NV Cap. 2 — Projeções Cartográficas e a Carta Náutica

1. Visão geral

O Capítulo 2 de Miguens responde a uma pergunta prática: como representar a Terra esférica num pedaço de papel sem perder o que importa para a navegação? A resposta envolve escolher um sistema de projeção cartográfica que preserve as propriedades essenciais ao navegante — sobretudo a representação retilínea da loxodromia. Esse requisito levou ao domínio da Projeção de Mercator na cartografia náutica.

O capítulo cobre os quatro tópicos do edital (Anexo 2-A, Área III):

  • III.20 — Projeção de Mercator e latitudes crescidas.
  • III.21 — Outras projeções usadas em cartografia náutica (gnomônica, estereográfica, cônicas, transversa).
  • III.22 — Utilização e interpretação da carta náutica em papel.
  • III.23 — Cartas náuticas digitais (ECDIS/ENC) e atualização.

Fonte: MIGUENS, Altineu Pires. Navegação: A Ciência e a Arte. v. 1. 2. rev. atual. Rio de Janeiro: DHN, 2023. Cap. 2, pp. 2-1 a 2-63.

Edital: Anexo 2-A, Área III — III.20, III.21, III.22, III.23.

2. O problema da representação (2.1)

Mapa × Carta

  • Mapa — representação da superfície terrestre com fins ilustrativos ou culturais; sem caráter técnico especializado; informações por cores e símbolos (Miguens, p. 2-1).
  • Carta — representação especialmente confeccionada para navegação ou atividade técnica/científica; permite medir ângulos e distâncias com precisão; serve para plotagem de posição por coordenadas geográficas (p. 2-1). Os documentos cartográficos de navegação são sempre chamados de Cartas Náuticas.

Por que não usar globos?

A única forma rigorosa de representar a Terra é por meio de globos. Porém, os detalhes exigidos pela navegação obrigariam a construção de um globo de proporções exageradas — num globo de 1,28 m de diâmetro a escala é ~1:10.000.000, insuficiente para representar detalhes menores que 2 km. Além disso, seria impossível traçar derrotas ou plotar posições a bordo (p. 2-2).

É impossível transferir a superfície esférica (ou elipsoidal) para um plano sem deformações, pois essa superfície não é desenvolvível. Surgem assim os sistemas de projeções cartográficas: métodos para transferir pontos da esfera para um plano ou superfície desenvolvível (cilindro, cone) (p. 2-2).

3. Condições desejáveis em uma representação (2.2)

A carta ideal reuniria seis propriedades (p. 2-3 a 2-4), nenhuma das quais pode ser completamente preservada ao mesmo tempo:

  • a. Conformidade — representação dos ângulos sem deformação; manutenção das formas das áreas.
  • b. Equivalência — inalterabilidade das dimensões relativas das áreas.
  • c. Equidistância — constância das relações entre distâncias na carta e na superfície real.
  • d. Representação dos círculos máximos como retas (ortodromias retas).
  • e. Representação das loxodromias como retas — exigência básica para Cartografia Náutica.
  • f. Facilidade de obtenção de coordenadas e plotagem de pontos.
Incompatibilidade fundamental: conformidade e equivalência não coexistem na mesma projeção. Uma carta não pode, ao mesmo tempo, preservar ângulos e áreas em toda a extensão (p. 2-4).
Miguens, p. 2-4: "À medida que a área representada se reduz, as diferenças entre as várias projeções passam a ser menos conspícuas, até que, nas cartas de escala muito grande, como nas cartas de portos ou outras áreas restritas, todas as projeções tornam-se praticamente idênticas."

A Cartografia Náutica exige especificamente a propriedade e: a loxodromia deve aparecer como reta que forma com os meridianos ângulo constante igual ao seu azimute. Essa exigência levou à adoção universal da Projeção de Mercator (p. 2-4).

4. Classificação dos sistemas de projeções (2.3)

4.1 Por método de construção

As projeções classificam-se em três grupos quanto ao método (p. 2-5):

  • Geométricas — baseiam-se em princípios geométricos projetivos. Subdividem-se em:
    • Perspectivas — obtidas por interseção de feixes de retas passando pelos pontos da Terra e por um ponto de vista fixo. As três posições clássicas do ponto de vista geram a gnomônica, a estereográfica e a ortográfica (ver Figura 2.1).
      Fig. 2-1
      Fig. 2-1 Fig. 2.1
    • Pseudo-perspectivas — perspectivas com artifício para obter determinada propriedade (ex.: projeção cilíndrica equatorial estereográfica).
  • Analíticas — perderam o sentido geométrico pela introdução de leis matemáticas visando propriedades específicas; grupo de grande importância.
  • Convencionais — baseiam-se em princípios arbitrários, estabelecendo expressões matemáticas puramente convencionais. A Projeção de Mercator pertence a este grupo (p. 2-12).

