MO Cap. XIII — Climatologia e Cartas Piloto

1. Circulação geral dos oceanos

Climatologia é o estudo do tempo e do mar pelo que se observou no passado: dados colhidos numa mesma área, no mesmo mês, ao longo de muitos anos. Por isso a informação climatológica varia bastante de um mês para outro — é o efeito da sazonalidade, das estações do ano. O instrumento que reúne essa estatística para o navegante é a Carta Piloto, e o capítulo começa pela circulação que está por trás dela: a dos oceanos.

Fonte: LOBO, Paulo Roberto Valgas. Meteorologia e Oceanografia — Usuário Navegante. Vol. I. 4. ed. rev. atual. ampl. Petrópolis: Vozes, 2019. Cap. XIII — Climatologia e Cartas Piloto (circulação geral dos oceanos; elementos e utilização do Atlas de Cartas Piloto brasileiro e internacional; rosa dos ventos; isotermas, correntes, isogônicas, áreas de previsão; limites de iceberg e pack ice; ocorrências climáticas significativas por oceano; cartas climáticas de verão e inverno; variabilidade sazonal no planejamento da derrota).

Edital: Anexo 2-A, Área V (Meteorologia e Oceanografia): climatologia e segurança da navegação — uso das Cartas Piloto (Atlas) no planejamento meteorológico e oceanográfico da derrota; circulação geral dos oceanos (correntes quentes e frias; efeito de Coriolis); elementos das Cartas Piloto (rosa dos ventos, isotermas TSM e do ar, correntes, isogônicas, áreas de previsão, rotas ortodrômicas, pressão, visibilidade, nevoeiro); cartas brasileiras (DHN) e internacionais (DMA, NVPUB 105 a 109); limites de iceberg e de pack ice; ventania (gales), altura das ondas, ciclones; variabilidade mensal e sazonal · Anexo 2-B, Área V, item 3 (Lobo/Soares — escopo definido pelo 2-A).

Tal como a atmosfera, os oceanos contribuem muito para o equilíbrio térmico do planeta. A rotação da Terra atua sobre as circulações atmosférica e oceânica, desviando as trajetórias nos movimentos norte-sul e sul-norte. Esse desvio é o efeito da força de Coriolis: para a direita no Hemisfério Norte (HN) e para a esquerda no Hemisfério Sul (HS).

O transporte de calor pelas correntes é tão grande que dois lugares no mesmo paralelo — sujeitos à mesma radiação solar — podem ter climas bem diferentes. O livro lembra o paralelo de 60° N: a costa do Canadá e da Groenlândia, banhada pela corrente fria do Labrador, contrasta com a Escandinávia e o noroeste da Inglaterra, aquecidas pelas correntes quentes do Atlântico Norte e da Noruega.

Fig. XIII-1
Fig. XIII-1 Circulação geral dos oceanos — a circulação oceânica é fechada nos hemisférios norte e sul, no Atlântico, no Índico e no Pacífico. A contracorrente equatorial flui para leste (E) e separa as circulações fechadas; as correntes norte e sul equatoriais fluem para oeste (W). No HS, em altas latitudes, a corrente circumpolar antártica flui para leste (E). Por Coriolis, as correntes quentes desviam para leste e as frias para oeste em ambos os hemisférios.

1.1 Correntes quentes e frias; o efeito de Coriolis

A classificação de uma corrente vem do sentido em que ela flui. A corrente quente (ou temperada) é a que segue na direção das altas latitudes: leva energia para as regiões frias e aquece o ambiente. A corrente fria é a que flui na direção do equador: absorve energia das regiões quentes e esfria o ambiente. Em ambos os hemisférios, por Coriolis, as correntes quentes desviam para leste (E) e as frias para oeste (W) — situação que se repete na atmosfera com os ventos alísios.

