NV Cap. 1 — O Problema Geral da Navegação

1. Visão Geral

O Capítulo 1 do Miguens estabelece os fundamentos conceituais e operacionais da navegação marítima. Cobre os três tópicos do Anexo 2-A cobrados no PSCPP: planejamento da viagem (Avaliação, Plano, Execução, Monitoramento — APEM), tipos e métodos de navegação, e coordenadas geográficas, rumos, marcações e milha náutica. O domínio deste capítulo é pré-requisito para todos os demais temas de Navegação.

Fonte: MIGUENS, Altineu Pires. Navegação: A Ciência e a Arte. v. 1. 2. rev. atual. Rio de Janeiro: DHN, 2023. pp. 1-1 a 1-18.

Edital: Anexo 2-A, Área III — III.17 Planejamento da viagem; III.18 Tipos e métodos de navegação; III.19 Coordenadas geográficas, rumos e marcações; milha náutica.

2. Definição de Navegação

Navegação é "a ciência e a arte de conduzir um veículo com segurança, dirigindo e controlando os seus movimentos, desde o ponto de partida até o seu destino" (Miguens, Cap. 1.1). O veículo pode ser um navio, embarcação, submarino, aeronave, espaçonave ou veículo terrestre.

Da definição derivam as formas: navegação marítima (de superfície ou submarina), aérea, espacial e terrestre. Este Manual aborda fundamentalmente a navegação marítima de superfície.

NORMAM-28/DHN define: "A Navegação surgiu quando o homem começou a deslocar-se sobre a água em rústicas embarcações, uma arte. Entretanto, logo elementos de ciência foram incorporados. Hoje, a Navegação conserva aspectos de ambos. É uma ciência, pois envolve o desenvolvimento e a utilização de instrumentos de precisão [...]. É, também, uma arte, pois envolve o uso adequado dessas ferramentas sofisticadas e, principalmente, a interpretação das informações obtidas."

Complementarmente, a navegação também é definida como "o processo de planejamento, acompanhamento e controle do movimento de uma embarcação de um ponto a outro, com segurança" — definição que fundamenta diretamente o conceito de planejamento da viagem (APEM).

Navegação = Ciência + Arte: a ciência fornece os instrumentos e cálculos; a arte é a interpretação dos dados e a tomada de decisão do navegante experiente — "esta é a posição do navio".

3. Planejamento da Viagem (APEM)

O planejamento da viagem é de "importância essencial para a otimização de recursos, para a salvaguarda da vida humana no mar, para a segurança e a eficiência da navegação e para a proteção do meio ambiente marinho" (Miguens, 1.2). Aplica-se a todos os tipos de navios e embarcações.

O planejamento inclui quatro componentes, formando a sigla APEM:

Componente Em que consiste
AvaliaçãoColeta de todas as informações relevantes para a viagem
Plano de viagemDetalhamento de toda a viagem de porto a porto
ExecuçãoExecução do plano de viagem
MonitoramentoAcompanhamento do progresso do navio na implementação do plano

3.1 Avaliação

Todas as informações relevantes devem ser consideradas, incluindo:

  • Navio/embarcação: condições de navegabilidade, estabilidade, equipamentos, limitações operacionais, calado permitido nos canais e portos, características de manobra;
  • Carga: características especiais (especialmente se perigosa), distribuição, estiva e acondicionamento;
  • Tripulação: disponibilidade de tripulação competente e bem preparada;
  • Documentos: certificados e documentos atualizados (navio, equipamentos, tripulação, passageiros, carga);
  • Cartas náuticas: precisas, atualizadas e cobrindo toda a derrota, com avisos-rádio permanentes ou temporários;
  • Publicações: roteiros e demais publicações de auxílio à navegação oficiais e atualizadas;
  • Informações adicionais: atlas de correntes e marés, dados climatológicos e oceanográficos, informações meteorológicas de serviço reconhecido pela OMM, sistemas de monitoramento, serviços de tráfego de navios, volume de tráfego esperado, informações relativas à praticagem e ao porto.

