1. Interpretar o tempo: três fontes a bordo
Todos os dias, o navegante recebe a bordo, pela internet, as informações meteorológicas do tempo presente e da previsão do tempo. Saber lê-las é o que permite entender a evolução do estado do tempo e do estado do mar — em especial quando há ronda significativa da direção dos ventos e das ondas. Este capítulo reúne as três fontes que o Serviço Meteorológico Marinho coloca à disposição: a imagem de satélite, a carta sinótica de pressão à superfície e o boletim Meteoromarinha.
Fonte: LOBO, Paulo Roberto Valgas. Meteorologia e Oceanografia — Usuário Navegante. Vol. I. 4. ed. rev. atual. ampl. Petrópolis: Vozes, 2019. Cap. VI — Interpretação de informações meteorológicas (imagens de satélite; cartas sinóticas de pressão à superfície; boletim Meteoromarinha; avisos de mau tempo; geração de ondas; marulhos e ressaca; circulações HN/HS; prognóstico do tempo).
Edital: Anexo 2-A, Área V (Meteorologia e Oceanografia): interpretação de informações meteorológicas e cartas sinóticas; boletins / Meteoromarinha; ventos (escala Beaufort e ronda na passagem das frentes); ondas e estado do mar (geração de ondas, marulhos, ressaca, cartas de ondas WAM); segurança da navegação (navegação costeira antes/depois da frente fria; manobra evasiva em ciclone tropical) · Anexo 2-B, Área V, item 3 (Lobo/Soares — escopo definido pelo 2-A).
Os produtos do Serviço Meteorológico Marinho são divulgados no site da DHN e devem ser usados diariamente às 0000 e 1200 HMG; as imagens de satélite são divulgadas pelo CPTEC/INPE de 3 em 3 horas. Toda a meteorologia marinha trabalha na Hora Média de Greenwich (HMG), fuso zero — assim, observações de estações de todo o planeta coincidem no mesmo instante.
Na Metárea V — a área marítima e costeira do Brasil — convivem duas meteorologias distintas. A linha que as separa é um paralelo de latitude que limita, ao norte, a influência dos sistemas frontais vindos do sul, normalmente na região do sul da Bahia / norte do Espírito Santo. Essa latitude é determinada a cada dia pela posição do centro de alta pressão da célula de Hadley — o anticiclone permanente do Atlântico Sul —, que bloqueia o avanço dos sistemas frontais e resulta em frente fria estacionária.
2. Imagens de satélites meteorológicos
O satélite meteorológico é uma ferramenta poderosa, disponível também ao navegante. O satélite geoestacionário, a 36 mil km de altitude, fornece imagem circular de uma face da Terra e novas imagens de 3 em 3 horas. Onde os oceanos têm poucas observações de superfície, a imagem de satélite identifica os fenômenos que ocorrem no instante da imagem; comparar imagens sucessivas mostra como eles evoluem.
Há ainda o satélite de órbita polar, a cerca de 800 km de altitude, que descreve sua órbita ao longo do meridiano, passando uma vez de dia e outra de noite pela mesma região e cobrindo uma faixa de 15° de largura, de sul para norte.
2.1 Imagem visível e imagem infravermelho
As imagens vêm em dois canais. A imagem visível registra a refletividade — a luz solar refletida, que aparece em branco. Por isso só há imagem visível durante o dia. Nela, nuvens baixas (Stratus), médias (Altostratus), altas (Cirrus) e Cumulus podem aparecer do mesmo modo, todas em branco; o que está escuro é ausência de nebulosidade. Mesmo sem distinguir os tipos de nuvem, a imagem visível mostra a presença de sistemas de mau tempo e a intensidade da nebulosidade.
