Cap. 10 — Marés e Correntes de Maré. Correntes Oceânicas

1. Visão Geral

O Capítulo 10 do Miguens aborda três fenômenos interligados que condicionam a segurança da navegação costeira e em águas restritas: as marés, as correntes de maré e as correntes oceânicas. A superfície dos mares não é estacionária — a atração gravitacional da Lua e do Sol movimenta a massa líquida verticalmente (maré) e horizontalmente (corrente de maré), enquanto o aquecimento solar desigual e os grandes sistemas de vento geram as correntes oceânicas de longo alcance. (Miguens, 10.1.1)

Em águas profundas, as variações do nível têm pouco impacto operacional. Mas em águas rasas, é justamente o conhecimento antecipado da altura da maré e da direção e velocidade das correntes que define quando e onde o navio pode navegar com segurança — passagem em locais de pouco fundo, escolha de horários, planejamento de atracação e desatracação. Esses dados são cobertura obrigatória para o Praticante de Prático (III.40, III.41 e III.42 do edital).

"O conhecimento antecipado da direção e velocidade desta corrente facilitará o planejamento não só da derrota, como também da atracação/desatracação e dos horários mais convenientes para as manobras." — Miguens, 10.1.1

Estrutura do Capítulo

SeçãoTemaTópico do Edital
10.1.1–10.1.2Fenômeno da maré — causa e mecanismoIII.40
10.1.3–10.1.4Sizígia, quadratura e tipos de maréIII.40
10.1.5–10.1.6Elementos das marés e conceitos básicosIII.40
10.1.7Planos de referência (NR, MLWS, MHWS, NM)III.40
10.1.8–10.1.9Previsão das marés — Tábuas DHN (DG6)III.40
10.1.10–10.1.11Método do Estabelecimento do PortoIII.40
10.2Correntes de maré — cartas e SISCORARIII.41
10.3Correntes oceânicas — circulação, giros, fenômenosIII.42
Mnemônico geral do capítulo: M-C-OMarés (vertical, astronômica) · Correntes de maré (horizontal, astronômica, local) · Oceânicas (horizontal, termohalina + vento, global). Cada letra corresponde a uma subseção do edital (III.40 / III.41 / III.42).

2. O Fenômeno das Marés

A maré é a oscilação vertical da superfície do mar causada primariamente pelas diferenças na atração gravitacional da Lua e, em menor extensão, do Sol sobre os diversos pontos da Terra. Apesar de sua massa ser muito inferior à do Sol, a Lua está muito mais próxima e exerce efeito ~2,25 vezes mais pronunciado — porque a maré depende da diferença de força gravitacional entre os pontos mais próximos e mais distantes da Terra, não da força absoluta. (Miguens, 10.1.2)

Mecanismo Terra–Lua e força trativa

A Terra e a Lua giram em torno de um baricentro (centro de massa comum) localizado cerca de 810 milhas (~1.500 km) abaixo da superfície terrestre — dentro do manto da Terra, não no espaço livre. Todos os pontos da Terra descrevem movimentos circulares com a mesma velocidade angular e, portanto, a mesma aceleração centrífuga; mas a força gravitacional lunar varia ponto a ponto (maior no lado voltado para a Lua, menor no oposto).

Baricentro do sistema Terra–Lua e forças de equilíbrio
Fig. 10-1 — Sistema Terra–Lua: baricentro localizado ~1 500 km abaixo da superfície terrestre; todos os pontos da Terra têm a mesma aceleração centrífuga, mas a força gravitacional da Lua varia.

A resultante entre a força gravitacional variável e a aceleração centrífuga constante é a força trativa de maré — essencialmente horizontal — que empurra as águas em direção ao ponto sublunar e ao ponto diametralmente oposto. O resultado idealizado (Terra esférica, sem continentes) é a formação de um elipsoide com dois bulbos de preamar: um na direção da Lua e outro no lado oposto. (Miguens, 10.1.2)

Forças trativas de maré e direção de fluxo das águas superficiais
Fig. 10-2 — Forças trativas de maré (com ênfase exagerada): resultante horizontal empurrando as águas para o ponto sublunar e sua antípoda.
Elipsoide de equilíbrio com dois bulbos de preamar
Fig. 10-3 — Elipsoide de equilíbrio: dois bulbos de preamar (na direção da Lua e no lado oposto) e dois ventrais de baixa-mar nos quadrantes intermediários.

Como a Terra completa uma rotação em relação à Lua em aproximadamente 24h 50min (dia lunar), em teoria cada ponto teria duas PM e duas BM por dia lunar. A inclinação do eixo terrestre faz com que PM e BM sucessivas não sejam de níveis iguais — base das desigualdades diurnas observadas em muitos portos.

Atenção! A força trativa é essencialmente horizontal — não é a força gravitacional vertical que eleva o mar. O que movimenta as águas é a componente horizontal da resultante entre gravidade e aceleração centrípeta. Confundir força trativa com força gravitacional direta é erro clássico de prova. (Pegadinha Q-WA n.º 1)

Por que a Lua domina sobre o Sol

AstroMassa relativaDistância média à TerraEfeito de maré relativo
LuaMuito inferior ao Sol~384 400 km~2,25× maior (referência)
SolEnormemente maior~149 600 000 km~0,44× (base = Lua)
Outros planetasMuito distantesDesprezível

3. Conceitos Básicos (PM, BM, Amplitude, Altura)

O nível das águas segue um movimento rítmico periódico. Os principais conceitos que descrevem esse movimento são definidos em relação ao Nível de Redução (NR) — o zero das cartas náuticas. (Miguens, 10.1.5)

Curva de maré — eixos h e t com marcação de PM, BM, estofo, amplitude, NM e NR
Fig. 10-8 — Curva de maré: eixo vertical h (altura acima do NR) × eixo horizontal t (tempo). Marcação de PM, BM, estofo de enchente, estofo de vazante, amplitude e NM.
ElementoDefiniçãoFórmula / Detalhe
Preamar (PM)Maior altura alcançada pelas águas numa oscilaçãoPonto máximo da curva (h_PM)
Baixa-mar (BM)Menor altura alcançada pelas águas numa oscilaçãoPonto mínimo da curva (h_BM)
Amplitude da maréDistância vertical entre PM e BM consecutivasA = h_PM − h_BM
Nível Médio (NM)Valor médio em torno do qual a maré oscilaNM = (h_PM + h_BM) / 2
EnchenteIntervalo de tempo em que o nível do mar sobeBM → PM (intervalo, não instante)
VazanteIntervalo de tempo em que o nível do mar baixaPM → BM (intervalo, não instante)
Estofo da maréPeríodo de estabilidade relativa do nívelEstofo de enchente (≈ PM) e estofo de vazante (≈ BM)
Altura da maréDistância vertical entre o nível atual e o NRVaria a cada instante; usada para calcular profundidade real
Ciclo da maréConjunto completo de condições de maré em um dia lunar~24h 50min (dia lunar); também: mês lunar (~29,5 dias); ciclo Metônico (~19 anos)

A fórmula operacional fundamental — válida em qualquer instante — é:

  Profundidade real = Sondagem (carta náutica) + Altura da maré no instante
Atenção! Amplitude (distância PM–BM) ≠ altura da maré (distância nível atual–NR). Amplitude caracteriza o ciclo e é constante para cada PM–BM. Altura varia a cada segundo ao longo da curva. Confundi-los invalida qualquer cálculo de profundidade real.

A Idade da Lua é o intervalo em dias desde a última Lua Nova até a data considerada (0 a 29 dias). Determina se a maré é de sizígia, quadratura ou posição intermediária.