A avaliação deve fornecer indicação clara de todas as áreas de perigo, das áreas onde será possível navegar com segurança, e de áreas com restrições ambientais.

3.2 Plano de Viagem

Com base na avaliação, elabora-se um plano detalhado cobrindo toda a derrota, de porto a porto. O plano deve incluir:

  • Traçado da derrota em cartas náuticas de escala apropriada, indicando áreas de precaução, de perigo, rotas de tráfego, esquemas de separação de tráfego, áreas de controle de tráfego e ATBA (Areas To Be Avoided);
  • Elementos de segurança: velocidade de segurança (considerando proximidade de perigos, características de manobra e calado), alterações de velocidade, Folga Abaixo da Quilha (FAQ) — espaço mínimo exigido sob a quilha em áreas críticas;
  • Efeito squat: fenômeno hidrodinâmico em águas rasas pelo qual o navio em movimento cria área de baixa pressão sob a quilha, aumentando o calado efetivo — deve ser considerado nas alterações de velocidade;
  • Pontos de guinada levando em conta a curva de giro na velocidade planejada e os efeitos esperados de ventos, correntes e correntes de maré;
  • Método e frequência de determinação da posição, com opções primárias e secundárias;
  • Uso dos esquemas de tráfego e dos serviços de tráfego de navios quando disponíveis;
  • Precauções ambientais e plano(s) de contingência para ação alternativa em emergências.
Aprovação pelo Comandante: o plano de viagem, bem como seus detalhes, deve ser aprovado pelo Comandante do navio antes do início da viagem. Os detalhes devem ser registrados em meio físico e/ou digital e amplamente divulgados por briefing a todos os membros da tripulação envolvidos (Miguens, 1.2.2).
ATBA (Area To Be Avoided): área de limites definidos, representada na carta náutica, em que a navegação é particularmente perigosa ou excepcionalmente importante para evitar acidentes. Deve ser evitada por todos os navios, ou por certas classes de navios, por razões de perigo excepcional ou fatores ecológicos e ambientais especialmente sensíveis (Miguens, nota 1).

3.3 Execução

Determinadas a ETD (Estimated Time of Departure — Hora Estimada de Partida) e a ETA (Estimated Time of Arrival — Hora Estimada de Chegada), a viagem é executada conforme o planejamento. Durante a execução devem ser considerados:

  • Confiabilidade dos equipamentos de navegação;
  • Horários estimados de chegada em pontos críticos quanto à altura e direção das marés;
  • Condições meteorológicas e previsões de tempo, especialmente em áreas com frequentes períodos de baixa visibilidade;
  • Condições de luminosidade na aproximação e passagem próxima a pontos de perigo;
  • Condições de tráfego, especialmente em pontos focais de navegação com esquemas de separação de tráfego.

O Comandante deve considerar se circunstâncias particulares (ex.: visibilidade restrita em ponto crítico) introduzem perigo inaceitável, podendo ser necessário utilizar pessoal adicional no Passadiço, no Convés ou na Praça de Máquinas.

3.4 Monitoramento

Nessa fase, acompanha-se a execução da viagem, verificando principalmente o posicionamento do navio e os horários de guinada e demais eventos definidos no plano. Se necessário, ativam-se os planos contingentes ou introduzem-se alterações ao planejamento original.

O plano de viagem deve estar disponível, por todo o decurso da derrota, no Passadiço, para permitir aos Oficiais de Quarto acesso imediato, bem como a todos os demais documentos e referências que o compõem. O progresso do navio deve ser monitorado continuamente. Quaisquer mudanças devem ser baseadas nos conceitos das diretrizes, formalmente registradas e amplamente disseminadas (Miguens, 1.2.4).

