MO Cap. IV — Sistemas Tropicais (tormentas e furacões)

1. Sistemas tropicais, tormentas e furacões

Este capítulo examina o tempo nas baixas latitudes: os ventos alísios, a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), os sistemas tropicais e, no extremo da escala, os ciclones tropicais e furacões. O foco prático é duplo. Primeiro, entender por que e onde nascem essas tormentas — quais condições do mar e do ar alimentam a sua energia extraordinária. Segundo, dar ao navegante as ferramentas para se afastar, em tempo hábil, da trajetória perigosa de um furacão.

Fonte: LOBO, Paulo Roberto Valgas. Meteorologia e Oceanografia — Usuário Navegante. Vol. I. 4. ed. rev. atual. ampl. Petrópolis: Vozes, 2019. Cap. IV — Sistemas Tropicais (ventos alísios, ZCIT, ciclones tropicais e furacões).

Edital: Anexo 2-A, Área V (Meteorologia e Oceanografia), item 20 (Sistemas tropicais: ciclones tropicais; ZCIT; ondas de leste) e item 19 (Massas de ar / sistemas de baixas latitudes). Relacionados: itens 15 (Sistemas atmosféricos — tempestades severas), 17 (Ventos), 23 (Ondas / estado do mar) e 27 (Manobra evasiva / segurança da navegação) · Anexo 2-B, Área V, item 3 (Lobo/Soares — escopo definido pelo 2-A).

O fio condutor é a circulação ciclônica. Um furacão é uma máquina térmica gigantesca, com vento girando em torno de um olho calmo, e a maneira como esse vento se distribui define um lado mais perigoso e outro mais navegável. Saber identificar em que semicírculo o navio se encontra — e qual manobra evasiva adotar em cada hemisfério — é o conhecimento que pode salvar o navio, a carga e a tripulação quando as comunicações falham e só resta o olho marinheiro de quem comanda.

2. Ventos alísios e a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT)

2.1 Os ventos alísios

Nas circulações de grande escala, os ventos predominantes sopram na mesma direção, com frequência constante ao longo de todo o ano, variando apenas a sua velocidade — moderada, com períodos de maior ou menor intensidade. É nesse tipo de circulação que se enquadram os ventos alísios, característicos das regiões tropicais em ambos os hemisférios.

A origem está no aquecimento diferenciado da superfície. A faixa equatorial mantém-se mais aquecida durante todo o ano e constitui uma região de baixa pressão à superfície; as latitudes médias, mais frias, são regiões de alta pressão. O ar escoa, então, das latitudes médias para a faixa equatorial — é a célula de Hadley.

Esse escoamento à superfície sofre o desvio da força de Coriolis, devido à rotação da Terra: desvia para a direita no HN e para a esquerda no HS. Por isso os alísios sopram de NE no Hemisfério Norte e de SE no Hemisfério Sul. O mesmo efeito atua na circulação oceânica, como se verá no capítulo X.

Ventos alísios — síntese:

  • HN — sopram de NE;
  • HS — sopram de SE;
  • ao alcançarem a faixa equatorial, os alísios de ambos os hemisférios passam a soprar quase paralelos, de leste (E);
  • na faixa equatorial observam-se extensas regiões de calmaria, conhecidas como doldrums.

2.2 A ZCIT e o seu deslocamento

Como os alísios do HN (de NE) e do HS (de SE) sopram de direções distintas e convergentes, forma-se à superfície, na faixa equatorial, uma convergência denominada Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). A sua posição oscila acompanhando o equador térmico, que varia da latitude 15° N (verão no HN) a 5° N (verão no HS).

Ao longo de quase todo o ano a ZCIT posiciona-se no HN, seguindo os deslocamentos das células de Hadley. A oscilação mais significativa ocorre no verão do HN, por causa da maior continentalidade desse hemisfério; no oceano Atlântico Sul, no verão do HS, o deslocamento é pequeno. A exceção é o oceano Índico, onde a ZCIT pode ocorrer bem mais ao sul de 5° S.

Fig. IV-1
Fig. IV-1 Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) — variação anual (verão e inverno) no HS e HN; deslocamento acentuado no oceano Índico.