O Estabelecimento Vulgar do Porto (HWF&C — High Water Full and Change) é a média dos intervalos de tempo entre a passagem da Lua Nova ou Cheia pelo meridiano superior local e a ocorrência da preamar de sizígia. É uma constante característica do porto — determinada por topografia, latitude e correntes locais — listada no quadro "Informações sobre a Maré" de cada carta náutica. (Miguens, 10.1.6)

4. Sizígia e Quadratura

A amplitude das marés varia ao longo do mês lunar conforme a posição relativa da Lua, do Sol e da Terra. As duas configurações extremas são a sizígia (alinhamento) e a quadratura (ângulo reto). (Miguens, 10.1.3)

Posições relativas Sol–Terra–Lua em sizígia e quadratura
Fig. 10-4 — Sizígia (Lua Nova e Lua Cheia) × quadratura (Quartos Crescente e Minguante): configurações que determinam marés de águas vivas e de águas mortas, respectivamente.
ConfiguraçãoPosição lunarForça resultanteTipo de maréAmplitude
Sizígia Lua Nova (id. 0) e Lua Cheia (id. 14) Forças da Lua e do Sol se somam — alinhamento Sol–Terra–Lua Águas vivas — PM acima da média; BM abaixo da média Máxima
Quadratura Quarto Crescente (id. 7) e Quarto Minguante (id. 21) Forças da Lua e do Sol parcialmente se opõem — ângulo reto Águas mortas — PM abaixo da média; BM acima da média Mínima

Importante: a maré de maior amplitude (águas vivas) não ocorre exatamente no dia da Lua Nova ou Lua Cheia, mas normalmente 1 a 2 dias depois — a chamada "idade da maré" — por causa da inércia da grande massa líquida. (Miguens, 10.1.3)

As sizígias equinociais (por volta de 21 de março e 23 de setembro), quando o Sol está no plano do Equador, produzem as maiores amplitudes do ano — o efeito solar gerativo de maré atinge seu máximo.

Armadilha frequente: Sizígia = Lua Nova e Lua Cheia (ambas). Muitos candidatos associam sizígia somente à Lua Nova, esquecendo a Lua Cheia. As forças se reforçam nos dois casos — em configurações simétricas opostas.

5. Tipos de Marés (Semidiurna, Diurna, Mista)

As marés não ocorrem à mesma hora todos os dias num mesmo local, pois o dia lunar tem ~24h 50min, enquanto o dia solar tem 24h — portanto os eventos de PM e BM se atrasam cerca de 50 min a cada dia. O padrão dominante varia geograficamente por efeito de massas terrestres, latitude, geometria de águas restritas, fricção, viscosidade e Efeito de Coriolis. (Miguens, 10.1.4)

Gráficos comparativos dos tipos de maré — semidiurna, mista, diurna
Fig. 10-5 — Curvas características dos três tipos de maré: semidiurna (dois ciclos simétricos/dia), mista (dois ciclos com grandes desigualdades) e diurna (um ciclo/dia).
TipoCiclos por dia lunarCaracterísticaOcorrência / Exemplos
Semidiurna 2 PM + 2 BM; ~6h entre PM e BM consecutivas Pequenas variações de altura entre PM e BM sucessivas; curva aproximadamente senoidal Brasil: de Vitória (ES) para o Norte; Recife, Salinópolis (PA)
Semidiurna com desigualdades diurnas 2 PM + 2 BM diárias Desigualdades notáveis de altura entre eventos consecutivos Costa Sul do Brasil (RJ, SC, RS)
Mista Variável — pode tornar-se diurna Grandes diferenças de altura entre duas PM ou duas BM consecutivas; desigualdades diurnas e semidiurnas importantes Alguns portos do Pacífico
Diurna 1 PM + 1 BM por dia lunar Níveis entre PM e BM sucessivas pouco variáveis Golfo do México (costa norte), Mar de Java, Golfo de Tonkin
Maré semidiurna com desigualdades diurnas — padrão da costa sul do Brasil
Fig. 10-6 — Maré semidiurna com desigualdades diurnas: duas PM e duas BM diárias, mas com alturas notavelmente diferentes entre eventos consecutivos — padrão da costa sul do Brasil.
Variação diária da maré em Salinópolis, Vitória, Rio de Janeiro e Rio Grande — 7 dias
Fig. 10-7 — Variação diária da maré em Salinópolis (PA), Vitória (ES), Rio de Janeiro (RJ) e Rio Grande (RS) ao longo de 7 dias (29/JUN a 05/JUL/2021). Contraste entre o padrão semidiurno do norte e o padrão com desigualdades do sul.
Regra de ouro para a prova: As Tabelas I e II das Tábuas das Marés e o Método Expedito pressupõem curva senoidal — portanto são válidos somente de Vitória (ES) para o Norte, onde a maré é predominantemente semidiurna. Ao Sul, com desigualdades diurnas, o erro ultrapassa a margem de segurança de 10% da amplitude.

6. Elementos das Marés

Além dos elementos já definidos na seção anterior, a previsão e o uso operacional das marés requer domínio de alguns conceitos derivados essenciais. (Miguens, 10.1.5)

Fórmula operacional e seus termos

Diagrama de profundidade — relação entre sondagem, altura da maré, profundidade, calado e distância quilha-fundo
Fig. 10-10 — Diagrama de profundidade: (C) profundidade real = sondagem (D) + altura da maré (E); também: C = distância quilha-fundo (B) + calado (A).
  C = D + E      (profundidade real = sondagem + altura da maré)
  C = B + A      (profundidade real = distância quilha-fundo + calado)

A sondagem (D) é a distância vertical do NR ao fundo, conforme cartografada na carta náutica. A altura da maré (E) é a distância do NR ao nível atual — pode ser positiva, nula ou mesmo negativa (maré abaixo do NR).

Observações de segurança operacional

  • Ao aumentar a velocidade, a popa do navio afunda (squat) — exige maior profundidade mínima que a calculada para velocidade reduzida.
  • Caturro e arfagem exigem margem adicional, especialmente em navios compridos e estreitos em mar de través para vante.
  • A folga das espias numa atracação é função principalmente da amplitude da maré, mas também da corrente, do vento, do estado de carga e do tipo de cais.
Checklist de decisões que dependem da previsão de marés (Miguens, 10.1.8): (a) possibilidade de passar em local de pouco fundo; (b) datas, horários e velocidades convenientes; (c) rumos para obter os rumos no fundo desejados; (d) escolha do bordo de atracação, tipo de amarração e folgas das espias; (e) necessidade de parar máquinas refrigeradas a água salgada (tomadas d'água no fundo podem aspirar lama em BM extrema).

7. Planos de Referência (NR, MLWS, MHWS, Z₀)

Os planos de referência definem os zeros a partir dos quais se medem alturas e profundidades. A compreensão correta é condição de segurança para o cálculo da profundidade real e para a interpretação das informações náuticas. (Miguens, 10.1.7)

Esquema dos planos de referência de maré — NR (MLWS), NM (MSL), MHWS, MHWN, MLWN
Fig. 10-9 — Planos de referência: NR = MLWS (base); NM = MSL (meio); MHWS (topo). A sondagem é medida do NR ao fundo; a altitude é medida do NM a pontos acima d'água.
SiglaNome (PT)Posição relativaUso principal
NRNível de ReduçãoZero das cartas náuticas — base de tudoReferência para sondagens e alturas de maré; = MLWS nas cartas brasileiras
MLWSBaixa-mar média de sizígiaIgual ao NR — nível mais baixo típicoAdotado pela DHN como NR nas Cartas Náuticas brasileiras
MLWNBaixa-mar média de quadraturaAcima do MLWSParâmetro do quadro "Informações sobre a Maré"
MLWBaixa-mar médiaEntre MLWS e MLWNReferência estatística
NM / MSLNível Médio do MarCentro da curva de oscilaçãoReferência para altitudes de pontos em terra; observado em período >18,6 anos
MHWPreamar médiaAcima do NMReferência estatística
MHWNPreamar média de quadraturaAcima do MHWParâmetro do quadro "Informações sobre a Maré"
MHWSPreamar média de sizígiaTopo — nível mais alto típicoParâmetro do quadro "Informações sobre a Maré"; diferença MHWS–MLWS = amplitude máxima média
"O Nível de Redução normalmente corresponde ao nível médio das baixa-mares de sizígia (MLWS) nas cartas náuticas brasileiras. É um nível abaixo do qual o mar não desce senão raramente." — Miguens, 10.1.7
Implicação crítica de segurança: Como o NR brasileiro = MLWS, em geral a profundidade real é maior que a sondagem cartografada. Mas por ocasião das BM de sizígia, o nível pode atingir ou descer abaixo do NR — tornando a profundidade real igual ou menor que a sondagem. As Tábuas registram alturas negativas (abaixo do NR) com sinal negativo. Navegar ignorando esse fato é risco de encalhe.
NR ≠ NM: São planos distintos com usos distintos. O NM (MSL) é referência para altitudes de pontos em terra (topografia). O NR (MLWS) é referência para sondagens e alturas de maré. No quadro "Informações sobre a Maré", o campo "NM/MSL" indica numericamente a cota do NM acima do NR — mostrando a diferença entre os dois planos.