4.2 Por superfície de projeção

A superfície de projeção pode ser um plano ou uma superfície auxiliar desenvolvível. Daí a divisão em projeções planas e projeções por desenvolvimento (Figura 2.2).

Fig. 2-2
Fig. 2-2 Fig. 2.2

  • Planas (azimutais/zenitais) — plano tangente ou secante à Terra; azimutes em torno do ponto de tangência sem deformação. Situação do plano (Figura 2.3):
    Fig. 2-3
    Fig. 2-3 Fig. 2.3
    • Polar — ponto de tangência num polo, eixo perpendicular ao plano.
    • Equatorial (meridiana) — ponto de tangência no Equador, eixo paralelo ao plano.
    • Oblíqua (horizontal) — ponto de tangência em qualquer outro ponto.
  • Por desenvolvimento — superfície auxiliar desenvolvível (cone, cilindro, poliedro). Situação da superfície:
    • Normal — eixo do cone/cilindro paralelo ao eixo da Terra.
    • Transversa (meridiana) — eixo do cilindro perpendicular ao eixo da Terra.
    • Oblíqua (horizontal) — eixo inclinado.

4.3 Por propriedade conservada

TipoPropriedade preservadaNotas (Miguens p. 2-5)
EquidistantesComprimentos sem deformação (em determinada direção)Subtipos: meridianas, transversais, azimutais
EquivalentesÁreas com relação constante à Terra
ConformesÂngulos sem deformação; formas de pequenas áreasTambém chamadas ortomorfas
AfiláticasNenhuma das anteriores em toda a extensãoPodem ter propriedade particular útil (ex.: gnomônica → ortodromias retas)
Resumo dos 5 critérios cruzados na Figura 2.4: método × ponto de vista × superfície × situação × propriedade.
Fig. 2-4
Fig. 2-4 Fig. 2.4

4.4 Designação padronizada das projeções

Para designar uma projeção de forma padronizada, mencionar na seguinte ordem (p. 2-6):

  1. Natureza da superfície de projeção (plano, cilindro, cone).
  2. Situação da superfície em relação à Terra.
  3. Propriedade conservada.

Exemplos: projeção cônica normal equidistante meridiana; projeção plana polar gnomônica; projeção cilíndrica transversa conforme. As projeções são mais conhecidas pelos nomes de seus autores (Mercator, Lambert, Mollweide etc.) do que pela designação sistemática.

5. Projeção de Mercator (2.4)

A Projeção de Mercator é a coluna vertebral da cartografia náutica. Quem entende Mercator entende por que a carta tem aquela aparência, por que distâncias são medidas no lado da carta e por que a Groenlândia parece maior que o Brasil.

A navegação com loxodromia (linha de rumo constante) é a regra prática; a ortodromia (menor distância) exige mudanças contínuas de rumo. A carta que representa a loxodromia como reta foi publicada por Gerardus Mercator em 1569 (p. 2-7).

Fig. 2-5
Fig. 2-5 Fig. 2.5
Fig. 2-6
Fig. 2-6 Fig. 2.6

5.1 Classificação da Projeção de Mercator

A Projeção de Mercator é classificada como projeção cilíndrica equatorial conforme porque (p. 2-8 a 2-9):

  • Cilíndrica — superfície de projeção é um cilindro.
  • Equatorial — cilindro tangente à Terra no Equador.
  • Conforme (ortomorfa) — ângulos representados sem deformação; formas de pequenas áreas preservadas.
Na realidade, a Projeção de Mercator é convencional — não obedece a um conceito geométrico definido, embora seja inspirada em projeção cilíndrica. Miguens, p. 2-12.
Fig. 2-7
Fig. 2-7 Fig. 2.7
Fig. 2-8
Fig. 2-8 Fig. 2.8

5.2 Vantagens e limitações da Projeção de Mercator

Vantagens (p. 2-10)

  • Meridianos e paralelos representados por retas perpendiculares entre si — fácil identificar pontos cardeais.
  • Plotagem de pontos por coordenadas geográficas é simples.
  • Ângulos medidos na Terra são idênticos na carta (conformidade); direções medidas diretamente.
  • Loxodromias aparecem como retas — propriedade fundamental para navegação.
  • Facilidade de construção por elementos retilíneos.