A imagem infravermelho (IR) é a mais usada e a mais divulgada. Ela se baseia na temperatura da coluna de ar inteira, captando a temperatura das nuvens altas, médias, baixas, dos nevoeiros e da superfície. Com a IR distinguem-se os diferentes tipos de nuvem e caracteriza-se melhor o estado do tempo. A atmosfera é transparente à radiação IR, mas as partículas em suspensão — gotículas de água e cristais de gelo das nuvens — são detectadas e indicam sua temperatura.
| Tom na imagem IR | Nuvem / situação | Indício |
|---|---|---|
| Branco intenso | Nuvem muito fria e muito espessa | Cumulonimbus (Cb) — intensa liberação de calor latente |
| Branco / cinza-claro | Cumulus (Cu) | Pouca liberação de calor latente |
| Cinza-claro | Cirrus (Ci) | Pequena liberação de calor latente |
| Cinza-escuro | Stratus (St) | Pequena liberação de calor latente; quanto menos claro, mais baixo |
| Cor bem escura | Ausência de nebulosidade | Céu limpo |
Regra de leitura da imagem IR:
- quanto mais branca a imagem, mais fria e espessa a nuvem — sinal de Cb;
- quanto menos clara, menor a espessura da nuvem (não é Cumulus, e sim Stratus);
- os Cirrus aparecem bem mais brancos que os baixos Stratus;
- identifica-se primeiro o Cb, depois os Cirrus, os baixos Stratus / pequenos Cumulus e, por fim, a superfície do oceano ou continente.
A imagem IR permite interpretar a ocorrência de Cb isolados, em conglomerados (como na ZCIT) ou em sistemas de mau tempo, como a frente fria. Nas regiões escuras, afastadas do eixo do cavado, podem ocorrer áreas geradoras de vagas.
2.2 Imagem infravermelho realçada
A imagem IR realçada apresenta em cores a intensidade da atividade convectiva, os tipos de nuvem associados a cada cor, a espessura da nuvem, a intensidade do mau tempo, a temperatura (cada cor indica uma temperatura) e o nível de altitude do topo da nuvem. Com mais recursos à disposição, o navegante consegue identificar bem o sistema frontal, as frentes fria, quente e oclusa e o centro de baixa pressão (B).
2.3 O sistema frontal visto na imagem
Um sistema frontal é identificado na imagem pelas características distintas das suas três frentes. A posição da nebulosidade da frente fria indica a posição do eixo do cavado e separa, na imagem, as regiões de ventos frios (depois da frente fria) das de ventos quentes (antes dela).
| Frente | Faixa de nebulosidade na imagem |
|---|---|
| Frente fria | Faixa estreita, de branco intenso |
| Frente quente | Faixa bem larga, de branco esmaecido e cinza-claro |
| Frente oclusa | Faixa branca com acentuada concavidade |
A imagem também indica, pelo eixo do cavado, as regiões de ondas: na direção da navegação costeira depois da frente fria e na direção do mar aberto antes dela, na Metárea V. Em região escura observa-se o centro de alta da célula de Hadley, cujo bloqueio se manifesta com a ocorrência de frente fria estacionária na Metárea V.
O que a análise das imagens do Atlântico Sul revela:
- a ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul), com extensa banda de nebulosidade da Amazônia ao Atlântico Sul;
- a Alta da Bolívia, com gigantesca circulação anticiclônica em altos níveis, sobretudo no verão do HS;
- vórtices ciclônicos em baixos níveis, associados ao cavado e à frente fria;
- vórtices em altos níveis, associados à alta da Bolívia, à alta do Atlântico Sul e à corrente de jato;
- queda significativa de temperatura e geada, associadas a cavado em altos níveis e à entrada de segunda frente fria (onda polar secundária);
- o tempo é intensificado quando a ZCAS coincide com a passagem de frente fria.
3. Boletins meteorológicos e Meteoromarinha
As informações de interesse do navegante são elaboradas pelo Serviço Meteorológico Marinho, na DHN, e agrupadas, conforme o fim a que se destinam, em: boletim de previsão para áreas portuárias; boletim de condições e previsão do tempo (o Meteoromarinha); boletim especial de previsão; e carta meteorológica por internet. Hoje a intensidade do vento é referida à escala Beaufort, e divulga-se a direção de onde vêm vagas e marulhos, com as alturas em metros.
3.1 As áreas de previsão e a Metárea V
Os oceanos foram divididos em áreas de responsabilidade de divulgação de informações de segurança da navegação, identificadas pelo termo NAVAREA ou METÁREA seguido de algarismos romanos. Coube ao Brasil a NAVAREA V e a METÁREA V, que abrange da costa do Brasil até o meridiano de 020° W e das latitudes de 07° N a 037° S. A OMM (Organização Meteorológica Mundial), órgão da ONU, estabelece as normas e procedimentos.
