NV Cap. 14 — Navegação Radar

1. Visão geral — o radar na navegação

Para o prático, o radar é o olho que enxerga no escuro e na cerração: é com ele que se mede distância à margem de um canal, se confirma a posição num porto sem amers visíveis e se decide a manobra de evasão de um alvo em rumo de colisão. Este capítulo organiza esse instrumento de ponta a ponta — do princípio físico do eco até a plotagem do movimento relativo na rosa de manobra.

O radar funciona por eco: a antena emite um pulso de rádio em micro-ondas, mede o tempo que ele leva para ir ao alvo e voltar (que dá a distância) e a direção em que a antena apontava (que dá a marcação). A imagem nasce na tela com o próprio navio no centro. A partir daí, três usos se encadeiam: ver e interpretar a imagem, navegar por ela (posição, aterragem, navegação paralela indexada, fundeio de precisão) e usá-la para evitar colisão pelo método do movimento relativo e pelo ARPA.

A sequência segue o programa do edital (Anexo 2-A, itens 25 e 30): equipamento radar e suas características; interpretação da imagem (fatores, alvos terrestres e no mar, fenômenos meteorológicos, auxílios à navegação radar); navegação radar (precisão, posicionamento, aterragem, distância como linha de posição de segurança, fundeio de precisão e navegação paralela indexada); uso do radar para evitar colisão no mar; e a apresentação em movimento verdadeiro.

Fonte: MIGUENS, A. P. Navegação: a ciência e a arte. v. 1. 2. ed. rev. atual. Rio de Janeiro: DHN, 2023. Cap. 14 — Navegação Radar.

Edital: Anexo 2-A, item 25 (Navegação radar, 25.1–25.3) + item 30.1 (Navegação radar ARPA) · Anexo 2-B, Cap. 14 (Miguens, vol. 1) + IMO MSC.192(79).

2. Equipamento radar — princípio, componentes e características (§14.1.1–14.1.2)

2.1 Desenvolvimento e classificação (§14.1.1)

A palavra Radar vem do inglês Radio Detection And Ranging. Sua base matemática está nas Equações de Maxwell (1871), confirmadas experimentalmente por Hertz em 1888; em 1922 Marconi já descrevia a radiodetecção pela reflexão de ondas eletromagnéticas. O grande salto prático veio em 1940, quando a Universidade de Birmingham desenvolveu a magnetron — válvula capaz de gerar pulsos de elevada potência em comprimento de onda de 9 cm, o que permitiu construir radares pequenos o bastante para instalar a bordo de navios e aeronaves. Após a 2ª Guerra, o radar deixou de ser exclusivamente militar e passou a ser fabricado comercialmente.

Os navios de guerra costumam ter vários radares com finalidades distintas. Os principais tipos:

Tipo de radarFinalidade principal
Busca de SuperfícieDetectar alvos de superfície (e aeronaves a baixa altitude) e medir distâncias/marcações; pode prover informações de navegação.
Busca AéreaDetectar alvos aéreos a longa distância, em busca de 360°, até altitudes elevadas; alta potência para alarme antecipado.
Busca CombinadaOpera ora como busca de superfície, ora como busca aérea.
Determinador de Altitude (3-D)Determina distância, marcação e altitude de alvos aéreos; usado também para vetorar interceptadores.
Direção de TiroAdquire e acompanha automaticamente alvos designados pelos radares de busca, com alta precisão, para dirigir canhões ou mísseis.
Aproximação de AeronavesCurto alcance, busca só em um setor (geralmente a ré); orienta o pouso em navios-aeródromos com má visibilidade.
NavegaçãoObter linhas de posição (LDP) para a posição do navio e medir distâncias/marcações de outras embarcações para evitar colisão.

Navios mercantes e demais embarcações dispõem, em geral, apenas do Radar de Navegação, voltado à navegação e ao acompanhamento de outros navios para evitar abalroamento. Em navios de guerra menores, um único Radar de Busca de Superfície pode acumular a função de navegação. Este capítulo trata justamente das características e técnicas do Radar de Navegação.

2.2 Princípio de funcionamento (§14.1.2.a)

Quanto à modulação, há radares de pulsos, de onda contínua e Doppler; o de navegação marítima é o Radar de Pulsos. Seu princípio: emite pulsos de RF de duração extremamente curta e mede o tempo entre a transmissão do pulso e a recepção do eco refletido pelo alvo. Como o percurso é de ida e volta (round-trip), a distância é a metade do intervalo de tempo multiplicada pela velocidade de propagação das ondas eletromagnéticas. A marcação do alvo vem da orientação da antena no instante em que o eco é recebido — a antena parabólica gira no sentido horário varrendo 360°, formando um feixe estreito no plano horizontal e mais largo no plano vertical.

Cada ciclo pulso→eco precisa terminar antes do pulso seguinte. Por isso os pulsos (cerca de 1 µs ou menos) são separados por um intervalo de silêncio relativamente longo: se o eco fraco chegasse durante a transmissão do próximo pulso — usando a mesma antena — ele seria bloqueado pelo pulso forte e não apareceria na tela.

O espectro eletromagnético chega a frequências de até $10^{24}$ Hz e é dividido em bandas. Coexistem hoje dois sistemas de designação: o do IEEE, herdado da 2ª Guerra (distribuição não sistemática das letras), e o da OTAN, com limites quase logarítmicos e voltado à guerra eletrônica. Ambos são comparados na figura a seguir.

Fig. 14-1
Fig. 14-1 Figura 14.1 — Sistemas de designação de bandas (IEEE × OTAN)

Os Radares de Navegação, pela classificação do IEEE, usam:

BandaComprimento de ondaEmprego
Banda S10 cmNavegação costeira e de alto-mar (oceânica)
Banda X3 cmAterragem/aproximação e navegação em águas restritas (canais, portos, baías, enseadas)

2.3 Componentes de um sistema radar básico (§14.1.2.b)

O sistema radar básico tem 6 componentes principais, encadeados no diagrama em bloco abaixo.

Fig. 14-2
Fig. 14-2 Figura 14.2 — Diagrama em bloco de um sistema radar

ComponenteFunção
Fonte (unidade de força)Fornece todas as voltagens AC e DC para operar o sistema.
ModuladorDispara o Transmissor e envia pulsos de sincronização ao Indicador. Seus circuitos de tempo definem a FRI — número de pulsos transmitidos por segundo.
TransmissorGera RF em pulsos curtos de alta potência. A chave T/R (duplexer) alterna os ciclos de transmissão e de recepção.
Sistema de AntenaIrradia os pulsos num feixe altamente direcional e recebe os ecos, encaminhando-os ao Receptor.
ReceptorAmplifica os ecos, reproduzindo-os como pulsos de vídeo, e os entrega ao Indicador.
Indicador (PPI / Display)Produz a indicação visual dos ecos, apresentando as informações dos alvos detectados.

2.4 Características de um sistema radar (§14.1.2.c)

Cinco constantes descrevem qualquer radar: frequência da portadora, FRI, largura de pulso, velocidade de rotação da antena e largura do feixe.

Frequência da portadora

A frequência da portadora é aquela em que a energia de RF é gerada; ela governa as dimensões físicas da antena. A relação fundamental é:

$$\lambda = \frac{c}{f}$$

com $\lambda$ = comprimento de onda, $c$ = velocidade de propagação e $f$ = frequência. Assim, quanto maior a frequência, menor o comprimento de onda e menor a antena necessária; mas, para a mesma potência, uma frequência mais baixa alcança distâncias maiores (logo exige antena maior). Como é difícil amplificar diretamente RF de frequência tão alta, o radar não usa amplificador de RF: o eco é heterodinado com um oscilador local num misturador de cristal, gerando a frequência intermediária, baixa o bastante para ser amplificada no receptor. Componentes especiais — a klystron e a magnetron — geram essa energia de micro-ondas.

CaracterísticaBanda S (10 cm)Banda X (3 cm)
Imagem / contornosMenos detalhadaMais detalhada, contornos bem delineados
Alcance (mesma potência)MaiorMenor
Sensibilidade a chuva/granizo/neveMenos afetadaMais afetada (pode mascarar a imagem)

Por essas particularidades, os navios atuais costumam ter 2 radares de navegação — um na banda S e um na banda X. Em casos especiais (radar fluvial, radares de aviação com antena pequena) usam-se comprimentos de onda ainda menores, de 1,25 cm e 0,9 cm.

Frequência de Repetição de Impulsos (FRI)

A FRI (em inglês pulse repetition rate, PRR) é o número de pulsos transmitidos por segundo. Como o eco de um alvo no alcance máximo precisa retornar antes do próximo pulso, o alcance máximo depende da FRI. Exemplo: FRI de 1.000 PPS com largura de pulso de 1 µs → em cada 1.000 µs o radar transmite por 1 µs e fica em silêncio por 999 µs; é nesse silêncio que os ecos chegam. Esse intervalo define o alcance máximo teórico:

$$A_{máx} = \frac{c \cdot t}{2}$$

com $c = 0{,}161829$ mn/µs (velocidade de propagação: 299.708.000 m/s, ou 161.829 mn/s) e $t$ = intervalo entre pulsos. Para $t = 999\ \mu s$, $A_{máx} \approx 80{,}8$ mn. A divisão por 2 reflete o percurso de ida e volta. Na prática o alcance também depende da potência: reduzir a FRI aumenta o intervalo (e o alcance), mas a FRI tem de ser alta o bastante para que pulsos suficientes atinjam o alvo e retornem. Com a antena a 15 RPM e FRI de 1.000 PPS, são cerca de 11 pulsos por grau de rotação.

Largura de pulso

A largura de pulso é a duração de cada pulso de RF, em microssegundos; expressa em distância, chama-se comprimento de pulso. Ela fixa o alcance mínimo: se o alvo está tão perto que o eco volta antes de a transmissão terminar, fica mascarado pelo próprio pulso. Como a velocidade é 0,161829 mn/µs (324 jardas/µs), um pulso de 1 µs dá alcance mínimo de 162 jardas (metade do comprimento de pulso). Para alcances mínimos menores usa-se pulso curto (cerca de 0,1 µs).

O pulso não pode ser reduzido sem custo: pulsos longos transmitem mais energia e alcançam mais longe; pulsos curtos sacrificam alcance máximo, mas dão maior precisão e melhor discriminação em distância.

A discriminação em distância é a menor separação entre dois alvos na mesma marcação para que apareçam como ecos distintos; vale a metade do comprimento de pulso. Mais perto que isso, os dois ecos se fundem numa única imagem alongada.

Velocidade de rotação da antena

O alvo precisa ser varrido por pulsos suficientes para formar imagem nítida; por isso a detecção melhora quando a antena gira mais devagar (mais pulsos atingem o alvo). Exemplo: FRI 1.000 PPS, feixe horizontal de 2°, antena a 6 RPM. A varredura angular é:

$$\frac{6 \times 360^\circ}{60\ \text{s}} = 36^\circ/\text{s}$$

Para cobrir os 2° do feixe a antena gasta $2/36 = 0{,}0555$ s; com FRI de 1.000 PPS, isso são cerca de 55 pulsos. Dobrando a rotação para 12 RPM, o número de pulsos por varredura cai à metade. Uma FRI alta permite girar rápido sem perder pulsos — e a tela se renova mais (a 20 RPM, a cada 3 s), dispensando alta persistência. Nos radares de navegação a rotação é, em geral, inferior a 60 RPM. As antenas convencionais giram mecanicamente; as mais modernas (phased arrays) são estacionárias e giram o feixe eletronicamente.