8. Previsão das Marés e Tábuas (DHN)

A principal ferramenta de previsão de marés para a navegação brasileira é a publicação DG6 — Tábuas das Marés, editada anualmente pela Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN). Cobre 54 estações maregráficas: portos, terminais, barras, ilhas oceânicas e fundeadouros, do Norte para o Sul, além da Estação Antártica Comandante Ferraz (Baía do Almirantado, Antártida). (Miguens, 10.1.9)

Localização das 54 estações maregráficas na costa brasileira
Fig. 10-11 — Localização das 54 estações maregráficas na costa brasileira cobertas pelas Tábuas das Marés DHN (DG6).

Tábuas das Marés — Estrutura da Publicação

Tábuas das Marés — previsão para Salinópolis Jan–Abr de 2021
Fig. 10-12 — Tábuas das Marés: página de previsão para Salinópolis (PA), Jan–Abr 2021. Estrutura: nome do porto, coordenadas, fuso, número de componentes harmônicas, NM/NR, e tabela de PM/BM diárias.

Cada página da Tábua contém: (1ª linha) nome do porto/local, estado/país e ano; (2ª linha) coordenadas geográficas e fuso horário; (3ª linha) sigla da instituição, número de componentes harmônicas usadas, cota do NM sobre o NR e número da Carta Náutica; (corpo) quatro colunas por mês com horas e alturas das PM e BM previstas para cada dia. As horas estão em formato HHMM, no fuso horário padrão do porto — durante o horário de verão, somar 1 hora.

Tabelas I e II — Altura em instante intermediário

Tabelas I e II das Tábuas das Marés — altura da maré em um dado instante
Fig. 10-13 — Tabelas I e II (permanentes): Tabela I fornece o centésimo da amplitude; Tabela II converte o centésimo em correção de altura a aplicar à PM ou BM mais próxima.

Para calcular a altura da maré em horário diferente de uma PM ou BM, usa-se as Tabelas I e II das Tábuas — tabelas permanentes (valem para qualquer ano):

  • Tabela I: entradas = duração da meia-maré (enchente ou vazante) + intervalo entre o instante e a PM/BM mais próxima. Saída = centésimo (fração da amplitude).
  • Tabela II: entradas = centésimo (da Tabela I) + amplitude da maré. Saída = correção de altura a aplicar.
  Na enchente:  altura = h_BM + correção
  Na vazante:   altura = h_PM − correção
Restrições das Tabelas I e II: Confeccionadas para curvas sinusoidais — resultado apenas aproximado em portos com curvas não sinusoidais (margem de segurança: 10% da amplitude). No Brasil: usar somente de Vitória (ES) para o Norte. Ao Sul, a curva de maré não é senoidal e o erro ultrapassa a margem de segurança.

Previsão para Portos Secundários

Tabela de portos secundários — Camocim (CE) e Barra do Rio São Francisco (AL)
Fig. 10-14 — Tabela de Portos Secundários: correções de hora e altura a aplicar às PM e BM do porto de referência (ex.: Recife) para obter a previsão em portos secundários como Camocim (CE) e Barra do Rio São Francisco (AL).

As Tábuas fornecem correções (aditivas ou subtrativas em hora e em altura) para portos secundários a partir de um porto de referência. O procedimento: aplicar as correções às PM e BM tabuladas do porto de referência para obter as PM e BM previstas no porto secundário de interesse.

Modelo para cálculo da maré em dado instante e para portos secundários
Fig. 10-15 — Modelo padronizado para cálculo da maré em dado instante e para portos secundários: facilita o trabalho reduzindo o risco de erros de transcrição.

9. Método do Estabelecimento do Porto

O Método Expedito de Previsão (Método do Estabelecimento do Porto) é usado quando não há dados tabulados de PM e BM para o local. Exige o quadro "Informações sobre a Maré" da carta náutica do local e a hora da passagem meridiana da Lua do Almanaque Náutico (publicação DN5). Válido somente onde a maré é semidiurna — no Brasil, de Vitória (ES) para o Norte. (Miguens, 10.1.10)

Quadro Informações sobre a Maré para o Porto de Suape (PE)
Fig. 10-16 — Quadro "Informações sobre a Maré" do Porto de Suape (PE): fornece HWF&C, MHWS, MHWN, MLWN, MLWS e NM/MSL — todos os parâmetros necessários ao Método Expedito.

Suposições e dados fornecidos pelo quadro da carta

  • HWF&C (Estabelecimento do Porto) — constante local.
  • MHWS, MHWN, MLWN, MLWS — planos de referência do local.
  • NM/MSL — cota do NM acima do NR.

Procedimento resumido (6 passos)

  1. Obter hora da passagem meridiana da Lua em Greenwich (Almanaque Náutico DN5).
  2. Aplicar correção de longitude → hora local da passagem meridiana.
  3. Somar HWF&C → hora da PM de sizígia. Intervalo PM–PM = 12h 25min; PM–BM = 6h 13min (1/4 do dia lunar de 24h 50min).
  4. Calcular altura da PM: interpolação linear entre MHWN e MHWS conforme distância em dias à sizígia (14 dias entre sizígia e sizígia; 7 dias entre sizígia e quadratura).
  5. Calcular hora da BM: PM ± 6h 13min.
  6. Calcular altura da BM: h_BM = 2×NM − h_PM (simetria PM/BM em relação ao NM).
Espaçamento temporal entre PM e BM no Método Expedito
Fig. 10-17 — Espaçamento temporal no Método Expedito: PM–PM = 12h 25min; PM–BM = 6h 13min (um quarto do dia lunar).
Simetria PM/BM em relação ao NM — sizígia e quadratura
Fig. 10-18 — Simetria em relação ao NM: h_BM = 2×NM − h_PM. Em sizígia: MHWS − NM = NM − MLWS (amplitudes simétricas); em quadratura: MHWN e MLWN são simétricos em relação ao NM.

Precisão típica: o exemplo de Suape (21/JUL/2021) mostrou diferença de ~1 hora nos horários e ~0,1 m nas alturas entre o Método Expedito e as Tábuas das Marés — razoável para fins de navegação, mas não substitui as Tábuas quando disponíveis.

Limitações: Não se aplica a marés mistas, diurnas ou com desigualdades diurnas (Sul do Brasil). Fatores meteorológicos (ventos fortes) podem deslocar PM e BM em hora e altura, distanciando-as das previsões — tanto das Tábuas quanto do Método Expedito.

10. Correntes de Maré: Gênese e Cartas

A corrente de maré e a maré vertical são efeitos de uma mesma causa — as forças astronômicas da Lua e do Sol. As forças geradoras produzem primeiro o movimento horizontal da massa líquida (corrente de maré) e depois o movimento vertical do nível (maré). Por isso, maré e corrente de maré devem ser estudadas em conjunto. (Miguens, 10.2.1)

Corrente axial alternativa (portos e canais)

Em entradas de porto e canais estreitos, onde as forças astronômicas diretas são desprezíveis, a corrente de maré resulta da diferença de nível entre o oceano e o interior do porto. O fluxo forma uma corrente axial alternativa que muda de sentido periodicamente:

  • Velocidade máxima para dentro → aproximadamente na PM (quando o nível exterior supera o interior).
  • Velocidade máxima para fora → aproximadamente na BM (quando o nível interior supera o exterior).
  • Velocidade nula → quando a maré atinge o NM (diferença de nível = zero). Este é o instante de inversão da corrente — não coincide necessariamente com PM ou BM.