No Meteoromarinha, a previsão do tempo é elaborada separadamente para 8 áreas costeiras, de Alfa a Hotel (do sul para o norte), e 2 áreas oceânicas, November (Norte oceânica) e Sierra (Sul oceânica).
| Área | Limites |
|---|---|
| Alfa | Do Arroio Chuí ao Cabo de Santa Marta |
| Bravo | Do Cabo de Santa Marta ao Cabo Frio (oceânica) |
| Charlie | Do Cabo de Santa Marta ao Cabo Frio (costeira) |
| Delta | De Cabo Frio a Caravelas |
| Echo | De Caravelas a Salvador |
| Foxtrot | De Salvador a Natal |
| Golf | De Natal a São Luís |
| Hotel | De São Luís ao Cabo Orange |
| November | Norte oceânica (oeste de 020° W, de 7° N a 15° S) |
| Sierra | Sul oceânica (oeste de 020° W, de 15° S a 36° S) |
Cada área ainda pode ser subdividida em parte norte/sul e leste/oeste, para detalhar as variações do tempo dentro da mesma região.
3.2 As partes do Meteoromarinha
O Meteoromarinha é constituído de seis partes. As Partes I, II e III são transmitidas em linguagem clara em português e repetidas em inglês após a Parte VI.
| Parte | Conteúdo |
|---|---|
| I | Aviso de mau tempo |
| II | Resumo descritivo do tempo (sinopse com data-hora HMG da análise) |
| III | Previsão do tempo (próximas 24 h) |
| IV | Análise e/ou prognóstico do tempo (código FM46-IV IAC FLEET) |
| V | Seleção de mensagens meteorológicas de navios (SHIP) |
| VI | Seleção de mensagens de estações terrestres costeiras (SYNOP) |
Na Parte II divulga-se de forma abrangente a ocorrência de baixas, altas e sistemas frontais, além da ZCIT, com a trajetória da frente fria e a sua velocidade de deslocamento. O normal é 10 nós; quando mais lenta, indica-se 5 nós, e mais rápida, 15 nós. Pode-se ainda usar a expressão "quase estacionária" quando há bloqueio ao deslocamento normal.
3.3 A Parte III — previsão do tempo
A previsão do tempo (Parte III) sempre cobre um período de 24 horas e inicia adiantada de 12 horas em relação à data-hora do boletim. Assim, num boletim de 0000 HMG, a previsão cobre das 1200 HMG às 1200 HMG do dia seguinte; num boletim das 1200 HMG do dia 04, cobre das 0000 HMG do dia 05 às 0000 HMG do dia 06. São indicadas as direções, as rondas das direções e as alturas das ondas (em metros), e as direções dos ventos, suas rondas e velocidades (em escala Beaufort).
3.4 Parte I — avisos de mau tempo
Os avisos de mau tempo são emitidos quando uma ou mais condições estão previstas. Cada um dos quatro tipos só é divulgado quando o respectivo parâmetro iguala ou supera seu valor crítico. O aviso sempre indica a área afetada e a intensidade; no de vento forte, também a direção de onde vem o vento; no de mar grosso, a direção de onde vêm as ondas.
| Aviso | Critério (iguala ou supera) |
|---|---|
| Vento forte | Vento de força 7 Beaufort (28 nós ou mais) |
| Mar grosso | Ondas de 3 metros ou mais, em águas profundas |
| Ressaca | Ondas na arrebentação de 2,5 metros (ondas longas, na direção da costa) |
| Nevoeiro | Névoa úmida intensa, visibilidade abaixo de 1 km |
Como funcionam os avisos:
- todo aviso traz um período de duração ou validade;
- seguem uma numeração anual, para referência caso o mau tempo se estenda além da validade;
- na ausência de mau tempo, o boletim divulga NIL ou NÃO HÁ;
- como a Parte III não detalha as situações de mau tempo, elas são destacadas na Parte I para alertar o navegante comum.
