O capítulo trata de dois processos de formação que se cruzam no convés do rebocador: a do praticante que ainda não recebeu sua carta de prático, e a do mestre de rebocador que já atua.
Os três eixos do texto
- a formação do praticante e o risco de operar equipamento novo sem preparo;
- a constatação de que o Brasil, em plena proliferação de rebocadores azimutais, não organizou programa de treinamento — com o contraponto do que a praticagem de Houston fez em 2001;
- a atualização contínua — de práticos e de mestres — dividida em frente prática e frente teórica.
Fio condutor: a formação fica comprometida sempre que equipamentos novos — rebocadores azimutais ou cicloidais — chegam a um porto sem nenhum programa de treinamento correspondente, tanto para o praticante quanto para o mestre já formado.
As normas da Autoridade Marítima são claras quanto às obrigações do praticante em fase de formação: ele deve acompanhar um determinado número de manobras a bordo dos rebocadores que atuam no porto.
O que essa exigência lhe dá
- oportunidade de trocar experiências com os mestres;
- abertura de um canal de diálogo;
- conhecimento das características e limitações dos equipamentos.
Experiência bem aproveitada › uso eficiente dos rebocadores nas manobras › fator fundamental quando algum fato inesperado acontece › obrigando a decisões rápidas por parte do prático
Resultado esperadose bem executado o treinamento, os praticantes, ao receberem suas cartas de prático, têm conhecimento e sabem explorar no limite os rebocadores existentes no porto de sua habilitação.
A simples introdução de rebocadores azimutais ou cicloidais em portos onde só existiam convencionais, sem nenhum treinamento adicional, pode levar a que o novo equipamento seja usado como um "rebocador de dois eixos sofisticado".
O que faltará — a nem práticos nem mestres
- experiência na realização das manobras especiais que só esses rebocadores podem efetuar;
- experiência no uso mais eficiente deles em manobras convencionais.
O tempo de decisão é a diferença: o tempo perdido perguntando ao mestre se o rebocador pode executar determinada manobra pode fazer a diferença entre um susto e um acidente. É por isso que o acompanhamento de manobras do praticante — e não só a teoria — é exigido pelas normas da Autoridade Marítima.
| Onde | Situação |
|---|---|
| Brasil | experimenta uma proliferação de rebocadores azimutais. Salvo rara exceção, nenhuma atitude tem sido tomada pelas praticagens para treinar seus membros no uso desses equipamentos — nem mesmo o debate entre práticos e mestres sobre planos de adestramento ou sobre as possibilidades de manobra no porto tem ocorrido |
| Houston | a praticagem do porto anunciou, em 2001, o início do treinamento de seus práticos em manobras com rebocadores azimutais — reconhecendo, após vários anos de utilização desses rebocadores, a necessidade de treinamento específico |
Consequência no Brasil: pela falta de programa específico, o processo de formação do novo prático fica provavelmente prejudicado no que diz respeito ao uso desses rebocadores.
Alcancea constatação não se restringe ao Brasil — Houston é a prova.
O aprendizado é processo contínuo: não acaba quando o prático recebe sua licença — deve permear toda a vida do profissional. Como em qualquer treinamento, a atualização se faz em duas frentes: teórica e prática.
| Frente | Como se desenvolve | Onde o livro propõe que ocorra |
|---|---|---|
| Prática | no próprio trabalho, a partir de um programa organizado | nas manobras reais, a bordo dos rebocadores do porto |
| Teórica | requer maior preparação; não decorre só da rotina de trabalho | espaço sistemático nos encontros nacionais de práticos + cursos periódicos de aperfeiçoamento e atualização |
Marcar como recomendaçãoé sugestão do livro, não norma: criar espaço sistemático para exposição e debate sobre aspectos técnicos do uso de rebocadores nos encontros nacionais e incluir a discussão nos cursos periódicos.
Modelo citadoé o que vem sendo feito nos EUA, por recomendação do National Research Council.
Devido às próprias características da sociedade brasileira, a maior parte dos mestres desenvolveu suas habilidades ao longo da vida profissional, aprendendo intuitivamente os principais conceitos e desenvolvendo a perícia pela prática diária.
| Aspecto | Rebocadores convencionais (simples) | Rebocadores cicloidais / azimutais |
|---|---|---|
| Base de formação | prática intuitiva ao longo da vida profissional — suficiente até recentemente, dada a simplicidade dos rebocadores em atividade no país | passa a carecer de base teórica mais elaborada, que permita compreender técnicas menos intuitivas e aperfeiçoar a atuação proporcionalmente ao desenvolvimento tecnológico |
| Educação formal | os novos profissionais, formados nos cursos oferecidos pela Marinha do Brasil, recebem educação formal adequada ao preparo de um homem do mar | o treinamento para o manejo de rebocadores mais sofisticados depende hoje, unicamente, das empresas de rebocadores |
| Consequência da falta de treinamento | — | impede a utilização dos equipamentos em sua plenitude: reduz a segurança das manobras ou obriga a utilização de mais rebocadores para garanti-la |
Mesmo aos mais dedicados práticos e mestres, o acesso à informação técnica sobre os novos rebocadores é muito limitado: até a conclusão do trabalho, nenhuma publicação em português sobre manobras de navios ou uso de rebocadores contemplava os rebocadores não convencionais.
Desenvolvimento relativamente recente › azimutais e cicloidais só abordados em livros e periódicos estrangeiros › produzidos nos últimos cinco anos › e, dentre esses, apenas alguns poucos já tratavam de manobras específicas, realizadas internacionalmente e aceitas como padrão para esse tipo de rebocador
Ponto central: a chegada de equipamento novo num porto habituado só ao convencional não se resolve sozinha. Sem programa de treinamento organizado, praticante e mestre experiente ficam limitados a usar o equipamento sofisticado como se fosse um convencional de dois eixos — perdendo exatamente as manobras especiais que justificam sua adoção.
Os autores fecham apontando que o resultado depende de um esforço coletivo na preparação adequada do pessoal que atua diretamente nas manobras com rebocadores. Quem deve estar envolvido:
- as empresas de rebocadores;
- as praticagens;
- a Autoridade Marítima;
- a Autoridade Portuária.
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