Largura do feixe

A largura do feixe é estreita no plano horizontal e larga no vertical. O diagrama polar horizontal exibe um lóbulo principal e lóbulos secundários (feixes adicionais de baixa energia, inevitáveis pelas limitações da antena).

Fig. 14-3
Fig. 14-3 Figura 14.3 — Diagrama polar horizontal (lóbulo principal e secundários)

No plano horizontal a largura é de 1° a 2° nos radares marítimos. É ela que define a discriminação em marcação — a diferença mínima em marcação para que dois alvos à mesma distância apareçam distintos. O valor angular dessa discriminação é igual à própria largura do feixe no plano horizontal. Em medida linear (discriminação tangencial):

$$d_t = 35{,}3427 \cdot a \cdot L$$

com $d_t$ em jardas, $a$ = largura do feixe em graus e $L$ = distância em milhas náuticas. Exemplo: $a = 1{,}5^\circ$ e $L = 10$ mn → $d_t = 530$ jardas; a 5 mn, o mesmo radar cai para 265 jardas (a discriminação melhora quanto mais perto o alvo).

Por convenção, a largura do feixe é medida entre os pontos onde a intensidade de campo é 71% do máximo — os pontos de meia potência —, pois o campo é mais forte no eixo e decai para os bordos e com a distância.

Fig. 14-4
Fig. 14-4 Figura 14.4 — Largura do feixe entre pontos de meia potência

No plano vertical a largura é grande, tipicamente de 15° a 30°. A largura do feixe depende da frequência (comprimento de onda) e das dimensões da antena: para uma antena de dado tamanho, feixes mais estreitos vêm de comprimentos de onda menores; para um dado comprimento de onda, feixes mais estreitos vêm de antenas maiores.

3. Propagação radar, apresentação da imagem e controles operacionais (§14.1.3–14.1.5)

Esta seção encadeia três blocos: como a onda radar se propaga na atmosfera e sobre o mar (§14.1.3), como o eco recebido vira imagem na tela (§14.1.4) e quais controles o operador ajusta para tirar dela o melhor (§14.1.5). O fio condutor é prático: entender a propagação explica por que o radar às vezes "enxerga" longe demais ou perde alvos próximos, e os controles existem justamente para domar esses efeitos.

3.1 Refração e o horizonte radar (§14.1.3a)

Se as ondas radar caminhassem em linha reta, o alcance até o horizonte dependeria só da altura da antena e coincidiria com o horizonte geográfico, dado por:

$$D = 1{,}93\sqrt{H}$$

com $D$ em milhas náuticas e $H$ a altitude da antena em metros. Mas a onda radar, como a luz, sofre refração ao atravessar camadas de ar de densidades diferentes — e é mais afetada que o raio luminoso, por causa das frequências usadas. Em atmosfera padrão, a refração normal encurva a trajetória para baixo, acompanhando a curvatura da Terra e estendendo o alcance. Surge daí o horizonte radar, que excede o geográfico em cerca de 14%:

$$D_r \approx 1{,}93\sqrt{H} \times 1{,}14 \approx 2{,}21\sqrt{H}$$

O horizonte radar não é, por si, o limite de detecção: havendo potência suficiente, alvos além dele são detectados desde que sua superfície refletora se eleve acima do horizonte — analogamente à visão de objetos altos além do horizonte geográfico. Para estimar a distância de detecção de um alvo de altitude conhecida, calcula-se o alcance geográfico (somando antena e alvo) e acrescenta-se 14%. A fórmula foi calculada para comprimento de onda de 3 cm, mas serve para os demais usados em radares de navegação.

$$D = 1{,}93(\sqrt{H} + \sqrt{h}) = 32{,}95\ \text{MN} \qquad D_r = D + 14\%\,D = 37{,}6\ \text{MN}$$

No exemplo do livro: antena a 50 m e alvo a 100 m dão alcance geográfico de 32,95 MN; somado o acréscimo de 14%, a distância de detecção radar fica em 37,6 MN. Condições atmosféricas muito distintas da padrão produzem refrações anormais — a super-refração e a sub-refração.

3.1.1 Super-refração e sub-refração

A super-refração ocorre em tempo calmo quando ar quente e seco se sobrepõe a uma camada de superfície de ar frio e úmido: a curvatura para baixo da trajetória aumenta, ampliando o alcance de detecção. É comum nos trópicos, com brisa terrestre (terral) quente e seca soprando sobre correntes oceânicas mais frias.

A sub-refração é o oposto: ar frio e úmido sobre uma camada estreita de ar mais quente e seco encurva a trajetória para cima, reduzindo o alcance máximo. Ela também afeta o alcance mínimo e pode impedir a detecção de alvos baixos a curta distância. Surge em regiões polares, quando massas de ar frio se movem sobre correntes oceânicas mais quentes.

Fig. 14-5
Fig. 14-5 Figura 14.5 — horizonte radar normal, super e sub-refração
A figura compara, num só esquema, o horizonte radar em condições normais e os desvios da trajetória sob super e sub-refração.

CondiçãoCamadas de arCurvatura da ondaEfeito no alcance
Refração normalAtmosfera padrãoEncurva para baixo (acompanha a Terra)Horizonte radar ≈ +14% sobre o geográfico
Super-refraçãoQuente/seco sobre frio/úmidoEncurva mais para baixoAumenta o alcance de detecção
Sub-refraçãoFrio/úmido sobre quente/secoEncurva para cimaDiminui alcance máximo e mínimo; perde alvos baixos próximos

3.1.2 Propagação em dutos

Em casos extremos de super-refração, energia irradiada em ângulo quase horizontal (1° ou menos) fica presa numa camada chamada duto de superfície, originando a propagação em duto. Para a navegação interessam os dutos de superfície — formados entre o mar e uma camada baixa — e não os dutos elevados (de altitude). Dentro do duto a onda é refratada para baixo, reflete no mar para cima, refrata de novo, e assim sucessivamente, como num guia de ondas.

Fig. 14-6
Fig. 14-6 Figura 14.6 — propagação em duto de superfície
Como as perdas no duto são muito pequenas, alvos de superfície já foram detectados a distâncias da ordem de 1.400 milhas, mesmo com radares de potência baixa — muito além do horizonte radar.

O efeito de duto nem sempre é desejável. Pode haver ambiguidade entre ecos normais e ecos de pulsos que viajaram pelo duto, exigindo cuidado na identificação. E há perda forte de energia nas ondas que escapam do duto, reduzindo a detecção de alvos acima dele; em dutos muito baixos, com a antena acima do duto, pequenos alvos de superfície abaixo podem não ser detectados. O operador mal instruído pode atribuir a falta de ecos a defeito do aparelho, e não à ausência de propagação anômala.

Embora dutos possam surgir em qualquer lugar, o clima torna alguns locais mais propensos. O livro destaca: a costa atlântica dos EUA (duto comum no verão no nordeste, mas com máximo no inverno na Flórida); a Europa Ocidental (máximo de verão em torno das Ilhas Britânicas e Mar do Norte); o Mediterrâneo (dutos quase como regra no verão, padrão no inverno); o Mar Arábico, onde os dutos são a regra na estação seca — com alcances de até 1.500 milhas em alvos fixos — e o Estreito de Ormuz, onde o embate da monção com o shamal forma um duto extenso de grande importância operacional; a Baía de Bengala (tendências iguais às do Mar Arábico); e o Pacífico (dutos frequentes e muito baixos sobre o mar aberto pelos ventos alísios).

3.2 Efeito da superfície do mar (§14.1.3b)

Sobre o mar — ou qualquer superfície extensa — ocorrem reflexões múltiplas. A frente de onda que atinge um alvo é, na verdade, a soma de uma onda direta e de uma onda refletida no mar.

Fig. 14-7
Fig. 14-7 Figura 14.7 — ondas direta e refletida no mar
Se as duas chegam ao alvo em fase, somam-se e reforçam o eco; quando defasadas, subtraem-se e o eco enfraquece ou desaparece.

Fig. 14-8
Fig. 14-8 Figura 14.8 — diagrama de cobertura vertical (lóbulos e nulos)
Por isso, o diagrama de irradiação vertical alterna máximos e mínimos: as linhas que limitam os lóbulos unem pontos de igual intensidade, e as áreas onde os campos se anulam, entre os lóbulos, são as zonas de desvanecimento.

Dois fatores acentuam as zonas de desvanecimento: a altura da antena e a frequência. Quanto mais baixa a antena, mais largas as zonas; para uma altura dada, quanto mais alta a frequência, mais tangente ao mar fica o lóbulo inferior. Radares de baixa frequência têm zonas mais pronunciadas porque são menos diretivos, fazendo a parte inferior do feixe incidir mais forte na superfície do mar. Nos radares militares, esse diagrama de cobertura vertical tem grande peso operativo: uma aeronave em altitude constante atravessa uma série de lóbulos e nulos, e o contato aparece e desaparece à medida que se aproxima.

3.3 Difração, atenuação e características do eco (§14.1.3c–e)

A difração é o encurvamento da trajetória da onda ao incidir num obstáculo, iluminando um pouco a região atrás dele. Seus efeitos são maiores nas frequências baixas; como o radar usa frequências altas (comprimentos de onda muito curtos), só uma pequena parte da energia é difratada e os alcances quase não se alteram. Ainda assim, radares de frequência mais baixa iluminam mais a sombra atrás de uma obstrução do que os de frequência mais alta.

A atenuação é o efeito combinado da dispersão e da absorção da energia ao longo da atmosfera; reduz a intensidade do sinal e do eco e é maior nas frequências altas (menores comprimentos de onda). Quanto ao eco, embora muito mais fraco que o pulso transmitido, suas características de retorno são semelhantes às da propagação do sinal: sua intensidade depende da energia que atinge o alvo e das dimensões e propriedades refletivas do alvo.

3.4 Apresentação da imagem radar (§14.1.4)

Os radares de navegação usam uma válvula de raios catódicos (VRC) ou uma tela digital, montada num console chamado "repetidora do radar", com apresentação em tela do tipo PPI (Plan Position Indicator).

Fig. 14-9
Fig. 14-9 Figura 14.9 — indicadores VRC e digital
No PPI, o próprio navio fica no centro da tela circular; os alvos aparecem em escala correta de distância, que cresce do centro para a borda, e as marcações são lidas na periferia, de 000° a 360° no sentido horário. Assim, cada alvo surge na sua posição relativa (direção e distância).

Com o navio fixo no centro da varredura, as demais embarcações dentro do alcance descrevem seu movimento relativo ao navio; a imagem de terra e dos alvos fixos também se desloca com esse movimento relativo.

