Três fenômenos ligados condicionam a navegação costeira e em águas restritas: marés, correntes de maré e correntes oceânicas.
| Fenômeno | Movimento | Causa | Escala |
|---|---|---|---|
| Maré | vertical | astronômica (Lua+Sol) | local |
| Corrente de maré | horizontal | astronômica | local |
| Corrente oceânica | horizontal | termohalina + vento | global |
EditalIII.40 (marés) · III.41 (correntes de maré) · III.42 (correntes oceânicas).
MnemônicoM-C-O: Marés (vertical, astronômica) · Correntes de maré (horizontal, astronômica, local) · Oceânicas (horizontal, termohalina+vento, global).
Em águas profundas a variação de nível tem pouco impacto; em águas rasas, saber a altura da maré e a corrente define quando e onde navegar.
DefiniçãoMaré = oscilação vertical da superfície do mar causada primariamente pela atração gravitacional da Lua e, em menor grau, do Sol.
A Lua domina: efeito ~2,25 vezes maior que o do Sol — porque a maré depende da diferença de força gravitacional entre os pontos próximos e distantes, não da força absoluta.
Mecanismo Terra–Lua
- Terra e Lua giram em torno de um baricentro (centro de massa comum) a ~810 milhas (~1.500 km) abaixo da superfície terrestre — dentro do manto.
- Resultante entre gravidade lunar variável e aceleração centrífuga constante = força trativa de maré, essencialmente horizontal, empurra as águas ao ponto sublunar e ao oposto.
- Terra ideal → elipsoide com dois bulbos de preamar (direção da Lua + lado oposto).
- Dia lunar ~24h 50min → em teoria duas PM e duas BM/dia; inclinação do eixo gera as desigualdades diurnas.
A força trativa é essencialmente horizontal — NÃO é a gravidade vertical que eleva o mar. Confundir força trativa com força gravitacional direta é erro clássico de prova.
| Astro | Distância média | Efeito de maré |
|---|---|---|
| Lua | ~384.400 km | ~2,25× (referência) |
| Sol | ~149.600.000 km | ~0,44× (base = Lua) |
SizígiaAlinhamento Sol-Terra-Lua (lua nova/cheia) → marés de maior amplitude.
QuadraturaÂngulo reto (quarto crescente/minguante) → marés de menor amplitude.
Regra de ouro: Tabelas I e II e o Método Expedito pressupõem curva senoidal → válidos só de Vitória (ES) para o Norte (maré semidiurna). Ao Sul, o erro ultrapassa a margem de 10% da amplitude.
Ciclo da oscilação
Enchente › Preamar (PM) › estofo › Vazante › Baixa-mar (BM) › estofo › recomeça
Planos de referência
| Sigla | Nome | Posição / uso |
|---|---|---|
| NR | Nível de Redução | Zero das cartas; referência de sondagens e alturas de maré |
| MLWS | Baixa-mar média de sizígia | = NR nas cartas brasileiras |
| MLWN | Baixa-mar média de quadratura | acima do MLWS |
| NM / MSL | Nível Médio do Mar | referência de altitudes em terra; observado em período >18,6 anos |
| MHWN | Preamar média de quadratura | quadro "Informações sobre a Maré" |
| MHWS | Preamar média de sizígia | topo; MHWS−MLWS = amplitude máxima média |
NR ≠ NM: planos distintos. NM (MSL) = altitudes em terra; NR (MLWS) = sondagens e alturas de maré.
Como NR = MLWS, a profundidade real é em geral maior que a sondagem — mas nas BM de sizígia pode descer abaixo do NR (alturas negativas com sinal negativo nas Tábuas). Ignorar isso é risco de encalhe.
DG6Tábuas das Marés, editada anualmente pela DHN. Cobre 54 estações maregráficas (do Norte para o Sul) + Estação Antártica Comandante Ferraz.
Profundidade real
C = D + E › profundidade real = sondagem + altura da maré
C = B + A › profundidade real = distância quilha-fundo + calado
Tabelas I e II — altura em instante intermediário
- Tabela I: entradas = duração da meia-maré + intervalo até a PM/BM mais próxima → saída = centésimo (fração da amplitude).
- Tabela II: entradas = centésimo + amplitude → saída = correção de altura.
- Enchente: altura = hBM + correção. Vazante: altura = hPM − correção.
Tabelas I e II são para curvas senoidais → no Brasil, usar somente de Vitória (ES) para o Norte; ao Sul o erro passa dos 10% da amplitude.
HorasFormato HHMM, fuso padrão do porto; em horário de verão somar 1 hora.
Portos secundários: aplicar às PM/BM do porto de referência as correções (aditivas/subtrativas em hora e altura) fornecidas nas Tábuas.
Quando usarMétodo Expedito — sem dados tabulados de PM/BM. Exige o quadro "Informações sobre a Maré" da carta + passagem meridiana da Lua do Almanaque Náutico (DN5). Válido só onde a maré é semidiurna (Vitória-ES p/ Norte).
Procedimento (6 passos)
- Hora da passagem meridiana da Lua em Greenwich (DN5) → aplicar correção de longitude → hora local.
- Somar HWF&C → hora da PM de sizígia.
- Intervalos: PM–PM = 12h 25min; PM–BM = 6h 13min (1/4 do dia lunar de 24h 50min).
- Altura da PM: interpolação linear entre MHWN e MHWS — 14 dias entre sizígias, 7 dias sizígia→quadratura.
- Altura da BM: hBM = 2×NM − hPM (simetria em relação ao NM).
Precisão (Suape)Exemplo 21/JUL/2021: diferença de ~1 hora nos horários e ~0,1 m nas alturas vs. Tábuas — razoável, mas não substitui as Tábuas.