3.5 Escalas: Beaufort, estado do mar e visibilidade
O navegante interpreta os boletins com três escalas padronizadas pela DHN. A intensidade do vento é informada em força Beaufort (de 0, calmaria, a 12, furacão); o estado do mar, por um código de 0 a 9 com faixas de altura; e a visibilidade, em quatro categorias.
| Código | Descrição | Altura (m) |
|---|---|---|
| 0 | calmo | 0 |
| 1 | encrespado | 0 – 0,1 |
| 2 | suave | 0,1 – 0,5 |
| 3 | fraco | 0,5 – 1,25 |
| 4 | moderado | 1,25 – 2,5 |
| 5 | grosso | 2,5 – 4 |
| 6 | muito grosso | 4 – 6 |
| 7 | alto | 6 – 9 |
| 8 | muito alto | 9 – 14 |
| 9 | fenomenal | acima de 14 |
| Português | Inglês | Milhas náuticas | km |
|---|---|---|---|
| Muito restrita | Very poor | < 0,5 | < 1 |
| Restrita | Poor | 0,5 a 2 | 1 a 4 |
| Moderada | Moderate | 2 a 5 | 4 a 10 |
| Boa | Good | > 5 | > 10 |
3.6 Boletim para áreas portuárias e boletim especial
O boletim de previsão para áreas portuárias dá as condições previstas nas proximidades de um porto, em linguagem clara, normalmente por radiotelefonia: área e validade (HMG), aviso de mau tempo, previsão do estado do tempo, do céu, dos ventos predominantes, de ondas, de visibilidade e da tendência da temperatura. O boletim especial de previsão atende área restrita e finalidades específicas — reboque, socorro e salvamento, deslocamento de plataformas, regatas oceânicas — seguindo o modelo das Partes I, II e III; deve ser solicitado à DHN e pode estar sujeito a pagamento.
4. Cartas sinóticas
A carta de pressão atmosférica ao nível do mar — conhecida simplesmente como carta sinótica — é elemento de grande importância para avaliar o tempo presente e prever sua evolução. Nela estão traçadas as isóbaras, espaçadas de 4 em 4 hPa. Onde as isóbaras fechadas envolvem valores mais baixos, plota-se um centro de baixa (B) ou ciclone; onde envolvem valores mais altos, um centro de alta (A) ou anticiclone.
4.1 A simbologia do vento e do céu
Os ventos à superfície são plotados com uma seta: a extremidade com traços indica a direção de onde sopra o vento, e o número de traços, a sua intensidade (em nós, para validar o modelo); o pequeno círculo na outra extremidade indica a cobertura do céu em oitavos. Em princípio, o vento sopra quase paralelo às isóbaras. Indica-se também a intensidade da atividade convectiva na ZCIT (fraca, moderada ou forte — I, II ou III).
O que a configuração das isóbaras revela:
- o espaçamento entre isóbaras indica o gradiente horizontal de pressão e, portanto, a intensidade do vento — isóbaras estreitas indicam ventos fortes;
- isóbaras retilíneas e estreitas indicam ocorrência de vagas e propagação de marulhos nas horas seguintes (na mesma direção das vagas);
- os centros de baixa indicam convergência, movimento ascendente e nebulosidade; os centros de alta, divergência, movimento descendente e céu limpo;
- o sentido de circulação do ar permite identificar a direção do vento em cada ponto.
4.2 A simbologia das frentes
Por convenção internacional, a carta sinótica representa as frentes por cores. As frentes frias (azul) deslocam-se das altas para as baixas latitudes: o símbolo aponta para baixo no HN e para cima no HS. As frentes quentes (vermelho) deslocam-se das baixas para as altas latitudes: o símbolo aponta para cima no HN e para baixo no HS — por isso os desenhos aparecem invertidos nos dois hemisférios.
| Frente | Símbolo |
|---|---|
| Fria | Linha azul |
| Quente | Linha vermelha |
| Oclusa | Linha azul e vermelha do mesmo lado (a partir do centro de baixa B) |
| Estacionária | Linha azul e vermelha em lados opostos (na extremidade) |
No eixo do alongamento do cavado observa-se a simbologia da frente fria em azul; na extremidade da circulação do ar quente dentro do cavado, a da frente quente em vermelho; a partir do centro de baixa (B), a da frente oclusa nas duas cores do mesmo lado. Na frente estacionária as isóbaras próximas da extremidade ficam paralelas à frente; na Metárea V isso ocorre normalmente na área Delta, e o vento frio passa a soprar de SE junto à frente.
