1. Circulação geral da atmosfera: a visão de conjunto
Este capítulo monta o quadro de como o ar se organiza em torno do globo: onde estão os sistemas de alta e de baixa pressão e qual o padrão dos ventos, tanto em superfície quanto em altitude. O percurso vai do maior para o menor: primeiro os ventos de escala global, depois os de menor escala (brisas, monções) e, por fim, a interação entre oceano e atmosfera no fenômeno El Niño Oscilação Sul.
Fonte: YNOUE, Rita Yuri; REBOITA, Michelle S.; AMBRIZZI, Tércio; SILVA, Gyrlene A. M. da. Meteorologia: noções básicas. São Paulo: Oficina de Textos, 2017. Cap. 8 — Circulação geral da atmosfera.
Edital: Anexo 2-A, Área V (Meteorologia e Oceanografia) — item 11.3/11.4 (Circulação geral da atmosfera: células de Hadley, Ferrel e polar; ventos alísios; ZCIT; jatos; circulações locais — brisas e monções) e item 19.1 (interação oceano-atmosfera: célula de Walker, Oscilação Sul, El Niño/La Niña, Enos) · Anexo 2-B, Área V, item 2 (Ynoue, livro sem lista de capítulos; escopo fixado pelo 2-A).
A circulação geral da atmosfera é o escoamento médio do ar ao redor do planeta. O vento de um ponto e instante específicos pode afastar-se bastante dessa média — por influências locais, por exemplo —, mas a média global tem grande importância prática: dá uma visão dos mecanismos que governam os ventos e mostra como o calor e o momentum são transportados do equador para os polos, e o frio dos polos de volta para as menores latitudes.
2. Escalas do movimento atmosférico
O vento é o ar em movimento — invisível, mas evidente no balançar das folhas. Existem circulações de ar de tamanhos (escala espacial) e durações (escala temporal) muito diferentes, que ainda interagem entre si. Por isso os meteorologistas classificam as circulações em três faixas de tamanho.
- Microescala. Os menores e mais efêmeros movimentos — pequenos vórtices turbulentos (escala de metros, duração de segundos a minutos).
- Mesoescala. Tamanho intermediário — tempestades, tornados, redemoinhos de poeira, brisas marítima/terrestre e de vale/montanha (escala de dezenas de km, duração de minutos a dias).
- Macroescala. Os maiores sistemas, de alcance continental a global — as próprias células de circulação, a ZCIT.
A dimensão horizontal real de um mesmo sistema pode variar, de modo que ele às vezes ocupa mais de uma categoria da hierarquia. A figura abaixo posiciona vários fenômenos pela dimensão espacial e pelo tempo de vida.
3. Circulação global
3.1 O Sol como fonte de energia
A principal fonte de energia da atmosfera é o Sol. A radiação que chega aquece primeiro a superfície; esta, por condução, aquece uma fina camada de ar adjacente; e, por fim, movimentos convectivos levam esse calor a maiores alturas, somando-se à absorção da radiação infravermelha emitida pela superfície. O ponto-chave é que esse aquecimento não é uniforme entre o equador e os polos.
Por que os trópicos recebem mais energia. Nas regiões tropicais os raios solares chegam quase perpendiculares à superfície; perto dos polos, a incidência é oblíqua. Logo, a energia fica mais concentrada por unidade de área junto ao equador. Além disso, os trópicos têm muitas nuvens e não conseguem devolver ao espaço toda a energia recebida — saldo de energia positivo. Os polos, cobertos de gelo e neve, emitem mais do que recebem — saldo negativo.
Surge então a pergunta: como os polos conseguem emitir mais radiação do que recebem? A resposta está na própria circulação geral da atmosfera (e dos oceanos). O aquecimento diferencial, consequência do formato esférico da Terra, induz a formação dos ventos, que transportam ar quente e úmido da região equatorial em direção aos polos e ar frio e seco dos polos para o equador. No oceano, o mesmo papel cabe às correntes marítimas. Há, portanto, uma redistribuição de energia que mantém o equilíbrio térmico do planeta.
Embora a ideia pareça simples, o escoamento real do ar é bem complexo. Para entendê-lo, foram desenvolvidos ao longo do tempo alguns modelos conceituais de circulação geral, apresentados a seguir, do mais simples ao mais realista.