3.4.1 Apresentação estabilizada e não-estabilizada

O PPI pode ser estabilizado ou não-estabilizado.

Fig. 14-10
Fig. 14-10 Figura 14.10 — apresentação estabilizada
Quando o radar recebe e usa a informação da agulha giroscópica, a apresentação é estabilizada: orienta-se com o norte verdadeiro para cima, na direção 000° do perímetro. Ao mudar o rumo, a imagem fica fixa e quem se move é a linha-de-fé (marca de proa).

Fig. 14-11
Fig. 14-11 Figura 14.11 — apresentação não-estabilizada
Sem informação da giro — ou em avaria dela — a apresentação é não-estabilizada: imagem relativa, com a proa do navio para cima em 000°. Aqui, ao mudar o rumo, a linha-de-fé fica fixa e é a imagem radar que se move na tela.

Não confunda o que se move ao guinar: na estabilizada (norte para cima), a imagem fica parada e a linha-de-fé gira; na não-estabilizada (proa para cima), a linha-de-fé fica parada e a imagem gira.

3.4.2 Varredura, cursores e anéis de distância

Conforme a antena gira, o feixe é representado por uma linha de varredura — fina linha luminosa que varre a tela no sentido horário, como o raio de uma roda de bicicleta — e ilumina as imagens dos alvos, comumente chamadas de "pip". Para medir, o radar oferece o cursor de marcação (bearing cursor): linha radial que vai do centro à periferia e gira por todo o PPI; e o estrobo de distância (range strobe ou VRM, variable range marker): ponto luminoso que o operador desloca ao longo do cursor — nos radares antigos, move-se sobre a varredura formando um círculo variável de distância.

Para obter marcação e distância de um alvo, gira-se o cursor até cobrir o "pip" e desloca-se o estrobo até tangenciar a borda interna do "pip": a marcação é lida no aro graduado e a distância num mostrador do console — nos radares modernos, ambas aparecem em indicação digital na própria tela.

Fig. 14-12
Fig. 14-12 Figura 14.12 — varredura e anéis de distância
Para avaliação rápida de distâncias, iluminam-se os círculos (anéis) de distância, traçados em intervalos a partir do centro. A área física mostrada depende da escala de distância: muitos radares têm escalas fixas (0,25; 0,5; 0,75; 1,5; 3,0; 6,0; 12; 24; 48 MN), outros permitem qualquer valor entre limites (por exemplo, 1 a 50 MN). O número da escala é o raio da área na tela: na escala de 12 milhas, o alvo mais distante exibível está a 12 milhas, na periferia.

Para maior resolução, melhor definição do contorno dos alvos e mais precisão de medida, selecione sempre a escala mais curta possível compatível com o que se quer enxergar.

3.5 Controles operacionais do radar (§14.1.5)

Cada equipamento tem seu manual, mas alguns controles principais aparecem em quase todos os radares de navegação. O ajuste correto deles é decisivo para o bom desempenho da instalação.

3.5.1 Brilho e ganho

O controle de brilho (brilliance ou video) define o brilho geral da tela. Brilho excessivo desfoca e borra a imagem, pois mantém ecos da varredura anterior sobre os da seguinte; ajuste-o de modo que o traço da varredura fique apenas visível, sem brilhar demais.

O controle de ganho (gain) deve deixar a tela levemente salpicada, com uma leve nódoa de fundo visível: assim o receptor fica na sua condição mais sensível e detecta nas maiores distâncias.

Fig. 14-13
Fig. 14-13 Figura 14.13 — níveis de ganho
Reduzir o ganho para apagar essa nódoa encurta os alcances; com pouco ganho, ecos fracos somem; com ganho excessivo, o contraste cai e a observação piora. Em regiões congestionadas, pode-se reduzir o ganho temporariamente para clarear a tela (com cuidado, para não perder marcas) e retorná-lo ao normal assim que possível. Na presença de chuva ou neve, uma redução temporária do ganho ajuda a distinguir o eco forte e sólido de um navio dentro da borrasca.

Fig. 14-14
Fig. 14-14 Figura 14.14 — ganho e discriminação em distância
O ganho também melhora a discriminação em distância: dois alvos na mesma marcação podem aparecer como um único "pip" se o ganho for excessivo; reduzindo o ganho, eles se separam em dois "pips".

3.5.2 STC (anti-clutter sea) e FTC (anti-clutter rain)

O controle STC (Sensitivity Time Control, ou Anti-Clutter Sea) é antimancha do mar: suprime os ecos do retorno do mar perto do navio, que formam em torno do centro do PPI uma imagem confusa capaz de mascarar alvos próximos. É um ganho auxiliar que reduz os ecos mais próximos sem mexer nos distantes, efetivo até 4 a 5 milhas e praticamente inútil além de 8 milhas.

A regulagem do STC nunca deve apagar toda a reverberação — isso eliminaria ecos de alvos próximos. E o STC nunca deve ficar fixo: mínimo em mar calmo, aumentando à medida que o mar se agita, mas deixando sempre algum clutter na tela.

O controle FTC (Fast Time Control, ou Anti-Clutter Rain) reduz os ecos de chuva, granizo e neve, que obscurecem alvos.

Fig. 14-15
Fig. 14-15 Figura 14.15 — controle FTC
Ele encurta os ecos na tela, diminuindo as manchas de precipitação no PPI. Atua sobre todo o PPI e tende a reduzir a sensibilidade do receptor. Em águas confinadas, dá melhor definição e melhor discriminação em distância, melhora o alcance mínimo e ainda elimina a interferência de um RACON a curta distância.

ControleCombateOnde atuaCuidado-chave
STC (Anti-Clutter Sea)Retorno do mar perto do navioEcos próximos (até 4–5 MN; nulo > 8 MN)Nunca apagar todo o clutter nem deixar fixo
FTC (Anti-Clutter Rain)Chuva, granizo e neveTodo o PPIReduz a sensibilidade geral do receptor

3.5.3 Largura de pulso, sintonia e linha-de-fé

A chave de largura de pulso (pulse length) escolhe o comprimento do pulso: para longas distâncias, pulso longo; em curtos e médios alcances, quando se quer imagem mais definida, mais detalhe e melhor discriminação em distância, pulso curto.

O controle de sintonia mantém o receptor casado com o transmissor. Quase todos os radares têm AFC (Automatic Frequency Control); sem ele, há um botão que ajusta a sintonia da válvula Klystron. A sintonia deve ser refeita logo após ligar e até cerca de 30 minutos depois, quando o aparelho se considera sintonizado — mas verificada constantemente, sobretudo se não aparecerem ecos, pois pode haver alvos não exibidos por estar fora de sintonia. Sem ecos de costa ou navios, sintoniza-se pelo clutter do mar: desliga-se o STC (ou põe-se no mínimo), escolhe-se escala pequena para o clutter chegar à borda e gira-se o botão até obter o máximo de clutter.

A linha-de-fé luminosa (Heading Marker) traça a proa na tela, permitindo identificar rapidamente o bordo em que estão alvos aparentemente pela proa, e facilita muito a navegação de praticagem com o radar. Sua intensidade deve ficar apenas visível.

A linha-de-fé pode mascarar ecos fracos diretamente pela proa. Por isso, recomenda-se desligá-la ou reduzi-la ao mínimo periodicamente, para verificar com segurança se há alvos na proa.

4. Interpretação da imagem radar — fatores, alvos terrestres e no mar (§14.2.1–14.2.3)

Ler a tela do radar nem sempre é simples: leituras corretas exigem experiência do operador, ainda mais sob tempo ruim ou com o equipamento degradado. Mesmo no melhor cenário — bom tempo, radar perfeitamente sintonizado — vários fatores tendem a induzir erro: poder de discriminação em marcação, poder de discriminação em distância, setores de sombra, ecos múltiplos, ecos falsos e ecos laterais.

4.1 Fatores que afetam a interpretação (§14.2.1)

a. Discriminação em marcação e em distância

O poder de discriminação em marcação é a menor diferença angular para que dois alvos à mesma distância apareçam como ecos distintos; seu valor é igual à largura do feixe transmitido. Como o feixe tem abertura angular, os alvos surgem na tela mais largos do que são, e dois alvos próximos à mesma distância podem fundir seus "pips" num só. Esse erro é comum em áreas costeiras, onde pedras, recifes, pilares e embarcações próximas geram uma falsa linha de costa.

Fig. 14-16
Fig. 14-16 Figura 14.16 — falsa linha de costa

O poder de discriminação em distância é a menor separação radial para que dois alvos na mesma marcação sejam discernidos; depende da largura do pulso e da frequência de emissão, ajustáveis em alguns equipamentos para melhorar a resolução em distâncias longas e curtas. Quando dois objetos na mesma marcação estão separados por menos que esse limite — cujo valor é metade do comprimento do pulso — eles se fundem: na figura, o rebocador e o navio rebocado formam uma só imagem.

Fig. 14-17
Fig. 14-17 Figura 14.17 — reboque como alvo único

b. Áreas e setores de sombra radar

Ocorrem quando um alvo grande oculta um menor situado atrás dele, ou quando um alvo além do horizonte radar é encoberto pela curvatura da Terra — a região atrás de uma alta massa de terra fica em sombra e não aparece no PPI. Obstáculos do próprio navio (mastros, chaminés, guindastes) que barram a varredura do feixe produzem arcos cegos, que o operador precisa conhecer bem. Qualquer superfície metálica na trajetória da energia reduz a intensidade do campo e, com isso, a distância de detecção naquela marcação.

Fig. 14-18
Fig. 14-18 Figura 14.18 — setor de sombra radar

Os diagramas de cobertura horizontal mostram a distância de detecção em cada marcação relativa. Na cobertura uniforme (A), a antena tem visada desimpedida; já em (B), há um setor cego na popa, sinal de obstruções nessa direção.

Fig. 14-19
Fig. 14-19 Figura 14.19 — diagramas de cobertura horizontal

c. Ecos múltiplos, ecos falsos e ecos laterais

O eco múltiplo nasce de reflexões repetidas do pulso entre o navio e um alvo próximo (em geral outro navio pelo través). É um "pip" falso que aparece na mesma marcação do alvo real, mas a uma distância múltipla da correta.

Fig. 14-20
Fig. 14-20 Figura 14.20 — eco múltiplo

Um único eco falso no dobro da distância real é o eco duplo; um segundo "pip" no triplo é o eco triplo. Normalmente formam-se só um ou dois. Embora indesejáveis, servem para checar a calibragem: num radar bem calibrado, a distância ao eco duplo é exatamente o dobro da do alvo real; medindo a distância entre o primeiro eco e o segundo (que equivale à distância correta) e comparando com a do navio ao alvo, detecta-se qualquer erro de calibragem.