Limitações (p. 2-11)

  • Deformação excessiva nas altas latitudes.
  • Impossibilidade de representação dos polos.
  • Círculos máximos (exceto Equador e meridianos) não são representados como retas — limitação notável em cartas de pequena escala.
A Projeção de Mercator é geralmente limitada pelo paralelo de 60°, mas pode ser utilizada satisfatoriamente até a latitude de 80° com precauções especiais no uso da escala de distâncias (p. 2-13).

5.3 Latitudes crescidas e medição de distâncias

Distorção de áreas: excessiva em altas latitudes. Groenlândia parece maior que o Brasil (Brasil é ~4× maior).

Fig. 2-9
Fig. 2-9 Fig. 2.9
Fig. 2-10
Fig. 2-10 Fig. 2.10

Na Projeção de Mercator, à medida que a latitude cresce, os arcos de paralelos são aumentados numa razão crescente, com os arcos de meridianos sofrendo aumentos na mesma proporção (para manter a conformidade). Nasce o conceito de latitude crescida (p. 2-13):

Miguens, p. 2-13 (definição literal): "LATITUDE CRESCIDA, correspondente a um determinado paralelo, é o comprimento do arco de meridiano compreendido entre a projeção do paralelo considerado e o Equador, tomando-se para unidade de medida o comprimento do arco de 1 minuto do Equador (1 minuto de Longitude)."
Regra crítica de medição de distâncias: numa Carta de Mercator, a escala de longitudes é constante mas a escala de latitudes cresce com a latitude. Portanto, distâncias só serão verdadeiras se medidas na escala de latitudes (margens laterais), NUNCA na escala de longitudes (margens superior/inferior).

A escala natural é a escala de latitudes no paralelo médio — único paralelo representado sem deformação de escala (p. 2-26).

5.4 Usos da Projeção de Mercator

Além da Cartografia Náutica, a Projeção de Mercator é empregada em: cartas-piloto, de fusos horários, magnéticas, geológicas, celestes, meteorológicas, aeronáuticas e mapas-múndi (p. 2-14).

6. Outras projeções usadas em cartografia náutica (2.5)

6.1 Projeção Gnomônica

Para singraduras muito extensas, a diferença entre loxodromia e ortodromia pode ser enorme: Sidney–Valparaíso, 748 milhas de diferença (p. 2-15). É necessário dispor de cartas que representem os círculos máximos como retas.

Ponto de vista: no centro da Terra. Construção: plano tangente, projeção a partir do centro do globo. Atribuída a Thales de Mileto (≈ 600 a.C.) — a mais antiga das projeções.

Fig. 2-11
Fig. 2-11 Fig. 2.11

  • Propriedade única: todos os círculos máximos aparecem como retas — ideal para planejamento de derrotas ortodrômicas.
  • Deformações: não é equidistante, não é conforme, não é equivalente. Distorções crescem rapidamente com a distância do ponto de tangência.
    Fig. 2-12
    Fig. 2-12 Fig. 2.12
  • Uso principal: Cartas para Navegação Ortodrômica (Figura 2.13) e cartografia das regiões polares.
    Fig. 2-13
    Fig. 2-13 Fig. 2.13
Para navegar pela derrota ortodrômica entre Cabo Orange e Açores: traça-se uma linha reta na carta gnomônica conectando os dois pontos. Essa reta é o arco de círculo máximo — a menor distância entre eles (p. 2-17).

6.2 Projeção Estereográfica

Ponto de vista na superfície da Terra oposta ao ponto de tangência (antípoda). Também chamada azimutal ortomorfa (é conforme) (p. 2-17).

Fig. 2-14
Fig. 2-14 Fig. 2.14

  • A escala aumenta com a distância do ponto de tangência, porém mais lentamente que na gnomônica.
  • Um hemisfério completo pode ser representado sem distorções excessivas.
  • Círculos máximos que passam pelo ponto de tangência aparecem como retas; demais círculos como arcos de círculos.
  • Principal uso: cartas das regiões polares (aspecto polar).

6.3 Projeção Ortográfica

Ponto de vista no infinito (raios projetantes paralelos). Plano tangente num ponto do Equador (normalmente) (p. 2-18).