A circulação é fechada (circular) em cada hemisfério e em cada oceano. A contracorrente equatorial flui para leste e separa as duas circulações fechadas; as correntes norte e sul equatoriais fluem para oeste. No HS, em altas latitudes, a corrente circumpolar antártica flui para leste e, na parte leste dos oceanos, ramifica-se em correntes frias (do Peru, de Benguela, do oeste da Austrália) que descem para o equador. No HN sobressaem as correntes quentes do Golfo (Atlântico) e de Kuroshio (Pacífico), e no norte do Índico as correntes do mar Arábico e do mar do sul da China, comandadas pelas monções (SW no verão, NE no inverno).

Circulação geral dos oceanos — correntes por oceano (Q = quente/temperada, F = fria). Fonte: Lobo/Soares, Tabela XIII-1 (WMO).
FaixaAtlânticoPacíficoÍndico
NorteGolfo (Q), Atlântico Norte (Q), Portugal/Canárias (F), Norte Equatorial (Q)Kuroshio (Q), Pacífico Norte (Q), Califórnia (F), Norte Equatorial (Q)Somália (Q), Monções (Q), Norte Equatorial (Q)
EquadorContracorrente Equatorial (Q)Contracorrente Equatorial (Q)Contracorrente Equatorial (Q)
SulSul Equatorial (Q), Brasil (Q), Antártica (F), Benguela (F)Sul Equatorial (Q), Oriental da Austrália (Q), Antártica (F), Peru/Humboldt (F)Sul Equatorial (Q), Moçambique/Agulhas (Q), Antártica (F), Ocidental da Austrália (F)

O que o navegante tira disso: a circulação geral pesa no planejamento das rotas longas, porque ao passar de um quadrante para outro do oceano a corrente muda de direção. As correntes registradas nas Cartas Piloto devem orientar a escolha da derrota e o acompanhamento permanente da navegação meteorológica e oceanográfica.

2. Cartas Piloto — o que são e para que servem

As Cartas Piloto apresentam, em forma gráfica, a frequência de dados de meteorologia e oceanografia coletados ao longo de muitos anos. A finalidade é facilitar as providências, os procedimentos, as precauções e as decisões do navegante na escolha das melhores derrotas e na boa condução do navio. Cada carta traz, impressas, as explicações de como ler cada tipo de informação.

Há um cuidado de uso importante: a Carta Piloto não serve isolada, e sim em conjunto com os demais auxílios à navegação. Bem analisada ainda no porto, ela facilita o planejamento da derrota — entre outras coisas, indica as correntes costeiras e oceânicas que o navio vai encontrar, permitindo aproveitar as correntes favoráveis e evitar, sempre que possível, as contrárias ao rumo. Daí a recomendação de escolher ou modificar os rumos com antecedência para fugir das correntes costeiras adversas e render mais na viagem.

Frequência, não média: as Cartas Piloto resultam de trabalho estatístico de períodos superiores a trinta anos de observação. A informação é dada em percentual ou frequência de ocorrência do parâmetro, e não como valor médio. A vantagem é mostrar ao navegante a probabilidade de, naquele mês, ocorrer tal vento ou tal corrente — uma probabilidade baseada nos anos anteriores, que costuma repetir-se no mês em questão.

Essa probabilidade do passado não dispensa o presente. Para o acompanhamento diário da evolução do tempo e do mar, o navegante deve continuar interpretando os boletins meteorológicos transmitidos pelo Serviço Meteorológico Marinho (METEOROMARINHA) e ajustar a derrota e a programação conforme as previsões para as próximas horas.

De modo geral, no corpo da carta o navegante encontra ventos (direção, intensidade e percentual de ocorrência); correntes (direção e intensidade); isotermas de TSM e de temperatura do ar; isogônicas; rotas recomendadas; áreas de previsão e áreas dos boletins. Para os principais portos brasileiros, a carta acrescenta nevoeiro, visibilidade, pressão à superfície, vento forte, ventos predominantes e temperatura do ar.