Corrente rotatória (oceano aberto)

No oceano aberto, as correntes de maré têm caráter rotatório — giram continuamente sem inversão brusca de sentido — por efeito do Efeito de Coriolis, que desvia as correntes para a direita no Hemisfério Norte e para a esquerda no Hemisfério Sul. (Miguens, 10.2.1)

Atenção — nota expressa na DG6: As horas de PM e BM tabuladas nas Tábuas das Marés nem sempre coincidem com os instantes em que a corrente de maré inverte sua direção. A inversão da corrente axial ocorre quando a maré atinge o NM — momento intermediário entre PM e BM. Usar a hora da PM como hora de inversão da corrente é erro grave de planejamento operacional.

Cartas de Correntes de Maré (DHN)

A DHN publica Cartas de Correntes de Maré — publicações específicas (não são cartas náuticas convencionais) para determinados portos. Cada publicação contém instruções de uso, exemplo resolvido e uma coletânea de pequenas cartas do porto com setas de direção e números de velocidade (em nós), referidas à hora da PM prevista. (Miguens, 10.2.2)

Localidade coberta pelas Cartas de Correntes de Maré (DHN)
Rio Amazonas — da Barra Norte ao Porto de Santana
Rio Pará — de Salinópolis a Belém
Proximidades da Baía de São Marcos e Portos de São Luís e Itaqui
Portos de Itapessoca e de Luís Correia
Porto de Natal · Porto de Salvador · Porto de Madre de Deus · Porto de Vitória
Baía de Guanabara · Porto de Santos · Porto de Paranaguá

Disponíveis em papel (EMGEPRON/BHMN) e em formato digital no sítio do Centro de Hidrografia da Marinha (CHM).

11. Utilização das Cartas de Correntes

A seleção da carta correta é feita pela diferença em horas entre o instante considerado e o da PM prevista mais próxima (não necessariamente a mais recente — pode ser uma PM futura se estiver mais próxima em módulo). Há uma carta para cada hora de referência ao longo do ciclo completo. (Miguens, 10.2.3)

Procedimento de consulta (4 passos)

  1. Obter a PM prevista mais próxima ao instante de interesse (via Tábuas das Marés ou SISCORAR).
  2. Calcular a diferença em horas: instante − PM mais próxima (resultado pode ser positivo ou negativo). Selecionar a carta correspondente.
  3. Na carta, localizar o ponto de interesse → ler rumo e velocidade da corrente.
  4. Aplicar fator de correção de velocidade se a situação não for de sizígia (usando o ábaco do início da publicação). As direções não recebem correção.
Carta de Correntes de Maré — Baía de Guanabara — 3 horas antes da PM
Fig. 10-19 — Carta de Correntes de Maré: Baía de Guanabara, 3 horas antes da PM (09/JUL/2021 às 1200h, PM mais próxima = 1454h). Resultado: rumo 345° (NNW), velocidade 1,0 nó — enchendo.
Nota sobre velocidades de sizígia na Carta de Correntes de Maré
Fig. 10-20 — Nota na Carta de Correntes de Maré: as velocidades representadas correspondem à época de sizígia. Para outras épocas, aplicar fator de correção do ábaco.

SISCORAR — Sistema de Previsão de Correntes por Modelagem Numérica

O SISCORAR (Sistema de Previsão de Correntes de Maré em Águas Rasas) foi desenvolvido pela REMO (cooperação CHM–Petrobras), lançado em 2018. A versão 2.0, lançada em 28 de setembro de 2020, incluiu as Baías de Guanabara e Sepetiba (RJ). Funciona totalmente off-line; fornece previsões horárias para qualquer data passada ou futura; exibe correntes como vetores ou linhas de fluxo. (Miguens, 10.2.4)

SISCORAR 2.0 — Baía de Guanabara — 09/JUL/2021 às 1200h
Fig. 10-21 — SISCORAR 2.0: Baía de Guanabara, 09/JUL/2021 às 1200h (3h antes da PM). Resultado: 348°, 1,080 nó — converge com a Carta de Correntes (345°, 1,0 nó), validando as duas metodologias.

Limitação do SISCORAR: considera apenas a maré astronômica — exclui efeito do vento, marés meteorológicas e circulação por diferença de densidade. Em tempo adverso, as cartas (e o SISCORAR) devem ser interpretados com reservas.

Informações de corrente de maré na Carta 316 — De Mosqueiro a Belém
Fig. 10-22 — Informações sobre correntes de maré inseridas diretamente na Carta Náutica 316 (De Mosqueiro a Belém): setas e velocidades para planejamento da derrota em trecho de grande amplitude de maré.
Verificação em navegação: as informações de corrente nas cartas são para planejamento. Durante a navegação, verificar e atualizar por: comparação de posições observadas e estimadas; deslocamento de objetos flutuantes; posição de embarcações fundeadas; observação de bóias e correntezas visíveis.

12. Correntes Oceânicas: Circulação Geral

As correntes oceânicas resultam do efeito combinado de dois processos: (1) processos termohalinos — variações de temperatura e salinidade que alteram a densidade e geram fluxos verticais e horizontais — e (2) a ação dos ventos sobre a superfície das águas em decorrência do aquecimento solar desigual da atmosfera. (Miguens, 10.3.1)

Circulação termohalina (profunda e vertical)

A circulação termohalina é causada por variações de densidade da água do mar (função de temperatura e salinidade). Água mais densa afunda, percorre o fundo dos oceanos em escala de séculos e retorna à superfície em outras regiões — o chamado Global Conveyor Belt (correia transportadora global). A densidade superficial aumenta principalmente por resfriamento (Atlântico Norte, no inverno) e por congelação (Oceano Austral — a formação de gelo libera sal, aumentando a salinidade residual). (Miguens, 10.3.2)

Circulação termohalina global — Global Conveyor Belt
Fig. 10-23 — Circulação termohalina global (Global Conveyor Belt): fluxos profundos conectando todos os oceanos, com escala temporal de séculos a milênios.

Circulação pelo vento (superficial e horizontal)

Os grandes sistemas de vento atmosférico arrastam as águas superficiais, gerando uma circulação eminentemente horizontal e superficial — de maior interesse para a navegação. O Transporte de Ekman desvia a corrente de superfície 90° à direita do vento no HN e 90° à esquerda no HS — por efeito do Coriolis. (Miguens, 10.3.3)

Grandes sistemas de ventos atmosféricos
Fig. 10-24 — Grandes sistemas de ventos: Alísios de NE e SE (baixas latitudes), Oestes Prevalecentes (latitudes médias), Cinturões de Alta Subtropical (~30°), ITCZ (zona equatorial).
Desvio de Coriolis nos ventos alísios — HN à direita, HS à esquerda
Fig. 10-25 — Ventos alísios: deflexão pelo Coriolis para a direita no HN (formando Alísios de NE) e para a esquerda no HS (formando Alísios de SE).
Transporte de Ekman — corrente superficial desviada 90° da direção do vento
Fig. 10-26 — Transporte de Ekman: a corrente de superfície não segue a direção do vento; é desviada 90° para a direita (HN) ou 90° para a esquerda (HS). Base dos giros oceânicos e da ressurgência.