Lobo/Soares, Cap. VI, §3 e bloco "Cartas Sinóticas" (capítulo 6).
A carta traz ainda, em duas pequenas linhas paralelas, a linha de instabilidade (que pode receber simbologia de tempo presente — chuva, chuvisco ou pancadas) e, em linha tracejada com grandes traços, o eixo do cavado. Frontogênese é a formação de cavado/sistema frontal; frontólise, a dissipação.
5. Análise sinótica
O navegante da costa brasileira, ao consultar diariamente a carta sinótica, observa que a frente fria, ao deslocar a massa de ar frio para a região tropical, aparece como uma linha quase perpendicular ao litoral sul. Conforme avança pela costa sul e sudeste, ela vai se afastando rumo ao oceano; ao atingir as latitudes da Bahia, fica praticamente paralela à costa e afastada do litoral, afetando quem navega em alto-mar. Como planejamento, pode-se esperar frentes frias em intervalos de 5 a 7 dias, sobretudo no inverno; durante quase todo o ano, a frente leva cerca de 48 horas para ir do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro.
5.1 Identificar a passagem de uma frente fria
Sinais da passagem de uma frente fria:
- mudança brusca do vento — principal indício no HS, de NW/SW; ventos do quadrante norte (quentes) passam para o quadrante sul (frios). No HN, de SW/NW (quadrante sul para o norte);
- queda da temperatura (chegada do ar frio);
- queda de pressão na aproximação e elevação após a passagem;
- mudança na umidade relativa do ar;
- ocorrência de nebulosidade e precipitação.
5.2 Classificar a frente pelo vento e pela pressão
Pela direção do vento à superfície no lado do ar frio e pela tendência barométrica, o navegante classifica a frente da região.
| Observação no lado do ar frio | Frente |
|---|---|
| Vento na direção do deslocamento da frente | Frente fria |
| Vento paralelo à frente | Frente quase estacionária |
| Vento com componente oposta ao deslocamento | Frente quente |
| Pressão para de cair / passa a subir (cavado vai para o ar quente) | Frente fria |
| Tendência de pressão igual nos dois lados | Quase estacionária |
| Pressão para de subir / passa a cair (cavado vai para o ar frio) | Frente quente |
Na costa brasileira, uma mudança brusca do quadrante norte para o sul indica frente fria; ventos fortes com precipitação torrencial indicam frente fria de deslocamento rápido (acima de 20 nós). A circulação do vento em torno do centro de baixa dá à frente oclusa o aspecto de vírgula.
5.3 O que cada parâmetro meteorológico indica
Leitura dos parâmetros:
- temperatura e umidade revelam as propriedades da massa de ar; alteração brusca pode ser a chegada de outra massa;
- pressão — alteração brusca também sinaliza nova massa de ar;
- TSM (temperatura da superfície do mar) com a do ar mostra a interação atmosfera-oceano: TSM mais fria favorece nevoeiro (afeta a visibilidade); TSM mais quente instabiliza o ar e forma Cumulus;
- vento + carta de pressão posicionam o navio em relação à depressão e ao anticiclone;
- aproado ao vento no HS, o navegante tem a baixa à esquerda (bombordo) e a alta à direita (boreste); no HN, o contrário;
- a intensidade do vento cresce com o gradiente horizontal de pressão;
- umidade relativa elevada favorece nevoeiro com pequeno resfriamento;
- Cirrus de uma mesma direção podem ser pré-frontais, indício de tempo severo próximo da frente.
6. Circulação dos ventos e geração de ondas
Ao analisar a carta sinótica, o navegante observa com atenção a configuração das isóbaras para avaliar a evolução do estado do mar. Como o vento sopra quase paralelo às isóbaras, a sua direção e a variação da intensidade (pelo espaçamento das isóbaras) podem ser deduzidas da carta — observação muito valiosa na área marítima, carente de dados. O estado do mar é afetado por vagas e marulhos, e a formação das ondas depende da circulação dos ventos sobre o mar, que é função da configuração das isóbaras.
