MO Cap. 6 — Pressão atmosférica e ventos

1. Pressão atmosférica

Este capítulo trata da pressão atmosférica e de como ela varia na vertical e na horizontal. São essas variações de pressão que põem as massas de ar em movimento e dão origem aos ventos — tanto em superfície quanto em altitude. Ao final, vê-se também o movimento vertical do ar, responsável pela formação dos sistemas atmosféricos estudados mais adiante.

Fonte: YNOUE, Rita Yuri; REBOITA, Michelle S.; AMBRIZZI, Tércio; SILVA, Gyrlene A. M. da. Meteorologia: noções básicas. São Paulo: Oficina de Textos, 2017. Cap. 6 — Pressão atmosférica e ventos.

Edital: Anexo 2-A, Área V (Meteorologia e Oceanografia) — item 16.4 (Pressão atmosférica): pressão como peso da coluna de ar, unidades (hPa), barômetro, ajuste ao NMM (PNMM), equação do estado e variação vertical e horizontal da pressão; mecanismos que originam os ventos: força do gradiente de pressão, equilíbrio hidrostático, força de Coriolis, vento geostrófico, vento gradiente, atrito e movimentos verticais (convergência/divergência) · Anexo 2-B, Área V, item 2 (Ynoue, livro sem lista de capítulos; escopo fixado pelo 2-A).

A pressão atmosférica é o peso que a coluna de ar exerce por unidade de área sobre uma dada superfície. Como a gravidade — a força com que a Terra atrai os corpos — concentra as moléculas de ar perto do solo, a atmosfera é mais densa junto à superfície e vai rareando com a altura. Antes de prosseguir, convém recordar a densidade: a quantidade de massa num determinado volume.

Fig. 6-1
Fig. 6-1 Concentração das moléculas de ar em direção à superfície terrestre (adaptado de Aguado e Burt, 2010)

Imagine-se linhas horizontais cortando a coluna de ar: sobre a linha mais baixa há mais moléculas (maior densidade) e sobre a linha mais alta, menos (menor densidade). A força peso, em newton (N), é o produto da massa (kg) pela aceleração da gravidade (m/s²). Tomando uma coluna de área 1 m², a unidade de pressão fica [N/m²] = pascal (Pa).

Unidade adotada no livro. A unidade antiga era o milibar (mb ou mbar). Pela convenção internacional ela foi substituída pelo pascal, mas, como 1 hPa = 100 Pa = 1 mb, o livro adota o hectopascal (hPa) (hecto = 100). As condições padrão ao nível médio do mar (NMM) são 273,15 K (0 °C) e 101 325 Pa, equivalentes a 1 013,25 hPa = 1 atm = 760 mmHg.

O primeiro instrumento para medir a pressão foi o barômetro de mercúrio, inventado em 1643 por Evangelista Torricelli (1608–1647), estudante de Galileu. Ele descreveu a atmosfera como um vasto oceano de ar que pressiona a superfície. Num tubo de vidro cheio de mercúrio, invertido sobre um recipiente também com mercúrio, o líquido escoava do tubo até o peso da coluna restante equilibrar a pressão do ar sobre o recipiente. Quando a pressão do ar subia, o mercúrio subia no tubo; quando baixava, descia. O comprimento da coluna de mercúrio virou, assim, uma medida da pressão. Hoje há barômetros aprimorados e também os barógrafos, que registram a pressão ao longo do tempo.

Fig. 6-2
Fig. 6-2 Esquema ilustrativo do barômetro de mercúrio de Torricelli

1.1 Ajuste da pressão ao nível médio do mar (PNMM)

Como a pressão diminui com a altura, não se pode comparar diretamente valores medidos em locais de altitudes diferentes: onde o terreno é mais alto, a coluna de ar acima é mais curta e pesa menos, então a pressão observada é sempre menor. Para tornar as medidas comparáveis, elimina-se o efeito do relevo aplicando uma correção que ajusta cada valor a um nível de referência — em geral o NMM.