Fig. 2-15
Fig. 2-15 Fig. 2.15

  • Não é conforme, nem equivalente, nem equidistante em toda a extensão — é afilática.
  • Paralelos aparecem como retas; meridianos como elipses (exceto o de tangência, reta, e o de 90°, círculo).
  • Principal uso: navegação astronômica — ilustra e resolve graficamente o triângulo de posição e as coordenadas astronômicas.

6.4 Projeção Azimutal Equidistante

Escala de distâncias constante ao longo de qualquer círculo máximo passando pelo ponto de tangência (p. 2-19 a 2-20). Não é conforme, nem equivalente, nem perspectiva.

Fig. 2-16
Fig. 2-16 Fig. 2.16
Fig. 2-17
Fig. 2-17 Fig. 2.17

  • Pode representar toda a superfície da Terra.
  • Combina três características azimutais: distâncias, azimutes e cobertura global a partir do ponto central.
  • Útil para: portos/aeroportos como ponto central (determinar azimute e distância a qualquer ponto), estações de comunicação rádio (orientação de antenas), cartas polares e o Identificador de Estrelas (Volume 2).

6.5 Projeções Cônicas

Pontos da Terra transferidos para um cone que é desenvolvido em plano. Eixo do cone coincidindo com o eixo da Terra: paralelos como arcos de círculos, meridianos como retas ou curvas convergentes para o polo (p. 2-20).

Cônica simples

Único cone tangente à Terra. O paralelo de tangência é o paralelo padrão — sem distorções. Deformações crescem com a distância deste paralelo. Não é conforme (escala não é a mesma em todas as direções) — principal desvantagem para navegação (p. 2-21).

Fig. 2-18
Fig. 2-18 Fig. 2.18
Fig. 2-19
Fig. 2-19 Fig. 2.19

O polo é representado como um círculo (não como ponto) na cônica simples — detalhe de prova.

Útil para áreas com grande extensão em longitude e estreitas em latitude. Desenvolvida por Ptolomeu (séc. II d.C.) para o Mediterrâneo.

Projeção Conforme de Lambert

Cone secante em dois paralelos padrões. Espaçamento entre paralelos ajustado matematicamente para que distorções ao longo de paralelos e meridianos sejam iguais → projeção conforme. Idealizada por J. H. Lambert no séc. XVIII (p. 2-22).

Fig. 2-20
Fig. 2-20 Fig. 2.20

  • Uma reta aproxima-se tanto de um círculo máximo que podem ser considerados idênticos para fins de navegação.
  • Radiomarcações (círculos máximos) podem ser plotadas sem correção.
  • Uso principal: cartas aeronáuticas; em Cartografia Náutica, usada em forma modificada em altas latitudes (cartas polares).

Projeção Policônica

Série de cones tangentes — cada paralelo é base de um cone. Não é perspectiva. Paralelos como círculos não concêntricos; meridianos como curvas (exceto o central, reto). Escala correta ao longo de qualquer paralelo e do meridiano central (p. 2-22 a 2-23).

Fig. 2-21
Fig. 2-21 Fig. 2.21

Não é conforme — não utilizada em navegação. Principal uso: atlas geográficos.

6.6 Projeção Transversa de Mercator

Cilindro tangente ao longo de um meridiano (em vez do Equador). Deformação mínima próxima ao meridiano de tangência. Útil para faixas com grande extensão em latitude e estreita em longitude (p. 2-23 a 2-24).

Fig. 2-22
Fig. 2-22 Fig. 2.22
Fig. 2-23
Fig. 2-23 Fig. 2.23

  • Próximo ao meridiano de tangência, uma reta aproxima-se de círculo máximo.
  • O sistema UTM (Universal Transversa de Mercator) é uma grade quilométrica nesta projeção — usada em folhas de bordo, sondagens hidrográficas e cartas militares.

6.7 Cartas Polares

Mercator não pode representar os polos; deformações excessivas acima de 80°. As principais projeções para cartas polares são (p. 2-24 a 2-26):

ProjeçãoConformidadeCírc. máx. como retaNotas
Transversa de MercatorSimPróximo ao meridiano de tangênciaTipo de distorção familiar; excelente para faixa estreita ao redor do meridiano
Conforme de Lambert (modificada)Virtualmente totalPraticamente em qualquer pontoPequenas distorções até ~25–30° do polo; paralelo padrão muito próximo ao polo
Polar EstereográficaTotalDifere muito pouco de retaPode usar plano secante para dividir distorções; distorção maior que Lambert
GnomônicaNãoSim (definição)Usada em navegação ortodrômica polar
Azimutal equidistanteNãoNãoUsada em cartas polares especiais

6.8 Projeções mais utilizadas em Cartografia Náutica

A Figura 2.24 compara as três projeções principais quanto aos aspectos de interesse do navegante (p. 2-24).