6.1 As três condições para gerar ondas
Para o vento gerar ondas, a circulação precisa ser favorável: os ventos têm de soprar na mesma direção, por grande distância e por bastante tempo. Reúnem-se, então, três condições — todas necessárias.
| Condição | O que é | Na carta |
|---|---|---|
| Intensidade | Vento forte, que transfere energia ao oceano | Isóbaras estreitas |
| Pista | Extensão retilínea da área geradora, na direção do vento | Isóbaras retilíneas e longas |
| Persistência | Tempo durante o qual o vento mantém direção e intensidade | Confirmada nas cartas anteriores |
Isóbaras quase retilíneas por extensa área são fator importante, mas não suficiente: é preciso consultar as cartas anteriores para confirmar a persistência e haver intensidade de vento suficiente. Quanto mais tempo persistirem, mais agitado o estado do mar.
6.2 A área geradora e seu deslocamento
Na delimitação da área geradora, quando as isóbaras são quase retas, considera-se a área retangular ampliada lateralmente em setores de 30°; quando curvas, a ampliação chega a 45°. Mudanças bruscas na orientação das isóbaras marcam os limites da área geradora — o que ocorre nas tempestades associadas às frentes. Dentro da área, as ondas chamam-se vagas; ao ultrapassar o limite (quando o vento muda de direção), mantêm a direção mas passam a chamar-se marulhos, propagando-se por centenas de milhas.
| Deslocamento da pista em relação às ondas | Efeito |
|---|---|
| Mesma direção | O processo de formação se intensifica |
| Direção oposta | O processo se enfraquece |
| Direção perpendicular | O processo se amortece |
7. Marulhos, ressaca e cartas de ondas
A chegada de marulhos pode ser identificada com razoável antecedência na carta sinótica. A área geradora fornece a direção das vagas — a mesma do vento e do eixo da pista — e, portanto, a mesma direção da futura propagação dos marulhos, por longas distâncias, nos dias seguintes. Identificar essa direção alerta o navegante, com antecedência, para alterar o rumo e evitar regiões de mar severo.
A ressaca — que atinge o litoral e os portos menos protegidos com fortes ondas — ocorre quando as isóbaras apresentam longos trechos quase retilíneos perpendiculares à costa, com ondas de grande comprimento (grande volume de água a se deslocar após a arrebentação). Os demais fatores de formação de onda — persistência, intensidade e extensão da pista — também precisam estar presentes. Nessas situações, atenção à possibilidade de corrente de ressaca.
7.1 Cartas de ondas (WAM)
No site da DHN, o navegante deve consultar o produto WAM — cartas de ondas —, com previsão de ondas e marulhos de 3 em 3 horas, até 96 horas. A carta mostra a direção de onde vêm as ondas e o vento que as originou; nas áreas do Nordeste percebe-se a constância dos alísios (ondas de SE e E no HS, de NE no HN). As cores destacam áreas com onda superior a 3 m; as linhas pretas contínuas indicam ondas menores de 2,5 m.
8. Circulações do ar no HN e no HS
Em rotas que cruzam os dois hemisférios, o navegante deve atentar para que fenômenos semelhantes têm sentido de circulação contrário no HN e no HS. Como os principais portos de destino dos navios brasileiros estão no HN, são longas travessias com grandes deslocamentos em latitude, em que se constatam os efeitos da força de Coriolis — desvio para a esquerda no HS e para a direita no HN. Observam-se alísios de SE no HS, de NE no HN e ventos de leste na ZCIT; e correntes oceânicas formando circuitos fechados em cada hemisfério.
| Sistema | HN | HS |
|---|---|---|
| Centro de baixa (ciclone) | anti-horário | horário |
| Centro de alta (anticiclone) | horário | anti-horário |
| Eixo do cavado aponta para | Sul (o Equador) | Norte (o Equador) |
| Eixo da crista aponta para | Norte (altas latitudes) | Sul (altas latitudes) |
O eixo do cavado aponta sempre para o Equador, pois o cavado leva ar das regiões frias para as quentes; o eixo da crista aponta sempre para as altas latitudes. Saber disso é o que permite ao navegante perceber o deslocamento correto das frentes frias (e cavados) e das frentes quentes (e cristas) ao interpretar cartas e imagens de ambos os hemisférios.