Fig. 6-3
Fig. 6-3 Valores da pressão atmosférica em locais com diferentes altitudes (adaptado de Lutgens e Tarbuck, 2010)

Em locais acima do NMM (altitude positiva), soma-se um incremento à pressão observada. Em locais abaixo do NMM (altitude negativa), subtrai-se um valor, para compensar a camada de ar que teoricamente deixaria de existir acima do ponto. O ajuste não é trivial, pois exige estimar as propriedades da atmosfera na camada hipotética entre a superfície e o NMM; nas camadas baixas pode-se usar a taxa de cerca de 10 hPa a cada 1 000 m.

1.2 A equação do estado

Os gases se expandem quando aquecidos e ficam mais densos quando resfriados, o que indica que temperatura, densidade e pressão estão ligadas. Essa ligação é a equação do estado, já vista no Cap. 5:

p=ρRT(6.1)p = \rho\,R\,T \tag{6.1}

Aqui pp é a pressão (Pa), ρ\rho a densidade (kg/m³), TT a temperatura do ar (K) e RR uma constante igual a 287 Jkg1K1287\ \mathrm{J\,kg^{-1}\,K^{-1}}. A equação diz duas coisas: com a temperatura fixa, aumentar a densidade (mais ar no mesmo volume) aumenta a pressão; e com a densidade fixa, aumentar a temperatura também aumenta a pressão, porque o calor agita mais as moléculas, que passam a colidir com mais força contra as paredes do volume.

Fig. 6-4
Fig. 6-4 Modelo da atmosfera em que a densidade do ar permanece constante com a altura (adaptado de Ahrens, 2009)

Para entender como nascem as regiões de alta e baixa pressão, o livro usa um modelo simplificado: uma coluna de ar de densidade uniforme, largura constante e paredes que se expandem na vertical mas sem tampa (nenhuma molécula escapa pelo topo). Nesse modelo valem três suposições — densidade constante da base ao topo, largura fixa da coluna e ausência de tampa.

Forçando mais ar para dentro da coluna sem mudar a temperatura, ela fica mais densa e a pressão à superfície aumenta; retirando ar, a pressão diminui. O passo seguinte compara duas colunas idênticas sobre duas cidades de mesma altitude, com a mesma pressão e o mesmo número de moléculas no início.

Fig. 6-5
Fig. 6-5 Colunas de ar sobre duas cidades: uma coluna menor de ar frio exerce a mesma pressão de uma coluna extensa de ar aquecido (adaptado de Ahrens, 2009)

Mantendo igual a pressão à superfície nas duas, resfria-se o ar sobre a cidade 1 e aquece-se o ar sobre a cidade 2. Na cidade 1 as moléculas se movem mais devagar e se juntam (ar mais denso); na cidade 2 se movem mais rápido e se afastam (ar menos denso). Como a largura é fixa e há uma barreira invisível entre as colunas, nenhuma molécula entra ou sai, e ambas mantêm a mesma pressão à superfície. Mas a coluna fria se contrai (fica mais baixa) e a coluna quente se expande (fica mais alta).

Conceito-chave 1. Uma coluna menor de ar frio e denso exerce a mesma pressão à superfície que uma coluna maior de ar quente e menos denso, desde que o número de moléculas seja igual nas duas. Decorre daí que a pressão cai mais rápido com a altura numa coluna de ar frio.

Subindo da superfície até uma mesma altura em cada coluna, passa-se por mais moléculas na coluna fria (agrupadas embaixo) e por menos na coluna quente (mais espalhadas). Logo, naquela altura, a pressão é menor na coluna fria e maior na coluna quente.

Conceito-chave 2. Em altitude, o ar quente costuma estar associado a altos valores de pressão, e o ar frio, a baixos valores. A diferença horizontal de temperatura entre as colunas cria uma diferença horizontal de pressão em altitude — e essa diferença origina a força do gradiente de pressão, que move o ar da maior para a menor pressão.

Removida a barreira invisível, o ar em altitude escoa do ponto de maior pressão (coluna quente) para o de menor (coluna fria). A coluna quente perde ar e sua pressão à superfície diminui; a coluna fria recebe esse ar e sua pressão à superfície aumenta. Em resumo: aquecer ou resfriar uma coluna gera variações horizontais de pressão que movem o ar; onde o ar se acumula em superfície a pressão sobe, onde rareia a pressão cai.