4. Tipos e Métodos de Navegação

4.1 Tipos de Navegação (NORMAM-28/DHN)

A NORMAM-28/DHN (Normas da Autoridade Marítima para Navegação e Cartas Náuticas) classifica a navegação em três tipos principais, de acordo com a distância da costa ou do perigo mais próximo:

Tipo Definição Precisão exigida
Águas Restritas Portos, barras, baías, canais, rios, lagos, lagoas, proximidades de perigos, ou qualquer situação com manobra limitada pela configuração da costa/topografia submarina. Também quando a distância da costa (ou do perigo mais próximo) for menor que 3 milhas. Maior precisão
Costeira Entre portos, afastada de até 50 milhas náuticas da costa, mas não inferior a 3 milhas, ou em águas com até 200 metros de profundidade (o que ocorrer primeiro). Precisão intermediária
Oceânica Fora da área de costa, além do limite de 200 metros de profundidade ou de 50 milhas náuticas de terra (o que ocorrer primeiro). Menor precisão requerida

A Figura 1.1 apresenta os requisitos de precisão e a frequência mínima de determinação de posições para os três tipos.

Fig. 1-1
Fig. 1-1 Fig. 1-1 — Tipos de Navegação e Requisitos
Importante: o tipo de navegação praticado, associado à distância ao perigo mais próximo e à velocidade do navio, condiciona o intervalo entre observações de posições ("marques" ou "tops") e a precisão requerida. Embora não haja limites rígidos, a Figura 1.1 orienta esses parâmetros (Miguens, 1.3).

4.2 Métodos de Navegação

Para conduzir qualquer tipo de navegação, o navegante utiliza um ou mais métodos para determinar a posição do navio:

  • Navegação visual: posição determinada por meio de observações visuais de pontos em terra e/ou de auxílios à navegação representados na carta náutica;
  • Navegação astronômica: posição determinada por meio de observações visuais dos astros;
  • Navegação eletrônica: posição determinada por meio de informações obtidas de equipamentos eletrônicos, tais como radar ou satélite (GNSSGlobal Navigation Satellite System);
  • Navegação estimada: posição determinada por meio da previsão da posição futura do navio a partir de uma posição conhecida, utilizando o rumo e a velocidade na superfície, o intervalo de tempo entre as posições e, quando conhecida, a corrente.
Integração de métodos: na prática, o navegante usa múltiplos métodos simultaneamente. A navegação eletrônica (GNSS/radar) é o principal em operações modernas; a estimada é essencial quando os eletrônicos falham ou têm precisão reduzida.

5. A Forma da Terra

5.1 Superfície Topográfica, Geoide e Elipsoide

A superfície topográfica da Terra é a superfície real com todas as irregularidades exteriores — não tem representação matemática. Para navegação e cartografia, são usadas superfícies teóricas aproximadas (Miguens, 1.4).

  • Geoide: sólido formado pela superfície do nível médio dos mares, supondo-o recobrindo toda a Terra e prolongando-se através dos continentes (Figura 1.2). É uma superfície equipotencial coincidente com o nível médio do mar. Dada a heterogeneidade da crosta terrestre, é uma superfície irregular sem representação matemática.
Fig. 1-2
Fig. 1-2 Fig. 1-2 — Forma da Terra (Superfície Topográfica, Elipsoide e Geoide)
  • Elipsoide de Revolução: superfície teórica que mais se aproxima da forma real da Terra. É o sólido gerado pela rotação de uma elipse em torno do eixo dos polos (Figura 1.3). Descrito pelos parâmetros: semi-eixo maior (a), semi-eixo menor (b), achatamento (f) e excentricidade (e).
Fig. 1-3
Fig. 1-3 Fig. 1-3 — Elipsoide de Revolução (semi-eixos a e b)
A diferença entre o elipsoide e uma esfera é muito pequena. Por esta razão, a esfera é adotada como superfície teórica da Terra nos cálculos da navegação astronômica e de derrotas ortodrômicas (Miguens, 1.4).