Ciclone tropical e manobra evasiva. Numa tormenta, é preciso localizar-se em relação à trajetória. O semicírculo perigoso fica à direita da trajetória no HN e à esquerda no HS; nele, recebe-se o vento pela bochecha de boreste (HN) ou de bombordo (HS). O semicírculo navegável fica à esquerda (HN) ou à direita (HS); nele, recebe-se o vento pela alheta de boreste (HN) ou de bombordo (HS). Em resumo: num furacão, recebe-se o vento por boreste no HN e por bombordo no HS.
9. Tempo presente, prognóstico e aspectos relevantes
O entendimento do tempo começa pelo tempo presente: observação local somada à Parte II do Meteoromarinha. Comparando com a situação de algumas horas antes, percebe-se a tendência dos parâmetros — temperatura do ar e TSM, pressão, umidade, escoamento dos ventos — e, daí, a intensificação ou o abrandamento do tempo e do mar. Quando não se recebe o boletim, o próprio navegante pode prever pela tendência, registrando observações de preferência de 3 em 3 horas. Como a superfície do mar é homogênea, a extrapolação da posição dos centros de pressão vale para período curto, nunca superior a 24 horas.
9.1 As variações dos parâmetros na aproximação das frentes
| Parâmetro | Frente fria | Frente quente |
|---|---|---|
| Pressão | Cai até a chegada; sobe após a passagem | Cai lentamente; comportamento gradual |
| Temperatura | Sobe pouco antes (compressão do ar quente); cai após | Estável ou cai um pouco; sobe acentuadamente após |
| Vento (HS) | Brusca mudança de N/NW para S/SW | Mudança gradual |
Tendências que o navegante deve acompanhar:
- pressão — plotar em papel milimetrado (hPa × HMG) revela a chegada de sistemas de pressão e frontais;
- umidade — quanto menor a diferença entre a temperatura do ar e a do ponto de orvalho, menor o resfriamento para saturar (UR = 100%); advecção de ar quente e úmido sobre mar frio alerta para nevoeiro;
- direção do vento — no HS a circulação é horária; com a depressão associada a frente fria, o lado quente varia de NE para N e NW (anti-horário) e o lado frio de SE para S e SW (horário); com o avanço da frente, brusca mudança de N/NW para S/SW;
- marulho — indica a direção da fonte geradora; no HS, a depressão está sempre à esquerda da direção de onde vem o marulho;
- nuvens — Cirrus em forma de garras, vindos do topo de grandes Cb, antecipam sistemas frontais e ciclônicos.
9.2 Intensificação do mau tempo
O mau tempo por atividade convectiva exige desencadeamento e intensificação. O desencadeamento é espontâneo quando há forte aquecimento do ar à superfície (energia do calor sensível, medida pela temperatura), ou forçado quando o ar quente ascende por uma superfície frontal ou montanha inclinada, ou por convergência em baixos níveis. A intensificação, em ambos os casos, vem da liberação do calor latente do vapor d'água (indicada pela umidade relativa). Ar muito aquecido e muito úmido tem condições propícias para desencadear e intensificar o mau tempo — caso dos conglomerados de Cb nas frentes frias e na ZCIT.
9.3 Aspectos relevantes — conceitos para fixar
Definições essenciais:
- as massas de ar caracterizam-se por pequenas diferenças horizontais de temperatura e umidade;
- orvalho — umidade que se condensa sobre a superfície; geada — umidade que se congela sobre a superfície;
- inversão térmica — o contrário do normal: temperatura maior em níveis altos e massa fria nos baixos níveis;
- num centro de baixa, usam-se os termos aprofundar e encher; num centro de alta, enfraquecimento e intensificação;
- frontólise é dissipação de frente; frontogênese, formação de frente;
- névoa úmida e nevoeiro são obstruções da visibilidade por gotículas de água em suspensão; abaixo de 1 km de visibilidade, chama-se nevoeiro;
- pancadas de chuva têm curta duração e início/fim bem definidos (nuvens convectivas); nuvens estratiformes dão precipitação contínua;
- rajada é o rápido aumento da intensidade do vento, com variação de pelo menos 10 nós sobre a média;
- nas médias e altas latitudes ocorrem cavados; dentro do cavado, partindo da baixa (B), está todo o sistema frontal (frentes fria, quente e oclusa), que se desloca a cerca de 10 nós — trajetória NE/E no HS e SE/E no HN.