Giros oceânicos (Gyres)

O padrão básico de circulação superficial é um sistema quase fechado chamado Giro, centrado nas regiões subtropicais (~30°N e ~30°S). (Miguens, 10.3.4)

Hemisfério / OceanoSentido do giroCorrentes de borda Oeste (rápidas)Correntes de borda Leste (lentas)
Atlântico Norte, Pacífico NorteDextrogiro (horário)Corrente do Golfo; Kuro Shio (25–60 mn/dia)Corrente das Canárias; Corrente da Califórnia (~2–4 mn/dia)
Atlântico Sul, Pacífico Sul, Índico SulSinistrogiro (anti-horário)Corrente do Brasil; Corrente Leste da AustráliaCorrente de Benguela; Corrente do Peru
Circulação superficial nos oceanos — giros e principais correntes
Fig. 10-27 — Circulação superficial nos oceanos: giros dextrogiros no HN e sinistrogiros no HS; intensificação a Oeste com correntes como a do Golfo e o Kuro Shio.
Esquema dos principais giros de correntes oceânicos
Fig. 10-28 — Principais giros oceânicos: cada oceano tem pelo menos um giro no HN e um no HS, centrados nos cinturões subtropicais de alta pressão (~30°).

13. Principais Correntes Oceânicas

Atlântico (Norte e Sul)

Sistema da Corrente do Golfo — Atlântico Norte
Fig. 10-29 — Sistema da Corrente do Golfo no Atlântico Norte: origem no Estreito da Flórida, percurso ao longo da costa americana, extensão para NE como Corrente do Atlântico Norte, ramificações para a Noruega e a Groenlândia.
CorrenteHemisfério / OceanoSentidoVelocidade / Característica
Corrente do GolfoAtlântico NorteN → NE ao largo dos EUA; "rio dentro do mar"1,2–1,4 m/s (2,3–2,7 nós); borda Oeste — estreita e rápida
Corrente da FlóridaAtlântico NorteN pelo Estreito da Flórida>1,6 m/s (3 nós) no estreito
Corrente Norte EquatorialAtlântico NorteW (faixa dos alísios de NE)~0,7 nó; alimentada pela Corrente das Canárias
Corrente das CanáriasAtlântico NorteS ao largo de África OcidentalFria e lenta; borda Leste do giro Norte
Contracorrente EquatorialEquatorialE (entre os giros Norte e Sul)Alimenta a Corrente da Guiné na costa africana
Corrente Sul EquatorialAtlântico SulW (alísios de SE, sobre e ao S do Equador)Motor do giro Sul-Atlântico; bifurca-se ao atingir o Brasil
Corrente do BrasilAtlântico SulS ao longo da costa brasileira até ~40°SQuente e salina (origem equatorial/tropical); borda Oeste
Corrente de BenguelaAtlântico SulN ao longo da costa ocidental africanaFria; afloramento de águas subsuperficiais (ressurgência); borda Leste
Corrente das Malvinas (Falklands)Atlântico SulN ao largo da ArgentinaFria; proveniente da Corrente Circumpolar Antártica
Circulação superficial no Atlântico Sul
Fig. 10-30 — Circulação superficial no Atlântico Sul (giro sinistrogiro): Corrente Sul Equatorial → Corrente do Brasil (quente, S) → Deriva do Vento Oeste (E) → Corrente de Benguela (fria, N) → retorno.

Oceano Austral, Índico e Pacífico

Oceano Austral — Circulação Geral e Convergências Antártica e Subtropical
Fig. 10-31 — Oceano Austral: Corrente Circumpolar Antártica (Deriva do Vento Oeste, direção Leste); Convergências Antártica (~60°–50°S) e Subtropical (~40°S); corrente costeira antártica para Oeste.
CorrenteOceano / RegiãoSentidoDestaque
Corrente Circumpolar AntárticaOceano AustralLeste (ao redor do continente)Maior transporte volumétrico superficial; conecta os três oceanos; sem barreiras terrestres
Corrente das AgulhasÍndico SulS ao longo da costa E africana → curva para LForte e quente — análoga ao Golfo no Atlântico
Corrente MonçônicaÍndico NorteInverte sazonalmente com as monçõesÚnico oceano com inversão sazonal completa da circulação superficial
Kuro ShioPacífico NorteN próximo ao JapãoAnálogo ao Golfo; ~0,85 m/s (1,6 nós); borda Oeste
Corrente do Peru (Humboldt)Pacífico SulN ao largo da costa W da América do SulFria; lenta; associada à ressurgência intensa (Peru/N Chile)
Regime de ventos das monções no Índico
Fig. 10-32 — Monções no Oceano Índico: ventos de NE (novembro–março) geram giro anti-horário; ventos de SW (maio–setembro) substituem a Corrente Norte Equatorial pela Corrente Monçônica em direção Leste.
Circulação no Índico em período de monções
Fig. 10-33 — Circulação no Índico: período de monções de verão (maio–setembro, ventos de SW) com Corrente Monçônica (leste, em verde) substituindo a Corrente Norte Equatorial.
Correntes superficiais no Oceano Pacífico
Fig. 10-34 — Correntes superficiais no Pacífico Norte: Kuro Shio (N, borda Oeste) → Corrente Norte Pacífica → borda Leste; Contracorrente Equatorial (Leste, bem desenvolvida o ano todo).

14. Fenômenos Associados (Ressurgência, El Niño)

O Transporte de Ekman — desvio de 90° da corrente superficial em relação ao vento — explica dois fenômenos verticais de grande importância ecológica e climática: a ressurgência e a subsidência. (Miguens, 10.3.6)

Ressurgência e subsidência — Hemisfério Sul, com vento paralelo à costa
Fig. 10-35 — Ressurgência (upwelling) no HS: vento paralelo à costa dirige as águas superficiais para o largo via Transporte de Ekman (90° à esquerda); água subsuperficial fria e rica em nutrientes ascende à costa.

Ressurgência (Upwelling)

Ocorre quando o vento sopra paralelamente à costa e o Transporte de Ekman dirige as águas superficiais para o largo. A água subsuperficial (100–200 m de profundidade) ascende lentamente junto à costa — fria, rica em sais nutrientes, favorecendo grande desenvolvimento de fitoplâncton e grandes populações de peixes. Localização clássica: costas ocidentais dos continentes (Benguela, Peru, Califórnia, Austrália Ocidental). (Miguens, 10.3.6)

Brasil — Cabo Frio (RJ): o vento NE sopra paralelamente à costa e, no HS, o Transporte de Ekman dirige as águas superficiais para o largo (sudeste). A água fria e rica em nutrientes ascende à superfície — ressurgência clássica do Cabo Frio, mais intensa no verão. É uma exceção ao padrão de costa ocidental — aqui ocorre numa costa oriental, por condição geográfica favorável.

Subsidência (Downwelling)

A subsidência ocorre quando os movimentos de água induzidos pelo vento paralelo à costa são em direção à costa (Transporte de Ekman convergente) — produz submersão das águas superficiais. O resultado é inverso ao da ressurgência: águas superficiais quentes e pobres em nutrientes dominam a costa.

El Niño

O El Niño é a extensão anômala para sul da Contracorrente Equatorial no Pacífico, que avança anormalmente até ~12°S ao largo do Equador e Peru (tipicamente no inverno HN). Quando isso ocorre além do usual: precipitações aumentam até 100× o normal; grande mortandade de peixes pela supressão da ressurgência; distúrbios climáticos globais. É um fenômeno oceano-atmosférico acoplado — sua manifestação oceânica primária é de corrente. (Miguens, 10.3.5e)

Fontes de informação sobre correntes oceânicas

As principais fontes para o navegante são: (1) Cartas-Piloto — produzidas mensalmente pela DHN (Atlântico Sul Ocidental) e pela NGA/EUA (demais oceanos); apresentam direção (seta) e velocidade (nós) das correntes superficiais; (2) Cartas Náuticas — algumas indicam correntes ou informam em Notas de Precaução; (3) Roteiros DHN — seção "Marés e Correntes" com informações por trecho de costa — devem ser sempre consultados.

Corrente de maré ≠ Corrente oceânica: Corrente de maré tem causa astronômica, é alternativa em portos e canais e local em escala. Corrente oceânica tem causas termohalinas e de vento, é permanente (ou sazonal) e de escala global. O SISCORAR modela somente correntes de maré; as Cartas-Piloto modelam correntes oceânicas. Confundir as duas é erro de conceito.

15. Pegadinhas Comuns

As pegadinhas abaixo correspondem aos erros mais frequentes em questões sobre marés e correntes nas provas de praticante — compiladas do Q-WA e das transcrições do Miguens. Leia cada item antes da prova.