Tipo de eco falsoMarcação onde apareceDistância onde aparece
Eco múltiplo (duplo/triplo)Mesma do alvo realMúltipla da distância correta (2×, 3×)
Eco indireto (reflexão na própria estrutura)Da superfície refletora intermediária do navioMesma do eco verdadeiro
Eco entre dois naviosDo alvo verdadeiroMaior que a real (eco mais fraco)
Eco lateral (lóbulos secundários)Em torno do eco principal, em arcoMesma do alvo (raio = distância ao alvo)

O eco indireto surge quando a energia refletida pelo alvo bate antes numa parte da estrutura do navio e só então volta à antena: aparece sempre na mesma distância do eco verdadeiro, porém na marcação dessa superfície refletora intermediária.

Fig. 14-21
Fig. 14-21 Figura 14.21 — eco falso (indireto)

Outro eco falso vem da reflexão de um navio para outro antes de retornar à antena. No exemplo, o radar do contratorpedeiro (CT) A irradia para o navio-aeródromo (NAe) B; parte da energia volta direto (eco real a 1.000 jardas) e parte segue até o cruzador ligeiro (CL) C, refletindo pela trajetória CBA — produz na marcação do NAe um eco falso mais fraco a 2.000 jardas.

Fig. 14-22
Fig. 14-22 Figura 14.22 — eco falso entre alvos

Antena montada logo a ante-a-vante do mastro também gera ecos falsos: navegando em coluna, com a antena conteirada para ré, a reflexão no mastro pode devolver ecos falsos do navio de vante.

Os ecos laterais são ecos falsos dos lóbulos secundários do feixe. Como o campo desses lóbulos é fraco, só afetam alvos próximos; aparecem como um arco de círculo em torno do eco principal e, se o alvo está muito perto, podem virar semicírculo ou círculo completo de raio igual à distância do alvo. Cada traço fino é um eco lateral; o traço mais forte é o eco verdadeiro.

Fig. 14-23
Fig. 14-23 Figura 14.23 — ecos laterais

Mitigar ecos laterais: reduzir o ganho, ou aumentar o controle anti-clutter sea. Em ambos os casos, há um custo.
Cuidado ao baixar o ganho: se os ecos falsos não atrapalham a navegação, é melhor mantê-los — reduzir o ganho pode apagar também ecos de alvos pequenos potencialmente perigosos. O operador experiente sabe em que marcações esperar ecos falsos.

4.2 Alvos terrestres (§14.2.2)

O PPI mostra a costa de forma plana, mas não reproduz fielmente o litoral. A largura do feixe e o comprimento dos pulsos (que governam, respectivamente, a discriminação em marcação e em distância) distorcem os acidentes terrestres, gerando falsas linhas de costa. Por isso a imagem não coincide com a carta náutica da mesma área; topografia e condições de reflexão dificultam ainda mais a semelhança.

Fig. 14-24
Fig. 14-24 Figura 14.24 — distorções e falsas linhas de costa

Regra geral: quanto mais vertical a superfície refletora, mais forte o eco. Uma face em ângulo reto com o feixe — penhasco, montanha, alta colina — devolve eco forte; superfícies oblíquas, eco fraco; o mar só retorna eco quando há vagas. Superfície côncava focaliza o feixe de volta à antena; superfície convexa espalha a energia para outras direções. Reconhecer a massa de terra é fácil; o difícil é identificar acidentes específicos (cabos, pontas, reentrâncias) para fixar a posição.

Alvo terrestreAparência no radar
Restingas e praias baixasEco fraco (o feixe resvala sem voltar); às vezes só a arrebentação aparece, mas ela ocorre afastada da costa e induz erro — reconhece-se pela pequena persistência.
Dunas de areiaEco forte quando cobertas de vegetação; a duna vertical + praia horizontal forma um diedro refletor. Risco de confundir com a linha de costa — checar a carta.
Pântanos e manguesSinais fracos, que podem sumir na preamar; com árvores, ecos mais fortes.
Lagoas e lagosLagoas costeiras ajudam a identificar pontos (atrás de restingas); a grandes distâncias, surgem antes as elevações interiores. Lagos próximos à costa aparecem como áreas sem eco no meio da terra.
ElevaçõesSubida suave do terreno → eco fraco; ladeira mais acentuada (colina) → eco mais forte.
Penhascos e escarpasEco forte e nítido. Se toda a costa é escarpada (eco uniforme), usar ganho baixo e aproveitar embocaduras de rios/enseadas para achar pontos notáveis. Penhascos no interior podem ser confundidos com a linha de costa na medição.
MontanhasCume escarpado dá eco forte; por sombra radar, as regiões baixas atrás da montanha não retornam eco.
Linha de costa (reta)Difícil para posição precisa: só há pouca distorção onde o feixe incide perpendicular; para os lados, o eco se distende pela largura do feixe.
Praias encurvadasProblema mais simples; a distorção é mínima apenas nos pontos de incidência perpendicular.
Ilhas e rochedosIlha pequena isolada/rochedo → eco nítido e pequeno (medir tangenciando a borda interna). Ilhas baixas → eco fraco; com palmeiras formam diedro e reforçam. Recifes e cadeias de ilhas perpendiculares ao feixe → linha contínua (alargamento junta os ecos); vistas na longitudinal, cada ilha dá um "pip" separado.
Recifes e abrolhosObjeto submerso não dá eco; só aparecem se a arrebentação for alta o suficiente sobre eles.
Linhas de costa falsasSimuladas por rochedos/ilhotas próximos (ecos interligados), embarcações junto à costa, arrebentação forte em recifes, ou penhascos/dunas ao fundo de praia baixa.
Faróis, torres, chaminésResposta geralmente fraca (pedra/cimento; forma troncônica ou cilíndrica reflete mal). Se a costa é baixa e arenosa e o farol é alto, o eco pode ressaltar. Costumam levar refletor radar, RACON ou reforçador de eco.
PontesEco forte — em geral cruzam depressões que não produzem eco, realçando a ponte.
Píeres e molhesSinais nítidos e precisos a pequenas distâncias.
EdifíciosConcreto armado/metal dão boa resposta; paredes em ângulo reto com o solo formam triedro trirretângulo que devolve o eco à antena. Ecos de cidades a 25 milhas ou mais, muitas vezes antes da própria linha de costa. Edifícios isolados em costa baixa só servem se bem assinalados na carta.
Especular vs. triedro: as fachadas tendem a agir como superfícies especulares (refletem para outra direção), mas paredes em ângulo reto com o solo formam um triedro refletor que devolve o eco exatamente para a antena — por isso cidades aparecem fortes e cedo.

4.3 Alvos no mar (§14.2.3)

Os navios em geral dão bons ecos: o aço é ótimo refletor e as anteparas em ângulo reto com os conveses favorecem o retorno. O eco é mais forte com o alvo de través (ângulo do alvo 090° ou 270°). Embarcações de madeira ou fibra de vidro respondem mal e devem portar refletor radar. Determinar o movimento do alvo costuma resolver a dúvida sobre tratar-se ou não de um navio.

EmbarcaçãoDistância normal de detecção
Pequenos barcos de madeira0,5 a 4 milhas
Baleeirasaté 2 milhas
Traineiras6 a 9 milhas
Navios pequenos (até 1.000 ton)6 a 10 milhas
Navios de 10.000 ton10 a 16 milhas
Navios de 50.000 ton16 a 20 milhas
  • Boias: ecos fracos, pior ainda se abauladas ou cônicas sem refletor; as pequenas somem sob o menor retorno do mar. A ondulação faz a intensidade variar de varredura em varredura. Detecção: 0,5 a 1 milha (pequenas) e 2 a 4 milhas (maiores); 6 a 8 milhas com refletor radar. Reforço também com RACON e reforçador de alvo radar.
  • Arrebentações: uma linha de arrebentação simula a linha de costa; identifica-se pelo desvanecimento característico do sinal.
Boias não servem para posição precisa: tal como na navegação visual, podem ter saído do lugar por corrente, ressaca, ruptura do fundeio ou abalroamento — usar sempre com muita cautela.

5. Fenômenos meteorológicos e auxílios à navegação radar (§14.2.4–14.2.5)

Esta seção fecha o estudo da imagem radar com duas frentes: como o tempo (nuvens, precipitação, nevoeiro, vento, gelo) degrada a tela, e quais equipamentos foram criados para reforçar ou identificar alvos. Há um fio condutor que vale memorizar de saída: em quase tudo o que prejudica a imagem, o radar de 10 cm (banda S) sofre menos do que o de 3 cm (banda X), porque os menores comprimentos de onda são mais atenuados pelas partículas em suspensão.

5.1 Fenômenos meteorológicos (§14.2.4)

Nuvens. Algumas nuvens produzem ecos: grandes, de forma irregular e limites mal definidos, deslocando-se na direção do vento. A apresentação depende do tipo — cumulonimbus e formações carregadas de chuva dão ecos fortes, às vezes com contorno tão definido que parecem uma ilha (comum ao navegar em regiões tropicais). Nuvem sem chuva dificilmente é detectada. Se uma nuvem prejudica um alvo a acompanhar, reduz-se o ganho: os ecos fracos da nuvem somem e o eco mais forte do alvo persiste.

Chuva. Aparece como uma mancha sem contorno, aumentando a luminosidade da tela; quanto mais intensa, mais forte o eco. A chuva obscurece os alvos dentro dela, e um aguaceiro tropical pode impedir completamente a detecção de alvos situados nele ou além dele. Para tentar enxergar um alvo dentro da chuva: reduzir levemente o ganho (os ecos de chuva são mais fracos que os de um navio) e aplicar o FTC — neste caso o ganho deve ser levemente aumentado. Com o navio dentro da chuva, parte da energia é absorvida pelas gotas e o alcance diminui, tanto mais quanto maior a área coberta; o operador deve atuar continuamente em ganho e FTC.

Cegueira radar na chuva com mar agitado. Quando o navio está dentro de um aguaceiro e o mar está agitado, o clutter da chuva soma-se ao retorno do mar, podendo cegar completamente o radar. A solução não é insistir no equipamento: reduzir a velocidade e navegar como se estivesse em cerração, sem radar.

Granizo. Precipitação de pedaços de gelo, em geral esféricos, de milímetros até cerca de 10 cm, mais comum nas médias latitudes e de curta duração. Se a taxa de precipitação iguala a da chuva, a tela fica igual — mas isso só ocorre com pedras grandes, o que é raro. Em regra, a atenuação e o clutter do granizo são menores que os da chuva, e o operador deve atuar nos controles como se chovesse.

Neve. Cristais de gelo em flocos. A neve, salvo nas nevascas mais fortes, quase não aparece na tela como alvo, mas atenua as ondas radar e reduz o alcance. Às vezes é detectada com o radar de 3 cm, mas não com o de 10 cm. O efeito mais traiçoeiro é que a neve cobre e deforma os alvos, mascarando os ecos: a onda penetra na neve mas sofre forte absorção, e os ecos voltam fracos, dando apresentação indefinida. Quem se aproxima da costa após nevasca deve redobrar cuidados, recorrer a outros auxílios e usar o radar com precaução.