1.3 Variação vertical e horizontal da pressão

A pressão em qualquer altitude é igual ao peso do ar acima dela. Subindo na atmosfera o ar fica menos denso, então a pressão decresce com a altitude — mas não de modo uniforme: a queda é muito mais rápida perto da superfície, onde a pressão é alta, do que em níveis acima de 12 km, onde a pressão já é baixa.

Fig. 6-6
Fig. 6-6 Variação da pressão com a altitude (adaptado de Strahler e Strahler, 1997)

A tabela abaixo mostra esse decréscimo numa atmosfera padrão — uma idealização da distribuição vertical de pressão e temperatura baseada em médias na latitude de 45°. Ao NMM a pressão é de cerca de 1 013 hPa e a temperatura, 15 °C; a 50 km, caem para 0,798 hPa e -2 °C.

Tab. 6.1 — Variação da pressão atmosférica com a altitude (atmosfera padrão).
Altura (km)Pressão (hPa)Temperatura (°C)
50,00,798-2
30,011,97-46
20,055,29-56
12,0194,0-56
10,0265,0-50
5,0540,4-17
2,0795,02
1,0898,89
01 013,215

Para comparar a pressão de várias estações, todas têm de ser primeiro reduzidas ao NMM. Feita a redução, percebe-se que as diferenças de pressão na horizontal são bem menores que as da vertical. Na horizontal, os valores ao NMM ficam, em geral, entre 960 e 1 050 hPa — uma diferença da ordem de 100 hPa espalhada por milhares de quilômetros. Na vertical, a diferença da superfície até 50 km é de cerca de 1 000 hPa, uma ordem de grandeza maior.

Fig. 6-7
Fig. 6-7 Pressão atmosférica ao NMM em 23 de março de 2010, a 00 UTC (adaptado de NOAA, s.d.)

Onde ficam os sistemas de pressão. Numa carta de pressão ao NMM, os centros de alta e baixa pressão aparecem como linhas fechadas, afastados uns dos outros. Em média, as mais baixas pressões ficam nas latitudes médias (em torno de 50° N e S) e as mais altas, nos subtrópicos (perto de 30° N e S). A explicação dessa distribuição vem em capítulo posterior.

2. Ventos

Vento é o ar em movimento na horizontal. Para caracterizá-lo em qualquer ponto bastam dois parâmetros: a direção e a velocidade. O movimento vertical do ar recebe outro nome — movimento ou vento vertical — e é tratado mais adiante.

2.1 Direção e velocidade do vento

A direção meteorológica do vento indica de onde ele vem, não para onde vai. Um vento de oeste é o que sopra a partir de oeste. A direção é lida na rosa dos ventos, dividida em 360°: o N é a referência (0°) e os valores crescem no sentido horário — NE recebe 45°, E recebe 90°, e assim por diante. É comum usar a sigla inglesa dos pontos: N, S, E, W e NE, SE, SW, NW.

Fig. 6-8
Fig. 6-8 Rosa dos ventos e os pontos cardeais, colaterais e subcolaterais, com seus respectivos valores em graus

O círculo da direção do vento difere do círculo trigonométrico em dois pontos: aqui o zero está no N (e não no E, que no trigonométrico marca 0°), e os valores crescem no sentido horário (no trigonométrico crescem no anti-horário).

Fig. 6-9
Fig. 6-9 Comparação entre (A) o círculo utilizado para determinar a direção do vento e (B) o círculo trigonométrico

A velocidade (ou intensidade) costuma ser dada em metros por segundo (m/s), em quilômetros por hora (km/h) ou em nós (em inglês knots, kt). Um nó equivale a 0,5 m/s ou 1,8 km/h. Velocidade zero é a calmaria (não há vento). Um aumento repentino e passageiro da velocidade, em geral acompanhado de mudança brusca de direção, é a rajada — provocada por turbulência (passagem de vórtices), por diferença de altitude do terreno ou por frentes frias com grandes variações de temperatura e pressão. Como há rajadas, as observações para previsão devem usar o valor médio de um intervalo de dez minutos, e não um único registro.

