🧭 MMPH · Cap.8 — Circulação Geral da Atmosfera

Mapa Mental PH (aula enxutíssima) · Ynoue, Meteorologia — Noções Básicas · V.02-MO · Área V do edital · só o que cai, em esquemas · ✎ marque lacunas e oclusões para revisão ativa
☀️
DefiniçãoEscoamento médio do ar ao redor do planeta. O vento local/instantâneo pode fugir muito da média, mas a média global mostra os mecanismos que governam os ventos.
FunçãoTransporta calor e momentum do equador para os polos e leva o frio dos polos de volta às menores latitudes.

Ventos de escala global menor escala (brisas, monções) interação oceano-atmosfera (El Niño Oscilação Sul)

Percurso do capítulo: do maior para o menor. Onde estão as altas/baixas e o padrão dos ventos, em superfície e em altitude.
VentoAr em movimento. Circulações têm escala espacial (tamanho) e escala temporal (duração) muito diferentes, e interagem entre si.
EscalaTamanho / duraçãoExemplos
Microescalametros · segundos a minutosPequenos vórtices turbulentos (menores e mais efêmeros)
Mesoescaladezenas de km · minutos a diasTempestades, tornados, redemoinhos de poeira, brisas marítima/terrestre e de vale/montanha
Macroescalacontinental a globalCélulas de circulação, ZCIT
Um mesmo sistema pode ocupar mais de uma categoria (a dimensão horizontal real varia).
fig8-1
fig8-1 — As escalas das circulações atmosféricas, incluindo a dimensão horizontal e o tempo de vida dos fenômenos associados (adaptado de Ahrens, 2009)

3.1 O Sol como fonte de energia

Sol aquece a superfície condução aquece fina camada de ar convecção leva o calor às alturas

TrópicosRaios quase perpendiculares → energia concentrada; muitas nuvens → saldo de energia POSITIVO.
PolosIncidência oblíqua; gelo/neve emitem mais do que recebem → saldo NEGATIVO.
Aquecimento diferencial (do formato esférico da Terra) induz os ventos: levam ar quente e úmido do equador aos polos e ar frio e seco dos polos ao equador. No oceano → correntes marítimas. Redistribuição mantém o equilíbrio térmico.

3.2 Modelo unicelular — Terra SEM rotação

  • 4 simplificações: (1) superfície toda de água; (2) Sol perpendicular ao equador (sem estações); (3) Terra não gira → única força é a FGP; (4) só o lado iluminado.
  • Ar frio mais denso → FGP aponta dos polos para o equador. Ar converge e ascende no equador, diverge em altitude, subside nos polos, retorna. Uma célula por hemisfério.
  • Elaborado por George Hadley (1735) → daí o nome célula de Hadley. Transporta excesso de energia dos trópicos como calor sensível e latente.
  • fig8-2
    fig8-2 — Circulação geral da atmosfera considerando a Terra sem a realização do movimento de rotação (adaptado de Lutgens e Tarbuck, 2010)

3.2 Modelo unicelular — Terra COM rotação

  • Entra a força de Coriolis: desvia p/ a esquerda o ar polo Sul→equador e p/ a direita o polo Norte→equador.
  • Produziria ventos de leste em quase todas as latitudes.
Falha: ventos de leste frenariam a Terra pelo atrito; observações mostravam ventos de oeste para leste na maioria das latitudes.
fig8-3
fig8-3 — Circulação geral da atmosfera considerando o movimento de rotação da Terra (adaptado de Aguado e Burt, 2010)

3.2 Modelo de TRÊS CÉLULAS (déc. 1920)

Célula de Hadley célula de Ferrel célula polar (por hemisfério)

A / BNas figuras, A = alta e B = baixa pressão. Descrição com referência ao hemisfério Sul.
fig8-4
fig8-4 — Circulação global idealizada baseada no modelo de circulação de três células (adaptado de Ahrens, 2009)
fig8-5
fig8-5 — Representação esquemática do escoamento em superfície e em altos níveis das três células de circulação no hemisfério Sul; A e B indicam regiões de alta e baixa pressão