2.1 Atlas de Cartas Piloto brasileiro (DHN)

O Atlas de Cartas Piloto — Oceano Atlântico de Trinidad ao Rio da Prata, publicado pela Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN), cobre o Atlântico Sul do litoral do Brasil até o meridiano de 20° W e do paralelo de 10° N ao de 35° S — toda a costa brasileira, de norte a sul. O Atlas é composto de 12 cartas, uma para cada mês, e no verso de cada uma há informações para os principais portos brasileiros e ilhas oceânicas.

Fig. XIII-2
Fig. XIII-2 Carta Piloto Brasileira — as linhas pretas indicam rotas recomendadas e as linhas verdes indicam a corrente do Brasil.

É hábito recomendável consultar a carta do mês em curso e compará-la com a dos meses anteriores e posteriores, para ressaltar quais parâmetros mudam de forma significativa na região de interesse. O livro sugere, por exemplo, acompanhar como a visibilidade no porto de trabalho varia de mês a mês por causa das estações.

2.2 Rosa dos ventos e demais elementos da carta brasileira

O vento é registrado por uma rosa dos ventos azul no centro de cada quadrado de 5° de latitude por 5° de longitude (5° × 5°). Cada seta aponta a direção de onde sopra o vento, por octante (N, NE, E, SE, S, SW, W e NW). Três leituras saem da mesma rosa:

  • a frequência com que o vento ocorre naquela direção — pelo tamanho da seta (ou pelo número escrito sobre ela), medido da circunferência e comparado com a Escala Percentual de Ventos da carta;
  • a intensidade — pelo número de traços (penas) na extremidade da seta, que dá a força na escala Beaufort;
  • a calmaria — pela percentagem indicada no número do círculo central.

O vento predominante é aquele cuja direção tem a seta de maior tamanho (ou o número mais alto). A figura abaixo é a rosa que aparece na Carta Piloto Brasileira (1993).

Fig. XIII-3
Fig. XIII-3 Rosa dos ventos da Carta Piloto — a direção dos ventos predominantes numa área é registrada graficamente por rosa dos ventos: a frequência pelo tamanho da flecha, a intensidade pelo número de traços na extremidade (escala Beaufort) e a frequência de calmaria pela numeração do círculo central.

Interpretação da rosa dos ventos da Fig. XIII-3 — Carta Piloto Brasileira (1993). Calmaria: 1%. Fonte: Lobo/Soares, Tabela XIII-2.
Direção (de onde sopra)Frequência (%)Força Beaufort
Norte22
Nordeste83
Leste (predominante)543
Sudeste293
Sul23
Sudoeste1,53
Oeste
Noroeste1,53

Os demais elementos da carta brasileira seguem um código de cores fixo. Conhecê-lo é o que permite ler a carta sem ambiguidade:

Simbologia da Carta Piloto Brasileira (DHN) — corpo da carta e quadros do porto. Fonte: Lobo/Soares, §2.2.1.
ParâmetroRepresentação
VentoRosa dos ventos azul no quadrado de 5° × 5°
TSM (temperatura da superfície do mar)Isotermas em linha cheia encarnada, em °C
Temperatura do ar à superfícieIsotermas em linha tracejada encarnada, em °C
CorrentesSetas verdes (direção) e números (velocidade média)
Áreas de previsãoLetras entre linhas cinza: A (Sul) a H (Norte), mais S e N nas áreas oceânicas afastadas até 20° W
Isogônicas (declinação magnética)Roxo: linhas cheias (1990) e tracejadas (variação anual)
Visibilidade no portoNúmeros azuis: % de visibilidade inferior a 2,5 milhas náuticas
Nevoeiro no portoNúmeros vermelhos: % de nevoeiro observado
Vento forte no portoNúmeros encarnados: % de ventos fortes
PressãoLinhas cheias azuis (pressão média ao nível do mar)
Temperatura do ar no portoNúmeros vermelhos (temperatura média)
Vento no portoRosa dos ventos azul (% dos ventos predominantes)