O vento é uma grandeza vetorial: um vetor é um segmento orientado com origem, extremidade, direção, sentido e intensidade. O vento tem direção (norte-sul, leste-oeste etc.), sentido (de leste, de oeste etc., indicado pela origem do vetor) e intensidade (a velocidade). Decompondo o vetor no plano cartesiano, surgem a componente zonal (u), na direção leste-oeste (eixo x), e a componente meridional (v), na direção norte-sul (eixo y).

Fig. 6-10
Fig. 6-10 Exemplo de um vetor indicando vento de sudoeste (225°); o número 3 m/s representa a intensidade do vetor, isto é, a velocidade do vento

Tab. 6.2 — Sinal das componentes do vento.
ComponentePositiva quandoNegativa quando
Zonal (u), eixo xvento de oeste para lestevento de leste para oeste
Meridional (v), eixo yvento de sul para nortevento de norte para sul

Escoamentos predominantes na direção leste-oeste chamam-se zonais; os predominantes na direção norte-sul, meridionais.

Nas cartas sinópticas — montadas com dados medidos ao mesmo tempo em horários padrão da Organização Meteorológica Mundial (OMM; em inglês WMO) — a direção do vento é um traço ligado ao ponto da observação. A intensidade aparece em barbelas na ponta do traço: cada barbela vale 10 kt, meia barbela vale 5 kt e um triângulo vale 50 kt. Vento de até 2 kt não leva barbela; na calmaria (0 kt) desenha-se só um círculo em volta do ponto.

Fig. 6-11
Fig. 6-11 Representação da direção e da velocidade (barbelas) do vento em uma carta sinótica no hemisfério Sul (adaptado de Varejão-Silva, 2006)

Isógonas × isotacas. Numa carta, unindo pontos de mesma direção de vento formam-se as isógonas; unindo pontos de mesma intensidade, as isotacas.

3. Forças que influenciam os ventos

3.1 As leis do movimento de Newton

A primeira lei de Isaac Newton (1643–1727) diz que um corpo em repouso permanece em repouso, e um corpo em movimento retilíneo uniforme mantém a velocidade, a menos que uma força atue sobre ele. A segunda lei diz que a força sobre um corpo é igual à sua massa vezes a aceleração produzida:

F=ma(6.2)\vec{F} = m\,\vec{a} \tag{6.2}

Quando a massa é constante, a força e a aceleração ficam diretamente relacionadas. Como várias forças podem agir ao mesmo tempo, a segunda lei se refere à força resultante, e o corpo acelera na direção dessa resultante. Para achar a direção do vento, então, é preciso identificar todas as forças que atuam no movimento horizontal do ar: a força do gradiente de pressão, a força de Coriolis e o atrito. As duas primeiras agem em todos os níveis; o atrito atua perto da superfície.

3.2 Força do gradiente de pressão

As isóbaras são linhas que unem pontos de mesma pressão e mostram como ela varia na horizontal. A variação da pressão por unidade de distância é o gradiente de pressão:

GP=Δpd(6.4)GP = \frac{\Delta p}{d} \tag{6.4}

Fig. 6-12
Fig. 6-12 O gradiente de pressão entre os pontos 1 e 2 é 4 hPa em 100 km; a força direcionada da maior para a menor pressão é a força do gradiente de pressão (adaptado de Ahrens, 2009)

Num exemplo do livro, entre uma região de 1 020 hPa e outra de 1 016 hPa separadas por 100 km, o gradiente é de 4 hPa em 100 km, ou seja, 0,04 hPa/km: a pressão sobe 0,04 hPa a cada quilômetro. Se as mesmas isóbaras estivessem a só 50 km, o gradiente dobraria para 0,08 hPa/km. Daí a regra geral: isóbaras afastadas, gradiente fraco; isóbaras próximas, gradiente forte.

A diferença horizontal de pressão gera a força do gradiente de pressão (FGP) — a única força capaz de gerar os ventos. Ela aponta das altas para as baixas pressões, formando ângulos retos (90°) com as isóbaras. Sua magnitude acompanha o gradiente: quanto mais intenso o gradiente, maior a FGP.