ProjeçãoLoxodromiaOrtodromiaConformidadeUso principal
MercatorRetaCurvaSimNavegação loxodrômica — regra geral
LambertCurvaQuase retaSimAeronáutica; cartas polares
GnomônicaCurva (espiral)RetaNão (afilática)Planejamento ortodrômico; cartas polares

7. A carta náutica — utilização e interpretação (2.6)

A carta náutica é um documento cartográfico resultante de levantamentos hidrográficos, publicado oficialmente por um serviço hidrográfico autorizado, destinado à navegação aquaviária (p. 2-27). Geralmente construída na Projeção de Mercator. No Brasil, produção e manutenção são responsabilidade da DHN por meio do CHM.

7.1 Escala da carta

Escala = relação entre valor gráfico na carta e valor real na superfície da Terra (p. 2-28).

Regra: quanto maior o denominador, menor a escala (menos detalhes). Navegar sempre na carta de maior escala disponível — maior detalhe, menor erro de plotagem (p. 2-29).

Classificação de escalas para cartas em papel (S-4 da OHI, p. 2-28)

Finalidade de navegaçãoEscala
Oceânica (alto-mar)menor que 1:2.000.000 → Pequena escala
Travessia/aterragem1:350.000 a 1:2.000.000
Cabotagem (navegação costeira)1:75.000 a 1:350.000 → Média escala
Aproximação de portos / águas costeiras1:30.000 a 1:75.000 → Grande escala
Portos / ancoradouros / canais estreitosmaior que 1:30.000

Propósitos de uso para ENCs (S-65 da OHI, 6 faixas, p. 2-29)

PropósitoÁreaEscala indicativa
1Oceânicamenor que 1:1.499.999
2Geral1:350.000 a 1:1.499.999
3Costeira1:90.000 a 1:349.999
4Aproximação1:22.000 a 1:89.999
5Porto1:4.000 a 1:21.999
6Atracaçãomaior que 1:4.000

7.2 Principais elementos da carta náutica em papel

a. Reticulado

Conjunto de meridianos e paralelos. Na carta de Mercator: escala de latitudes nas margens laterais (onde se medem distâncias); escala de longitudes nas margens superior e inferior (p. 2-30).

b. Título (Figura 2.25)
Fig. 2-25
Fig. 2-25 Fig. 2.25

Elementos do título na seguinte ordem (p. 2-31 a 2-33):

  1. Área geográfica geral e trecho da costa (Costa Norte: Cabo Orange–Cabo Calcanhar; Costa Leste: Cabo Calcanhar–Cabo Frio; Costa Sul: Cabo Frio–Arroio Chuí).
  2. Referência geográfica específica (descrição da área, de N para S).
  3. Unidade de medida das profundidades.
  4. Escala natural e paralelo de referência (latitude média).
  5. Datum vertical: nível médio das baixa-mares de sizígia (nas cartas brasileiras).
  6. Datum de altitudes: Nível Médio do mar.
  7. Datum horizontal (WGS-84 nas cartas brasileiras).
  8. Sistema de balizamento IALA (Região B para o Brasil).
  9. Identificação da projeção (Mercator, normalmente).
  10. Referência ao Diagrama de Levantamentos.

c. Notas de Precaução e Explanatórias

Colocadas próximas ao título; abordam: áreas proibidas, correntes anormais, anomalias magnéticas, etc. (p. 2-33).

d. Informações sobre Marés e Correntes

Incluídas na carta para planejamento e condução da navegação.

e. Rosa-dos-Rumos
Fig. 2-28
Fig. 2-28 Fig. 2.28

Rosa dupla (verdadeira + magnética) com valor da declinação magnética e variação anual impressos no centro. Permite obter/traçar rumos e marcações verdadeiros (p. 2-34). Medição de rumo/marcação: usar a Rosa-dos-Rumos mais próxima ou transferir o rumo de um meridiano com régua paralela.

f. Auxílios à Navegação
Fig. 2-29
Fig. 2-29 Fig. 2.29

Faróis, faroletes, radiofaróis, boias, balizas e demais auxílios representados com simbologia da Carta 12.000 (INT 1). Informações sobre faróis podem ser omitidas em escalas menores. A Lista de Faróis (DH2) contém todas as informações detalhadas (p. 2-34 a 2-35). Exemplo: Lp.Alt.BBE.15s101m51/45M (Farol da Ilha Rasa).

