Cap. 7 — Emprego de Linhas de Posição de Segurança

1. Visão Geral

Em navegação costeira e, principalmente, em águas restritas, o navegante frequentemente precisa passar próximo a perigos sem ter a posição perfeitamente determinada. Para isso, o Capítulo 7 do Miguens apresenta o emprego de Linhas de Posição (LDP) de segurança — recursos que informam ao navegante se o navio está ou não em zona segura, independentemente de se conhecer a posição exata. (p. 7-1)

"Uma única LDP não define a posição do navio, porém poderá dar ao navegante indicações bastante úteis para a segurança da navegação." — Miguens, p. 7-1

Contexto de Aplicação

"O traçado das áreas perigosas e o emprego de LDP de segurança são procedimentos típicos utilizados no planejamento e na execução da navegação de segurança praticada em águas restritas, onde o navio está com a sua manobrabilidade restrita devido ao seu calado, à exiguidade da área de manobra, ou por ambos os fatores." (p. 7-3)

Os 5 Tipos de LDP de Segurança

# Tipo Instrumento Referência usada
1 Alinhamento Visual (sobreposição de marcos) Dois marcos alinhados
2 Marcação de segurança Compasso / radiogoniômetro Farol ou ponto notável + tangente ao perigo
3 Distância de perigo Radar / trigonometria Farol de referência próximo aos perigos
4 Ângulo vertical Sextante Farol de altitude h conhecida
5 Ângulo horizontal Sextante ou diferença de marcações Dois pontos notáveis

Estrutura do Capítulo

Antes de empregar qualquer LDP de segurança, o navegante deve "iluminar" a carta náutica — providência prévia de planejamento que identifica graficamente as zonas de risco. O Capítulo 7 organiza-se em:

  • 7.1 — Conceito de Navegação de Segurança: iluminar a carta (dois critérios: profundidades e distância ao perigo).
  • 7.2 — Os 5 tipos de LDP de segurança em detalhe (7.2.1 a 7.2.5).
  • 7.3 — Sondagens como limite de segurança (recurso em baixa visibilidade).
Mnemônico: A — M — D — V — H — Alinhamento · Marcação · Distância · Vertical (ângulo) · Horizontal (ângulo). Ordem crescente de instrumentação necessária.

2. Conceito de Navegação de Segurança e "Iluminação" da Carta (7.1)

O que é "Iluminar" a Carta

"O melhor modo de visualizar se o navio está ou não se aproximando de perigos à navegação é assinalar nas cartas náuticas da região os contornos das áreas perigosas. Esta providência recebe o nome de 'iluminar' a carta e consiste, tradicionalmente, em hachurá-la a lápis, de forma cuidadosa para não ocultar pontos ou objetos conspícuos à navegação, os limites das áreas perigosas." — Miguens, p. 7-1
Atenção! "Iluminar" é metáfora — significa hachurear a lápis, não acender luzes. O nome evoca "iluminar os perigos" para que o navegante os enxergue na carta.

Os limites das áreas perigosas variam de navio para navio, dependendo principalmente de: calado, comprimento, boca e características de manobra. Exemplo: uma área perigosa para um Navio-Aeródromo poderá não ser perigosa para um Navio-Patrulha, de dimensões e calado muito menores. (p. 7-1)

Carta náutica iluminada pelo critério das profundidades — isobata de 16 m
Fig. 7-1 Carta náutica "iluminada" pelo critério das profundidades. A isobata de 16 m delimita a área hachurada (zona a evitar). Calado = 14 m + margem = 2 m → profundidade mínima segura = 16 m. (p. 7-2)

Critério das Profundidades

O navegante traça, ao redor da área perigosa, a isobatimétrica correspondente ao calado do navio acrescido da margem de segurança vertical. Essa linha serve de fronteira da área a ser evitada.

Profundidade mínima segura = Calado + margem de segurança (ou Calado + 15% do calado, o que for maior). "Esta é a lazeira mínima de água que se deseja ter abaixo da quilha quando navegando no local." — Miguens, p. 7-2

Fatores que influenciam a margem de segurança vertical (p. 7-2):

  • Variação de maré
  • Efeito squat decorrente da velocidade de deslocamento
  • Ocorrência de vagas
  • Outros fatores meteoceanográficos
Exemplo numérico (p. 7-2): Margem de segurança = 2 m; Calado = 14 m. 15% do calado = 2,1 m > 2 m → usa-se 2,1 m. Profundidade mínima segura = 14 + 2,1 = 16,1 m (arredondado para 16 m na carta).