Fig. 6-13
Fig. 6-13 Relação entre o gradiente de pressão e a força do gradiente de pressão; as setas vermelhas indicam a magnitude da força, sempre direcionada da maior para a menor pressão (adaptado de Ahrens, 2009)

FGP=1ρΔpd(6.5)FGP = -\frac{1}{\rho}\,\frac{\Delta p}{d} \tag{6.5}

Nessa expressão ρ\rho é a densidade do ar e Δp/d\Delta p/d é o gradiente horizontal de pressão. Embora a FGP seja a única que gera os ventos, ela não atua sozinha: assim que o ar começa a se mover, a força de Coriolis o desvia. Antes de chegar a Coriolis, vale ver a versão vertical da FGP.

Equilíbrio hidrostático

A FGP move o ar das altas para as baixas pressões, e a pressão cai rápido com a altura — pelo que se poderia imaginar o ar sempre subindo rumo ao espaço. Isso não acontece graças à gravidade, que empurra a massa de ar para a superfície. Normalmente a FGP vertical (apontando para cima) e a gravidade (apontando para baixo) têm valores quase iguais e sentidos opostos: é o equilíbrio hidrostático, em que a camada de ar não se desloca na vertical.

Fig. 6-14
Fig. 6-14 Coluna atmosférica com uma camada em equilíbrio hidrostático: a força que atua para cima (FGP) é igual à força que atua para baixo (gravidade) (adaptado de Wallace e Hobbs, 2006)

Tab. 6.3 — Equilíbrio hidrostático e movimento vertical.
Relação de forçasResultado na vertical
Gravidade = FGP verticalsem aceleração vertical (equilíbrio)
Gravidade > FGP verticalmovimento subsidente (ar desce)
FGP vertical > gravidademovimento ascendente (ar sobe)

Os movimentos verticais são bem mais fracos que os horizontais, mas é justamente o ar ascendente que se associa às tempestades.

3.3 Força de Coriolis

Ao contrário da FGP, a força de Coriolis (FC) é uma força fictícia: um efeito da rotação da Terra, que surge por se usar um referencial não inercial. A imagem clássica é a de uma plataforma giratória com duas pessoas trocando uma bola. Parada a plataforma, a bola vai em linha reta. Girando no sentido horário (o sentido em que a Terra gira vista de cima do polo Sul), a bola — que para um observador externo segue reta — parece desviar para a esquerda do alvo, na visão de quem está na plataforma. Transpondo para o planeta: a Terra é a plataforma e o vento, a bola; a FC é o termo que representa esse desvio aparente nas equações do movimento atmosférico.

Fig. 6-15
Fig. 6-15 Carta meteorológica de 29 de agosto de 2016, a 00 UTC; linhas pretas indicam isóbaras ao NMM (a cada 4 hPa) e linhas azuis, a direção e a intensidade do vento (dados ECMWF)

Numa carta real, os ventos não cruzam as isóbaras a 90° como faria só a FGP — eles tendem a ficar paralelos às isóbaras. Isso ocorre porque, depois que a FGP inicia o movimento, a FC entra em ação; quando a FC iguala a FGP em magnitude, mas em sentido oposto, o vento resultante fica paralelo às isóbaras (detalhado adiante, no vento geostrófico).

Fig. 6-16
Fig. 6-16 Deflexão do vento para a esquerda do movimento no hemisfério Sul e para a direita no hemisfério Norte devido à força de Coriolis (adaptado de Strahler e Strahler, 1997)

Propriedades da força de Coriolis. Corpo em repouso não sofre FC. Sem rotação da Terra não haveria FC. A FC só muda a direção do movimento, nunca a velocidade. Ela desvia os corpos livres (inclusive o vento) para a direita no hemisfério Norte e para a esquerda no hemisfério Sul. É proporcional à velocidade do vento (mais veloz, maior o desvio) e aumenta com a latitude — nula no equador, máxima nos polos.