g. Parte Terrestre

Linha de costa, ilhas, curvas de nível, pontos notáveis, instalações portuárias, toponímia. Regra: representar apenas o que interessa ao navegante — excesso de informações topográficas não deve obscurecer dados de navegação (p. 2-35).

h. Parte Marítima

Profundidades (reduzidas ao Nível de Redução), isóbatas, perigos, estirâncio, natureza do fundo, balizamento, fundeadouros, derrotas aconselhadas, esquemas de separação de tráfego, áreas de exercício, correntes, cabos/dutos submarinos, etc. (p. 2-36).

i. Outros elementos

Vistas panorâmicas da costa, escala logarítmica de velocidade, tabela de conversão de unidades. Informações magnéticas em curvas isogônicas em cartas com escala menor que 1:750.000.

Fig. 2-30
Fig. 2-30 Fig. 2.30
Fig. 2-31
Fig. 2-31 Fig. 2.31

j. Diagramas de Levantamentos e ZOC

Diagrama de Levantamentos — obrigatório em cartas escala ≥ 1:500.000; indica limites, datas e escalas dos levantamentos. Usar no planejamento de derrota para avaliar confiabilidade.

Fig. 2-26
Fig. 2-26 Fig. 2.26
Fig. 2-32
Fig. 2-32 Fig. 2.32

Diagrama ZOC — avalia qualidade dos dados hidrográficos segundo seis categorias (A1, A2, B, C, D, U) combinando acurácia posicional, de profundidade e cobertura do fundo. A1 e A2 exigem ensonificação total (tecnologia pós-1980). A DHN usa ZOC apenas nas ENCs.

Fig. 2-33
Fig. 2-33 Fig. 2.33

k. Símbolos e Abreviaturas — Carta 12.000
Fig. 2-34
Fig. 2-34 Fig. 2.34

Baseada nas "Especificações de Cartas da OHI" (XII Conferência Hidrográfica Internacional, Mônaco 1982). Disponível no sítio do CHM. Obrigatória para correta interpretação de qualquer carta náutica (p. 2-38).

l. Uso das Cores

Mínimo de quatro cores obrigatórias segundo S-4 da OHI (p. 2-38 a 2-42):

CorUso principal
PretoEstrutura cartográfica básica (borda, reticulado, título), recursos físicos sólidos e profundidades. Escolha padrão quando nenhuma cor é especificada.
MagentaChamar atenção para símbolos com significado além da localização (práticos, luzes, rádio, radar); sobrepor informações não-físicas (rotas, áreas, esquemas de separação, isogônicas, tabelas).
Bege (amarelo) ou cinzaTonalidade da parte de terra. Com azul, produz cor de estirâncio.
AzulÁguas rasas (tonalidade mais escura = mais raso); contornos de profundidade em áreas batimétricas complexas.
Verde (opcional)Alternativa à magenta para informações e limites ambientais; áreas de estirâncio.

7.3 Cartas náuticas digitais — ENC, RNC e ECDIS

A carta náutica digital empregada em sistemas informatizados pode ser vetorial (ENC) ou raster (RNC). A ENC é a "carta inteligente" (p. 2-28 a 2-30).

ENC — Electronic Navigational Chart

  • Banco de dados vetorial padronizado (conteúdo, estrutura, formato) pela OHI.
  • Representação por vetores — não perde qualidade com zoom.
  • Permite interação: alarmes visuais/sonoros para evitar perigos.
  • Dados criptografados para garantir incorruptibilidade.
  • No Brasil: produzidas e mantidas atualizadas pela DHN/CHM.
  • Distribuídas exclusivamente via RENC: IC-ENC (Reino Unido) ou PRIMAR (Noruega); EMGEPRON é distribuidor associado ao PRIMAR.
  • Nomenclatura: AAPXXXXX — AA = código agência (BR para Brasil), P = propósito (1–6), XXXXX = alfanumérico associado à carta em papel.

RNC — Raster Navigational Chart

  • Imagem digitalizada e georreferenciada da carta em papel (bitmap).
  • Não é "inteligente" — qualquer atualização requer substituição do arquivo inteiro.
  • Disponibilizada gratuitamente no formato NOAA-BSB v3.0 pelo CHM.
  • Não dispensa o uso concomitante das cartas em papel atualizadas.