Nevoeiro, neblina, cerração e smog

A diferença entre nevoeiro e neblina é só de visibilidade: ambos são partículas d'água ou gelo em suspensão junto à superfície, mas chama-se nevoeiro quando a visibilidade cai para 1 km (0,54 milha náutica) ou menos; acima de 1 km, o nome correto é neblina. A bordo, usa-se cerração para os dois (leve, moderada ou fechada).

TermoVisibilidadeEfeito no radar
Neblinamaior que 1 kmpartículas absorvem energia → reduz o alcance
Nevoeiropara 1 km (0,54 MN) ou menosnão aparece na tela, salvo casos especiais; reduz alcance
Nevoeiro pesado100 m ou menosreduz o alcance radar a 60% do normal
Smog (névoa seca)ar poluído sobre cidadessem dados, mas presume-se redução do alcance por absorção

O nevoeiro em si não se faz presente na tela, salvo em casos especiais — com radar de 3 cm chegam a aparecer bancos de nevoeiro pesados, de grande densidade. Smog (de smoke + fog) é a cortina de ar poluído sobre grandes cidades, de origem industrial e automotiva.

Em resumo, pode-se afirmar que, em qualquer tipo de precipitação, seja chuva, granizo ou neve, e mesmo no caso de nuvens, nevoeiro, neblina ou smog, um radar de 10 cm (banda S) será menos afetado que um de 3 cm (banda X).

Vento. A influência do vento é praticamente indireta: ele atua pelo estado do mar que produz, pois as vagas geram os ecos de retorno do mar (clutter). Quanto mais altas e abruptas as vagas, mais forte o retorno. Como a potência do eco depende do ângulo de incidência do feixe, o clutter do mar é mais pronunciado a barlavento do que a sotavento.

Fig. 14-25
Fig. 14-25 Figura 14.25 — Clutter do mar (barlavento × sotavento)

Gelo. Os icebergs de água doce costumam ser detectados a tempo de manobra evasiva, com alcance dependente do tamanho: os do Ártico têm superfícies recortadas e facetadas (bons ecos); os tabulares antárticos, de tope plano e paredes verticais que ultrapassam 30 m, também são bons alvos. Grandes icebergs aparecem a 15 a 20 milhas com mar calmo, ainda que seu eco seja só 1/60 do de um alvo de aço equivalente; os menores, a 6 a 12 milhas. Já os bergy bits (4 a 5 m de altura) não passam de 3 milhas.

O ponto cego do radar com gelo. Flocos de gelo (ice floes) e growlers, formados por congelamento de água salgada, são muito baixos (até 2 m) e constituem alvo radar péssimo — com mar agitado o clutter pode mascará-los por completo, e com mar calmo raramente são vistos além de 2 milhas. O radar serve para icebergs e blocos grandes, mas a busca radar precisa ser complementada por vigilância visual constante, insubstituível para campos de gelo e growlers.

Tempestades tropicais, furacões, tufões e ciclones. Em qualquer de suas modalidades mais severas, produzem ecos bem definidos no radar. O uso do radar nas manobras frente a esses fenômenos é tratado no Volume III do Manual de Navegação.

5.2 Auxílios à navegação radar (§14.2.5)

Auxílios (ou instalações auxiliares) à navegação radar foram criados para ajudar a identificar um alvo ou para aumentar a intensidade dos ecos de objetos que, de outra forma, seriam de difícil detecção. Classificam-se pela maneira como atuam:

TipoComo atuaExemplos
Passivoapenas reflete a energia que incide sobre elerefletor-radar
Ativotransmite um sinal de RF recebido pelos radares de bordoRACON, RAMARK, RTE

Refletor-radar (passivo)

O refletor-radar é um auxílio passivo que aumenta a capacidade de resposta de um alvo para que seja detectado a maior distância: reflete a energia incidente de volta na direção da fonte emissora, dentro de limites amplos de ângulos de incidência. O método usual emprega duas ou mais superfícies planas em ângulo reto entre si, de modo que a energia retorne à fonte após múltiplas reflexões — daí o diedro refletor e o triedro trirretângulo refletor, normalmente formado por 3 triângulos isósceles em ângulos retos.

Fig. 14-26
Fig. 14-26 Figura 14.26 — Triedro refletor (retorno da energia)

Por vezes instala-se um grupo de refletores-radar, convenientemente dispostos para facilitar muito a detecção. Em sua maioria ficam em boias, mas também em sinais fixos (faróis, faroletes e balizas); embarcações de madeira e fibra de vidro devem portá-los para melhorar a resposta radar.

Fig. 14-27
Fig. 14-27 Figura 14.27 — Boias com grupo de refletores-radar

A IMO recomenda que todas as embarcações com menos de 100 toneladas de arqueação bruta sejam equipadas com refletor-radar.

O ganho de refletividade, medido pelo alcance radar em milhas, é expressivo — o refletor chega a mais que dobrar o alcance:

AlvoAlcance sem refletorAlcance com refletor
Boia comum1,5'3,5'
Boia cilíndrica3,5'7,0'
Baleeira3,0'7,0'
Barco de pesca2,0'6,0'

RACON (ativo)

RACON vem de Radar Beacon (ou Radar Transponder Beacon). É um auxílio ativo, instalado em farol, farolete, boia ou barca-farol, que — quando excitado por um radar de navegação — retorna automaticamente um sinal distinto na tela, dando identificação positiva do alvo e leitura precisa de marcação e distância. Em geral têm agilidade de frequência e dualidade de banda (dual band racon), respondendo tanto a 3 cm (banda X) quanto a 10 cm (banda S).

O pulso do radar de bordo é recebido pelo RACON, amplificado e dispara seu transmissor, que emite sinal onidirecional. A bordo, com a antena conteirada para o RACON, o sinal aparece geralmente em Código Morse, originando-se na posição do equipamento e estendendo-se radialmente para fora, em direção à periferia do PPI.

Fig. 14-28
Fig. 14-28 Figura 14.28 — Sinal RACON no PPI (Código Morse radial)

Como medir com o RACON. O primeiro traço ou ponto indica a posição do equipamento. A distância mede-se tangenciando a borda interna desse primeiro ponto/traço (a "margem mais próxima"); a marcação, ajustando o cursor no meio do sinal codificado.

Entre as aplicações do RACON: reforçar um sinal de aterragem (o primeiro visto vindo do mar aberto); identificar um acidente ou ponto local na navegação a curta distância; facilitar um alinhamento no radar (dois RACON, ou um RACON e um refletor, nos sinais anterior e posterior, permitem usar o alinhamento mesmo com má visibilidade); marcar o vão central de pontes; sinalizar novos perigos (um casco soçobrado, respondendo com a letra "D" em Morse, — · ·); indicar linha de costa inconspícua; e marcar estruturas ao largo, como plataformas de petróleo.

RAMARK (ativo)

RAMARK abrevia Radar Marker. Ao contrário do RACON, transmite continuamente ou a intervalos, sem precisar ser excitado pelo radar de bordo. A transmissão a intervalos é mais usada que a contínua, para que o PPI possa ser inspecionado periodicamente sem a mancha (clutter) do próprio sinal. Na tela, o RAMARK aparece como uma linha radial que parte do centro e se estende na direção do equipamento — contínua, em traços, em pontos, ou em pontos e traços.

Fig. 14-29
Fig. 14-29 Figura 14.29 — Sinal RAMARK no PPI (linha radial)

Por isso o RAMARK indica só a marcação, e tem a desvantagem de que seu sinal forte pode gerar ecos falsos na tela, atenuáveis com o controle FTC.

Não confunda RACON com RAMARK. O RACON responde ao pulso do radar (precisa ser excitado) e fornece marcação e distância, surgindo na posição do equipamento como sinal codificado em Morse. O RAMARK transmite sozinho (não é excitado) e fornece só a marcação, surgindo como linha radial a partir do centro da tela.

CaracterísticaRACONRAMARK
SignificadoRadar Beacon / Transponder BeaconRadar Marker
Disparoexcitado pelo pulso do radar de bordotransmite sozinho (contínuo ou a intervalos)
Aparência no PPIsinal Morse a partir da posição do equipamento, radial para foralinha radial a partir do centro da tela
Informação fornecidamarcação e distância (identificação positiva)apenas a marcação
Desvantagemsinal forte pode gerar ecos falsos (atenuar com FTC)

Radar Target Enhancer (RTE) (ativo)

O reforçador de alvo radar, ou RTE (Radar Target Enhancer), é um auxílio ativo que recebe o pulso radar, amplifica e retransmite como eco reforçado — sem nenhuma codificação. Serve para aumentar a seção radar e a capacidade de resposta de alvos importantes (boias e outros auxílios) e também de pequenas embarcações, em especial as de fibra de vidro e madeira.

7. Fundeio de precisão e navegação paralela indexada (§14.3.5–14.3.6)

7.1 Fundeio de precisão com o radar (§14.3.5)

Em baixa visibilidade, o radar pode ser o único auxílio disponível para um fundeio de precisão. Procedimentos seguros e bem definidos são essenciais, sobretudo quando vários navios de uma Força fundeiam na mesma área ou em portos congestionados. O objetivo é largar o ferro exatamente sobre o ponto determinado, com o máximo de precisão.

Preparação da carta náutica

Como no fundeio visual, a preparação é cuidadosa. Em torno do ponto de fundeio traça-se um círculo de segurança, cujo raio é o filame (comprimento de amarra a largar, função da profundidade e da natureza do fundo) somado ao comprimento do navio. Nenhum perigo pode ficar dentro desse círculo, com atenção especial a outros navios fundeados e a baixas profundidades.

Fig. 14-40
Fig. 14-40 Figura 14.40 — círculo de segurança

Elemento traçadoDefinição
Círculo de segurançaRaio = filame + comprimento do navio; nenhum perigo dentro dele.
Círculo de "largar o ferro"Raio = distância horizontal dos peloros ao escovém (ou, no radar, da antena ao escovém). Considerado o "zero".
Círculos de distânciaA partir do círculo de "largar o ferro": a cada 100 jardas até 1.000 jd; depois 1.200, 1.500 e 2.000 jd.
Derrota de aproximaçãoRumo escolhido para ter pela proa um alvo conspícuo no radar; a distância a ele indica a distância a navegar até o ponto de fundeio.

A derrota de aproximação deve apontar a proa para uma referência conspícua — por exemplo, uma ponta no radar — de modo que a distância a ela indique continuamente quanto falta navegar. A aproximação final, sempre que possível, é feita com o navio aproado à corrente (ou ao vento, se este predominar).

Fig. 14-41
Fig. 14-41 Figura 14.41 — derrota de aproximação ao fundeio

Determinam-se ainda as distâncias de referência: uma pela proa (para a referência do rumo final) e outra tão pelo través quanto possível. Como no fundeio visual, o traçado leva em conta os dados táticos do navio (avanço e afastamento) das guinadas planejadas, obtidos das curvas de giro para as velocidades e ângulos de leme pretendidos.

Execução

Durante a execução, a posição radar do navio é determinada seguidamente para confirmar que a derrota planejada está sendo cumprida. À medida que os círculos de distância são atingidos, o Comandante é informado para ajustar a velocidade, de modo que o navio esteja parado ao alcançar o ponto de fundeio. Nesse instante a antena do radar deve estar sobre o círculo de "largar o ferro", a uma distância do ponto de fundeio igual à distância horizontal antena–escovém (75 jardas no exemplo da Fig. 14.41).