Ressacas são arrebentações violentas no litoral, causadas por ondas de grande comprimento, com direção de propagação quase perpendicular à linha de costa; a onda chega à arrebentação com altura superior a 2,5 metros e grande volume de água.
Lobo/Soares, Cap. VI, "Aspectos Relevantes".
10. Interpretação integrada e recomendações
A força do método está no uso conjunto das três fontes: o boletim dá a visão abrangente, a carta sinótica posiciona as frentes e mostra a circulação do vento, e a imagem de satélite revela a intensidade da atividade convectiva pela nebulosidade. Acompanhar uma sequência de boletins, cartas e imagens permite identificar com antecedência as regiões propícias à geração de ondas — e um mar muito severo requer tempo para se desenvolver, de modo que o navegante atento dificilmente é surpreendido.
10.1 A frente fria na imagem IR e o efeito na costa
Numa sequência de imagens IR, o sistema frontal aparece pela faixa branca e estreita da frente fria, que afeta de modo diferente o estado do mar antes e depois da sua passagem. No Atlântico Sul, antes da frente o vento sopra da costa (Argentina/Uruguai/Brasil) para o oceano, inibindo a pista: mar calmo na costa e severo no oceano. Depois da passagem, o vento sopra do mar para o continente, favorecendo a pista, a formação de ondas e a propagação de marulhos: mar severo na costa e no oceano.
| Momento | Direção do vento | Estado do mar costeiro |
|---|---|---|
| Antes da passagem | da costa para o mar (quadrante norte: NW/N/NE) | tranquilo na costa, severo no oceano |
| Depois da passagem | do mar para a costa (quadrante sul: SW/S/SE) | severo na costa |
Há situações de tempo bom — sem vento e sem nebulosidade — mas com mar severo: marulhos gerados em alto-mar, cuja pista está direcionada para a costa, penetram em águas rasas, crescem em altura até a arrebentação e causam sérias avarias em pequenas embarcações, com correntes de retorno ou de ressaca. Atenção sempre à direção de propagação dos marulhos, não só ao vento local.
10.2 Vento costeiro e segurança da navegação
Na navegação costeira, o que decide o estado do mar é a direção do vento costeiro, que possibilita ou não a pista: vento do continente para o mar dá mar bom; vento do oceano para o continente dá mar que pode ser severo e afetar bastante a navegação. Some-se a isso a propagação de marulhos de alto-mar dirigidos à costa.
10.3 Recomendações ao navegante
O que buscar em cada fonte:
- cartas sinóticas — se as isóbaras são longas ou curtas, retilíneas ou curvas, espaçadas ou estreitas, de direção definida ou variável;
- imagens de satélite — se a nebulosidade é branca intensa ou esmaecida, em faixa larga ou estreita, nuvens espessas (Cb) ou finas (Stratus/Cirrus), e o tipo de frente (fria, quente ou oclusa);
- boletins Meteoromarinha (HS) — se ventos e ondas apresentam mudanças acentuadas de direção, rondando do quadrante norte para o sul (de NW para SW), sinal de massa de ar quente passando a fria.
Por fim, vale lembrar que as informações climatológicas — consultadas no Atlas de Cartas Piloto (tratado no Cap. 13) — dão o comportamento esperado da atmosfera por época do ano e servem de referência para o planejamento de longo prazo, complementando o monitoramento diário do tempo presente. O site da DHN ainda oferece a versão em inglês do Meteoromarinha, glossário de termos técnicos em português e inglês, previsões de ondas (modelo WAM) e avisos de mau tempo.