Célula de Hadley

fig8-6
fig8-6 — Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) vista numa imagem de satélite (adaptado de CPTEC, 2007)
  • Ascensão no equador (aquecimento intenso) → em altos níveis desloca-se aos polos → subsidência entre 20° e 35°.
  • Dois motivos da subsidência: resfriamento radiativo (ar perde calor, fica denso) + convergência por Coriolis (por ~25° ventos já quase zonais leste-oeste, convergem e forçam a descida).
  • Ar que afunda em 20°–35° forma cinturão de alta pressão → é a faixa dos grandes desertos (Saara, australiano).
Latitudes dos cavalosOutro nome das altas subtropicais (calmarias que prendiam veleiros).
Alísios: ramo da Hadley que volta ao equador desvia por Coriolis → alísios de SE no HS e alísios de NE no HN (em inglês trade winds).
Doldrums e ZCITAlísios dos 2 hemisférios convergem no equador (doldrums = calmarias, gradiente fraco, muita umidade). Ar quente e úmido ascende → nuvens de grande desenvolvimento vertical = Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), com mau tempo e chuvas intensas.

Na ZCIT o ar ascende e em altos níveis diverge rumo aos polos; por Coriolis dá origem aos ventos de oeste em altitude.

Célula de Ferrel

  • Ramo da subsidência 20°–35° que segue ao polo → por Coriolis gera ventos de oeste em superfície nas latitudes médias.
  • Por volta de 60° encontra o ar frio dos polos → frente polar (fronteira de massas distintas): ar quente ascende sobre o frio → tempestades.
Falha do modelo: em altitude a Ferrel iria ao equador (Coriolis pediria ventos de leste), mas as observações mostram ventos de oeste em altitude e superfície nas latitudes médias.

Célula polar

  • Subsidência sobre os polos (ar que ascendeu em 60°) → corrente de superfície ao equador, desviada por Coriolis → ventos polares de leste.
  • Encontram a corrente de oeste das latitudes médias na frente polar; ar ascende, um ramo volta ao polo (fecha a célula).
Faixa de latitudeHSHN
Tropical (equador a ~30°)Alísios de SEAlísios de NE
Latitudes médias (~30° a 60°)Ventos de oesteVentos de oeste
Polar (torno do polo)Ventos de lesteVentos de leste
Superfície: 2 altas (~30° e polos) e 2 baixas (equador e ~60°) por hemisfério. Modelo acerta a superfície; só falha em altos níveis (Ferrel).
Real ≠ idealO modelo de 3 células é idealização. Na atmosfera real as faixas de pressão não são contínuas.
RazãoSuperfície não homogênea (oceanos, continentes, solo, topografia) → atritos e aquecimentos distintos rompem as faixas zonais em células semipermanentes de alta e baixa.
SazonalidadeInclinação do eixo + rotação/translação (estações) → sistemas migram meridionalmente e mudam de intensidade. Médias de janeiro e julho revelam isso.
Variações sazonais mais evidentes no HN. No HS poucas mudanças verão↔inverno: superfície mais homogênea, predominam oceanos (termicamente estáveis).

4.1 Hemisfério Norte (por estação)

EstaçãoSistemas dominantes
Janeiro (inverno boreal)4 altas: 2 continentais (Eurásia, N. América) + 2 oceânicas (Pacífico, Atlântico); 2 baixas (Aleutas e Islândia/Groenlândia)
Julho (verão boreal)Altas continentais desaparecem; surgem baixas no N. da Índia e a SW dos EUA

4.2 Hemisfério Sul (por estação)

EstaçãoSistemas dominantes
Janeiro (verão austral)3 altas subtropicais (Atlântico, Pacífico, Índico, quase conectadas); 3 baixas perto do equador (Am. do Sul, sul da África, Indonésia)
Julho (inverno austral)Altas subtropicais se intensificam; surge uma 4ª sobre a Austrália
Migração sazonal: todos os sistemas — inclusive a ZCIT — migram com o caminho aparente do Sol. Deslocamento maior sobre continentes que sobre oceanos (estabilidade térmica).
fig8-7
fig8-7 — (A) Modelo de circulação geral idealizado em superfície e (B) circulação observada na atmosfera real, com rompimentos nos padrões zonais de pressão pela influência dos continentes (adaptado de Lutgens e Tarbuck, 2010)
fig8-8
fig8-8 — Média da pressão em superfície (em hPa) e da circulação do vento global associada para (A) janeiro e (B) julho (adaptado de Aguado e Burt, 2010)