"A critério do Comandante, os limites de lazeira mínima podem ser redefinidos, visando-se sempre incrementar a segurança do navio." (p. 7-2)

ECDIS e as NON GO AREAS

O navegante que estiver utilizando um ECDIS (Electronic Chart Display Information System) pode selecionar a exibição apenas das profundidades de interesse, "com o objetivo de chamar a atenção da equipe de navegação para as áreas navegáveis e não navegáveis (NON GO AREAS) ao longo da derrota." Em tempo real, as NON GO AREAS são automaticamente destacadas. (p. 7-2)

Critério da Distância ao Perigo Mais Próximo

Carta iluminada pelo critério da distância — Ilha de Alcatrazes
Fig. 7-2 Carta "iluminada" pelo critério da distância ao perigo. A linha de perigo mantém 2 milhas náuticas de todos os riscos ao redor da Ilha de Alcatrazes. (p. 7-2)
"As linhas de perigo também podem ser traçadas com base no critério da distância ao perigo mais próximo. Neste caso, será estipulada pelo Comandante a menor distância que se deseja passar dos perigos à navegação existentes na área e, então, a linha de perigo será traçada unindo pontos situados à distância estabelecida dos perigos da área." — Miguens, p. 7-2
Critério Base do traçado Instrumento Varia por calado?
Profundidades Isobata = calado + margem Carta náutica + régua Sim — cada navio tem isobata diferente
Distância ao perigo Arco paralelo aos perigos a distância D Compasso + carta Depende das características de manobra

3. Alinhamentos como LDP de Segurança (7.2.1)

Precisão — O Melhor Tipo de LDP de Segurança

"Os alinhamentos, em particular aqueles estabelecidos especificamente como auxílio à navegação, constituem as mais precisas LDP de segurança." — Miguens, p. 7-3

Quando se navega em um canal estreito ou se deseja entrar em um porto com perigos próximos à barra, manter a proa (ou, em determinadas situações, a popa) sobre um alinhamento garante que se está seguindo exatamente a direção deste, ou sua recíproca. (p. 7-3)

Como Funciona um Alinhamento

Um alinhamento consiste em dois marcos em terra (pontos notáveis ou auxílios à navegação específicos) colocados de modo que, quando visualmente sobrepostos pelo navegante, indicam que o navio está exatamente sobre a linha que os une. Enquanto os dois marcos permanecerem alinhados, o navio está sobre a LDP de segurança.

Trecho da carta 1713 — Porto de Santos — com alinhamento de entrada
Fig. 7-3 Trecho da carta 1713 (Porto de Santos). Dois marcos de alinhamento definem a linha de entrada segura ao porto. Desvios laterais do alinhamento expõem o navio a fundos baixos ou pedras. (p. 7-3)

Alinhamento vs. Luz de Setor

Característica Alinhamento Convencional Luz de Setor
Estruturas necessárias Duas Uma
Precisão de navegação Maior Menor ("sim-não")
Indica limites navegáveis Não Sim
Tipo de aviso Contínuo (está ou não sobre a linha) Binário (passou ou não o limite colorido)
Uso diurno / noturno Ambos (marcos visíveis) Noturno (ou com boa visibilidade)
"Fica evidente que uma luz de setor não pode dar a precisão de navegação comparável à sensibilidade de um alinhamento convencional bem projetado." — Miguens, p. 7-5

4. Marcação de Perigo / Marcação de Segurança (7.2.2)

Definição e Regra Fundamental

"A marcação de segurança é sempre determinada do navio para o ponto de referência (auxílio à navegação ou ponto notável representado na carta náutica da área), isto é, do largo para terra (nunca é a recíproca)." — Miguens, p. 7-4

Para obter geometricamente a marcação de segurança, parte-se do ponto de referência (farol, torre, tanque notável) e traça-se uma tangente ao limite da área perigosa. A direção resultante, medida do largo para o ponto de referência, é o valor da marcação de segurança. (p. 7-4)

Vedação crítica: NÃO usar a recíproca. A marcação de segurança é sempre do navio para o farol — jamais do farol para o navio. Confundir as duas leva a um valor errado que pode induzir o navegante a entrar na área de risco.

a. Área de Perigo por Um Bordo

Marcação de segurança M=010° para o Farol Ponta Alta — perigo em um bordo
Fig. 7-4 Derrota A→B com R=000°. Marcação de segurança para o Farol Ponta Alta: M=010°. Marcações >010° = seguro; marcações <010° = risco de pedras submersas. (p. 7-4)
Marcação ao Farol Situação Ação
> 010° (ex.: 015°, 020°) Águas seguras Manter rumo
= 010° Sobre a linha de perigo Atenção máxima
< 010° (ex.: 005°) Em área perigosa ou se dirigindo a ela Corrigir rumo imediatamente

b. Áreas de Perigo pelos Dois Bordos

Quando a derrota passa por um corredor com perigos em ambos os bordos, traçam-se duas marcações de segurança a partir de um único ponto de referência. No exemplo da Figura 7.5, o ponto de referência é o tanque mais ao Sul, com:

  • M1 = 095° — limite Norte (tangente ao Molhe Sul)
  • M2 = 078° — limite Sul (tangente à isobata de 20 m)

O navio está em águas seguras enquanto a marcação ao tanque Sul estiver entre 078° e 095°. (p. 7-5)

Aproximação ao píer com perigos pelos dois bordos — M1=095° e M2=078°
Fig. 7-5 Rumo de aproximação R=097°. M1=095° (limite Norte) e M2=078° (limite Sul). Corredor seguro: marcação ao tanque entre 078° e 095°. (p. 7-5)
Marcação ao Tanque Sul Situação Correção de Rumo
Entre 078° e 095° Corredor seguro Manter rumo
Aproximando-se de 095° Risco Norte (Molhe Sul) Corrigir para B-E (boreste)
Aproximando-se de 078° Risco Sul (baixio 20 m) Corrigir para B-B (bombordo)

Luzes de Setor como Limite de Segurança

"Os limites de segurança, em uma navegação em águas restritas, podem ser delimitados por meio de luzes de setor. Elas servem para orientar o navegante a permanecer dentro dos limites navegáveis do canal, a fim de manter-se no eixo do mesmo, e dão uma advertência tipo \'sim-não\', quando ocorre o cruzamento de um limite." (p. 7-5)

Convenção das cores: setor branco = canal seguro; setor verde = limite de bombordo do canal (o navegante deve mantê-lo a B-B do seu navio); setor encarnado = limite de boreste do canal (deve ser mantido a B-E do seu navio). (p. 7-5)

Regra absoluta: "Uma vez que o navio tenha entrado no setor verde ou no setor encarnado, deve voltar imediatamente ao setor branco porque não é possível determinar que distância avançou no setor colorido." — Miguens, p. 7-5

Ao regressar ao setor branco, é também necessário que haja espaço lateral suficiente para permitir ao navegante retomar o rumo original sem atravessar para o setor colorido oposto. Por isso, os limites dos setores coloridos devem prover espaço de manobra suficiente ao marcar os perigos. (p. 7-5)

Luz de setor × Alinhamento — características distintivas (p. 7-5)
AspectoLuz de setorAlinhamento convencional
Estruturas necessáriasApenas uma (vantagem operacional/logística)Duas estruturas alinhadas
Indicar limites navegáveisSim — pode delimitar os bordos do canal pelos setores coloridosNão é possível
Precisão de navegaçãoNão é comparável à de um alinhamento bem projetadoSensibilidade superior quando bem projetado
Tipo de informação"Sim/Não" sobre cruzamento de limiteDireção contínua exata enquanto os dois pontos estão enfiados
Porto de Vitória — navegação por luz de setor com setores branco, verde e encarnado
Fig. 7-6 Porto de Vitória (ES). Luz de setor com canal branco central e limites verde (B-B) e encarnado (B-E). Mnemônico: Verde a B-B, Encarnado a B-E. (p. 7-6)
Mnemônico: VERDE a BB — ENCARNADO a BE. Ao se aproximar da luz de setor, o setor verde deve estar a bombordo e o encarnado a boreste.

5. Distância de Perigo (7.2.3)

Princípio e Situação-Tipo

A distância de perigo é empregada quando o navio precisa passar entre dois perigos (A e B) usando um farol de referência próximo (Farol C) para controlar continuamente sua distância a cada um. (p. 7-6)

"Ao navegar na área, o navio deve manter-se numa distância ao Farol C situada entre os valores $d_{A}$ e $d_{B}$. As distâncias do farol devem ser seguidamente verificadas e comparadas às distâncias de perigo, até que os perigos sejam ultrapassados e se volte a navegar em águas seguras." — Miguens, p. 7-6
Distância de perigo — dois círculos concêntricos em torno do Farol C, perigos A e B
Fig. 7-7 Farol C centralizado. Círculo interno (raio $d_{B}$) tangencia o perigo B, o mais próximo do farol; círculo externo (raio $d_{A}$) tangencia o perigo A, o mais afastado. O anel entre os dois círculos é o corredor seguro. (p. 7-6)

Geometria: O Anel de Segurança

Elemento Definição Relação com o perigo
$d_{A}$ Distância do Farol C ao ponto mais saliente do perigo A Perigo A: mais afastado do farol → círculo externo
$d_{B}$ Distância do Farol C ao ponto mais saliente do perigo B Perigo B: mais próximo do farol → círculo interno
Corredor seguro Anel entre os dois círculos Navio mantém: $d_{B}$ < dist_Farol < $d_{A}$
Erro comum: Estar além do círculo externo (d > $d_{A}$) significa que o navio saiu do corredor e está na zona do perigo A (o mais afastado do farol), não em águas mais seguras. O corredor seguro é o anel, não o exterior do anel.