Fig. 6-17
Fig. 6-17 Deflexão no vento de oeste produzida pelo efeito de Coriolis, (A) no instante inicial e (B) decorridas algumas horas (adaptado de Grimm, 1999b)

Para um vento inicialmente de oeste ao longo do paralelo 40°, horas depois ele continua de oeste para o observador fora da Terra, mas, no referencial fixo à Terra, vira vento de noroeste no hemisfério Norte e de sudoeste no hemisfério Sul. Vale o alerta: ao contrário da crença popular, a FC não faz a água girar no ralo — o efeito só é perceptível após algumas horas de movimento, em fenômenos como brisas, ciclones e anticiclones.

4. Ventos acima da camada-limite planetária

A FGP horizontal é a única força que gera os ventos e a FC só influencia a direção. Acima da camada-limite planetária (CLP) — uma faixa de cerca de 1 000 m de altura, que sofre os efeitos imediatos da superfície — essas duas forças se combinam para produzir dois tipos de vento: o geostrófico e o gradiente.

4.1 Vento geostrófico

Acompanhe-se uma parcela de ar no hemisfério Sul, a cerca de 5 km de altitude, inicialmente em repouso, num campo com isóbaras igualmente espaçadas (FGP constante, dirigida de norte para sul). A FGP acelera a parcela para sul, rumo às baixas pressões. Assim que ela começa a se mover, a FC a desvia para a esquerda (hemisfério Sul). Como a FGP ainda supera a FC, a parcela ganha velocidade; e, como a FC cresce com a velocidade, o desvio vai aumentando.

Fig. 6-18
Fig. 6-18 Representação do vento geostrófico para o hemisfério Sul: acima da CLP, o ar inicialmente em repouso acelera até ficar paralelo às isóbaras quando a FGP se equilibra com a FC (adaptado de Grimm, 1999b)

A velocidade cresce até a FC se igualar à FGP. Nesse ponto a resultante é zero, a parcela para de acelerar e escoa em linha reta, paralela às isóbaras e com velocidade constante. Esse é o vento geostrófico: o vento que surge quando a FGP fica em equilíbrio com a FC. No hemisfério Sul, o geostrófico deixa as baixas pressões à direita e as altas à esquerda.

Geostrófico é aproximação do vento real. Como depende do balanço FGP-FC, ele representa melhor o vento observado nas regiões afastadas do equador e acima da CLP. Perto do equador o efeito de Coriolis é muito pequeno, o balanço se rompe e o geostrófico se afasta do vento real. A intensidade segue a FGP: FGP maior, vento mais intenso — assim como, num rio, a água corre mais rápido onde o leito é mais apertado.

Fig. 6-19
Fig. 6-19 Comparação entre os escoamentos (A) do vento e (B) da água num rio para o hemisfério Norte (adaptado de Ahrens, 2009)

4.2 Vento gradiente

O geostrófico é boa aproximação onde as isóbaras são retas, mas, na prática, elas formam curvas — abertas ou fechadas, em células aproximadamente circulares. Essas células são os ciclones (ou baixas), de pressão mínima no centro, e os anticiclones (ou altas), de pressão máxima no centro. Nessas situações o vento real é estimado pelo vento gradiente, que resulta do balanço de três forças: FGP, FC e a força centrífuga (aparente).

Convém distinguir as duas: a força centrípeta aponta para o centro da trajetória curva, impedindo o corpo de "escapar pela tangente"; a força centrífuga (FCe) é aparente, de mesma intensidade mas sentido oposto (para fora), originada pela inércia da parcela — é ela que muda a direção do escoamento curvo.

Fig. 6-20
Fig. 6-20 Movimento resultante e forças atuantes (FGP, FC e FCe) em torno de um centro de baixa pressão acima da CLP no hemisfério Norte, ao longo de quatro instantes (A–D) (adaptado de Gradient, s.d.)

Numa baixa no hemisfério Norte, a FGP acelera o ar para o centro, a FC o desvia para a direita e a FCe o puxa para fora; em equilíbrio, a parcela tende a seguir reto e se distancia do centro. Ao se afastar, a FCe diminui e a resultante traz a parcela de volta ao seu raio de origem, onde as três forças voltam ao equilíbrio. Repetido ao longo da trajetória, o processo faz o ar escoar paralelo às isóbaras no sentido ciclônico (anti-horário no hemisfério Norte, horário no Sul). Numa alta, a FCe atua no mesmo sentido da FGP, e o ar escoa no sentido anticiclônico (horário no hemisfério Norte, anti-horário no Sul).