O deslocamento acentuado da ZCIT determina as regiões afetadas pela ocorrência de tormentas. No oceano Índico esse deslocamento é muito grande e é responsável pela ocorrência de monções de verão e de inverno.

Lobo/Soares, item 1 (Ventos alísios e Zona de Convergência Intertropical).

Na ZCIT, as ocorrências de convergência, atividade convectiva, nebulosidade e mau tempo associado a Cumulonimbus (Cb) variam diariamente. Por isso a sua posição e a intensidade da convergência e da convecção resultante são registradas como fraca, moderada ou forte nos boletins e cartas meteorológicas diárias. A costa norte e nordeste do Brasil é mais afetada pelo posicionamento da ZCIT nos meses de março e abril, época em que a nebulosidade e a precipitação a ela associadas são observadas mais ao sul.

3. Características tropicais e ciclones tropicais

3.1 Sistema barotrópico × sistema baroclínico

O tempo nas regiões tropicais é diferente do tempo das regiões subtropicais, extratropicais (latitudes médias) e de altas latitudes. A distinção fundamental está em o que varia em cada sistema.

Sistemas tropicais × extratropicais.
SistemaTipoO que variaConsequências
TropicalBarotrópicoApenas a pressão atmosféricaSem efeito de estações; período muito chuvoso e período menos chuvoso
ExtratropicalBaroclínicoPressão atmosférica e temperaturaMassas de ar distintas; frentes frias e quentes; verão e inverno bem marcados

Na região tropical, sem variação sensível de temperatura, não se observam os efeitos das estações do ano: há um período muito chuvoso e outro menos chuvoso, por efeito apenas da variação da pressão atmosférica e das condições propícias de umidade relativa. Essa variação de pressão, somada à presença de ar bem quente e bastante úmido, favorece intensa atividade convectiva — a principal característica meteorológica da região tropical. Daí o navegante observar com frequência, nos trópicos, a formação de imensas nuvens Cumulonimbus, com trovoadas, relâmpagos e rajadas de vento.

Em latitudes maiores que , já afastadas do equador, a força de Coriolis passa a atuar e contribui para o desvio do escoamento do ar. Nas áreas de baixa pressão, quando o escoamento evolui para circulação fechada, as perturbações podem intensificar-se e atingir o estágio de tormenta tropical, com ventos muito fortes, grandes ondas e estado do mar severo.

3.2 Condições que favorecem a tormenta

As tormentas tropicais devem ser evitadas pelos navegantes, principalmente nos meses seguintes à estação de verão — época muito quente, propícia à elevada umidade absoluta máxima. Nessa época aumentam as depressões atmosféricas mais intensas, associadas à TSM elevada, que favorece a alta umidade relativa do ar pelo aumento da taxa de evaporação.

$$ \text{taxa de evaporação} \;\propto\; \text{TSM} $$

A taxa de evaporação é diretamente proporcional à temperatura da superfície do mar (TSM). Maior TSM → maior evaporação → ar mais úmido → mais energia de calor latente disponível.

Somam-se a isso a convergência ciclônica do ar em baixos níveis e as correntes de ar quente ascendente, que completam as condições propícias ao desenvolvimento da atividade convectiva. Uma perturbação meteorológica pode provocar uma onda no escoamento dos ventos de leste; gerando circulação fechada, essa onda pode evoluir para uma tormenta tropical.

Fig. IV-2
Fig. IV-2 Formação de uma tormenta tropical — onda no escoamento dos ventos de leste evolui para circulação fechada.
Fig. IV-3
Fig. IV-3 Esquema de um ciclone tropical — seção vertical com corrente descendente no olho e ascendente no entorno.

3.3 Ciclones tropicais — por que não há no Atlântico Sul

Na costa norte do Brasil não há ocorrência de ciclones tropicais ou furacões. A razão é o não atendimento das condições propícias, em especial a TSM acima de 27 °C, que propiciaria acentuada elevação da umidade relativa do ar quente ascendente. Sem essa condição, o processo convectivo não é alimentado pela imensa energia da liberação de calor latente a partir do nível de condensação.