  • PM não é o instante de máxima corrente de entrada. A corrente axial alternativa é máxima durante a enchente, não no instante da PM. A inversão da corrente ocorre quando a maré atinge o NM — momento intermediário entre PM e BM. A DG6 alerta explicitamente: PM e BM tabuladas "nem sempre coincidem com os instantes em que a corrente inverte". (Ref: p. 10-27)
  • Maré abaixo do NR é possível e vem registrada nas Tábuas. O NR = MLWS não é o nível mais baixo possível — é a média das BM de sizígia. Por definição, o mar desce abaixo dele com certa frequência. As Tábuas registram alturas negativas. Nesses casos a profundidade real é menor que a sondagem da carta — risco de encalhe. (Ref: p. 10-13)
  • Sizígia = Lua Nova E Lua Cheia (não apenas Lua Nova). Sol–Terra–Lua alinhados com Lua no meio = Lua Nova. Sol–Terra–Lua alinhados com Terra no meio = Lua Cheia. Ambas são sizígia; ambas geram águas vivas. Quadratura = Quarto Crescente + Quarto Minguante (ângulo reto). (Ref: p. 10-6)
  • Amplitude ≠ altura da maré. Amplitude = h_PM − h_BM — distância PM–BM, característica do ciclo. Altura da maré = distância nível atual–NR, varia a cada instante. São grandezas diferentes; confundi-las invalida o cálculo de profundidade real. (Ref: p. 10-10)
  • NR ≠ NM: planos distintos, usos distintos. NM (MSL) → referência para altitudes em terra. NR (MLWS) → referência para sondagens e alturas de maré. No quadro "Informações sobre a Maré", o campo "NM/MSL" mostra numericamente a cota do NM acima do NR. (Ref: p. 10-13)
  • Horário de verão: somar 1 hora às Tábuas. As horas nas Tábuas estão no fuso padrão do porto. Durante o horário de verão, somar 1 hora para obter a hora local vigente. Esquecer isso desloca todas as previsões em 1 hora. (Ref: p. 10-22)
  • Tabelas I e II e Método Expedito: somente de Vitória (ES) para o Norte. Pressupõem curva senoidal — válida apenas onde a maré é semidiurna. Ao Sul do Brasil, a curva não é senoidal; o erro ultrapassa a margem de 10% da amplitude. (Ref: p. 10-17 e p. 10-21)
  • A carta de correntes é selecionada pela PM mais PRÓXIMA, não pela mais recente. No exemplo de Guanabara (1200h), a PM mais próxima era a de 1454h (futura), gerando "3 horas antes da PM". Usar a PM anterior (0156h) daria resultado errado de +10h. (Ref: p. 10-24)
  • Direções nas Cartas de Correntes NÃO recebem correção para fora da sizígia. O fator de correção do ábaco aplica-se SOMENTE às velocidades. As direções são válidas para qualquer amplitude. Aplicar o fator à direção é erro de procedimento. (Ref: p. 10-24)
  • Transporte de Ekman: a corrente vai 90° do vento, não na direção do vento. Vento NE ao largo da costa brasileira gera corrente que vai para o largo (SE, 90° à esquerda no HS) — não para o Sul. Esse desvio explica a ressurgência do Cabo Frio. (Ref: p. 10-31)
  • Corrente Circumpolar Antártica: direção Leste (não Oeste). Impulsionada pelos fortes ventos de Oeste nessas latitudes, circula para Leste ao redor do continente. Junto à própria costa da Antártida há uma corrente local para Oeste (ventos polares de Leste) — os dois sentidos coexistem em latitudes próximas. (Ref: p. 10-35)
  • Corrente do Brasil é QUENTE e salina (não fria). É ramo da Sul Equatorial, de origem tropical. A corrente fria que afeta a costa sul-americana é a Corrente das Malvinas (lado argentino). A fria do lado africano é a Benguela. (Ref: p. 10-34)
  • El Niño é fenômeno de CORRENTE oceânica (não só de vento). A manifestação oceânica primária é a extensão anômala da Contracorrente Equatorial para sul até ~12°S. A componente atmosférica (ventos e precipitações) é consequência do acoplamento oceano-atmosfera. (Ref: p. 10-38)
  • HWF&C é constante do porto — não varia com a data ou a fase lunar. É determinado por longas séries de observações e condicionado pela topografia local. O que varia com a fase lunar é a hora da passagem meridiana da Lua, não o HWF&C. (Ref: p. 10-12)

16. Síntese Esquemática

Quadro condensado dos três fenômenos do Cap. 10 — para revisão rápida antes da prova:

╔══════════════════════════════════════════════════════════════════════════════╗
║                     CAPÍTULO 10 — SÍNTESE ESQUEMÁTICA                       ║
╠══════════════════════════════════════════════════════════════════════════════╣
║  MARÉS (III.40)                                                              ║
║  ├─ Causa: força trativa (resultante Lua/Sol × aceleração centrípeta)        ║
║  ├─ Ciclo: ~24h 50min (dia lunar) → 2 PM + 2 BM (semidiurna)               ║
║  ├─ Sizígia (LN+LC) → águas vivas (amp. máx.) │ Quadratura → águas mortas   ║
║  ├─ Tipos: Semidiurna (N/NE Brasil) │ Mista │ Diurna (Golfo do México)      ║
║  │                                                                           ║
║  ├─ Planos de referência (do mais baixo ao mais alto):                       ║
║  │   MLWS = NR → MLWN → MLW → NM/MSL → MHW → MHWN → MHWS                  ║
║  │   NR = zero das cartas (sondagens + alturas de maré)                     ║
║  │   NM = zero das altitudes (topografia)                                   ║
║  │                                                                           ║
║  ├─ Previsão — DG6 Tábuas DHN: 54 portos, anual                             ║
║  │   • Altura intermediária: Tabela I (centésimo) + Tabela II (correção)    ║
║  │   • Válidas SOMENTE de Vitória (ES) para o Norte                         ║
║  │   • Horário de verão: somar 1 hora às Tábuas                             ║
║  │                                                                           ║
║  └─ Método Expedito (sem Tábuas): Passagem Lua + HWF&C → PM; BM = 2×NM−PM  ║
║     Intervalos: PM–PM = 12h25min │ PM–BM = 6h13min                          ║
╠══════════════════════════════════════════════════════════════════════════════╣
║  CORRENTES DE MARÉ (III.41)                                                  ║
║  ├─ Mesma causa das marés — movimento horizontal → vertical                  ║
║  ├─ Porto/canal: axial alternativa (inverte no NM, não na PM/BM)            ║
║  ├─ Oceano aberto: rotatória (Coriolis)                                      ║
║  ├─ Fontes: Cartas DHN (11 locais) │ SISCORAR 2.0 (2020) │ Cartas náuticas  ║
║  │   Seleção: PM mais próxima (em módulo); velocidade corrigida; dir. = OK  ║
║  └─ Limitação SISCORAR: somente maré astronômica (sem vento/densidade)      ║
╠══════════════════════════════════════════════════════════════════════════════╣
║  CORRENTES OCEÂNICAS (III.42)                                                ║
║  ├─ Causas: termohalina (profunda) + vento (superficial — naut. relevante)  ║
║  ├─ Transporte de Ekman: 90° dir. do vento (HN) │ 90° esq. (HS)            ║
║  ├─ Giros: dextrogiro (HN) │ sinistrogiro (HS) │ borda Oeste = mais rápida  ║
║  ├─ Atlântico: Golfo (quente, N) │ Brasil (quente, S) │ Benguela (fria, N)  ║
║  ├─ Austral: Circumpolar → Leste (conecta 3 oceanos)                        ║
║  ├─ Índico: única inversão sazonal (monções)                                 ║
║  ├─ Ressurgência: costas ocidentais; Cabo Frio (RJ) = exceção oriental      ║
║  ├─ El Niño: extensão anômala da Contracorrente Equatorial → S até ~12°S   ║
║  └─ Fontes: Cartas-Piloto (DHN/NGA) │ Cartas náuticas │ Roteiros DHN        ║
╚══════════════════════════════════════════════════════════════════════════════╝
ParâmetroSizígiaQuadratura
Fase lunarLua Nova (id. 0) + Lua Cheia (id. 14)Quarto Crescente (id. 7) + Quarto Minguante (id. 21)
ConfiguraçãoSol–Terra–Lua alinhadosSol e Lua em ângulo reto em relação à Terra
Forças geradorasSe somamParcialmente se opõem
Tipo de maréÁguas vivasÁguas mortas
AmplitudeMáxima (PM acima da média; BM abaixo)Mínima (PM abaixo da média; BM acima)
Planos característicosMHWS (PM) e MLWS = NR (BM)MHWN (PM) e MLWN (BM)