Mesmo com boa visibilidade, o radar é útil no fundeio quando faltam pontos notáveis à navegação visual ou quando há navios fundeados próximos (para manter distância segura deles). Após a faina, ajuda a controlar a posição e detectar se o navio está garrando, especialmente em baixa visibilidade.

O fundeio de precisão com radar também pode empregar os conceitos de navegação paralela indexada, tratados a seguir.

7.2 Navegação paralela indexada — conceito (§14.3.6)

A navegação paralela indexada emprega retas paralelas ao rumo no fundo do navio, traçadas na carta e na tela do radar, para controlar a posição relativa à derrota planejada e indicar áreas de perigo. Sua vantagem sobre a navegação radar elementar é prover, em tempo real, o afastamento da derrota e a aproximação de áreas perigosas.

Na repetidora, as posições sucessivas do navio mostram seu deslocamento sobre a derrota: enquanto a ilha se mantém no través de boreste o navio segue na derrota; quando o eco se distancia da reta, há afastamento. O afastamento exato é medido entre o eco da referência (ex.: a ilha) e o ponto mais próximo da reta paralela indexada, traçada na repetidora com lápis de cera. Para facilitar, constroem-se escalas graduadas para cada escala da repetidora.

Fig. 14-42
Fig. 14-42 Figura 14.42 — reta paralela indexada

7.3 Preparação

Radar

Busca-se a melhor apresentação possível na escala mais curta da repetidora — escalas maiores que 6 milhas raramente são usadas em águas restritas. Opera-se em pulso curto (short pulse) e faixa estreita (narrow bandwidth), que aumentam a discriminação de distância e melhoram a resolução.

  • Supressores e ganho: A/C RAIN, A/C SEA, STC, FTC, brilho e ganho eliminam chuva, retorno do mar e ecos falsos — mas com cuidado para não apagar pequenos contatos (boias, balizas, embarcações).
  • Ajustes frequentes: distância às superfícies refletoras e condições de propagação variam ao longo da derrota, exigindo reajuste constante de brilho e ganho.
  • Centragem: apresentação descentralizada gera erros de marcação; a marca de proa (SHM) é verificada contra uma repetidora da giro sem erro, e a orientação é conferida comparando marcações radar e visual de pontos conspícuos.

A boa linearidade da repetidora é pré-requisito da navegação paralela indexada precisa. Verifica-se com um compasso, comparando fisicamente a distância entre os anéis de distância em cada escala (ou usando as próprias paralelas da repetidora). Se os anéis não forem equidistantes em alguma escala, há falta de linearidade. Numa repetidora não-linear ainda se obtêm distâncias radiais e marcações corretas — os erros surgem nas medidas entre dois pontos no PPI, não nas radiais.

Fig. 14-43
Fig. 14-43 Figura 14.43 — linearidade do display

Desvantagem: a navegação paralela indexada precisa requer uma repetidora com boa linearidade. Sem ela, as distâncias medidas entre dois pontos do PPI ficam erradas, ainda que distâncias radiais e marcações permaneçam confiáveis.

O erro de distância da repetidora é determinado para cada escala antes de suspender; as correções são anotadas a lápis de cera na periferia do PPI e já incorporadas a todas as distâncias informadas. Quando a repetidora não permite descentrar o cursor de distância, constroem-se escalas graduadas em milhas (subdivididas em décimos ou centenas de jardas) para medir distâncias entre pontos com o compasso.

Carta náutica

Aplicam-se as considerações normais de escolha de derrota, com fatores adicionais. A padronização de símbolos é essencial: retas paralelas indexadas principais em linha contínua, retas de segurança tracejadas, curvas de guinada pontilhadas.

Símbolo na cartaRepresenta
Linha contínuaRetas paralelas indexadas principais
Linha tracejadaRetas de segurança
Linha pontilhadaCurvas de guinada
  • Menos mudanças de rumo: cada uma exige novo traçado de retas na repetidora, em prejuízo da avaliação da situação e do assessoramento ao Comando.
  • Escala vs. precisão: escala mais curta dá maior precisão, mas os pontos de terra passam rápido, exigindo retraçado frequente.
  • Retas em ambos os bordos: sempre que possível, retas paralelas dos dois lados da derrota — segurança contra erro de identificação e indicador de erro de distância ou falta de linearidade.
  • Ponto de troca de paralela: definir onde mudar de uma referência para a próxima, com tempo suficiente para a troca seguinte.

No exemplo, muda-se da Ponta 1 para a Ponta 4 na posição A, com tempo para a troca seguinte (Boia 2 para o Píer 3) na posição B, quando a Boia 2 atinge o limite externo da tela.

Fig. 14-44
Fig. 14-44 Figura 14.44 — traçado da derrota e retas indexadas

Retas de segurança

Conjuntos completos de retas de segurança, com suas distâncias às paralelas indexadas e à derrota, são traçados na carta — indicam o quanto o navio pode se afastar com segurança. No PPI usam-se apenas as de importância imediata enquanto se segue a derrota; havendo afastamento (para evitar outro navio, avaria, homem ao mar etc.), traça-se prontamente um conjunto completo na repetidora.

Fig. 14-45
Fig. 14-45 Figura 14.45 — retas de segurança

ReferênciaParalela indexadaProfundidade segura até
Ilha A0,7' por BB0,2' (400 jd) a BB
Ponta B0,5' por BE0,1' (200 jd) a BE
Píer0,4' (800 jd) por BE

A figura indica ainda 5 M de distância ao destino quando a ilha A estiver no través, e 4 M quando o píer estiver no través.

Erro de distância

O erro de distância varia com frequência (oscilações de voltagem, temperatura interna do equipamento), por isso deve ser determinado em todas as oportunidades da travessia. Com preparação prévia, a determinação leva cerca de dez segundos, evitando que a verificação seja esquecida.

Mede-se a distância radar, com a maior precisão, entre dois pontos de terra conspícuos representados na carta, no instante em que o navio passa no alinhamento entre eles. A soma das duas distâncias radar, comparada com a distância da carta, indica o dobro do erro (pois foram usadas duas distâncias).

Fig. 14-46
Fig. 14-46 Figura 14.46 — obtenção do erro de distância

GrandezaValor
Ponta A (distância radar)2,1 M
Baliza (distância radar)2,3 M
Distância radar entre Ponta A e Baliza4,4 M
Distância na carta entre Ponta A e Baliza4,2 M
Diferença entre as distâncias0,2 M
Erro de distância0,1 M (a subtrair)

Mudanças de rumo

O ponto de início de guinada é estabelecido e plotado como na navegação visual, levando em conta os dados táticos do navio (avanço e afastamento). A figura mostra o ponto de guinada, as retas paralelas indexadas e as retas de segurança para as duas pernadas da derrota.

Fig. 14-47
Fig. 14-47 Figura 14.47 — planejamento da guinada

7.4 Traçado no PPI, identificação e manobra

Traçado no PPI

O Oficial de Navegação deve manter-se adiantado, traçando o próximo conjunto de retas tão logo as em uso possam ser apagadas. As retas são traçadas o mais leve possível, para não obscurecer os ecos; lápis "Omnichrome" (azul, vermelho, amarelo) rendem melhor que os de cera comuns. Cada reta é identificada abreviadamente, com a escala aplicável, e é traçada paralela ao rumo no fundo — nunca à proa ou à proa esperada.

Croquis de partes notáveis da derrota, extraídos da carta, evitam que o Oficial se afaste do PPI para consultá-la; esquemas do traçado do PPI feitos no planejamento ajudam a prevenir erros na travessia. As profundidades mínimas esperadas merecem anotação em destaque.

Fig. 14-48
Fig. 14-48 Figura 14.48 — croqui da derrota

Identificação de ecos radar

Para identificar um eco, é melhor referenciá-lo pela distância e marcação a outro eco de ponto de terra já identificado do que ao navio, cuja posição pode não estar precisa naquele instante.

Comentários e sugestões para a manobra

O responsável mantém um fluxo contínuo, preciso e completo de informações ao Comando. Silêncios longos ativam a ansiedade no passadiço; informações irrelevantes em sequência são igualmente indesejáveis. As sugestões de mudança de rumo vêm com o motivo (salvo emergência), por exemplo: "dois minutos para o ponto de guinada, boreste 120°, para contornar o quebra-mar".

  • Informar regularmente a posição relativa à derrota — se fora, o bordo, o quanto e se está retornando.
  • Informar detalhes de auxílios à navegação e pontos notáveis esperados.
  • Informar limitações de manobra (ex.: "águas safas até 500 jd a BE e 800 jd a BB na próxima milha e meia").
  • Acompanhar alvos que se aproximam — movimento de marcações e "rate" de variação de distâncias.
  • Informar os resultados das verificações de erro de distância e de alinhamento radar.

Posições radar

Os "marques" têm intervalo que assegure posições radar suficientes à navegação precisa, o que muitas vezes conflita com outras tarefas do operador. Nas repetidoras com strobe sobre a varredura, usar os anéis de distância é mais rápido mas perde precisão ao interpolar. Método eficiente: marcar a lápis de cera os pontos selecionados no instante do "marque" e ler depois as distâncias com o strobe — evita o erro do movimento do navio e permite rápida confirmação se a plotagem não der boa posição.

Mudanças de rumo

Convém adotar uma rotina para mudar de rumo:

  • Verificar se a área está safa para a mudança (reportar).
  • Sugerir a guinada.
  • Verificar se as ordens ao timoneiro refletem o sugerido.
  • Observar o comportamento (rate) da guinada.
  • Quando "a caminho", sugerir correções de rumo para posicionar sobre a derrota.
  • Informar alvos, boias etc.

7.5 Fundeio de precisão com navegação paralela indexada

O fundeio com paralela indexada é uma extensão da técnica anterior. A aproximação usa o mesmo princípio: escolher pontos radar conspícuos (se possível um em cada bordo da derrota) para traçar as retas paralelas indexadas; prever retas de segurança se necessário; e adotar um rumo final com um ponto conspícuo pela proa, que serve de referência ao fundeio a uma distância determinada.

Fig. 14-49
Fig. 14-49 Figura 14.49 — fundeio de precisão com paralela indexada

No exemplo, o rumo final é 290°, com uma ilha conspícua como referência de proa; o ponto de fundeio está a 1 milha da ilha e há um píer por BE útil para traçar a paralela. O procedimento:

PassoAção
1) CartaTraçar o rumo final 290° e plotar o ponto de fundeio a 1 milha da ilha; traçar a reta paralela à extremidade do píer e medir sua distância à derrota.
2) RepetidoraAlinhar o cursor de paralelas na direção da derrota (290°).
3) TelaCom as linhas do cursor como guia, traçar a reta paralela indexada à distância do centro do PPI determinada no passo 1 — representa a linha de movimento relativo do píer se o navio estiver na derrota.
4) Marca LGNa linha central do cursor, marcar a 1 milha do centro e registrar LG (ponto de largada do ferro; sua distância ao ponto de fundeio = distância horizontal antena–escovém).
5) SubdivisãoMarcar outro ponto 1 milha além de LG e subdividir essa milha, conforme a figura.