Medição da Distância

A distância ao farol pode ser obtida por radar (método mais comum em navios modernos), por marcação combinada com distância (polares) ou por cálculo trigonométrico na carta. A verificação deve ser contínua enquanto o navio passa pela área de risco.

6. Ângulo Vertical de Perigo (7.2.4)

Fundamento Geométrico

O ângulo vertical de segurança baseia-se em uma propriedade fundamental: de qualquer ponto de uma circunferência centrada na base de um objeto vertical, o ângulo subtendido pelo topo desse objeto é idêntico. (p. 7-7)

Fundamento geométrico do ângulo vertical — mastro com estais formando circunferência equiangular
Fig. 7-8 Mastro com estais fixados em pontos equidistantes da base. O ângulo α entre o solo e o estai é igual em todos os pontos da circunferência de raio d. Demonstra que d = h · cotg α. (p. 7-7)

Fórmula Fundamental

d = h · cotg α  (equivalentemente: tg α = h / d)
onde: d = distância ao objeto; h = altitude do objeto; α = ângulo vertical medido com o sextante. — Miguens, p. 7-7
Relação inversa fundamental: ângulo maior → navio mais próximo do farol; ângulo menor → navio mais distante. A confusão desse sentido é a pegadinha mais cobrada em prova.

Aplicação Prática — Passagem entre Dois Perigos

Ângulo vertical de segurança — navio navegando entre perigos A e B com referência ao Farol C
Fig. 7-9 Navio de 1 para 2. Perigo A mais afastado do Farol C (ângulo $α_{A}$ menor); perigo B mais próximo (ângulo $α_{B}$ maior). Corredor seguro: $\alpha_{A}$ < $\alpha_{obs}$ < $\alpha_{B}$. (p. 7-7–7-8)

Procedimento de cálculo (p. 7-7–7-8):

  1. Na carta, medir $d_{A}$ e $d_{B}$ (distâncias dos pontos mais salientes dos perigos ao Farol C).
  2. Calcular: tg $\alpha_{A}$ = h / $d_{A}$ e tg $\alpha_{B}$ = h / $d_{B}$.
  3. Na navegação, medir continuamente α com o sextante e comparar ao intervalo [$\alpha_{A}$, $\alpha_{B}$].
Ângulo observado ($α_{obs}$) Situação Correção de Rumo
Entre $\alpha_{A}$ e $\alpha_{B}$ Corredor seguro Manter rumo
Aumentando → $\alpha_{B}$ Risco de perigo B (mais próximo do farol) Corrigir para B-B (bombordo)
Diminuindo → $\alpha_{A}$ Risco de perigo A (mais afastado do farol) Corrigir para B-E (boreste)

"Os ângulos verticais, como se sabe, são medidos com um sextante." (p. 7-8) — A altitude h do objeto deve ser conhecida (consultada na carta náutica ou no Farol Book); sem h, não é possível calcular os ângulos limites.

7. Ângulo Horizontal de Perigo (7.2.5)

Princípio

O ângulo horizontal de segurança controla a posição lateral do navio medindo o ângulo entre dois pontos notáveis (auxílios à navegação ou marcos em terra) visíveis simultaneamente. Os ângulos limites α e β são determinados a partir dos pontos mais salientes dos perigos laterais. (p. 7-8)

Ângulo horizontal de segurança — Farol C e Torre D como referências, perigos A e B
Fig. 7-10 Navio navega de 1 para 2. Farol C e Torre D são os pontos de referência. Ângulo α (perigo A) e β (perigo B) delimitam o corredor seguro. (p. 7-8)

Procedimento de Cálculo

  1. Na carta, identificar os dois pontos notáveis (ex.: Farol C e Torre D).
  2. Dos pontos mais salientes dos perigos A e B, traçar linhas de visada para Farol C e Torre D.
  3. Medir os ângulos: α (correspondente ao perigo A) e β (correspondente ao perigo B).
  4. Navegar mantendo o ângulo horizontal observado entre α e β.
Ângulo horizontal observado Situação Correção de Rumo
Entre α e β Corredor seguro Manter rumo
Diminuindo → α Risco de perigo A Corrigir para B-E (boreste)
Aumentando → β Risco de perigo B Corrigir para B-B (bombordo)

Instrumentos de Medição

"O ângulo horizontal pode ser obtido com o auxílio de um sextante ou pela diferença de marcações (verdadeiras, relativas ou da agulha) simultâneas." — Miguens, p. 7-8

O sextante é o instrumento mais preciso. A diferença de marcações simultâneas (obtidas pelo compasso) é o método alternativo quando o sextante não está disponível ou a medição horizontal é impraticável.