O processo deve ser desencadeado por perturbação atmosférica de uma depressão associada à intensificação da circulação convergente e ciclônica de ar bastante quente e úmido nos baixos níveis.

Lobo/Soares, item 2.1 (Ciclones tropicais).

As características geográficas do continente africano influenciam fortemente a temperatura, a umidade e a circulação do ar na área marítima tropical do Atlântico Norte — influência que não se observa no Atlântico Sul. Além da TSM acima de 27 °C, há outras condições adicionais a considerar:

Condições adicionais ao desenvolvimento de tormentas:

  • aprofundamento dos cavados associados às ondas de leste;
  • ausência de cizalhamento do vento — o cizalhamento forte, provocado pelas ondas de Kelvin (ondas de oeste), inibe a formação de furacões.

O cizalhamento ocorre porque as ondas de Kelvin (de W para E) se propagam em direção oposta às ondas de leste (de E para W). Na região tropical do Atlântico, a grande área continental da Amazônia contribui para grandes ondas de Kelvin e, portanto, para forte cizalhamento no Atlântico Sul, inibindo a formação de furacão. No Caribe, a pequena continentalidade não oferece essa contribuição, e por isso as tormentas tropicais ali se desenvolvem.

Os navegantes do Atlântico cujas derrotas atinjam a faixa de 5° a 15° de latitude norte devem ter especial atenção à ocorrência de ciclones tropicais em agosto, setembro e outubro. A frequência é reduzida em julho e novembro e nula no resto do ano. Recomenda-se consultar os Atlas de Cartas Piloto Internacionais.

4. O furacão — estrutura, vento e mar

4.1 Estrutura de um furacão

Uma tormenta tropical caracteriza-se pela extraordinária energia envolvida em seu desenvolvimento. A circulação do ar é ciclônica e fechada, com acentuada convergência à superfície e forte movimento ascendente, o que propicia a formação de anéis de conglomerados de Cumulonimbus (Cb).

A intensificação de uma tormenta, transformando-a em furacão, deve-se à intensa liberação de calor latente na corrente de ar ascendente, possibilitada pela convergência em baixos níveis e favorecida pela forte interação oceano-atmosfera, que resulta em ar muito úmido. O ar muito úmido é fator fundamental: ele armazena energia sob a forma de calor latente, liberada na ascensão.

Um furacão só se desenvolve e sobrevive sobre o oceano, enfraquecendo-se ao penetrar no continente.

Lobo/Soares, item 3 (Furacão).

A estrutura apresenta circulação fechada com anéis de Cb e, no centro, o olho — região sem nebulosidade, por causa do movimento descendente do ar.

Fig. IV-4
Fig. IV-4 Estrutura de um furacão — circulação fechada com anéis de conglomerados de Cb e olho sem nebulosidade (movimento descendente).
Fig. IV-7
Fig. IV-7 Imagem panorâmica de um furacão — circulação ciclônica anti-horária no HN, com intensa nebulosidade sobre o oceano.

4.2 Distribuição da intensidade do vento

Na circulação ciclônica fechada, a intensidade do vento depende de dois fatores: a distância ao olho e a posição em relação à trajetória. O vento alcança a máxima intensidade na região intermediária, próxima ao olho, podendo superar 150 nós. A distribuição é assimétrica: o vento é mais intenso no semicírculo da direita (no HN). No exemplo do furacão Hilda (1994), registraram-se 64 nós a 30 milhas do olho num semicírculo e a cerca de 40 milhas no outro; a 100 milhas, a intensidade era a mesma (menos de 40 nós) nos dois lados.

Fig. IV-5
Fig. IV-5 Comportamento da intensidade do vento — variação (nós) em função da distância (milhas) ao olho do furacão (Hilda, 1994).
Fig. IV-6
Fig. IV-6 Comportamento da intensidade do vento — distribuição segundo o semicírculo definido pela trajetória; mais intenso no semicírculo da direita (HN), até 150 nós perto do olho.

