atuação profissional proporcional ao desenvolvimento tecnológico dos equipamentos.
Dependência das empresas de rebocadores
Os novos profissionais, formados nos cursos oferecidos pela Marinha do Brasil, recebem educação formal adequada ao preparo de um homem do mar. O treinamento para o manejo de rebocadores mais sofisticados, no entanto, depende hoje, unicamente, das empresas de rebocadores, e a falta desse treinamento impede a utilização dos equipamentos em sua plenitude, reduzindo a segurança das manobras ou obrigando a utilização de mais rebocadores para garanti-la.
| Aspecto | Rebocadores convencionais (simples) | Rebocadores cicloidais/azimutais |
|---|---|---|
| Base de formação | Prática intuitiva ao longo da vida profissional — suficiente | Passa a carecer de base teórica mais elaborada |
| Educação formal | Novos profissionais formados pela Marinha do Brasil recebem educação formal adequada ao preparo de homem do mar | O treinamento para o manejo mais sofisticado depende, unicamente, das empresas de rebocadores |
| Consequência da falta de treinamento | — | Reduz a segurança das manobras ou obriga o uso de mais rebocadores para garanti-la |
Lacuna bibliográfica em português
Mesmo aos mais dedicados práticos e mestres, o acesso à informação técnica sobre os novos rebocadores é muito limitado. Até a conclusão deste trabalho, nenhuma publicação em português sobre manobras de navios ou uso de rebocadores contemplava os rebocadores não convencionais. Por seu desenvolvimento relativamente recente, os rebocadores azimutais e cicloidais só vinham sendo abordados nos livros e periódicos estrangeiros produzidos nos últimos cinco anos — e, dentre esses, apenas alguns poucos já tratavam de manobras específicas, realizadas internacionalmente e aceitas como padrão para esse tipo de rebocador.
6. Síntese para o prático
O capítulo descreve a própria formação do candidato: o praticante que acompanha manobras a bordo dos rebocadores do porto para trocar experiências com os mestres, e o prático já formado, para quem o aprendizado não termina com a licença — continua nas duas frentes, prática e teórica, pelo resto da vida profissional.
O ponto central do capítulo é que a chegada de equipamento novo — um rebocador azimutal ou cicloidal num porto habituado só ao convencional — não se resolve sozinha: sem programa de treinamento organizado, tanto o praticante quanto o mestre já experiente ficam limitados a usar o equipamento sofisticado como um "rebocador de dois eixos sofisticado", perdendo exatamente as manobras especiais que justificam sua adoção.
Por isso os autores fecham o capítulo apontando que o resultado depende de um esforço coletivo, que envolva as empresas de rebocadores, as praticagens e as próprias autoridades Marítima e Portuária, na preparação adequada do pessoal que atua diretamente nas manobras com rebocadores.