3.2 Modelos de circulação geral
Modelo unicelular — Terra sem rotação
O primeiro modelo parte de quatro simplificações: (1) a superfície é toda coberta de água, sem aquecimento diferente entre continentes e oceanos; (2) o Sol incide sempre perpendicular ao equador, eliminando o efeito das estações; (3) a Terra não gira, de modo que a única força atuante é a força do gradiente de pressão (FGP); e (4) considera-se apenas o lado iluminado.
Como o ar frio é mais denso do que o quente, forma-se junto à superfície um gradiente horizontal de pressão cuja FGP aponta dos polos para o equador. O ar de ambos os polos converge no equador e ascende; em altitude, diverge e volta aos polos; lá subside (afunda) e retorna ao equador em superfície. Resulta uma única e grande célula de convecção por hemisfério.
Esse modelo foi elaborado por George Hadley (1685–1768) em 1735 — por isso a célula recebe o nome de célula de Hadley. Nele, parte do excesso de energia dos trópicos é transportada para os polos, com déficit de energia, na forma de calor sensível e calor latente.
Modelo unicelular — Terra com rotação
Mantendo as simplificações 1 e 2, mas agora com a Terra girando, entra em cena a força de Coriolis. Em superfície, ela desvia para a esquerda o ar que vai do polo Sul ao equador e para a direita o que vai do polo Norte ao equador. O efeito combinado produziria ventos de leste em quase todas as latitudes.
Por que esse modelo também falha. Esses ventos de leste se moveriam contra a rotação da Terra e, pelo atrito, frenariam o planeta. Só que as observações já disponíveis na época mostravam ventos de oeste para leste na maioria das latitudes. Conclusão: o modelo não representava bem a realidade.
Modelo de três células
Como nenhum dos dois modelos anteriores reproduzia a circulação observada, um terceiro foi idealizado na década de 1920. Com a rotação, a única célula meridional dos modelos anteriores se rompe em três células por hemisfério: a célula de Hadley, a célula de Ferrel e a célula polar. As próximas subseções descrevem cada uma (com referência ao hemisfério Sul).
Célula de Hadley
O intenso aquecimento solar no equador faz o ar ascender; na alta troposfera, esse ar se desloca rumo aos polos nos dois hemisférios. Ao avançar, a circulação em altos níveis começa a subsidir numa faixa entre 20° e 35° de latitude. Essa subsidência tem dois motivos:
- Resfriamento radiativo. Ao afastar-se do equador, o ar em altos níveis perde calor por radiação, fica mais denso e tende a afundar.
- Convergência por Coriolis. Quanto maior a latitude, mais forte a força de Coriolis. Por volta de 25°, os ventos já estão quase zonais (leste-oeste), o que provoca convergência de ar em altitude e força a subsidência.
O ar que afunda nos subtrópicos (20°–35°) forma um cinturão de alta pressão junto à superfície. Não por acaso, é nessa faixa de subsidência que ficam os grandes desertos, como o do Saara e o australiano.
Latitudes dos cavalos. As altas subtropicais também são chamadas de latitudes dos cavalos. Uma versão conta que os veleiros que cruzavam o Atlântico eram surpreendidos por calmarias nessa faixa; com a viagem prolongada e a água e a comida escasseando, os cavalos eram jogados ao mar ou comidos.
Do centro das altas subtropicais o vento de superfície se divide em dois ramos: um segue para os polos; o outro fecha a célula de Hadley voltando ao equador. Por Coriolis, o ramo que vai ao equador se desvia para a esquerda no hemisfério Sul — formando os ventos alísios de sudeste — e para a direita no hemisfério Norte — formando os alísios de nordeste. Em inglês esses ventos são os trade winds (ventos de comércio), porque davam aos veleiros uma rota oceânica rumo ao Novo Mundo.
Doldrums e ZCIT. Os alísios dos dois hemisférios convergem perto do equador, numa região de fraco gradiente de pressão, chamada doldrums (calmarias) — ventos fracos e muita umidade. Essa convergência faz o ar quente e úmido ascender, transportando umidade do oceano para a alta troposfera e favorecendo nuvens de grande desenvolvimento vertical. Essa banda de nebulosidade é a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), um dos mais importantes sistemas de macroescala dos trópicos, com mau tempo e chuvas intensas em sua área de atuação.