O navegante pode acompanhar a trajetória de um furacão pela sequência de imagens de satélite — que mostra o olho sem nebulosidade — e pela previsão de até três dias no site da NHC/NOAA (www.nhc.noaa.gov). A configuração da nebulosidade revela a circulação ciclônica e indica os ventos em direções bem definidas, que por sua vez criam áreas geradoras de ondas em direções igualmente definidas.

4.3 O estado do mar gerado pelo furacão

As ondas geradas pelo furacão propagam-se em todas as direções e continuam a se propagar sob a forma de marulhos à medida que se afastam da área geradora, afetando o estado do mar a grandes distâncias da tormenta. Dentro do furacão, as ondas podem ultrapassar 15 metros de altura, principalmente na direção da trajetória — porque ali a área geradora se desloca no mesmo sentido da propagação da onda, intensificando-a.

O estado do mar é mais severo na direção da trajetória, porque as ondas se intensificam quando a área geradora se desloca na mesma direção da propagação da onda. À ré da trajetória, as ondas são menos intensas.

Lobo/Soares, item 3 (Fonte: SANNINO, 1989).

Por essa razão, o mar é mais severo no semicírculo da direita da trajetória no HN (perigoso) e no semicírculo da esquerda no HS (perigoso). É por isso também que um navegante, mesmo bem afastado do furacão e fora da circulação do ar, pode sofrer os efeitos de um estado do mar severo provocado por esses marulhos.

Fig. IV-8a
Fig. IV-8a Estado do mar gerado por um furacão (a) — flechas indicam direção de propagação; largura proporcional à altura; mar mais severo no semicírculo da direita (perigoso) no HN.
Fig. IV-8b
Fig. IV-8b Estado do mar gerado por um furacão (b) — no HS, mar mais severo no semicírculo da esquerda (perigoso).
Fig. IV-9
Fig. IV-9 Violência de um furacão — o furacão BERTHA gerou ondas de até 16 m, que provocaram alquebramento do navio S.S. CORAZON.

O exemplo extremo é o furacão Bertha, cuja violência gerou ondas de até 16 metros, que provocaram o alquebramento do navio S.S. Corazon. A circulação do ar ao longo do enorme círculo do furacão — semelhante a um vasto polígono — desencadeia uma série de áreas geradoras, resultando em vagas em diversas direções e na propagação de marulhos que atingem regiões bem afastadas da tormenta.

5. Semicírculos perigoso e navegável

O vento ciclônico de uma tormenta afeta uma área circular que se subdivide em semicírculo perigoso e semicírculo navegável. A divisão leva em conta o estado do mar, a maior intensidade dos ventos e o perigo de o navio ser arrastado na direção da trajetória, onde se espera a ação mais violenta do furacão.

5.1 Qual é o lado perigoso em cada hemisfério

A localização do semicírculo perigoso depende do sentido da circulação ciclônica, que é oposto nos dois hemisférios:

Semicírculos perigoso e navegável por hemisfério.
HemisférioCirculação ciclônicaSemicírculo PERIGOSOSemicírculo NAVEGÁVEL
Norte (HN)Anti-horáriaDireita da trajetóriaEsquerda da trajetória
Sul (HS)HoráriaEsquerda da trajetóriaDireita da trajetória

Fig. IV-10a
Fig. IV-10a Semicírculos navegável e perigoso (a) — no HN, perigoso à direita da trajetória, navegável à esquerda.
Fig. IV-10b
Fig. IV-10b Semicírculos navegável e perigoso (b) — no HS, perigoso à esquerda da trajetória, navegável à direita.

Mnemônico de orientação: no HN (circulação anti-horária) o perigoso fica à direita; no HS (circulação horária) o perigoso fica à esquerda. O lado perigoso é sempre o do mesmo nome do sentido em que o navio tende a ser arrastado para a trajetória.

5.2 Por que o vento é mais intenso no semicírculo perigoso

Embora todas as partes de um furacão sejam perigosas, o risco é maior no semicírculo da esquerda no HS e no da direita no HN. O vento observado na área é o resultado da soma do vento ciclônico com o fluxo do vento planetário paralelo à trajetória. No semicírculo perigoso, em parte do setor, o vento ciclônico é paralelo à corrente principal e vem incrementado por ela; no semicírculo navegável, ao contrário, a corrente do vento principal tem componente oposta ao vento ciclônico, e o vento resultante é menor.