17. Encerramento

O Capítulo 10 do Miguens entrega ao Praticante de Prático a base quantitativa para operar com segurança em qualquer regime de maré da costa brasileira — desde o semidiurno de grande amplitude de Salinópolis até as marés mistas do sul com desigualdades diurnas. O domínio do ciclo de marés, dos planos de referência, das Tábuas DHN e do Método Expedito é condição sine qua non para calcular profundidades reais, selecionar horários de passagem em barras rasas e dimensionar folgas de espias na atracação.

As correntes de maré — frequentemente ignoradas por candidatos que focam apenas no nível vertical — são igualmente críticas: a diferença entre uma atracação suave e uma colisão de passadiço pode ser a percepção correta de que a inversão da corrente não coincide com o instante da PM. O SISCORAR 2.0 é a ferramenta de última geração para prever essas correntes; as Cartas de Correntes DHN permanecem o padrão de referência para 11 portos brasileiros.

As correntes oceânicas completam o quadro: o navegante que cruzar o Atlântico Sul ou operar próximo ao Cabo Frio precisa compreender os giros sinistrogiros, a Corrente do Brasil quente que desce pela costa brasileira, o fenômeno de ressurgência do Cabo Frio e os efeitos do El Niño no Pacífico Sul. As Cartas-Piloto (DHN e NGA) e os Roteiros são as fontes operacionais primárias — devem ser consultados em qualquer planejamento de derrota oceânica.

"O navegante deve manter-se sempre atento à possibilidade de diferenças entre a previsão e a maré observada (...). Em caso de diferenças significativas, deve comunicar à Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN), informando as diferenças de hora e altura, bem como as condições meteorológicas reinantes." — Miguens, 10.1.11b
Checklist de revisão pré-prova — Cap. 10: ☐ Sei calcular profundidade real com sondagem + altura da maré.
☐ Sei distinguir NR (MLWS) de NM (MSL) e uso de cada um.
☐ Sei aplicar as Tabelas I e II e conhece seus limites geográficos.
☐ Sei usar o Método Expedito (6 passos) e conheço suas limitações.
☐ Sei selecionar a Carta de Correntes pela PM mais próxima (em módulo).
☐ Sei que a inversão da corrente ocorre no NM, não na PM ou BM.
☐ Sei que o giro do Atlântico Sul é sinistrogiro; Corrente do Brasil é quente.
☐ Sei que a ressurgência do Cabo Frio é causada pelo vento NE + Transporte de Ekman.
☐ Sei que El Niño é extensão anômala da Contracorrente Equatorial para sul.

18. Pontos-chave (paginados, 9 por tela · 45 itens)

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19. Quizzes (paginados, 10 por tela)

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20. Flashcards (paginados, 9 por tela · 49 cards par-a-par)

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21. Glossário estruturado (0 termos · 0 grupos)

Termos agrupados por tema. Clique no cabeçalho para expandir/colapsar cada grupo.

22. Mapa conceitual

Mapa mental interativo — comece pela raiz e clique em cada nó para expandir os ramos até as definições objetivas nas folhas.