Na ZCIT o ar ascende e, em altos níveis, diverge rumo aos polos; sob a ação de Coriolis, dá origem aos ventos de oeste em altitude.
Célula de Ferrel
Um dos ramos do ar que subsidiu em 20°–35° segue para o polo e, por Coriolis, gera os ventos de oeste em superfície nas latitudes médias. A caminho do polo, por volta de 60° de latitude, esse ar encontra o ar frio que desce dos polos. Como as duas massas têm temperatura e umidade diferentes, a fronteira entre elas é uma superfície chamada frente polar. Ali o ar quente ascende sobre o frio e origina tempestades. O ar que subiu divide-se em dois ramos: um vai ao polo; o outro volta ao equador e subside por volta de 30°, completando a célula de Ferrel quando o ar das altas subtropicais escoa de novo, em superfície, rumo aos polos.
A falha do modelo na célula de Ferrel. Como, nas latitudes médias, a célula de Ferrel em altitude é dirigida para o equador, Coriolis deveria produzir ventos de leste em altitude. Mas, desde a Segunda Guerra Mundial, as observações mostram ventos de oeste tanto em altitude quanto em superfície nessa região. Ou seja: a célula de Ferrel não se ajusta totalmente às observações. Esses ventos de oeste em altitude são detalhados na seção 5.
Célula polar
A célula polar começa com a subsidência sobre os polos, alimentada pelo ar que ascendeu em 60°. Isso gera uma corrente de superfície rumo ao equador, desviada por Coriolis, que forma em ambos os hemisférios os ventos polares de leste. Ao avançar, esses ventos encontram a corrente de oeste das latitudes médias justamente na frente polar; ali o ar ascende e, em altitude, um ramo vai às latitudes mais baixas e outro retorna ao polo — este último constituindo a célula polar.
Síntese do modelo de três células. Em cada hemisfério há, em superfície, duas grandes áreas de alta pressão (perto de 30° e nos polos) e duas de baixa pressão (perto do equador e perto de 60°). Em torno desses centros, o padrão dos ventos de superfície fica resumido na tabela abaixo.
| Faixa de latitude | Hemisfério Sul | Hemisfério Norte |
|---|---|---|
| Tropical (equador a ~30°) | Alísios de sudeste | Alísios de nordeste |
| Latitudes médias (~30° a 60°) | Ventos de oeste | Ventos de oeste |
| Polar (em torno do polo) | Ventos de leste | Ventos de leste |
O modelo acerta bem a distribuição de pressão e ventos em superfície; só falha em altos níveis, onde a célula de Ferrel não reproduz os ventos de oeste das latitudes médias.
4. Pressão e ventos na atmosfera real
O modelo de três células é uma idealização: na atmosfera real, as faixas de alta e baixa pressão não são contínuas. A razão é que a superfície do planeta não é homogênea — oceanos, continentes, cobertura do solo e topografia têm atritos e taxas de aquecimento diferentes, criam gradientes de pressão distintos e rompem as faixas zonais em células semipermanentes de alta e de baixa pressão.
Soma-se a isso a variação de temperatura ligada à inclinação do eixo e aos movimentos de rotação e translação (as estações do ano), que faz os sistemas migrarem meridionalmente e variarem em intensidade. Por isso os padrões de pressão mudam de posição e de força ao longo do ano. As médias de janeiro e julho deixam isso visível.
As variações sazonais dos sistemas de pressão são mais evidentes no hemisfério Norte. No Sul há poucas mudanças do verão para o inverno, porque sua superfície é mais homogênea — predominam os oceanos, termicamente mais estáveis.