Fig. IV-12a
Fig. IV-12a Trajetória do furacão (a) — HN: influência dos alísios de NE; no semicírculo perigoso a influência soma-se à circulação ciclônica.
Fig. IV-12b
Fig. IV-12b Trajetória do furacão (b) — HS: influência dos alísios de SE; no semicírculo perigoso a influência intensifica a circulação ciclônica.

Há ainda um agravante na vante do semicírculo perigoso: a tendência do vento e do estado do mar é arrastar o navio na direção da trajetória. Se o navio se aproximar da trajetória, ou for alcançado pela sua curvatura, poderá penetrar na linha do centro da tormenta — exatamente onde ocorre a máxima violência.

5.3 Trajetórias dos furacões

A trajetória inicial do furacão é na direção W, mas apresenta um desvio regular ao longo do deslocamento. O mais frequente é o furacão dirigir-se para W/NW/N/NE no HN e para W/SW/S/SE no HS; ocasionalmente, porém, observam-se trajetórias bem irregulares. No seu deslocamento, o furacão é influenciado inicialmente pelos alísios — de NE no HN e de SE no HS. No semicírculo perigoso, em ambos os hemisférios, essa influência atua no mesmo sentido da circulação ciclônica, intensificando-a.

Fig. IV-11a
Fig. IV-11a Trajetória do furacão (a) — Equador / HN: trajetória inicial para W, desviando para W/NW/N/NE.
Fig. IV-11b
Fig. IV-11b Trajetória do furacão (b) — Hemisfério Sul: trajetória inicial para W, desviando para W/SW/S/SE.
Fig. IV-16
Fig. IV-16 Trajetórias regulares previstas dos furacões.
Fig. IV-19
Fig. IV-19 Trajetórias irregulares / não previstas de furacões.

6. Manobras evasivas

É importante o navegante saber proceder quando o navio é alcançado por uma tormenta. O objetivo é sempre o mesmo: evitar aproximar-se do centro, afastando-se da trajetória e abandonando a zona afetada. As regras dependem do hemisfério e da posição relativa ao centro.

6.1 No semicírculo perigoso

Manobra no semicírculo perigoso.
Hemisfério (lado)ManobraSe obrigado a pairar sob máquinas
HN — direitaTomar o vento pela bochecha de boreste, navegando o mais rápido possívelSempre com mar de proa
HS — esquerdaTomar o vento pela bochecha de bombordo, navegando o mais rápido possível

6.2 No semicírculo navegável

Manobra no semicírculo navegável.
Hemisfério (lado)ManobraSe obrigado a pairar sob máquinas
HN — esquerdaTomar o vento pela alheta de boreste, navegando na maior distância possívelSempre com mar de popa
HS — direitaTomar o vento pela alheta de bombordo, navegando na maior distância possível

6.3 Sobre a trajetória da tormenta

Adiante do centro:

  • HN — tomar o vento pela alheta de boreste, bem próximo à popa, anotar o rumo e mantê-lo até chegar ao semicírculo navegável; ao alcançá-lo (à esquerda, no HN), afastar mais um pouco o vento da popa e navegar com o vento pela alheta;
  • HS — tomar o vento pela alheta de bombordo, bem próximo à popa, anotar o rumo e mantê-lo até chegar ao semicírculo navegável (à direita, no HS).

Por trás do centro:

  • HN — evitar o centro, tomando o melhor rumo que o estado do mar permita; lembrar que, no HN, a tendência é a trajetória encurvar-se para norte e nordeste;
  • HS — evitar o centro, tomando o melhor rumo possível; lembrar que, no HS, a tendência é a trajetória encurvar-se para sul e sudeste.

7. Localização da embarcação na tormenta

Seria imprudência o navegante acreditar que jamais ficaria privado de informações meteorológicas. O avanço tecnológico permite detectar e divulgar a existência de uma tormenta e acompanhar o seu desenvolvimento — mas há sempre a possibilidade de um impedimento material que isole o navio das comunicações. Nessa situação, o navegante só poderá contar com o próprio conhecimento. As observações locais, relacionadas com a situação geral, permitem deduzir a posição em relação ao furacão. São quatro grupos de indícios: pressão, vento, mudança de direção do vento, e nuvens e marulho.