Não se aplica a marés mistas, diurnas ou com desigualdades diurnas (Sul do Brasil). Ventos fortes e persistentes deslocam PM/BM — mais frequente ao sul do Cabo Frio.
Maré e corrente de maré têm a mesma causa astronômica: primeiro o movimento horizontal (corrente), depois o vertical (maré) → devem ser estudadas em conjunto.
Corrente axial alternativa (portos/canais)
| Instante | Corrente |
|---|---|
| Velocidade máx. para dentro | ~ na PM |
| Velocidade máx. para fora | ~ na BM |
| Velocidade nula (inversão) | quando a maré atinge o NM |
Oceano abertoCorrente de maré rotatória (gira sem inversão brusca) por Efeito de Coriolis: desvia à direita no HN, à esquerda no HS.
Nota da DG6: as horas de PM/BM nem sempre coincidem com a inversão da corrente — a corrente axial inverte no NM (entre PM e BM). Usar a hora da PM como hora de inversão é erro grave.
Cartas de Correntes de Maré (DHN)Coletânea por porto, com setas de direção e velocidades (nós), referidas à hora da PM prevista. Disponíveis em papel (EMGEPRON/BHMN) e digital (CHM).
Consulta (4 passos)
- Obter a PM prevista mais próxima (Tábuas ou SISCORAR) — pode ser futura se estiver mais perto em módulo.
- Calcular a diferença em horas: instante − PM mais próxima → selecionar a carta.
- Localizar o ponto → ler rumo e velocidade da corrente.
- Se não for sizígia, aplicar fator de correção de velocidade (ábaco). As direções NÃO recebem correção.
SISCORAR
O que éSISCORAR = Sistema de Previsão de Correntes de Maré em Águas Rasas; da REMO (CHM–Petrobras), lançado em 2018. Versão 2.0 (28/09/2020) incluiu Baías de Guanabara e Sepetiba (RJ).
- Funciona off-line; previsões horárias para qualquer data; vetores ou linhas de fluxo.
- Modelo numérico hidrodinâmico: malha + batimetria + simulação por ≥1 ano + validação + componentes harmônicas.
SISCORAR considera apenas a maré astronômica — exclui vento, marés meteorológicas e circulação por densidade. Em tempo adverso, interpretar com reservas.
Correntes oceânicas resultam de dois processos: (1) termohalinos (temperatura + salinidade → densidade) e (2) ação dos ventos por aquecimento solar desigual.
Circulação termohalina (profunda, vertical)
- Água mais densa afunda, percorre o fundo em escala de séculos e retorna à superfície — o Global Conveyor Belt (correia transportadora global).
- Densidade superficial aumenta por resfriamento (Atlântico Norte, inverno) e por congelação (Oceano Austral — o gelo libera sal).
Atlântico
| Corrente | Sentido | Característica |
|---|---|---|
| Corrente do Golfo | N→NE (EUA) | "rio no mar"; 1,2–1,4 m/s (2,3–2,7 nós); borda Oeste |
| Corrente da Flórida | N pelo estreito | >1,6 m/s (3 nós) |
| Corrente do Brasil | S até ~40°S | quente e salina; borda Oeste |
| Corrente de Benguela | N (África W) | fria; ressurgência; borda Leste |
| Corrente das Malvinas | N (Argentina) | fria; da Circumpolar Antártica |
Correntes quentes ocupam a borda Oeste dos oceanos; frias a borda Leste (giros subtropicais).
Oceano Austral
- Corrente Circumpolar Antártica (Deriva do Vento Oeste): sentido geral Leste, pelos ventos de Oeste; ramos formam Malvinas, Peru (Humboldt) e Oeste da Austrália.
- Convergência Antártica ~60°–50°S · Convergência Subtropical ~40°S — águas convergem e mergulham.
Índico e Pacífico
| Corrente | Destaque |
|---|---|
| Corrente das Agulhas | Índico Sul, forte e quente — análoga ao Golfo |
| Corrente Monçônica | único oceano com inversão sazonal completa (monções) |
| Kuro Shio | Pacífico N; ~0,85 m/s (1,6 nós); borda Oeste |
| Corrente do Peru (Humboldt) | fria; lenta; ressurgência intensa |
Transporte de EkmanDesvio de 90° da corrente superficial em relação ao vento. Explica ressurgência e subsidência.
Ressurgência (upwelling)
- Vento paralelo à costa + Ekman levando águas para o largo → água subsuperficial (100–200 m) ascende: fria e rica em nutrientes → muito fitoplâncton e peixes.
- Clássica nas costas ocidentais (Benguela, Peru, Califórnia, Austrália Ocidental).
Cabo Frio (RJ): vento NE paralelo à costa, Ekman leva a água ao largo → ressurgência clássica, mais intensa no verão. Exceção ao padrão — ocorre numa costa oriental.
SubsidênciaEkman convergente (para a costa) → águas superficiais submergem: quentes e pobres em nutrientes.
El Niño
O que éExtensão anômala para sul da Contracorrente Equatorial no Pacífico, até ~12°S (Peru). Precipitações até 100× o normal; supressão da ressurgência → mortandade de peixes.
Fontes de informação
- Cartas-Piloto — mensais: DHN (Atlântico Sul Ocidental) e NGA/EUA (demais oceanos, 5 volumes); direção + velocidade (nós).
- Cartas Náuticas (Notas de Precaução) e Roteiros DHN (seção "Marés e Correntes") — sempre consultar.
Corrente de maré ≠ corrente oceânica: a de maré é astronômica, alternativa e local; a oceânica é termohalina+vento, permanente e global. SISCORAR modela só maré; Cartas-Piloto modelam oceânicas.