4.1 Hemisfério Norte
No hemisfério Norte, os sistemas de pressão mudam bastante entre o inverno e o verão boreais: o forte aquecimento de julho desfaz as altas continentais e dá lugar a baixas térmicas.
| Estação | Sistemas dominantes |
|---|---|
| Janeiro (inverno boreal) | Quatro altas: duas continentais (Eurásia, norte da América do Norte) e duas oceânicas (Pacífico, Atlântico); duas baixas ciclônicas (Aleutas e Islândia/Groenlândia). |
| Julho (verão boreal) | As altas continentais desaparecem; surgem baixas no norte da Índia e a sudoeste dos EUA. |
4.2 Hemisfério Sul
No hemisfério Sul, as altas subtropicais quase se conectam numa faixa contínua e se intensificam no inverno austral, quando surge ainda um quarto centro sobre a Austrália.
| Estação | Sistemas dominantes |
|---|---|
| Janeiro (verão austral) | Três altas subtropicais sobre os oceanos Atlântico, Pacífico e Índico (quase conectadas); três baixas perto do equador (América do Sul, sul da África, Indonésia). |
| Julho (inverno austral) | As altas subtropicais se intensificam; aparece uma quarta sobre a Austrália. |
Migração sazonal. Todos os sistemas de alta e baixa, inclusive a ZCIT, migram com o caminho aparente do Sol. O deslocamento é maior sobre os continentes do que sobre os oceanos, porque estes têm maior estabilidade térmica.
5. Ventos de oeste em altos níveis nas latitudes médias
5.1 Causa dos ventos de oeste
O responsável pelos ventos de oeste em altos níveis nas latitudes médias é o contraste de temperatura entre polos e equador. Como o ar frio é mais denso, a pressão decresce mais rápido com a altura numa coluna de ar frio do que numa coluna de ar quente. Logo, a uma mesma altitude, as maiores pressões ficam em direção ao equador e as menores em direção aos polos.
Como se lê a figura. Traçando uma linha horizontal (altitude constante), perto do polo a pressão é cerca de 800 hPa, enquanto a 30° S é de aproximadamente 880 hPa. Disso resulta uma FGP dirigida das baixas latitudes para o polo. Quando o ar começa a escoar dos trópicos para o polo, a força de Coriolis o desvia; alcançado o equilíbrio entre FGP e Coriolis, os ventos tornam-se de oeste em altos níveis nas latitudes médias.
O gradiente horizontal de pressão entre as latitudes quentes e frias aumenta com a altitude, o que significa ventos mais fortes conforme se sobe — mas só até a tropopausa. Acima dela, na estratosfera, os ventos enfraquecem: a absorção de radiação ultravioleta pelo ozônio aquece o ar e provoca uma inversão em que as regiões polares ficam relativamente mais quentes que os trópicos, reduzindo o gradiente de pressão e a velocidade do vento.
5.2 Correntes de jato
Embebidas no escoamento de oeste, em altos níveis, há faixas estreitas de ventos muito velozes: as correntes de jato. Elas surgem de intensos gradientes horizontais de temperatura em superfície. Têm de centenas a milhares de quilômetros de comprimento e largura reduzida; em geral ficam na tropopausa, entre 10 km e 14 km, e os ventos podem passar de 200 km/h. A figura geral das células já indicava um jato polar e um jato subtropical.
Jato polar
O jato polar ocorre ao longo da frente polar, a principal zona frontal do globo, onde os ventos polares de leste encontram os ventos quentes de oeste das latitudes médias. Sua velocidade pode passar de 300 km/h; em média, é de 125 km/h no inverno e cai quase à metade no verão (o gradiente de temperatura é mais forte no inverno).
Migração sazonal do jato polar. Como acompanha a frente polar, sua posição varia com as estações. Em junho–julho–agosto, os sistemas (e o jato) deslocam-se para norte — ele chega a ~50° de latitude no hemisfério Norte. Em dezembro–janeiro–fevereiro, deslocam-se para sul — atuando em ~50° de latitude no hemisfério Sul. Por isso o jato polar pode ser encontrado entre 30° e 70° de latitude em ambos os hemisférios e entre 8 km e 11 km de altitude.
A frente polar não é retilínea em torno do globo — em alguns trechos o ar frio avança mais para o equador —, e o mesmo vale para o jato polar, que ganha ondulações de grande componente norte-sul. Por causa delas, às vezes um trecho do jato polar se une ao jato subtropical, e suas porções recebem os nomes de ramo norte e ramo sul.