3. Cartas Piloto internacionais (DMA)

Fora da costa brasileira, o navegante usa as Cartas Piloto internacionais publicadas pela norte-americana Defense Mapping Agency (DMA). São cinco coletâneas de 12 cartas mensais cada, organizadas por região oceânica:

Coletâneas internacionais da DMA. Fonte: Lobo/Soares, §2.3.1.
PublicaçãoRegiãoFigura
NVPUB 105Atlântico SulXIII-4
NVPUB 106Atlântico Norte (Seção I), Nordeste do Atlântico Norte (Seção II), Mar do Caribe e Golfo do México (Seção III)XIII-5, XIII-6
NVPUB 107Pacífico SulXIII-7
NVPUB 108Pacífico NorteXIII-8
NVPUB 109ÍndicoXIII-9

Fig. XIII-4
Fig. XIII-4 Carta Piloto do Atlântico Sul (setembro) — as linhas vermelhas pontilhadas indicam limites extremos de iceberg trazidos pela corrente das Malvinas, indicada pelas flechas verdes.
Fig. XIII-5
Fig. XIII-5 Carta Piloto do Atlântico Norte (abril) — as linhas vermelhas tracejadas indicam limite extremo de iceberg trazidos pela corrente do Labrador, indicada por flechas verdes; no mar de Sargaço (30°N) as flechas verdes mostram a variabilidade da direção das correntes.
Fig. XIII-6
Fig. XIII-6 Carta Piloto do Atlântico Norte (julho) — Mar do Caribe e Golfo do México (Seção III): as linhas vermelhas indicam estado do mar com frequência de 40% de ondas acima de 8 pés; as flechas verdes ao sul da Flórida indicam a corrente do Golfo com 3,5 nós.
Fig. XIII-7
Fig. XIII-7 Carta Piloto do Pacífico Sul (agosto) — a linha vermelha tracejada próxima do norte da Nova Zelândia indica limite extremo de iceberg; as flechas verdes mostram a grande variabilidade da direção das correntes entre Nova Zelândia e Austrália.
Fig. XIII-8
Fig. XIII-8 Carta Piloto do Pacífico Norte (dezembro) — as linhas pretas mostram rotas recomendadas que cruzam a corrente de Kuroshio, indicada por flechas verdes.
Fig. XIII-9
Fig. XIII-9 Carta Piloto do Oceano Índico (agosto) — as linhas vermelhas encarnadas registram frequência de 30% de estado do mar severo (onda acima de 12 pés) no mar Arábico e região central do Índico; a SW de Madagascar, as linhas verdes indicam a corrente das Agulhas.

Os parâmetros usuais das cartas internacionais são a frequência da altura da onda, a ventania (gales), os ciclones extratropicais, a temperatura do ar, os ciclones tropicais, as correntes oceânicas, os ventos, a pressão à superfície, a visibilidade, a explanação das rosas dos ventos, a variação magnética, as rotas de círculo máximo (ortodrômicas), o tempo local e a TSM. As cartas que abrangem as altas latitudes trazem ainda as linhas-limite de iceberg e de pack ice; as cartas tropicais detalham a ocorrência e as trajetórias dos furacões.

3.1 Simbologia dos parâmetros internacionais

A leitura das cartas internacionais também é regida por cores e símbolos fixos, no corpo principal e nos pequenos quadros inseridos:

Simbologia das Cartas Piloto internacionais (DMA). Fonte: Lobo/Soares, §2.3.2.
ParâmetroRepresentação
Altura das ondas (estado do mar)Linhas vermelhas: % de ondas ≥ 12 pés (exceto a NVPUB 106 Seção III, que usa 8 pés)
Ventania (gales)Números vermelhos no centro de cada quadrado de 5°: % de ventos força 8 ou mais
Ciclones extratropicaisLinhas cheias vermelhas grossas (trajetória principal) e tracejadas (secundária)
Temperatura do arLinhas finas vermelhas a cada 2 °C
Ciclones tropicais e furacõesLinhas cheias verdes; só nos meses de grande frequência (média das trajetórias)
Correntes oceânicasSetas verdes (direção) e números (velocidade em nós); setas tracejadas = fluxo provável onde os dados são esparsos
VentosRosa dos ventos azul no centro do quadrado de 5°; acima de 29%, a % é escrita sobre a seta
Pressão à superfícieIsóbaras em linhas cheias azuis a cada 2,5 hPa (em quadro inserido)
VisibilidadeLinhas tracejadas azuis: % de visibilidade menor que 2 milhas (em quadro inserido)
Declinação magnéticaLinhas cinza no corpo da carta; variação anual em quadro inserido
Rotas de círculo máximo (ortodrômicas)Linhas cheias pretas: menor distância entre os portos, nas condições normais do mês
TSMLinhas verdes a cada 4 °C (em quadro inserido)

3.2 Ocorrências climáticas significativas por oceano

O capítulo percorre cada coletânea destacando onde e quando os fenômenos mais relevantes ocorrem. O quadro abaixo resume essa casuística — os gales, as ondas, os limites de iceberg e de pack ice e os ciclones por oceano:

Ocorrências climáticas significativas por região (síntese das séries mensais Quadros XIII-1 a XIII-8). Fonte: Lobo/Soares, §2.3.3.
Região (NVPUB)Gales / ondasIceberg / pack ice / ciclones
Atlântico Sul (105)Gales ao sul de 30° S, frequentes o ano todo, pico em junho no "Silvio dos Quarenta" (40° S, 55° W a 30° E), 20–30%; ondas ≥ 12 pés ao sul de 25° S, pico no inverno (jul–set)Iceberg ao sul de 40° S, mais forte em set–out (sul da África) e nov–dez (37° S, 55° W); pack ice avança em setembro, ao norte da Geórgia do Sul (52° S)
Atlântico Norte — Seção I (106)Gales no centro de baixa ao sul da Groenlândia, pico dez–fev (até 30%); ondas mais fortes dez–mar nas regiões central, norte e nordesteIceberg presente o ano todo, avanço máximo em maio (40° N, a SE de Terra Nova); pack ice avança em março (43° N, a SE de Terra Nova); ciclones extratropicais no inverno
Nordeste do Atlântico Norte — Seção IIGales ligados às baixas ao sul da Groenlândia (até 30% no inverno); ondas ≥ 12 pés de set a abr (30–40%) entre 50° N e o sul da IslândiaIceberg o ano todo na costa leste da Groenlândia, Islândia e mar de Barents; pack ice avança em fevereiro (mar da Noruega)
Caribe e Golfo do México — Seção IIIOndas referidas a 8 pés; pico na área central do Caribe em jan–mar e julCiclones tropicais de jun a nov, entre 8° e 20° N, rumando a oeste e curvando-se a NE perto de 25° N
Pacífico Sul (107)Gales ao sul de 40° S (SW do Chile, Passagem de Drake), 10–30% o ano todo; ondas ≥ 12 pés ao sul de 20° S, pico jul–outIceberg significativo em out–dez, avanço máximo em novembro (Nova Zelândia e sul do Chile); ciclones tropicais a NW (jan–mar)
Pacífico Norte (108)Gales ao norte de 30° N (sul do Golfo do Alasca), pico out–dez; ondas fortes entre o Japão e a costa oeste dos EUA, nov–marLimite de gelo marinho de Hokkaido (43° N) ao mar de Bering; ciclones extratropicais ao norte de 40° N (jan–mar); ciclones tropicais ao largo das Carolinas
Índico (109)Gales no mar Arábico (monções de SW, pico em julho) e no "Silvio dos Quarenta" do HS (jun–ago); ondas ≥ 12 pés ao sul de 20° S o ano todo (20–40%)Ciclones extratropicais a SE da Austrália (jul–ago); ciclones tropicais no Índico Norte (transição das monções, mai–nov) e no Índico Sul (Maurício; "Willy-Willies" da costa NW da Austrália)

Regra de leitura sazonal: tanto os gales quanto as ondas, o gelo e os ciclones têm época de pico. O ponto que se repete em todos os oceanos é a comparação mês a mês das 12 cartas para identificar quando o parâmetro de interesse atinge o máximo na região da derrota.