5.1 Causa dos ventos de oeste

  • Origem: contraste de temperatura entre polos e equador. Ar frio mais denso → pressão cai mais rápido com a altura na coluna fria.
  • A mesma altitude → maiores pressões p/ o equador, menores p/ o polo → FGP dirigida das baixas latitudes ao polo.
  • Ar escoa dos trópicos ao polo, Coriolis desvia; no equilíbrio FGP↔Coriolis → ventos de oeste em altos níveis nas latitudes médias.
Ex. da figuraAltitude constante: ~800 hPa perto do polo × ~880 hPa a 30° S.
Gradiente de pressão aumenta com a altitude → ventos mais fortes até a tropopausa. Acima (estratosfera) enfraquecem: ozônio absorve UV, aquece o ar, inverte o gradiente (polo relativamente mais quente).

5.2 Correntes de jato

O que sãoFaixas estreitas de ventos muito velozes embebidas no escoamento de oeste. Surgem de intensos gradientes de temperatura em superfície. Comprimento de centenas a milhares de km.
Números geraisNa tropopausa, 10–14 km; ventos podem passar de 200 km/h.

Jato polar

  • Ao longo da frente polar (ventos polares de leste × oeste das latitudes médias).
  • Velocidade pode passar de 300 km/h; média 125 km/h no inverno, cai à metade no verão (gradiente mais forte no inverno).
  • Acompanha a frente polar → entre 30° e 70° de latitude, em ambos os hemisférios, e entre 8 e 11 km de altitude.
  • Frente/jato não retilíneos: ondulações N-S; às vezes se une ao subtropical (ramo norte e ramo sul).

Jato subtropical

  • No lado polar da célula de Hadley. Frente subtropical (só em altitude, não chega à superfície) → fortes gradientes → ventos fortes.
  • Efeito bailarina (conservação do momento angular): ar do equador aproxima-se do eixo ao ir a ~30° → velocidade aumenta.
  • Números: mais intenso no inverno, porém menos veloz que o jato polar. Posição média 25° (varia 20°–40°), a cerca de 13 km de altitude.
  • fig8-9
    fig8-9 — Distribuição da pressão com a altura sobre uma região polar fria (80° S) e uma região mais quente (30° S) (adaptado de Aguado e Burt, 2010)
fig8-10
fig8-10 — Posição média do jato polar (azul) e do jato subtropical (vermelho) no globo (adaptado de The Jet, s.d.)
fig8-11
fig8-11 — Representação da frente polar e do jato polar para o hemisfério Sul (adaptado de Ahrens, 2009)
fig8-12
fig8-12 — Correntes de jato sobre a América do Sul no nível de 250 hPa em (A) 4/01/2009, 00 UTC, e (B) 24/01/2011, 12 UTC; vermelho tracejado = jato subtropical, laranja = ramo norte do jato polar, branco = ramo sul (CPTEC, s.d.-b)

6.1 Brisa marítima × terrestre

AspectoBrisa marítima (dia)Brisa terrestre (noite)
Superfície mais quenteContinente (aquece mais rápido)Água (continente resfria mais rápido)
Sentido em superfícieDo mar para a terraDa terra para a água
IntensidadeMaior (máx. à tarde)Menor (contraste noturno menor)
Sobre lagosChama-se brisa lacustre.
Brisas duram algumas horas e sofrem Coriolis: no HS o vento vai girando p/ a esquerda com o tempo.
fig8-13
fig8-13 — Representação esquemática das brisas (A) marítima e (B) terrestre (adaptado de Lutgens e Tarbuck, 2010)