Estando o navio na derrota, a reta paralela traçada na repetidora tangencia a imagem radar da cabeça do píer, que se mantém sobre a paralela enquanto o navio segue a derrota. Se o navio desviar, a imagem do píer afasta-se da reta e o rumo é corrigido até a extremidade do píer retornar a ela.

A referência de proa indica a distância ao ponto de fundeio: quando a marca "1" alcança a borda interna do "pip" da ilha, falta 1 milha; com a marca "0,5" tocando o "pip", restam 0,5 milha (1.000 jardas); e assim por diante. O ferro é largado com o navio parado, quando a marca LG toca a borda interna do "pip" da ilha — isto é, com o navio exatamente a 1 milha da ilha.

8. Uso do radar para evitar colisão — movimento relativo e rosa de manobra (§14.4.1–14.4.3)

O radar é recurso fundamental para evitar colisões no mar, sobretudo com visibilidade restrita: permite detectar outros navios cedo, com tempo para avaliar a situação e manobrar com segurança segundo as regras de navegação.

8.1 Movimento relativo (§14.4.1)

A imagem radar (estabilizada ou não) é sempre uma apresentação em movimento relativo: o próprio navio fica fixo no centro do PPI e todos os alvos aparecem com o movimento que têm em relação a esse navio. Por isso é essencial dominar os fundamentos do movimento relativo.

O movimento verdadeiro (ou absoluto) de um navio é dado pelo seu rumo verdadeiro e velocidade tomados em relação a um ponto fixo na Terra. Já o movimento descrito em relação a outro objeto que também se desloca chama-se movimento relativo, definido por dois elementos: a Direção do Movimento Relativo (DMR) e a Velocidade do Movimento Relativo (VMR). Cada forma de movimento — verdadeiro ou relativo — é representada por um vetor com direção e grandeza.

O exemplo do livro fixa o conceito. O navio A navega no rumo verdadeiro 000°, a 15 nós, e observa o navio B no PPI: inicialmente na marcação 180°, distância 4 milhas. À medida que A vai de A1 a A3, B passa por 134°/3,8 mi e depois 104°/5,5 mi. O navio B, por sua vez, navega no rumo 026° a 22 nós e vê A mudar de 000°/4 mi para 314°/3,8 mi e 284°/5,5 mi. Cada um vê o outro mover-se em relação a si — o mesmo encontro, duas leituras distintas.

Fig. 14-50
Fig. 14-50 Figura 14.50 — movimento relativo entre 2 navios

Plotando no PPI as posições sucessivas do alvo (com o próprio navio fixo no centro), obtém-se a plotagem relativa. Para o operador de A, é como se A estivesse parado e B percorresse o caminho aparente B1→B2→B3, do qual se lê DMR = 063°. Para o operador de B, é como se B estivesse parado e A percorresse A1→A2→A3, com DMR = 243°.

Fig. 14-51
Fig. 14-51 Figura 14.51 — plotagem relativa e DMR

Não confunda: o caminho traçado pela plotagem relativa em cada PPI não representa o movimento verdadeiro (rumo e velocidade reais) do outro navio. Para obter rumo e velocidade verdadeiros do alvo são necessários cálculos adicionais, combinando vetores relativos e verdadeiros.

Os dois elementos saem da própria plotagem. A DMR é lida diretamente sobre a plotagem relativa — atenção ao sentido correto, para não tomar a recíproca (no exemplo, 063° para o alvo B). A VMR resulta da distância relativa percorrida pelo intervalo de tempo: se B vai de B1 a B3 cobrindo 11 milhas em 1 hora, a VMR é de 11 nós.

8.2 Método do movimento relativo (§14.4.2)

O método divide-se em duas construções gráficas complementares: o diagrama das posições relativas e o diagrama de velocidades.

a. Diagrama das posições relativas

Nele, o navio de referência fica num ponto fixo no centro, designado pela letra R. O outro navio — o alvo ou contato, chamado de navio manobrador — é a letra M, e suas posições sucessivas recebem índices (M1, M2, M3...). É a contrapartida exata do que o radar de R mostra na tela.

Convém separar as duas leituras possíveis do mesmo encontro: a plotagem geográfica (ou verdadeira) registra os movimentos absolutos de R e de M sobre a carta; a plotagem relativa registra apenas o deslocamento de M em relação a R, com R imóvel no centro.

Fig. 14-52
Fig. 14-52 Figura 14.52 — plotagem geográfica e relativa
Fig. 14-53
Fig. 14-53 Figura 14.53 — plotagem relativa

O diagrama é construído mantendo R fixo e plotando M (M1...M5) pelas marcações verdadeiras e distâncias obtidas em R. Dele se extraem quatro elementos:

ElementoO que é / como obter
DMRO rumo do movimento relativo, medido diretamente sobre a plotagem relativa. Na Fig. 14.53, DMR = 275°.
Distância relativaDistância percorrida pelo movimento relativo de M entre posições sucessivas; medida na mesma escala da plotagem.
VMRDistância relativa percorrida por unidade de tempo (distância relativa ÷ intervalo).
PMAPonto de Maior Aproximação — obtido traçando de R uma perpendicular à DMR; o PMA é a interseção dessa perpendicular com a plotagem relativa.

O Ponto de Maior Aproximação (PMA) é o elemento mais importante para a segurança: marca o ponto em que R e M estarão mais próximos um do outro caso ambos mantenham rumo e velocidade. Sua marcação e distância saem direto do diagrama; a hora em que ocorre é obtida à parte. A Fig. 14.54 traz a mesma situação plotada já sobre a Rosa de Manobra, com o PMA assinalado.

Fig. 14-54
Fig. 14-54 Figura 14.54 — plotagem relativa na rosa de manobra

b. Diagrama de velocidades (triângulo t-r-m)

A DMR e a VMR ligam-se aos rumos e velocidades reais dos dois navios pelo triângulo das velocidades (ou diagrama vetorial). Retomando os dados — R no rumo 000° a 15 nós e M no rumo 026° a 22 nós — a construção parte do ponto de origem t, no centro, e usa três vetores:

VetorRepresenta
t → rMovimento verdadeiro do navio de referência R (direção 000°, grandeza 15).
t → mMovimento verdadeiro do alvo M (direção 026°, grandeza 22), na mesma escala.
r → mMovimento relativo de M em relação a R: sua direção é a DMR e sua grandeza é a VMR.

O atalho prático: traçam-se tr e tm a partir de t e liga-se r a m. A DMR é a direção da linha rm, sempre tomada no sentido de r para m; a VMR é a grandeza de rm na mesma escala. No exemplo, obtêm-se DMR = 063° e VMR = 11 nós — coincidindo com o lido na plotagem.

Fig. 14-55
Fig. 14-55 Figura 14.55 — vetor do movimento relativo

A escala de velocidades do diagrama de velocidades é independente da escala de distâncias da plotagem relativa. E o triângulo funciona ao contrário: conhecidos o vetor de R (tr) e o do movimento relativo (rm), constrói-se o vetor do alvo (tm) e obtêm-se rumo e velocidade verdadeiros de M.

8.3 Rosa de Manobra (§14.4.3)

Para facilitar essas construções usa-se uma folha de plotagem especial, a Rosa de Manobra, publicada pela Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN). É um diagrama polar com linhas radiais e círculos concêntricos igualmente espaçados.

O círculo externo é graduado de grau em grau, de 000° a 360°, no mesmo sentido das rosas das agulhas (com graduação interna recíproca), servindo ao traçado de rumos e marcações; as radiais aparecem a cada 10°. As circunferências concêntricas, graduadas de 1 a 10, permitem plotar distâncias e velocidades. À direita há 5 escalas (1:1, 2:1, 3:1, 4:1 e 5:1) — sempre se usa a maior escala possível para mais precisão (a 1:1 é 5 vezes maior que a 5:1). Um ábaco de três linhas (velocidade, distância, tempo) e uma escala logarítmica resolvem rapidamente o terceiro elemento a partir de dois conhecidos.

A notação é padronizada: o centro é t; a extremidade do vetor de velocidade de R é r; a do navio manobrador é m; as posições relativas do alvo são M1, M2, M3... Vetores sempre marcados com seta, e o vetor do movimento relativo do alvo é tomado sempre de r para m. A posição de R é sempre o centro, e os vetores de velocidades verdadeiras nascem todos do centro.

Para a plotagem pode-se usar qualquer intervalo entre posições de M, mas dois valores facilitam os cálculos: a Regra dos Três Minutos (velocidade em nós = distância em jardas percorrida em 3 min ÷ 100) e a Regra dos Seis Minutos (velocidade em nós = distância em milhas em 6 min × 10).

Sinal de alarme: um contato com marcação constante e distância diminuindo está em rumo de colisão. Mesmo quando as marcações variam pouco — por imprecisão das medidas — um alvo fechando nessas condições exige toda a atenção: deve-se admitir que há risco de colisão.

Na prática, os erros de medida raramente deixam uma reta passar por todas as posições plotadas. A DMR é então obtida "filtrando" os pontos: traça-se a reta de modo que fiquem bem distribuídos, o mais próximo possível dela, para ambos os lados.

9. Resolução de problemas, plotagem em tempo real, ARPA e movimento verdadeiro (§14.4.4–14.6)

Com a plotagem na Rosa de Manobra dominada, o radar deixa de ser só um sensor de posição e vira ferramenta tática para evitar colisões. As próximas subseções fecham o capítulo: como o método do movimento relativo resolve problemas concretos de cruzamento, como plotar direto na tela quando o tempo é curto, como o ARPA automatiza tudo isso, e o que muda quando a apresentação é em movimento verdadeiro.

9.1 Resolução de problemas de movimento relativo (§14.4.4)

O método tem aplicações táticas amplas (especialmente em navios de guerra em grupo ou em combate), mas aqui interessa o uso para evitar colisões no mar. O procedimento é sempre o mesmo: plotar as posições sucessivas do contato na Rosa de Manobra, montar o diagrama das posições relativas e o diagrama de velocidades, e extrair os elementos da situação.

De cada problema obtêm-se cinco grandezas-chave: a DMR (direção do movimento relativo), a VMR (velocidade relativa), o PMA (ponto de maior aproximação — marcação, distância e hora), além do rumo e da velocidade verdadeiros do alvo. Esses números bastam para decidir se há risco e qual manobra adotar.

Sinal de rumo de colisão: um alvo cuja marcação permanece constante enquanto a distância diminui está em rota de colisão com o navio. Esse é o caso mais perigoso e deve ser identificado de imediato, antes mesmo de completar o diagrama de velocidades.