5.2 Sistemas Geodésicos de Referência

O Brasil adotou progressivamente três sistemas de referência geodésica:

Parâmetro Córrego Alegre SAD-69 WGS-84
ElipsoideInternacional 1924 — HayfordInternacional 1967WGS-84
Achatamento (f)1/297,001/298,251/298,257223563
Semi-eixo maior (a)6.378.388,000 m6.378.160,000 m6.378.137,000 m
DatumVértice Córrego AlegreVértice ChuáGeocentro da Terra
WGS-84 (World Geodetic System 1984): sistema de referência geodésico global estabelecido pelo U.S. Department of Defense desde 1960. É o sistema de referência das efemérides operacionais do GPS e adotado atualmente pela DHN e por todos os Serviços Hidrográficos estrangeiros, por recomendação da Organização Hidrográfica Internacional, na construção das cartas náuticas (Miguens, 1.4).
Datum: ponto de referência a partir do qual a representação gráfica dos paralelos e meridianos — e consequentemente tudo o que for desenhado na carta náutica — está relacionada e é proporcional. No WGS-84, o datum é o próprio geocentro (centro de massa da Terra).

6. Principais Linhas, Pontos e Planos do Globo Terrestre

O Miguens (1.5) define os elementos geométricos do globo terrestre que fundamentam o sistema de coordenadas geográficas:

  • Eixo da Terra: linha em torno da qual a Terra executa seu movimento de rotação, de Oeste para Leste (produzindo nos outros astros um movimento aparente de Leste para Oeste).
  • Polos: pontos em que o eixo da Terra intercepta a superfície terrestre. O Polo Norte situa-se na direção da Estrela Polar (α URSA MINORIS); o Polo Sul é o ponto oposto.
  • Círculo Máximo: linha resultante da interseção da superfície terrestre com um plano que contenha o centro da Terra. É a maior circunferência possível na superfície esférica.
  • Círculo Menor: linha resultante da interseção com um plano que não contenha o centro da Terra.
  • Plano Equatorial: plano perpendicular ao eixo de rotação da Terra e que contém o seu centro (Figura 1.4).
Fig. 1-4
Fig. 1-4 Fig. 1-4 — Plano Equatorial e o Equador
  • Equador: círculo máximo resultante da interseção do plano equatorial com a superfície terrestre. Divide a Terra em Hemisfério Norte e Hemisfério Sul.
  • Paralelos: círculos menores paralelos ao Equador e perpendiculares ao eixo da Terra. Seus raios são sempre menores que o do Equador (Figura 1.5). Materializam a direção E–W.
Fig. 1-5
Fig. 1-5 Fig. 1-5 — Paralelos

Entre os paralelos de destaque (Figura 1.6):

  • Trópico de Câncer: paralelo de 23,5° de Latitude Norte;
  • Trópico de Capricórnio: paralelo de 23,5° de Latitude Sul;
  • Círculo Polar Ártico: paralelo de 66,5° de Latitude Norte;
  • Círculo Polar Antártico: paralelo de 66,5° de Latitude Sul.
Fig. 1-6
Fig. 1-6 Fig. 1-6 — Equador, Trópicos e Círculos Polares (com Meridianos)
  • Meridianos: círculos máximos que contêm os polos da Terra (representados também na Figura 1.6). O principal é o Meridiano de Greenwich. Os meridianos marcam a direção N–S.
Paralelos e meridianos formam o reticulado (grade cartográfica): paralelos marcam direção E–W; meridianos marcam direção N–S. Os meridianos são círculos máximos (passam pelo centro da Terra); os paralelos, exceto o Equador, são círculos menores.

7. Coordenadas Geográficas

O sistema de coordenadas geográficas permite localizar qualquer ponto na superfície terrestre por meio de dois ângulos: latitude e longitude (Miguens, 1.6).

  • Latitude (φ): arco de meridiano compreendido entre o Equador e o paralelo do lugar. Conta-se de 0° a 90° para o Norte ou para o Sul do Equador.
  • Longitude (λ): arco do Equador (ou ângulo no Polo) compreendido entre o Meridiano de Greenwich e o meridiano do lugar. Conta-se de 0° a 180° para Leste ou para Oeste de Greenwich.
  • Primeiro Meridiano: o Meridiano de Greenwich serve de referência para contagem das Longitudes.