--- markmap: initialExpandLevel: 0 maxWidth: 320 --- # Cap. 10 — Marés e Correntes (Miguens) ## 10.1 Marés ### Causas do fenômeno - Lua: força gravitacional varia ponto a ponto na Terra - Sol: influência ~2,25× menor que a Lua (maior distância) - Baricentro Terra-Lua: ~810 mn (~1.500 km) abaixo da superfície - Força trativa: componente horizontal resultante - Empurra água para ponto sublunar e antípoda - Gera dois bulbos de preamar no elipsoide de equilíbrio - Dia lunar: ~24h 50min (rotação em relação à Lua) - Cada ponto atravessa dois bulbos → 2 PM e 2 BM teóricas ### Tipos de maré - Semidiurna - 2 PM e 2 BM por dia lunar (~6h entre PM e BM) - Pequenas desigualdades entre PM consecutivas - Brasil: de Vitória (ES) para o Norte - Exemplos: Salinópolis, Recife - Semidiurna com desigualdades diurnas - 2 PM e 2 BM, mas com diferenças notáveis de altura - Brasil: Costa Sul (Vitória ao Rio Grande) - Mista - Grandes desigualdades diurnas e semidiurnas - Ocasionalmente torna-se diurna - Diurna - 1 PM e 1 BM por dia lunar - Exemplos: Golfo do México, Mar de Java ### Sizígia e Quadratura - Sizígia (Lua Nova ou Lua Cheia) - Sol–Terra–Lua alinhados — forças reforçam-se - PM > média; BM < média → maior amplitude - Marés de águas vivas - Idade da Lua: 0 (Lua Nova) e 14 (Lua Cheia) - Quadratura (Quarto Crescente ou Quarto Minguante) - Sol e Lua em ângulo reto — forças parcialmente se opõem - PM < média; BM > média → menor amplitude - Marés de águas mortas - Idade da Lua: 7 (Crescente) e 21 (Minguante) - Sizígia equinocial: maiores amplitudes do ano ### Elementos das marés - Preamar (PM): nível máximo numa oscilação - Baixa-mar (BM): nível mínimo numa oscilação - Amplitude: hPM − hBM (distância vertical PM–BM) - Nível Médio (NM/MSL): referência para altitudes - NM = (hPM + hBM) / 2 - Enchente: intervalo de subida do nível - Vazante: intervalo de descida do nível - Estofo: período de nível quasi-estacionário (perto de PM ou BM) - Também: corrente de maré próxima ao valor mínimo - Nível de Redução (NR): zero das cartas náuticas - Altura da maré: distância do nível atual ao NR - Profundidade real = Sondagem + Altura da maré ### Planos de Referência - NR (Nível de Redução) - Brasil: MLWS — Baixa-mar média de sizígia - Zero das sondagens e alturas de maré - Mar desce abaixo do NR raramente (mas ocorre!) - MLWS: piso típico da maré — NR brasileiro - MLWN: baixa-mar média de quadratura - NM / MSL: nível médio — referência de altitude - MHWN: preamar média de quadratura - MHWS: teto típico da maré — preamar média de sizígia - Implicação: profundidade real pode ser MENOR que sondagem em BM sizígia ### Previsão das marés — fontes - Tábuas das Marés (DHN / DG6) - Publicação anual — 54 estações brasileiras + Antártida - Horas e alturas de PM e BM por dia - Fuso horário local (+ 1h no horário de verão) - Tabela I: duração meia-maré + intervalo → centésimo (fração da amplitude) - Tabela II: centésimo + amplitude → correção de altura - Válidas apenas de Vitória (ES) para o Norte (maré semidiurna) - Permanentes (valem qualquer ano) - Portos secundários: correções de hora e altura em relação ao porto de referência - Quadro "Informações sobre a Maré" nas Cartas Náuticas - Almanaque Náutico (DN5): passagens meridianas da Lua ### Estabelecimento Vulgar do Porto (HWF&C) - Média dos intervalos: passagem Lua Cheia/Nova pelo meridiano → PM de sizígia - Constante característica do porto (topografia + latitude + correntes) - Listado no quadro "Informações sobre a Maré" da carta - Ponto de partida do Método Expedito ### Método Expedito de Previsão - Usa: HWF&C + quadro da carta + Almanaque Náutico - Válido somente onde maré é semidiurna (de Vitória para o Norte) - Suposição central: PM e BM são simétricas em relação ao NM - hBM = 2 × NM − hPM - Intervalo PM–BM: 6h 13min (¼ do dia lunar) - Intervalo PM–PM: 12h 25min (½ do dia lunar) - Resultados: diferença típica ≈ 1h / 0,1 m em relação às Tábuas --- ## 10.2 Correntes de Maré ### Gênese - Mesma causa da maré: forças astronômicas - Movimento horizontal (corrente) precede o vertical (maré) - Em portos e canais: corrente axial alternativa - Velocidade máxima entrando → próximo da PM - Velocidade máxima saindo → próximo da BM - Velocidade nula (inversão) → quando maré atinge NM (≠ instante da PM/BM!) - No oceano aberto: corrente rotatória - Gira continuamente por efeito do Coriolis - HN: desvia para direita; HS: desvia para esquerda ### Fontes de informação sobre correntes de maré - Cartas de Correntes de Maré (DHN) - Séries de cartas referidas à hora da PM (ex.: "3h antes da PM") - Seleção: diferença em horas entre o instante e a PM mais próxima - Velocidades: válidas para sizígia — corrigir fora da sizígia - Fator de correção de velocidade (ábaco): entradas = intervalo PM–BM + amplitude - Direções: não precisam de correção - Portos cobertos: Amazonas, Pará, São Marcos, Natal, Salvador, Vitória, Guanabara, Santos, Paranaguá e outros - SISCORAR (Sistema de Previsão de Correntes de Maré em Águas Rasas) - Desenvolvido pela REMO (CHM + Petrobras) - Lançado em 2018; versão 2.0 em set/2020 (incluiu Guanabara e Sepetiba) - Modelagem numérica hidrodinâmica — previsões horárias para qualquer data - Limitação: apenas maré astronômica (exclui vento, meteorológica, densidade) - Funciona 100% off-line; GPS integrado; modo diurno/noturno - Informações de corrente nas Cartas Náuticas (uso em planejamento) ### Alertas operacionais - PM/BM tabuladas ≠ inversão da corrente — DG6 alerta explicitamente - Ventos fortes e persistentes: modificam substancialmente as correntes tabeladas - Verificar durante a navegação: posições observadas vs estimadas, bóias, embarcações fundeadas --- ## 10.3 Correntes Oceânicas ### Causas - Processos termohalinos (variações de densidade = temperatura + salinidade) - Ação dos ventos (aquecimento solar desigual → grandes sistemas de vento) ### Circulação Termohalina - Gerada por: resfriamento superficial (Atlântico Norte) e congelação (Oceano Austral) - Características: vertical e profunda (escala de séculos) - Mecanismo: água densa afunda → fluxo no fundo → retorno à superfície - "Global Conveyor Belt" — correia transportadora global (Fig. 10-23) - Por que evaporação tropical não gera termohalina: efeito térmico supera o salino ### Circulação pelo Vento - Características: horizontal e superficial (< primeiras centenas de metros) - Grandes sistemas de vento globais: - Alísios de NE (HN, lat. baixas) → desviados à direita pelo Coriolis - Alísios de SE (HS, lat. baixas) → desviados à esquerda pelo Coriolis - ITCZ: convergência dos Alísios na zona tórrida - Cinturões de Alta Subtropical (~30°N e ~30°S) - Oestes Prevalecentes (lat. médias) - Estes Polares (~60° N e S) - Transporte de Ekman - Corrente superficial desviada 90° à direita do vento (HN) - Corrente superficial desviada 90° à esquerda do vento (HS) - Nulo no Equador; máximo nos Polos ### Giros Oceânicos - Padrão básico: sistema quase fechado — um giro por oceano por hemisfério - HN (Atlântico Norte, Pacífico Norte): dextrogiro (horário) - HS (Atlântico Sul, Pacífico Sul, Índico Sul): sinistrogiro (anti-horário) - Intensificação Oeste: - Correntes do lado Oeste: estreitas, rápidas (Golfo: 2,3–2,7 nós; Kuro Shio: 1,6 nós) - Correntes do lado Leste: largas, lentas (~2 a 4 mn/dia) ### Sistemas Equatoriais - Corrente Norte Equatorial: flui para Oeste (Alísios de NE) - Corrente Sul Equatorial: flui para Oeste (Alísios de SE) - Contracorrente Equatorial: flui para Leste (entre as duas correntes equatoriais) ### Principais Correntes — Atlântico Norte - Corrente Norte Equatorial: ~0,7 nó para Oeste - Corrente das Guianas (ramo da Sul Equatorial cruza o Equador) - Corrente do Caribe: Norte Equatorial + Guianas - Corrente da Flórida: > 3 nós no Estreito - Corrente do Golfo: 2,3–2,7 nós; norte e nordeste ao largo dos EUA - "Um rio dentro do mar" - Corrente do Atlântico Norte: continuação do Golfo para leste - Corrente da Noruega: aquece o norte da Europa - Corrente do Labrador: fria, do Ártico para sul - Contracorrente Equatorial → Corrente da Guiné (costa africana) ### Principais Correntes — Atlântico Sul - Corrente Sul Equatorial: Alísios de SE → para Oeste - Corrente do Brasil: quente e salina; ao longo da costa brasileira para sul até ~40°S - Deriva do Vento Oeste / Corrente Sul-Atlântica: Sul da Am. do Sul → Leste - Corrente de Benguela: costa africana → Norte; fria; afloramento - Corrente das Malvinas: do Ártico/Antártida → Norte; encontra Corrente do Brasil em ~40°S ### Principais Correntes — Antártica - Corrente Circumpolar Antártica (Deriva do Vento Oeste): para Leste ao redor de toda a Antártida - Conecta os três oceanos — sem barreira terrestre - Junto à costa antártica: para Oeste (ventos polares de Leste) - Convergência Antártica (~50–60°S): aumento brusco de ~2°C - Convergência Subtropical (~40°S): aumento brusco de ~4°C - Correntes derivadas: Malvinas (Atlântico), Peru (Pacífico), Oeste da Austrália (Índico) ### Principais Correntes — Índico - Característica: inversão sazonal pelas monções - Monção de inverno (nov–mar; ventos de NE): giro anti-horário no norte - Monção de verão (mai–set; ventos de SW): Corrente Monçônica substitui Norte Equatorial - Corrente das Agulhas: estreita, forte, quente — análoga ao Golfo; corre para sul - Corrente Oeste da Austrália: para Norte ao largo da costa W australiana ### Principais Correntes — Pacífico - Kuro Shio: análogo ao Golfo; ~1,6 nós próximo ao Japão - Corrente Norte Pacífica: continuação leste do Kuro Shio - Contracorrente Equatorial: bem desenvolvida o ano todo; ~0,97–1,94 nó - Corrente do Peru (Humboldt): fria; costa W da Am. do Sul; ressurgência - El Niño: extensão anômala da Contracorrente Equatorial até ~12°S ### Ressurgência e Subsidência - Ressurgência (upwelling): - Vento paralelo à costa + Transporte de Ekman afasta água superficial - Água subsuperficial (100–200 m) ascende - Rica em nutrientes → grandes populações de peixes - Ocorrência: costas ocidentais dos continentes - Brasil: Cabo Frio (vento NE no verão) — exceção geográfica - Subsidência (downwelling): - Transporte de Ekman empurra água em direção à costa → afunda ### Fontes de informação sobre correntes oceânicas - Cartas-Piloto (Pilot Charts): mensais; DHN (Atlântico Sul Ocidental); NGA (demais oceanos) - Cartas Náuticas: algumas indicam correntes e Notas de Precaução - Roteiros (DHN): seção "Marés e Correntes" por trecho de costa - Efeitos sobre o navio: abatimento, atraso ou avanço (vetores somados ao vetor navio)

23. Demais figuras do capítulo

Figuras complementares — ver figuras inline nas sections temáticas para as principais.