A decisão de manobra apoia-se nesses elementos: havendo risco, o navio pode guinar para boreste ou bombordo, ou reduzir (ou parar) as máquinas, escolhendo a opção que mais aumenta a distância de passagem. Quando o navio reduz a velocidade ou para, o movimento relativo de qualquer contato no PPI gira para vante (para a proa), tendendo a fazer o alvo cruzar a proa com segurança. A análise deve respeitar o RIPEAM: identifica-se qual navio tem preferência e qual deve manobrar.

O livro traz 11 problemas resolvidos, cobrindo os tipos de pergunta típicos da prova prática:

Tipo de problemaO que se pede
Determinação básica de elementosDe duas (ou mais) posições do contato, obter DMR, VMR, PMA, rumo e velocidade do alvo.
Rumo de colisãoReconhecer pela marcação constante e distância decrescente que o alvo colidirá, e estimar a hora.
Corte de proa/popaVerificar se o alvo cortará a proa ou a popa do navio, a que distância e a que hora.
Identificação de alvo fixoDistinguir, entre vários ecos, qual é a barca-farol/boia (alvo parado) a partir do próprio movimento relativo.
Manobra de evasão por guinadaAchar o novo rumo para passar a uma distância mínima definida (por exemplo, 2,5 milhas) da popa ou da proa do contato.
InterceptaçãoDeterminar o rumo de interceptação e a hora em que se alcançará outro navio.
Vento verdadeiroPelo mesmo diagrama vetorial, obter direção e velocidade do vento real a partir do vento aparente (anemômetro).

Regra prática de evasão: sempre que dois pontos de interseção existirem no diagrama, há duas soluções de rumo. Em interceptação, escolhe-se normalmente a que produz maior VMR, para reduzir o tempo até o encontro. Em evasão, escolhe-se a tangente que afasta o navio do contato.

Atalho para reconhecer um alvo parado (boia, barca-farol ou navio fundeado): seu movimento relativo tem rumo exatamente oposto ao do próprio navio e velocidade igual à do navio. Dá para concluir isso direto na tela, sem completar o diagrama de velocidades — foi assim que se identificou a barca-farol entre dois ecos próximos, na aterragem sob nevoeiro.

9.2 Plotagem radar em tempo real (§14.4.5)

Em áreas de tráfego denso, a tela mostra muitos contatos ao mesmo tempo e exige avaliação rápida — situação que se agrava à noite ou sob visibilidade restrita. Nesses casos, resolver os problemas de movimento relativo diretamente sobre a tela, num plotador de reflexão instalado sobre a repetidora, é muito mais ágil. Esse método rápido chama-se plotagem radar em tempo real: marca-se a posição de cada contato sobre o próprio PPI e traça-se ali o seu movimento relativo.

A primeira preocupação é checar as marcações dos alvos que se aproximam, pois marcação constante com distância diminuindo indica risco de colisão. Para a avaliação ser confiável, a apresentação deve estar estabilizada pela agulha giroscópica; com apresentação não-estabilizada a leitura fica muito difícil. Havendo necessidade de manobrar, decide-se qual das quatro manobras básicas — guinar BE, guinar BB, aumentar a velocidade, ou reduzir/parar as máquinas — ou qual combinação afasta melhor o navio dos contatos.

O livro ilustra o método com duas situações de 5 e 3 contatos plotados sobre o PPI, cada um com seu movimento relativo, permitindo decidir a manobra sem precisar calcular os rumos verdadeiros de todos na Rosa de Manobra.

Fig. 14-67
Fig. 14-67 Figura 14.67 — acompanhamento de contatos
Na primeira situação (navio no rumo 000°, 20 nós, escala de 12 milhas), 5 contatos A–E são plotados nos minutos 00 e 06. A leitura direta da tela revela que basta reduzir a velocidade (ou parar momentaneamente as máquinas) para se afastar de todos os cinco: o contato em rumo de colisão cruza a proa com segurança e, depois, retoma-se a velocidade anterior.

Fig. 14-68
Fig. 14-68 Figura 14.68 — acompanhamento de contatos na manobra
A segunda situação mostra como antecipar o efeito de uma guinada: traçam-se sobre o PPI os vetores do rumo/velocidade inicial (tr) e do novo rumo/velocidade (tr₁), deslocam-se as posições iniciais dos contatos pela diferença r→r₁ e reconectam-se às posições finais, obtendo as novas linhas de movimento relativo. Assim verifica-se, antes de guinar, se o novo rumo produzirá PMA aceitáveis para todos os alvos.

Vantagem do método: permite evitar contatos múltiplos diretamente na repetidora, com rapidez, sem ter de resolver na Rosa de Manobra os rumos verdadeiros e velocidades de cada alvo.

Limitação: depende de apresentação estabilizada pela giro; com apresentação não-estabilizada a avaliação por marcação relativa fica muito difícil. É leitura aproximada, comparada aos anéis de distância — não substitui o cálculo formal quando há tempo.

9.3 Sistemas automáticos de radar anticolisão — ARPA (§14.4.6)

Os navios modernos empregam sistemas radar com acompanhamento e processamento automático de contatos, que resolvem a cinemática de interesse para a segurança e fornecem ao Oficial de Quarto as indicações para manobrar. Nos sistemas integrados mais avançados, podem até comandar o giropiloto e/ou as máquinas. Genericamente chamam-se ARPA (Automatic Radar Plotting Aids) — auxílios automáticos de plotagem radar. Item 30.1 do edital (Anexo 2-A).

O ARPA reduz o tempo da plotagem manual (na repetidora ou na Rosa de Manobra) e diminui o risco de erro humano, causa de inúmeros acidentes. Fornece automaticamente o rumo verdadeiro, a velocidade e os elementos do PMA (distância e hora) dos alvos, com alarme áudio e visual para contatos em rumo de colisão. O cálculo começa assim que o alvo é detectado, independentemente da escala ajustada no PPI: um contato adquirido a 17 milhas tem solução completa computada em cerca de 2 minutos, de modo que ao entrar na escala de trabalho seus elementos já estão prontos.

Recurso do ARPAO que faz
Aquisição de alvosAutomática (e também manual): aquisição e processamento automático de ecos.
Capacidade simultâneaExamina todos os ecos relevantes em cada varredura (cerca de 200 em alguns sistemas), atualizando os dados.
VetoresMostra os ecos mais próximos (até 40 em certos sistemas) com seus vetores (verdadeiros ou relativos).
Cálculo de CPA/TCPAMovimento relativo, posição, rumo, velocidade e PMA (distância e hora) informados instantaneamente.
Alarme / zona de guardaAlarme de risco de colisão pela distância de PMA selecionada pelo operador, independente da escala do PPI.
Apoio à decisãoProvê mais tempo para manobrar e indica os resultados de diversas manobras imaginadas.

O ARPA não dispensa o navegante. Por serem sistemas complexos, estão sujeitos a falhas: podem dar indicações falsas ou deixar de detectar ecos. É preciso combater a tendência de aceitar as informações do aparelho sem contestação. O computador aumenta o conhecimento da situação, mas não substitui a avaliação constante nem a vigilância visual permanente.

Os elementos calculados pelo ARPA traduzem para a tela exatamente as grandezas que a plotagem manual obtinha na Rosa de Manobra — DMR, VMR e PMA —, agora atualizadas a cada varredura. É a automação do mesmo raciocínio cinemático.

9.4 Apresentação em movimento verdadeiro (§14.5)

Com a difusão de equipamentos que operam em movimento verdadeiro, a tela passa a mostrar o deslocamento real de cada alvo, e não o movimento aparente relativo ao próprio navio. Para isso, o equipamento precisa receber o rumo e a velocidade do próprio navio — entradas da agulha giroscópica (giro) e do odômetro — e os combina com os ecos para reconstituir o movimento verdadeiro dos contatos.

AspectoMovimento relativoMovimento verdadeiro
O que a tela mostraO movimento dos alvos em relação ao próprio navio (que aparece fixo no centro).O movimento real de cada alvo no mar (rumo e velocidade verdadeiros).
Entradas necessáriasApenas os ecos; estabilização pela giro recomendada.Ecos + rumo/velocidade do próprio navio (giro + odômetro).
Alvos em rumo de colisãoFáceis de reconhecer: marcação constante, distância diminuindo.Difíceis de perceber, salvo os que vêm pela proa ou pela popa.
Alvos parados (boias, fundeados)Têm movimento aparente, o que confunde.Aparecem sem movimento, facilitando o reconhecimento de boias e navios fundeados.
Continuidade da imagemO próprio navio fica sempre no centro.Há interrupções: ao alcançar a borda do PPI, o navio precisa ser reposicionado.

A vantagem principal do movimento verdadeiro é eliminar o movimento aparente de alvos parados, o que facilita reconhecer boias e navios fundeados. Por isso é adequado a canais estreitos e longos de tráfego não-intenso, onde o essencial é reconhecer boias ou balizas nas margens.

Limitações do movimento verdadeiro: alvos em rumo de colisão não são facilmente percebidos (exceto pela proa/popa); há interrupções no controle a cada reposicionamento do navio na borda do PPI; e é mais difícil determinar com precisão a correção de corrente e vento.

Cuidados operacionais: não usar duas repetidoras simultâneas, uma em movimento verdadeiro e outra em relativo, para evitar confusão. E é engano achar que se navega com segurança em águas restritas usando movimento verdadeiro sem ter a devida prática em movimento relativo. O reposicionamento na pernada deve ser planejado e nunca deixado para o último instante.

9.5 Sumário do capítulo (§14.6)

O radar é ferramenta fundamental na navegação costeira e em águas restritas: é o único instrumento geralmente disponível capaz de fornecer LDP precisas mesmo sob visibilidade restrita ou no escuro. Suas principais vantagens: pode ser usado de noite ou com pouca visibilidade, quando os métodos visuais falham; obtém posições com rapidez e precisão; permite até uma posição com um único ponto de apoio (marcação + distância radar, embora não recomendado); alcança maiores distâncias da costa que a maioria dos métodos; e detecta, localiza e acompanha outros navios e perturbações atmosféricas (furacões, tufões, ciclones).

As limitações também são reconhecidas: é instrumento eletrônico complexo, dependente de energia e sujeito a falhas; tem menor precisão que certos métodos (as marcações visuais costumam ser mais precisas); sua imagem é às vezes difícil de interpretar; o alcance mínimo é limitado pela reverberação do retorno do mar perto do navio; e é suscetível a interferências naturais ou deliberadas (bloqueio).

Regra de ouro contra colisão: em baixa visibilidade, ao detectar pelo radar outro navio em rumo de colisão, manobrar sempre com ampla antecedência. Diferente do contato visual — em que o avistamento é recíproco —, na detecção radar não há garantia de que o outro navio também o esteja enxergando.

Em síntese: o radar não é panaceia, mas seu uso inteligente — na navegação costeira, em águas restritas e como meio de evitar colisões — auxilia muito o navegante a conduzir o navio com segurança.

O Apêndice ao Capítulo 14 traz 3 exercícios de plotagem radar em tempo real, cada um com uma tela esquematizada de contatos (5, 5 e 7 alvos) e questões de múltipla escolha para treinar a identificação de rumo de colisão, efeito de guinadas e reconhecimento de alvos parados.