Diferença de Latitude (Δφ) e Diferença de Longitude (Δλ)

  • Diferença de Latitude (Δφ): arco de meridiano compreendido entre os paralelos que passam por dois lugares. Obtém-se subtraindo ou somando os valores das latitudes, conforme sejam de mesmo nome ou nomes contrários (Miguens, 1.6). Indica-se também o sentido (N ou S): ex., de 30°N para 45°N: Δφ = 15°N.
  • Latitude Média (φm): latitude correspondente ao paralelo médio entre os paralelos que passam por dois lugares. Obtém-se pela semissoma ou semidiferença das latitudes (semidiferença quando em hemisférios diferentes; o resultado terá o nome do valor maior). Ex.: entre 30°N e 45°N: φm = 37,5°N.
  • Diferença de Longitude (Δλ): arco do Equador compreendido entre os meridianos que passam por dois lugares. Obtém-se de forma análoga à diferença de latitude.
Fig. 1-7
Fig. 1-7 Fig. 1-7 — Principais Linhas, Planos e Pontos do Globo Terrestre / Sistema de Coordenadas Geográficas
Exemplo de Latitude Média: entre 40°N e 12°S: φm = (40°N − 12°S)/2 = 14°N (resultado com nome do valor maior). Entre 30°N e 45°N: φm = (30°N + 45°N)/2 = 37,5°N.

8. Distâncias na Superfície da Terra

8.1 A Milha Náutica (ou Milha Marítima)

A distância entre dois pontos na superfície da Terra é a separação espacial entre eles, expressa pelo comprimento do menor arco de círculo máximo que os une. Em navegação, as distâncias são normalmente medidas em milhas náuticas (Miguens, 1.7.1).

Milha Náutica: comprimento do arco de meridiano que subtende um ângulo de 1 minuto cujo vértice se posiciona no centro da Terra. Equivale ao comprimento do arco de 1' de Latitude. Por Acordo Internacional (1929), o valor fixado é de 1.852 metros, independentemente da Latitude do lugar (Miguens, 1.7.1).
O comprimento do arco de meridiano correspondente a 1' no centro da Terra varia ligeiramente com o lugar (porque a Terra não é perfeitamente esférica). Por isso, a milha náutica foi fixada como valor constante de 1.852 m — convencional, não a partir de um ponto específico.

Nas Cartas de Mercator, as distâncias devem ser sempre medidas na escala das latitudes (onde 1 minuto de Latitude equivale a 1 milha), devido ao problema das deformações em Latitude (Latitudes Crescidas).

8.2 Ortodromia e Loxodromia

  • Ortodromia: qualquer segmento de um círculo máximo da esfera terrestre. É a menor distância entre dois pontos na superfície da Terra (Figura 1.8).
Fig. 1-8
Fig. 1-8 Fig. 1-8 — Ortodromia (Arco de Círculo Máximo) — na Esfera e na Carta de Mercator
  • Loxodromia: linha que intercepta os vários meridianos segundo um ângulo constante (Figura 1.9). É a Linha de Rumo — na qual a direção da proa do navio corta todos os meridianos sob um mesmo ângulo.
Fig. 1-9
Fig. 1-9 Fig. 1-9 — Loxodromia ou Linha de Rumo — na Esfera e na Carta de Mercator
Embora a menor distância seja a ortodromia, em navegação é quase sempre mais conveniente navegar por uma loxodromia (Linha de Rumo), pois permite manter um rumo constante sem a necessidade de alterar continuamente a proa (Miguens, 1.7.2).
A loxodromia, exceto ao longo do Equador e dos meridianos, não é o caminho mais curto. Em grandes distâncias oceânicas, a diferença entre ortodromia e loxodromia pode ser significativa — a ortodromia é usada nesses casos.