7.1 Características relacionadas à pressão

Em regiões tropicais, a flutuação barométrica normalmente apresenta oscilação diurna, com máximas às 10 h e 22 h e mínimas às 04 h e 16 h. A presença de uma tormenta, mesmo a centenas de milhas, produz condições barométricas inusitadas: ao chegar à borda da zona afetada, o barômetro pode subir rapidamente e logo baixar de novo, ou apresentar variações anormais, ou cair muito mais rápido que o normal. Quando o furacão se aproxima na direção do navio, o barômetro começa a baixar cada vez mais depressa, à medida que se penetra na zona de gradiente de pressão máximo.

Quadro IV-1 — Variação da pressão e distância ao centro da tormenta (Fonte: WMO).
Variação da pressão em uma hora (mm Hg)Distância ao centro (milhas)
0,5 a 1,5250 a 150
1,5 a 2150 a 100
2 a 3100 a 80
3 a 480 a 50

Anotando de hora em hora a razão com que a pressão diminui, o navegante obtém uma ideia aproximada da distância a que se encontra o centro da tormenta.

7.2 Características relativas ao vento

Ao aproximar-se de um furacão, observa-se alteração na direção e na intensidade do vento. Como nos trópicos os alísios são predominantes e constantes, a mudança trazida pela tormenta é nítida: o vento aumenta de forma descontínua, em rajadas, tornando-se cada vez mais violento à medida que se aproxima do centro.

7.3 Mudança da direção do vento — a ronda

A combinação do movimento ciclônico do vento com o deslocamento da tormenta resulta, para o navio, numa contínua mudança da direção do vento — a ronda. O seu sentido (horário ou anti-horário) depende do semicírculo em que o navio se encontra e é um excelente indicador da posição relativa à trajetória.

No semicírculo navegável (HS e HN), o sentido da ronda do vento concorda com o sentido da circulação ciclônica. No semicírculo perigoso (HS e HN), o sentido da ronda é contrário ao da circulação ciclônica.

Lobo/Soares, item 3.4 (Localização da embarcação na tormenta).

Ronda do vento × circulação ciclônica, por setor e hemisfério.
HemisférioCirculação ciclônicaSetor perigoso (ronda)Setor navegável (ronda)
HNAnti-horáriaHorária (sentido contrário)Anti-horária (mesmo sentido)
HSHoráriaAnti-horária (sentido contrário)Horária (mesmo sentido)
Regra de bolso: a embarcação está no semicírculo NAVEGÁVEL quando o sentido da circulação é o MESMO da ronda; está no PERIGOSO quando o sentido da circulação é CONTRÁRIO ao da ronda.

Fig. IV-13
Fig. IV-13 Localização da tormenta no Hemisfério Norte — posições 1-4; circulação anti-horária, ronda horária no setor perigoso e anti-horária no navegável.
Fig. IV-14
Fig. IV-14 Localização da tormenta no Hemisfério Sul — circulação horária, ronda anti-horária no setor perigoso e horária no navegável.
Fig. IV-15
Fig. IV-15 Localização da embarcação no setor perigoso — ronda do vento de sentido contrário ao da circulação ciclônica, em ambos os hemisférios.
Fig. IV-17
Fig. IV-17 Localização da embarcação no setor navegável — ronda do vento de mesmo sentido da circulação ciclônica, em ambos os hemisférios.

Atenção a dois casos da direção do vento constante: se a intensidade aumenta continuamente, o navio provavelmente está na trajetória e adiante do centro; se a intensidade diminui, está na trajetória, porém atrás do centro. Para localizar a direção do centro pelo vento, marca-se o vento exatamente pela proa e deduz-se que o centro está a 90° à direita no HN ou a 90° à esquerda no HS. Para confirmar a direção do vento real, observam-se as nuvens baixas — situando-se de proa para o seu deslocamento, já que os ventos em altura sopram mais livremente, mais paralelos às isóbaras.