6.2 Brisa de vale × de montanha

Dia — brisa de VALEAr junto à encosta aquece mais rápido que o ar sobre o vale → escoamento do vale para a montanha. Máximo no início da tarde → nuvens e chuvas nas encostas.
Noite — brisa de MONTANHAEncosta resfria rápido, ar frio e denso escoa da montanha para o vale.
fig8-14
fig8-14 — Representação esquemática das brisas (A) de vale e (B) de montanha (adaptado de Kovsky e Elias, 1982)
MonçãoDo árabe mausim (estação). Reversão sazonal da circulação causada pelo aquecimento diferente continente × oceano. É uma brisa marítima/terrestre de maior dimensão e intensidade.
Estação+ quenteSentido do ventoRegime
VerãoContinente (baixa)Oceano → continente (ar úmido)Chuvoso
InvernoOceanoContinente → oceanoSeco
  • Sistema mais conhecido: monção da Ásia.
  • Am. do Sul tem a sua (só aparece na anomalia sazonal): estação chuvosa é o verão, chuva do oeste da Amazônia ao SE do Brasil.
  • fig8-15
    fig8-15 — Reversão sazonal dos ventos associada à monção asiática: (A) circulação de inverno; (B) circulação de verão (adaptado de Ahrens, 2009)
    fig8-16
    fig8-16 — Direção (setas) e intensidade (em m/s; cores) médias do vento em baixos níveis da atmosfera (A) no verão e (B) no inverno (Reboita et al., 2012)
    fig8-17
    fig8-17 — Precipitação média acumulada (A) no verão e (B) no inverno (em mm) (Reboita et al., 2012)
    fig8-18
    fig8-18 — Evolução mensal da precipitação na América do Sul; em cada gráfico, janeiro a dezembro da esquerda para a direita (Reboita et al., 2010)
ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul): banda de nebulosidade do NW da Amazônia ao SW do Atlântico, passando pelo SE do Brasil; fica estacionária ≥ 3 dias → muita chuva. Reforça a chuva de verão em N/CO/SE.
ZCAS — 3 fatores(1) jato de baixos níveis leva calor e umidade da Amazônia ao SE; (2) ar úmido do Atlântico Sul pelos ventos NW da alta subtropical; (3) aquecimento continental gera convecção. Costuma haver frente fria estacionária conectada.
fig8-19
fig8-19 — Exemplo de episódio de Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) no dia 13 de janeiro de 2013 (adaptado de CPTEC, 2013)
ForçanteA média pode ser alterada por forçantes naturais. Uma é a TSM (temperatura da superfície do mar), medida entre a superfície e 10 µm–10 m de profundidade.

8.1 Distribuição global da TSM

  • Aproximadamente zonal (isotermas ~ latitudes).
  • Máximo no equador: ~28 °C; decresce aos polos até ~−2 °C junto ao gelo.
  • Margem leste dos oceanos (a W dos continentes) → TSM mais baixa (correntes anticiclônicas trazem água fria dos polos); margem oeste → água mais quente.
  • Ar próximo à superfície adquire a temperatura da água.

8.2 Célula de Walker e Oscilação Sul

Célula de WalkerCirculação no plano vertical-zonal (oeste-leste) sobre o Pacífico equatorial, ligada à variação de pressão.

Oscilação Sul = variações de pressão El Niño/La Niña = variações de TSM combinação = Enos (El Niño Oscilação Sul)

AnomaliaDesvio do valor observado em relação à média climatológica (período longo).
NormalÁgua quente a W (Indonésia), fria a E (Am. do Sul) → alta a leste, baixa na Indonésia, alísios reforçados (leste→oeste); Walker ascende na Austrália/Indonésia e subside na costa oeste sul-americana.
fig8-20
fig8-20 — Média da temperatura da superfície do mar (TSM, em °C) no globo entre 1981 e 1995: (A) anual; (B) janeiro; (C) junho (Monthly/Seasonal, s.d.)
fig8-21
fig8-21 — Representação da célula de Walker em condições normais (adaptado de CPTEC, s.d.-c)

8.3 El Niño e La Niña

AspectoNormalEl NiñoLa Niña
TSM Pacífico EMais friaAquecida (máx. dez–fev)Resfriamento anômalo
Baixa/convecçãoOeste (Indonésia)Pacífico centralOeste, mais intensa
AlísiosNormais (E→W)Enfraquecem/invertemIntensificados
Célula de WalkerPadrãoDeslocada p/ lesteAlongada e intensificada
FrequênciaA cada 3 a 7 anos, podendo ou não intercalar anos normais.
Am. do Sul (dez–fev): El Niño → chuva acima no NE da Argentina, Uruguai, sul do Brasil, W de Equador/Peru; seca no NE do Brasil. La Niña → chuva acima no norte do NE brasileiro; abaixo no W de Peru/Equador.
fig8-22
fig8-22 — Circulação atmosférica em condições de El Niño sobre o oceano Pacífico equatorial (adaptado de CPTEC, s.d.-c)
fig8-23
fig8-23 — Circulação atmosférica em condições de La Niña sobre o oceano Pacífico equatorial (adaptado de CPTEC, s.d.-c)