9. A Direção no Mar — Rumos e Marcações

Direção, na superfície da Terra, é a linha que liga dois pontos com uma orientação. A Figura 1.10 apresenta as direções Cardeais (N, S, E, W), Laterais ou Inter-Cardeais (NE, SE, NW, SW) e Colaterais (NNE, ENE, ESE, SSE, SSW, WSW, WNW, NNW), comumente referidas em navegação. Todas são Direções Verdadeiras (referência: Norte Verdadeiro) (Miguens, 1.8).

Fig. 1-10
Fig. 1-10 Fig. 1-10 — Direções (Cardeais, Laterais e Colaterais)

9.1 Rumos

Um navio governa seguindo um rumo, definido como o ângulo horizontal entre uma direção de referência e a direção para a qual aponta a proa do navio. Os rumos são medidos de 000° a 360°, no sentido horário, a partir da Direção de Referência (Figura 1.11).

Fig. 1-11
Fig. 1-11 Fig. 1-11 — Rumo (ângulo a partir da direção de referência)

As direções de referência mais utilizadas são o Norte Verdadeiro (ou Geográfico) e o Norte Magnético, materializados respectivamente pelo Giroscópio (Agulha Giroscópica) e pela Agulha Magnética.

Conforme a Direção de Referência, o rumo denomina-se (Figura 1.12):

Fig. 1-12
Fig. 1-12 Fig. 1-12 — Rumos Verdadeiro, da Agulha, Magnético e da Giro
Denominação Sigla Referência Instrumento
Rumo VerdadeiroR ou RvNorte Verdadeiro (Geográfico)
Rumo da AgulhaRagNorte da AgulhaAgulha Magnética
Rumo MagnéticoRmgNorte Magnético
Rumo da GiroRgiroNorte da GiroAgulha Giroscópica
Rumos PráticosRpReferências de terra (canais estreitos, rios)
Rumo no FundoRfdNorte Verdadeiro (resultante real)
  • Proa: direção para a qual o navio está apontando num determinado instante. Por influência do mar (ondas, vagalhões), vento e erros do timoneiro, a proa oscila em torno do rumo governado.
  • Rumos Práticos (Rp): quando se navega em rios, canais estreitos ou águas confinadas, orienta-se por referências de terra. Essas direções, nas quais o navio deve governar para manter-se safo de perigos, são chamadas de "Rumos Práticos".
  • Rumo no Fundo (Rfd): direção resultante referida ao Norte Verdadeiro, realmente navegada desde o ponto de partida até o ponto de chegada. É a composição do Rumo na Superfície com o efeito da corrente (Rumo da Corrente) — ver Figura 1.13.
Fig. 1-13
Fig. 1-13 Fig. 1-13 — Rumo na Superfície e no Fundo (efeito da corrente)
A precisão adotada para rumos é de 0,5°. Um rumo deve ser sempre escrito com três algarismos em sua parte inteira. Exemplos: 045°; 072°; 180°; 347,5°; 233,5° (Miguens, 1.8).

9.2 Marcações

Marcação é o ângulo horizontal entre a linha que une o ponto no navio (de onde se faz a observação) ao objeto marcado, e uma Direção de Referência. A direção de referência pode ser: Norte Verdadeiro, Norte Magnético, Norte da Giro, Norte da Agulha ou Proa do Navio (Miguens, 1.8).

Tipo de Marcação Sigla Referência Medida
Marcação Verdadeira M ou Mv Norte Verdadeiro 000° a 360°, sentido horário. Obtida da carta ou da Agulha Giroscópica (com seu desvio).
Marcação Magnética Mmg Norte Magnético 000° a 360°, sentido horário. Obtida da carta ou da Agulha Magnética (com seu desvio).
Marcação da Giro Mgiro Norte da Giro 000° a 360°, sentido horário. Norte da Giro pode desviar do Norte Verdadeiro.
Marcação da Agulha Mag Norte da Agulha 000° a 360°, sentido horário. Desviado do Norte Magnético pela Curva de Desvio.
Marcação Relativa Mr Proa do Navio 000° a 360°, sentido horário a partir da Proa. Fórmula: Mv = Mr + Rv (ou R).
Marcação Polar Mp Proa do Navio 000° a 180°, para Boreste (BE) ou Bombordo (BB). Recebe sempre uma designação (BE ou BB).