Fig. IV-18
Fig. IV-18 Mudança de rumo da trajetória da tormenta — alterações na direção da trajetória podem mudar o setor (perigoso/navegável) da embarcação.

7.4 Características relativas às nuvens

As nuvens Cirrus estendem-se a grandes distâncias da tormenta, adiante dela; junto com um mar anormal ou com mar de marulho, fornecem uma advertência da presença de uma tormenta tropical. Se a tormenta se aproxima, os Cirrus esparsos tomam a forma de extensas bandas que parecem emanar da posição do centro. Mais perto, os Cirrus cedem lugar aos Cirrostratus em quantidade crescente, formando um véu ou película sobre o céu, com halos ao redor do sol ou da lua; nesses casos, o céu ao nascer e ao pôr do sol costuma apresentar um vermelho brilhante.

7.5 Características relativas ao marulho

O mar de marulho consiste de largas ondas ou ondulações que avançam adiante dos ventos que as originaram — quanto mais forte o vento, mais altas e largas as ondulações. Numa zona de furacão, qualquer trem de ondas que difira em comprimento e direção da característica local é um possível sinal de alerta: o furacão está na direção da qual vêm os marulhos.

Marulho como indicador de posição:

  • altura crescente e direção constante — o navio está na trajetória, adiante do centro;
  • altura decrescente e direção constante — está na trajetória, atrás do centro;
  • variação tanto de direção como de altura e período — está em um dos lados da trajetória.

8. Aspectos relevantes

8.1 Categorias dos furacões — escala Saffir-Simpson

A intensidade de um furacão é classificada pela escala Saffir-Simpson, em cinco categorias definidas pela velocidade do vento.

Escala Saffir-Simpson (Fonte: WMO).
CategoriaVento (nós)Vento (km/h)Dano
164 – 83118 a 153Mínimo (minimal)
284 – 96154 a 177Moderado (moderate)
397 – 113178 a 209Extenso (extensive)
4114 – 135210 a 250Extremo (extreme)
5135 ou mais> 250Catastrófico (catastrophic)

8.2 Resumo das situações e manobras num furacão

A tabela a seguir consolida, por hemisfério e por localização, a forma da ronda do vento, a situação e a manobra recomendada (Tabela IV-1, resumo do autor). Os ângulos relativos referem-se à proa do navio.

Tabela IV-1 — Resumo das situações e manobras num furacão (Hemisfério Norte).
LocalizaçãoSituação (vento / barômetro)Manobra
Semicírculo perigoso (direita)Vento ronda para a direita (N-NE-E-SE-S-SW-W-NW)Receber o vento na bochecha de BE (45° relativos), navegando na maior distância possível. Se capear, mar de proa.
Semicírculo de manobras (esquerda)Vento ronda para a esquerda (N-NW-W-SW-S-SE-E-NE)Receber o vento na alheta de BE (135° relativos), navegando na maior distância possível. Se capear, mar de popa.
Na rota, à vanguarda do centroVento constante (navio parado) e aumentando; barômetro desceReceber o vento duas quartas à direita da alheta de BE (157° relativos); ao entrar no semicírculo de manobra, aplicar a regra desse semicírculo.
Na rota, à retaguarda do centroVento constante (navio parado) e diminuindo; barômetro sobeEvitar o centro, no melhor rumo possível. Lembrar a tendência de a tormenta encurvar para N e E.
Tabela IV-1 — Resumo das situações e manobras num furacão (Hemisfério Sul).
LocalizaçãoSituação (vento / barômetro)Manobra
Semicírculo perigoso (esquerda)Vento ronda para a esquerda (S-SE-E-NE-N)Receber o vento na bochecha de BB (315° relativos), navegando na maior distância possível. Se capear, mar de proa.
Semicírculo de manobras (direita)Vento ronda para a direita (S-SW-W-NW-N)Receber o vento na alheta de BB (225° relativos), navegando na maior distância possível. Se capear, mar de popa.
Na rota, à vanguarda do centroVento constante (navio parado) e aumentando; barômetro desceReceber o vento duas quartas à esquerda da alheta de BB (202° relativos); ao entrar no semicírculo de manobra, aplicar a regra desse semicírculo.
Na rota, à retaguarda do centroVento constante (navio parado) e diminuindo; barômetro sobeEvitar o centro, no melhor rumo possível. Lembrar a tendência de a tormenta encurvar para S e E.