4. Cartas climáticas (verão e inverno)

As cartas climáticas são bem distintas das Cartas Piloto: têm características gráficas próprias e existem para apenas dois meses — janeiro e julho, os picos de verão e de inverno. Elas servem para destacar os efeitos da sazonalidade no estado do tempo e do mar, o que interessa sobretudo a quem navega em altas latitudes. Ao examiná-las, o navegante identifica sete parâmetros gráficos:

  • o vento à superfície (setas vermelhas);
  • as correntes oceânicas (setas azuis);
  • os limites de iceberg (triângulos escuros) e de pack ice (linhas quebradas);
  • as ventanias e o mar severo (áreas amarelas);
  • as regiões de alta e baixa pressão à superfície (High e Low);
  • a Zona de Convergência Intertropical — ZCIT (linhas escuras pontilhadas);
  • os nevoeiros (pontilhado escuro para mais de 10 dias/mês; pontilhado claro para 5 a 10 dias/mês).

Fig. XIII-10
Fig. XIII-10 Carta climática do Oceano Atlântico (julho) — o verão no HN resulta em extenso nevoeiro marítimo a leste de Terra Nova; o inverno no HS intensifica os gales na extensa região de cor amarela.
Fig. XIII-11
Fig. XIII-11 Carta climática do Oceano Atlântico (janeiro) — o inverno no HN propicia gales em extensa área oceânica (cor amarela); o verão no HS possibilita nevoeiro marítimo em extensa área no Atlântico Sul, mantendo gales com menos intensidade que no inverno.
Fig. XIII-12
Fig. XIII-12 Carta climática do Oceano Índico (julho) — o verão no HN possibilita gales de SW e mar severo no mar Arábico e na costa da Índia; o inverno no HS propicia extensa região com gales ao longo do Índico sul (cor amarela).
Fig. XIII-13
Fig. XIII-13 Carta climática do Oceano Índico (janeiro) — o inverno no HN resulta em intenso centro de alta no continente, com monções de NE no mar Arábico, Golfo de Bengala e mar da China; o verão no HS possibilita extenso nevoeiro marítimo e gales (cor amarela).
Fig. XIII-14
Fig. XIII-14 Carta climática do Oceano Pacífico (julho) — o verão no HN possibilita extenso e intenso nevoeiro marítimo; o inverno no HS proporciona extensa região de gales (cor amarela).
Fig. XIII-15
Fig. XIII-15 Carta climática do Oceano Pacífico (janeiro) — o inverno no HN possibilita gales em extensa área marítima ao longo de um centro de baixa pressão oceânico; o verão no HS proporciona nevoeiro marítimo a SE do Pacífico, mantendo gales em áreas oceânicas mais reduzidas.

A chave para ler essas cartas é a advecção dos ventos de oeste (W), permanentes na circulação geral das altas latitudes. Como passam por cima dos continentes, esses ventos chegam ao oceano muito mais frios no inverno e muito mais quentes no verão, enquanto a TSM se mantém quase constante. O resultado depende dessa diferença:

Inverno × verão nas altas latitudes (ventos de W): no inverno, os ventos de W chegam ao mar mais frios que a água, aquecem-se por baixo e desencadeiam ventania (gales) e mar severo. No verão, chegam mais quentes que a água, esfriam-se por baixo e desencadeiam nevoeiros extensos e intensos, que reduzem a visibilidade.

Nas baixas latitudes, a circulação dos ventos alísios de leste (E) também sente a sazonalidade, deslocando a ZCIT e mudando as condições do tempo e do mar. A tabela a seguir consolida o comportamento de cada oceano nos dois meses de pico.