Jato subtropical
O jato subtropical forma-se no lado polar da célula de Hadley. O ar quente que essa célula leva em altos níveis rumo ao polo produz um forte contraste de temperatura ao longo de uma frente subtropical — perceptível sobretudo em altitude e que não chega à superfície. Esse contraste gera fortes gradientes de pressão e, portanto, ventos fortes.
O efeito bailarina. Além do contraste de temperatura, a conservação do momento angular contribui para o jato subtropical. É o conhecido efeito bailarina: ela gira de braços abertos e, ao fechá-los, gira mais rápido, pois a massa se aproxima do eixo. Na Terra, a distância da superfície ao eixo de rotação é máxima no equador e nula nos polos. Quando o ar se desloca do equador para ~30° N ou S (em altos níveis), aproxima-se do eixo e, para conservar o momento angular, sua velocidade aumenta — daí o jato concentrar-se nessa região.
Jato subtropical em números. É mais intenso no inverno (gradientes de temperatura maiores), porém menos veloz que o jato polar. Sua posição média fica em 25° de latitude nos dois hemisférios (variando entre 20° e 40°), a cerca de 13 km de altitude.
6. Circulações locais
Até aqui foram vistos os padrões de pressão e vento em escala global. Mas também há circulações de menor dimensão espacial e temporal. Esta seção trata dos ventos em escala local.
6.1 Brisa marítima e brisa terrestre
Durante o dia, o continente se aquece mais depressa que a água. O ar aquecido sobre a terra forma uma baixa térmica rasa (de pouca extensão vertical); em superfície, a FGP aponta do oceano para o continente, dando a brisa marítima — o ar escoa do mar para a terra, com força máxima à tarde. À noite, inverte-se: o continente se resfria mais rápido, a alta pressão passa a ser sobre a terra e surge a brisa terrestre, da terra para a água, mais fraca por causa do menor contraste térmico noturno. (Sobre lagos, chama-se brisa lacustre.)
| Aspecto | Brisa marítima (dia) | Brisa terrestre (noite) |
|---|---|---|
| Superfície mais quente | Continente | Água |
| Sentido do vento em superfície | Do mar para a terra | Da terra para a água |
| Intensidade | Maior (contraste máximo à tarde) | Menor (contraste noturno menor) |
As brisas duram algumas horas e sofrem também a ação de Coriolis: no hemisfério Sul, o vento da brisa vai girando para a esquerda com o tempo.
6.2 Brisa de vale e brisa de montanha
O aquecimento e o resfriamento diferentes das encostas e do ar sobre os vales geram as brisas de vale e de montanha. De dia, o ar junto à encosta se aquece mais rápido que o ar à mesma altura sobre o vale (a encosta é uma superfície próxima, que aquece o ar adjacente). As isóbaras ficam mais afastadas sobre a montanha; surge um escoamento em superfície do vale para a montanha, a brisa de vale. Como ela atinge o máximo no início da tarde, nuvens e chuvas são comuns nas encostas na parte mais quente do dia.
À noite, inverte-se: a encosta se resfria rápido, o ar em contato fica mais frio e denso e escoa da montanha para o vale — a brisa de montanha.
7. Circulações com variações sazonais: monções
A palavra monção vem do árabe mausim (estação). Em Meteorologia, designa uma reversão sazonal da circulação atmosférica causada pelo aquecimento diferente entre continentes e oceanos. É, em essência, uma circulação de brisa marítima/terrestre, porém de maior dimensão e intensidade.
| Estação | Superfície mais quente | Sentido do vento | Regime |
|---|---|---|---|
| Verão | Continente (baixa) | Oceano → continente (traz ar úmido) | Chuvoso |
| Inverno | Oceano | Continente → oceano | Seco |
O sistema de monção mais conhecido é o da Ásia. A América do Sul também tem o seu, embora a reversão dos ventos sobre o continente não apareça nos mapas sazonais brutos — só é notada quando se extrai a média anual do valor sazonal (anomalia sazonal). Como em toda monção, a estação chuvosa é o verão, com precipitação do oeste da Amazônia ao sudeste do Brasil.