8.3 Ciclones tropicais como máquinas térmicas

Os ciclones tropicais são máquinas térmicas que transformam energia calorífica em energia de movimento. A energia calorífica provém basicamente do aquecimento solar, reforçado pela intensa liberação de calor latente do vapor d'água condensado nas nuvens de grande crescimento vertical. O combustível é a convergência, em baixos níveis, de ar muito quente e muito úmido, favorecida pela alta taxa de evaporação — possível quando a TSM supera 26,5 °C.

Fig. IV-20
Fig. IV-20 Formação de um furacão (1 e 2) — requer TSM alta e ar com alta umidade absoluta máxima (alta UR e energia de calor latente).
Fig. IV-21
Fig. IV-21 Formação de um furacão (3 e 4) — liberação de calor latente de condensação alimenta o desenvolvimento.

8.4 Furacões notáveis e acompanhamento

Alguns casos:

  • Isabel — pressão no olho 920 hPa, categoria 5, ventos de até 183 nós (339 km/h);
  • Fran (05 de setembro de 1996) — categoria 3, diâmetro de 1.600 km e vagalhão na costa de 2,7 a 3,5 m;
  • Catarina (2004) — na costa Sul do Brasil, com parâmetros de furacão (olho e velocidade do vento);
  • Michel (outubro de 2018) — força 4, na costa dos EUA;
  • Mangkhut (setembro de 2018) — tufão categoria 5, nas Filipinas e na China; na Ásia ocorrem cerca de 20 tufões por ano.

Um dos danos mais sérios causados por furacões a portos e cidades costeiras é a elevação do nível do mar, por represamento dos marulhos pelos ventos fortes, provocando graves alagamentos e mortes por afogamento. Para acompanhamento, o navegante consulta o site da NHC/NOAA (www.nhc.noaa.gov), que apresenta previsões para até 3 dias e projeções para o 4º e o 5º dia, além da visão de toda a região e da evolução de outros sistemas tropicais no mesmo dia.

Atenção redobrada ao desvio da trajetória, que pode ser regular (como previsto) ou apresentar, em algum momento, desvio irregular. O desvio irregular tem implicações diretas na posição do navio e na escolha da manobra evasiva.

Fig. IV-22
Fig. IV-22 Furacão IVAN fotografado do espaço (13 de setembro de 2004).
Fig. IV-23
Fig. IV-23 Trajetória do furacão (prevista para 3 e 5 dias) — informações disponíveis no site www.nhc.noaa.gov.
Fig. IV-24
Fig. IV-24 Trajetória do furacão Irma (08/09/2017) — centro 22.0 N 76.0 W, vento máximo 155 mph, movimento W a 14 mph.
Fig. IV-31
Fig. IV-31 Furacão FLORENCE com 1 dia — atentar ao enorme tamanho da tormenta e ao desvio da trajetória.

8.5 Conceitos para fixar

Síntese dos sistemas tropicais:

  • os alísios de NE (HN) e de SE (HS) convergem para o equador térmico (ZCIT) e, na faixa equatorial, passam a soprar de leste;
  • os sistemas tropicais movem-se em trajetória tradicional para W, pelo escoamento permanente dos ventos de leste;
  • a ZCIT desloca-se ao longo do ano acompanhando a sazonalidade — segue o verão do respectivo hemisfério, com deslocamento mais significativo no HN (maior continentalidade);
  • no Atlântico Norte tropical, os alísios vindos dos desertos quentes do norte da África chegam ao oceano com temperatura e umidade absoluta máxima elevadas, mas baixa UR; ao absorverem umidade do mar, a UR sobe, criando ambiente favorável à tormenta — sobretudo no pico de verão do HN, com TSM mais alta;
  • pico de furacões: agosto, setembro e outubro no HN; dezembro, janeiro, fevereiro e março no HS.