Tab. 6.4 — Sentido de giro em torno dos centros de pressão (acima da CLP).
CentroHemisfério NorteHemisfério Sul
Baixa (ciclone)anti-horáriohorário
Alta (anticiclone)horárioanti-horário

5. Ventos em superfície

5.1 Força de atrito

Nas cartas de superfície, os ventos não escoam totalmente paralelos às isóbaras: ao irem das altas para as baixas pressões, cruzam as isóbaras com ângulos menores que 90° — em média cerca de 30°. A causa é a força de atrito entre o vento e a superfície do planeta.

Fig. 6-21
Fig. 6-21 Análise de PNMM (hPa) e campo de vento (m/s) em 1.000 hPa sobre imagem de satélite infravermelho de 19 de fevereiro de 2014, a 00 UTC (Master, s.d.)

Acima de 1 000 m o vento escoa paralelo às isóbaras, pois a FGP equilibra a FC. Perto da superfície o atrito reduz a velocidade do vento, o que reduz a FC; com a FC enfraquecida, o balanço com a FGP se rompe e o vento passa a cruzar as isóbaras em direção às menores pressões.

Fig. 6-22
Fig. 6-22 Efeito do atrito nos ventos em superfície: (A)–(C) hemisfério Sul e (D)–(F) hemisfério Norte; em altitude o efeito é nulo (adaptado de Ahrens, 2009)

Tab. 6.5 — Escoamento em superfície ao redor dos centros de pressão.
SituaçãoHemisfério SulHemisfério Norte
Baixa (ar converge, para dentro)horárioanti-horário
Alta (ar diverge, para fora)anti-horáriohorário

No hemisfério Sul, em superfície, o vento entra e gira no sentido horário nas baixas e sai no sentido anti-horário nas altas; no hemisfério Norte, entra no anti-horário nas baixas e sai no horário nas altas. Em altitude, o atrito é nulo.

Fig. 6-23
Fig. 6-23 (A) Mapa meteorológico em superfície com isóbaras e vento (barbelas) num dia de dezembro na América do Sul e (B) escoamento idealizado em torno dos sistemas de pressão no hemisfério Sul (adaptado de Ahrens, 2009)

6. Movimento vertical

Em superfície, os ventos convergem (dirigem-se) para o centro de baixa pressão e divergem (saem) do centro de alta. Esse comportamento horizontal se liga a um movimento vertical do ar.

Fig. 6-25
Fig. 6-25 Centros de alta e baixa pressão e movimentos do ar associados, (A) para o hemisfério Sul e (B) para o hemisfério Norte (adaptado de Ahrens, 2009)

Numa baixa, qualquer que seja o hemisfério, o ar que converge para o centro sobe lentamente; a cerca de 6 000 m, acima da baixa, ele começa a divergir. Enquanto a divergência em altos níveis iguala a convergência em superfície, a pressão no centro não muda. Se a divergência em altos níveis supera a convergência em superfície, a pressão no centro da baixa decresce.

Numa alta o processo se inverte: o ar diverge do centro em superfície e, para repor o que saiu, o ar em níveis altos converge e desce lentamente (subside).

Por que isso importa para o tempo. O ar que ascende favorece a formação de nebulosidade e precipitação; o ar que subside inibe esses processos e traz céu limpo. Por isso as baixas costumam estar associadas a tempo instável e as altas, a tempo bom.

Resta uma aparente contradição. Em §3.2 viu-se que a atmosfera está em equilíbrio hidrostático, ou seja, as camadas não se deslocam na vertical — mas agora se fala em movimentos verticais. Na verdade, o equilíbrio hidrostático é uma teoria que simplifica o estudo dos processos atmosféricos; os movimentos verticais existem e são justamente eles que originam os diferentes sistemas atmosféricos. O capítulo seguinte passa aos dados atmosféricos e às formas de observação que registram tudo isso.