ECDIS e ECS

ECDIS — sistema certificado que integra ENC e dados de posicionamento. Obrigatório pela IMO (Resolução MSC.282(86), em vigor desde julho 2018) para a maioria dos navios comerciais em viagens internacionais. Pode operar em modo RCDS quando trecho sem ENC usa RNC (p. 2-40 a 2-42).

SOLAS Cap. V, Reg. 19 — "Um Sistema de Apresentação de Cartas Eletrônicas e Informações (ECDIS) também é aceito para atender aos requisitos de dotação de cartas." Um portfólio de cartas em papel pode ser backup do ECDIS (p. 2-55).
O ECS (Electronic Chart System) não cumpre as especificações da IMO — não equivale ao ECDIS para fins de conformidade com o SOLAS (p. 2-41).

Figuras comparativas papel × ENC:

Fig. 2-35
Fig. 2-35 Fig. 2.35
Fig. 2-36
Fig. 2-36 Fig. 2.36
Fig. 2-37
Fig. 2-37 Fig. 2.37
Fig. 2-38
Fig. 2-38 Fig. 2.38
Fig. 2-39
Fig. 2-39 Fig. 2.39

8. Confiança e precisão da carta náutica (2.7)

O valor de uma carta depende principalmente da precisão do levantamento hidrográfico em que é baseada (p. 2-43). Mesmo cartas recentes de grande escala não são infalíveis.

  • Datas dos levantamentos (Diagrama de Levantamentos) ou categorias de confiança (Diagrama ZOC) são o melhor guia para estimar acurácia.
  • Levantamentos primitivos foram feitos em condições que impediam grande precisão.
  • Em áreas de fundo arenoso/lamacento, alterações acontecem ao longo dos anos.
  • Quantidade e distribuição de sondagens revelam o nível de detalhe do levantamento — sondagens esparsas indicam levantamento de baixa resolução.
Regra de ouro: em costa rochosa, não navegar por dentro da linha de 20 metros de profundidade sem toda a precaução. Espaços em branco entre sondagens em área com poucos fundos e perigos próximos devem ser considerados suspeitos (p. 2-44).

Cartas sondadas com ecobatímetro multifeixe ou sonar de varredura lateral podem ter 100% de ensonificação do fundo — elevada confiança (p. 2-44). Se houver derrota aconselhada, navegar sobre ela.

Miguens, p. 2-45: "Em qualquer tipo de navegação, deve-se utilizar sempre a carta náutica de maior escala disponível, que representará com maior grau de detalhe a topografia do fundo, os perigos existentes, os pontos notáveis e os auxílios à navegação."

9. Atualização das cartas náuticas (2.8)

Correção das cartas em papel a bordo

O navegante deve verificar Avisos Permanentes e anotar Avisos-Rádio Temporários/Preliminares que afetam a carta antes de usá-la (p. 2-44 a 2-46). Critérios de correção:

  • Usar convenções da Carta 12.000.
  • Acréscimos não devem prejudicar informações existentes.
  • Informações canceladas ou corrigidas permanentemente: riscadas a tinta vermelha, nunca rasuradas.
  • Avisos-Rádio (temporários/urgentes): a lápis — apagados quando cancelados.
  • Avisos Temporários: a lápis com número e ano do aviso (ex. E40(T)/21).
  • Correções permanentes: a tinta vermelha, clara, sem rasuras. Anotar número do aviso na margem inferior esquerda.

Correção das ENCs a bordo

A atualização da ENC não é feita sobre o arquivo original — é fornecida pelo Distribuidor de ENCs como novo arquivo digital que substitui o anterior, instalado no ECDIS de forma informatizada. Pode ser via arquivo digital ou internet/satélite (p. 2-46 a 2-48).

Atualização pela DHN

  • Reimpressão — nova impressão da edição em vigor, sem alterações significativas para a navegação além das já divulgadas por Avisos. Cartas Print-on-Demand são consideradas reimpressões completamente atualizadas no ato da compra. Não cancela a impressão anterior.
  • Nova Edição — publicada quando a carta fica desatualizada por novos levantamentos; cancela a edição anterior.

10. Plano Cartográfico Náutico Brasileiro (2.9)

A DHN é o órgão incumbido de executar e controlar levantamentos hidrográficos e editar cartas náuticas em águas jurisdicionais brasileiras (p. 2-47).