A Figura 1.14 ilustra a Marcação Verdadeira:

Fig. 1-14
Fig. 1-14 Fig. 1-14 — Marcação Verdadeira (Mv)

A Figura 1.15 ilustra a Marcação Relativa — com um navio no Rumo 045°, os pontos A (135°), B (180°), C (270°) e D (340°) têm marcações relativas específicas:

Fig. 1-15
Fig. 1-15 Fig. 1-15 — Marcação Relativa (exemplo com 4 pontos a partir de Rv 045°)

A Figura 1.16 ilustra a Marcação Polar:

Fig. 1-16
Fig. 1-16 Fig. 1-16 — Marcação Polar (BE e BB)

A Figura 1.17 traz o exemplo completo de Marcação Polar: navio no Rumo Verdadeiro (Rv) 045° marca um farol exatamente no través de BB, isto é, na Marcação Polar (Mp) 090° BB.

Fig. 1-17
Fig. 1-17 Fig. 1-17 — Exemplo de Marcação Polar (Rv, Mp, Mr e Mv)
Fórmula Marcação Verdadeira a partir da Relativa: Mv = Mr + Rv. Exemplo: Rv = 045°; Mr (farol) = 090° BB. Mr em graus = 360° − 90° = 270°. Mv = 270° + 045° = 315°. O farol está no rumo verdadeiro 315° do navio (Miguens, 1.8).
As marcações também devem ser sempre escritas com três algarismos em sua parte inteira. A aproximação a ser usada é de 0,5°. Exemplos: M = 082°; M = 033,5°; M = 147° (Miguens, 1.8).
Não confundir Marcação Relativa com Marcação Polar: a Relativa vai de 000° a 360° a partir da Proa (sentido horário); a Polar vai de 000° a 180°, com designação BE ou BB. A Polar é útil para comunicação simplificada de posição relativa de um objeto ("través de BB", "45° pela amura de BE").

10. A Velocidade no Mar

  • Velocidade (vel): distância percorrida na unidade de tempo. A unidade de velocidade comumente utilizada em navegação é o , que corresponde à velocidade de 1 milha náutica por hora (Miguens, 1.9).
  • Velocidade no Fundo (vel fd): expressão que designa velocidade ao longo da derrota realmente seguida, em relação ao fundo do mar, desde o ponto de partida até o ponto de chegada. Equivale ao SOG (Speed Over Ground) dos sistemas de navegação eletrônica.
  • Velocidade de Avanço (SOA — Speed of Advance): velocidade com que se pretende progredir ao longo da derrota planejada. Importante dado de planejamento, a partir do qual são calculados a ETA (Estimated Time of Arrival) e a ETD (Estimated Time of Departure) em relação aos diversos pontos e portos da derrota planejada (Miguens, 1.9).
Distinção: o nó é a unidade de velocidade (não de distância). "1 nó" = 1 milha náutica por hora. Escreve-se "o navio navega a 12 nós", não "a 12 nós por hora".

11. Outras Unidades de Medida Utilizadas em Navegação

Medidas de Distância

UnidadeEquivalência
Milha náutica1.852 metros = ≈2.025,37 jardas (aproximadamente 2.000 jardas em uso náutico)
Amarra (cable)100 braças = 200 jardas = 183 metros
Jarda3 pés = 0,914 metro

Medidas de Profundidade

UnidadeEquivalência
Metro3,281 pés = 1,09 jarda = 0,55 braça
12 polegadas = 0,3048 metro
Braça2 jardas = 6 pés = 1,83 metro

Medidas Angulares

  • Grau (°): unidade angular padrão em navegação;
  • Ponto (Point): usado em outras Marinhas, em relação à proa. Corresponde à trigésima segunda parte do círculo = 11,25° (Miguens, 1.10).