ZCAS — a parceira de verão. Nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, a chuva de verão é reforçada pela Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS): uma banda de nebulosidade que vai do noroeste da Amazônia ao sudoeste do Atlântico, passando pelo sudeste do Brasil, e que fica estacionária por três dias ou mais, causando muita chuva. Forma-se pela junção de três fatores: o transporte de calor e umidade da Amazônia ao sudeste por um jato de baixos níveis; o ar úmido trazido do Atlântico Sul pelos ventos do setor noroeste da alta subtropical; e o próprio aquecimento da superfície continental, que gera convecção. Em episódios de ZCAS, costuma haver uma frente fria estacionária no Atlântico Sul conectada ao sistema.
8. Interação oceano–atmosfera: El Niño e La Niña
A média da pressão e da circulação geral pode ser modificada quando a atmosfera é perturbada por forçantes naturais (sem influência humana). Uma dessas forçantes é a temperatura da superfície do mar (TSM) — medida entre a superfície e algo entre 10 µm e 10 m de profundidade, conforme o método.
8.1 Distribuição global da TSM
- Aproximadamente zonal. As isotermas seguem mais ou menos as linhas de latitude.
- Máximo no equador. A TSM é maior junto ao equador (cerca de 28 °C) e decresce rumo aos polos, chegando a cerca de −2 °C junto ao gelo polar.
- Distorção costeira. Perto da costa, as correntes desviam e as isotermas tendem a seguir a direção norte-sul. Na margem leste dos oceanos (a oeste dos continentes) ocorrem TSMs mais baixas — correntes anticiclônicas trazem água fria dos polos; na margem oeste, o contrário, com água mais quente.
- Ar acompanha a água. O ar próximo à superfície adquire lentamente a temperatura da água, de modo que a temperatura do ar sobre os oceanos tem, em média, a mesma distribuição da TSM.
8.2 Célula de Walker e a Oscilação Sul
Sobre o Pacífico equatorial existe uma célula de circulação no plano vertical-zonal (oeste-leste), ligada à variação de pressão da região: é a célula de Walker. As anomalias de TSM do Pacífico tropical podem modificá-la. As variações de pressão correspondem à Oscilação Sul; as variações de TSM, ao El Niño/La Niña. A combinação das duas é o fenômeno El Niño Oscilação Sul (Enos).
O que é uma anomalia. É o desvio de um valor observado num dado instante (p. ex. a TSM) em relação à média de um período longo de anos — a média climatológica.
Em condições normais (sem anomalias de TSM), há águas mais quentes a oeste, perto da Indonésia, e mais frias a leste, perto da América do Sul. Isso sustenta uma alta pressão no leste do Pacífico e uma baixa sobre a Indonésia, reforçando os ventos alísios, que sopram de leste para oeste em superfície. A célula de Walker tem, então, ar ascendente perto da Austrália/Indonésia, escoamento de oeste para leste em altos níveis e movimentos descendentes perto da costa oeste sul-americana.
8.3 El Niño e La Niña
Quando os valores de TSM do Pacífico equatorial se afastam muito da média climatológica, a resposta atmosférica se dá pela modificação da célula de Walker, com mudanças de chuva e temperatura em muitas regiões do globo.
| Aspecto | Normal | El Niño | La Niña |
|---|---|---|---|
| TSM no Pacífico equatorial leste | Mais fria | Aquecida (máx. dez–fev) | Resfriamento anômalo |
| Baixa pressão / convecção | Oeste (Indonésia) | Pacífico central | Oeste, mais intensa |
| Ventos alísios | Normais (leste→oeste) | Enfraquecem ou invertem | Intensificados |
| Célula de Walker | Padrão | Deslocada para leste | Alongada e intensificada |
Frequência e efeitos. El Niño e La Niña ocorrem a cada três a sete anos, podendo ou não ser intercalados por anos normais. Na América do Sul, em El Niño (dez–fev): chuva acima do normal no nordeste da Argentina, Uruguai, sul do Brasil e oeste de Equador/Peru, e seca no nordeste do Brasil. Em La Niña (dez–fev): chuva acima da média no norte do Nordeste brasileiro e abaixo no oeste de Peru/Equador.
Fecho do capítulo. Além do modelo teórico de ventos e pressão no globo, o Cap. 8 introduziu sistemas tropicais como a ZCIT e a ZCAS. O capítulo seguinte trata dos sistemas extratropicais — massas de ar, frentes e ciclones —, além dos ciclones tropicais, anticiclones e tempestades severas.