III Plano Cartográfico Náutico Brasileiro (2016)

O III PCNB foi aprovado em 19 de julho de 2016 e é formado por dois subplanos (p. 2-48 a 2-52):

Subplano Cartas em Papel — 564 cartas:
Fig. 2-35
Fig. 2-35 Fig. 2.35

  • 7 cartas oceânicas (1:3.500.000 a 1:10.000.000)
  • 8 cartas gerais (1:1.000.000)
  • 26 cartas costeiras (1:300.000)
  • 1 carta da Bacia de Campos (1:300.000)
  • 36 cartas de aproximação (1:75.000 a 1:100.000)
  • 60 cartas de porto (até 1:30.000)
  • 4 cartas de ilhas oceânicas
  • 175 cartas para a Bacia Amazônica; 143 para o Rio Paraguai; 86 para a Hidrovia Tietê-Paraná; 12 para a Hidrovia Uruguai-Brasil
  • 6 cartas da Região Antártica

Subplano ENCs — 198 ENCs:
Fig. 2-36
Fig. 2-36 Fig. 2.36

  • 8 ENCs Gerais (BR2)
  • 29 ENCs Costeiras (BR3)
  • 78 ENCs de Aproximação (BR4)
  • 73 ENCs de Porto (BR5)
  • 10 ENCs de Atracação (BR6)
O I PCNB (1933–1935) estabeleceu o esquema ainda válido hoje: números das cartas refletem a escala (séries 10/20/30 = 1:3.500.000; séries 40–90 = 1:1.000.000; séries 100–2200 = 1:300.000) (p. 2-47).

A DHN também publica Cartas Militares, Cartas Especiais, Cartas Meteorológicas, Cartas de Correntes de Maré, Cartas-Piloto e Croquis de Navegação para rios. Cartas Internacionais: 34 cartas (8 na escala 1:1.000.000 e 26 na escala 1:300.000) para o Atlântico Sudoeste (p. 2-52 a 2-54). O Catálogo completo está disponível no sítio da DHN.

11. Resolução gráfica na carta — Apêndice A

O Apêndice A (p. 2-57 a 2-63) apresenta os procedimentos operacionais padrão com a Carta Náutica. São usados apenas rumos e marcações verdadeiros; trabalho sempre a lápis, nunca a caneta.

A. Plotar um ponto dadas as coordenadas

  1. Marcar latitude e longitude nas respectivas escalas.
  2. Com a régua paralela, traçar o paralelo correspondente à latitude do ponto.
  3. Sobre esse paralelo, com o compasso de navegação, marcar a longitude a partir do meridiano mais próximo.

B. Determinar coordenadas de um ponto na carta

  1. Com a régua paralela, marcar no meridiano mais próximo o ponto em que o paralelo do ponto o intercepta.
  2. Com o compasso, determinar latitude e longitude nas escalas respectivas.

C. Traçar um rumo a partir de um ponto

  1. Transportar o rumo verdadeiro para o ponto de origem a partir da Rosa dos Rumos Verdadeiros mais próxima, com a régua paralela.
  2. Precaução: não traçar a recíproca. Escrever R XXX sobre a linha.

D. Determinar o rumo verdadeiro entre dois pontos

  1. Plotar os dois pontos na carta.
  2. Unir com a régua paralela e transportar a direção para o centro da Rosa dos Rumos Verdadeiros mais próxima.
  3. Ler o rumo na graduação da rosa no sentido correto.

E. Determinar a distância entre dois pontos

Regra de ouro da medição de distância: SEMPRE medir na escala de latitudes (margens laterais da carta), na altura da latitude média do trecho. NUNCA usar a escala de longitudes (margens superior/inferior).
  1. Unir os dois pontos com a régua de paralelas.
  2. Ajustar a abertura do compasso ao comprimento da linha.
  3. Medir na escala de latitudes na altura da latitude média do trecho.
  4. Se a distância não couber numa abertura, somar várias medições, sempre na latitude média de cada segmento.
  5. Registrar sob a linha, precedido de "d" (ex.: d = 2,8 M).

F. Obter rumo para passar a determinada distância de um ponto

  1. Plotar o ponto de origem.
  2. Tomar a distância desejada no compasso (na escala de latitudes).
  3. Traçar circunferência com esse raio em torno do ponto a contornar.
  4. Traçar tangente do ponto de origem à circunferência.
  5. Transportar essa direção para a Rosa dos Rumos Verdadeiros e ler o rumo.

O futuro das cartas em papel foi analisado pelo NCWG/OHI: vendas caíram ~50% de 2008 a 2018, enquanto ENCs cresceram ~7×.