Cartas climáticas — condições do tempo e do mar por região, em julho e janeiro. Fonte: Lobo/Soares, Tabela XIII-3 (ENGLAND, 1973).
RegiãoJulhoJaneiro
Atlântico NorteVerão: nevoeiro e iceberg (lat. < 40° N); TSM menor que a do arInverno: ventania e mar severo; TSM maior que a do ar; baixa pressão
Atlântico SulInverno: ventania e mar severo (lat. < 40° S)Verão: ventania, mar severo, nevoeiro e iceberg (lat. > 40° S; iceberg < 40° S); TSM menor que a do ar
Pacífico NorteVerão: nevoeiro; TSM menor que a do arInverno: ventania e mar severo; TSM maior que a do ar; baixa pressão
Pacífico SulInverno: ventania e mar severo (lat. < 40° S)Verão: ventania, mar severo, nevoeiro e iceberg (lat. > 40° S); TSM menor que a do ar
Índico NorteVerão: ventania, mar severo, monções de SW (mar Arábico, Bengala, sul da China)Inverno: ventania, mar severo, monções de NE
Índico SulInverno: ventania e mar severo (lat. < 40° S)Verão: ventania, mar severo, nevoeiro e iceberg (lat. > 40° S; iceberg < 40° S)

Não inverter a advecção: ar mais frio que o mar → o ar se aquece por baixo → gales e mar severo (típico do inverno). Ar mais quente que o mar → o ar se esfria por baixo → nevoeiro (típico do verão). Quem troca os sinais inverte o fenômeno.

5. Conceitos para fixar

O capítulo encerra com uma série de conceitos de revisão sobre as Cartas Piloto e as cartas climáticas, retomados aqui em forma de pontos:

  • as quatro informações do vento na Carta Piloto são: direção, intensidade, frequência da respectiva direção e frequência de calmaria;
  • os ventos predominantes são contabilizados nos quadrados de Marden, de 5° × 5° (5° de latitude por 5° de longitude);
  • a sazonalidade representada nas 12 cartas mensais ressalta o comportamento dos parâmetros ao longo do ano;
  • a ocorrência de iceberg no HN começa em meados de fevereiro (fim do inverno, início do degelo) e tem o maior deslocamento da linha-limite em maio;
  • no HS, a ocorrência de iceberg começa em meados de agosto (fim do inverno no HS) e tem o maior deslocamento da linha-limite em novembro;
  • as grandes diferenças de estado do tempo e do mar nas altas latitudes vêm da sazonalidade nos ventos de W; nas baixas latitudes, da sazonalidade dos alísios de E e do deslocamento da ZCIT;
  • as Cartas Piloto ressaltam tormentas tropicais e furacões cerca de 3 a 4 meses após o fim do aquecimento do verão de cada hemisfério: no HN em ago–set–out; no HS em dez–jan–fev–mar.

Pontos de prova mais cobráveis: Coriolis desvia para a direita no HN e para a esquerda no HS; corrente quente flui para as altas latitudes (aquece) e corrente fria para o equador (esfria); a Carta Piloto dá frequência de ocorrência (não valor médio), base > 30 anos, e não se usa isolada; rosa dos ventos no quadrado de 5° × 5° → direção/octante, tamanho = frequência, traços = força Beaufort, círculo central = calmaria; Atlas brasileiro = DHN (Trinidad ao Rio da Prata, 12 cartas); Atlas internacional = DMA, NVPUB 105 (Atl. Sul) a 109 (Índico); gales = força Beaufort ≥ 8; cartas internacionais usam ondas ≥ 12 pés (8 pés só na NVPUB 106 Seção III); cartas climáticas só para janeiro e julho; advecção dos ventos de W: frios → gales/mar severo (inverno), quentes → nevoeiro (verão); iceberg HN começa em fev e tem pico em maio, HS começa em ago e pico em novembro.