MO Cap. VI — Interpretação de Imagem, Cartas e Boletim

1. Interpretar o tempo: três fontes a bordo

Todos os dias, o navegante recebe a bordo, pela internet, as informações meteorológicas do tempo presente e da previsão do tempo. Saber lê-las é o que permite entender a evolução do estado do tempo e do estado do mar — em especial quando há ronda significativa da direção dos ventos e das ondas. Este capítulo reúne as três fontes que o Serviço Meteorológico Marinho coloca à disposição: a imagem de satélite, a carta sinótica de pressão à superfície e o boletim Meteoromarinha.

Fonte: LOBO, Paulo Roberto Valgas. Meteorologia e Oceanografia — Usuário Navegante. Vol. I. 4. ed. rev. atual. ampl. Petrópolis: Vozes, 2019. Cap. VI — Interpretação de informações meteorológicas (imagens de satélite; cartas sinóticas de pressão à superfície; boletim Meteoromarinha; avisos de mau tempo; geração de ondas; marulhos e ressaca; circulações HN/HS; prognóstico do tempo).

Edital: Anexo 2-A, Área V (Meteorologia e Oceanografia): interpretação de informações meteorológicas e cartas sinóticas; boletins / Meteoromarinha; ventos (escala Beaufort e ronda na passagem das frentes); ondas e estado do mar (geração de ondas, marulhos, ressaca, cartas de ondas WAM); segurança da navegação (navegação costeira antes/depois da frente fria; manobra evasiva em ciclone tropical) · Anexo 2-B, Área V, item 3 (Lobo/Soares — escopo definido pelo 2-A).

Os produtos do Serviço Meteorológico Marinho são divulgados no site da DHN e devem ser usados diariamente às 0000 e 1200 HMG; as imagens de satélite são divulgadas pelo CPTEC/INPE de 3 em 3 horas. Toda a meteorologia marinha trabalha na Hora Média de Greenwich (HMG), fuso zero — assim, observações de estações de todo o planeta coincidem no mesmo instante.

Fig. VI-1
Fig. VI-1 Serviço Meteorológico Marinho (DHN) — produtos meteorológicos disponíveis aos navegantes no site da DHN, usados às 0000 e 1200 HMG.
Fig. VI-2
Fig. VI-2 Imagem de satélite do CPTEC/INPE — divulgada de 3 em 3 horas (HMG); cobre o oceano e a costa.

Na Metárea V — a área marítima e costeira do Brasil — convivem duas meteorologias distintas. A linha que as separa é um paralelo de latitude que limita, ao norte, a influência dos sistemas frontais vindos do sul, normalmente na região do sul da Bahia / norte do Espírito Santo. Essa latitude é determinada a cada dia pela posição do centro de alta pressão da célula de Hadley — o anticiclone permanente do Atlântico Sul —, que bloqueia o avanço dos sistemas frontais e resulta em frente fria estacionária.

2. Imagens de satélites meteorológicos

O satélite meteorológico é uma ferramenta poderosa, disponível também ao navegante. O satélite geoestacionário, a 36 mil km de altitude, fornece imagem circular de uma face da Terra e novas imagens de 3 em 3 horas. Onde os oceanos têm poucas observações de superfície, a imagem de satélite identifica os fenômenos que ocorrem no instante da imagem; comparar imagens sucessivas mostra como eles evoluem.

Há ainda o satélite de órbita polar, a cerca de 800 km de altitude, que descreve sua órbita ao longo do meridiano, passando uma vez de dia e outra de noite pela mesma região e cobrindo uma faixa de 15° de largura, de sul para norte.

Fig. VI-4
Fig. VI-4 Imagem de satélite meteorológico — satélite geoestacionário a 36 mil km de altitude fornece imagem circular de uma face da Terra; nebulosidade em branco, céu limpo em escuro.

2.1 Imagem visível e imagem infravermelho

As imagens vêm em dois canais. A imagem visível registra a refletividade — a luz solar refletida, que aparece em branco. Por isso só há imagem visível durante o dia. Nela, nuvens baixas (Stratus), médias (Altostratus), altas (Cirrus) e Cumulus podem aparecer do mesmo modo, todas em branco; o que está escuro é ausência de nebulosidade. Mesmo sem distinguir os tipos de nuvem, a imagem visível mostra a presença de sistemas de mau tempo e a intensidade da nebulosidade.

A imagem infravermelho (IR) é a mais usada e a mais divulgada. Ela se baseia na temperatura da coluna de ar inteira, captando a temperatura das nuvens altas, médias, baixas, dos nevoeiros e da superfície. Com a IR distinguem-se os diferentes tipos de nuvem e caracteriza-se melhor o estado do tempo. A atmosfera é transparente à radiação IR, mas as partículas em suspensão — gotículas de água e cristais de gelo das nuvens — são detectadas e indicam sua temperatura.

Como ler os tons de cinza da imagem IR (do mais branco ao mais escuro).
Tom na imagem IRNuvem / situaçãoIndício
Branco intensoNuvem muito fria e muito espessaCumulonimbus (Cb) — intensa liberação de calor latente
Branco / cinza-claroCumulus (Cu)Pouca liberação de calor latente
Cinza-claroCirrus (Ci)Pequena liberação de calor latente
Cinza-escuroStratus (St)Pequena liberação de calor latente; quanto menos claro, mais baixo
Cor bem escuraAusência de nebulosidadeCéu limpo

Regra de leitura da imagem IR:

  • quanto mais branca a imagem, mais fria e espessa a nuvem — sinal de Cb;
  • quanto menos clara, menor a espessura da nuvem (não é Cumulus, e sim Stratus);
  • os Cirrus aparecem bem mais brancos que os baixos Stratus;
  • identifica-se primeiro o Cb, depois os Cirrus, os baixos Stratus / pequenos Cumulus e, por fim, a superfície do oceano ou continente.

A imagem IR permite interpretar a ocorrência de Cb isolados, em conglomerados (como na ZCIT) ou em sistemas de mau tempo, como a frente fria. Nas regiões escuras, afastadas do eixo do cavado, podem ocorrer áreas geradoras de vagas.

Fig. VI-5
Fig. VI-5 Imagem de satélite IR — frente fria a SE do Pacífico (faixa branca de Cb), cavado com escoamento de ar frio (área escura) e ascensão do ar quente (área clara); dia 044/1984, 12:00 HMG.

2.2 Imagem infravermelho realçada

A imagem IR realçada apresenta em cores a intensidade da atividade convectiva, os tipos de nuvem associados a cada cor, a espessura da nuvem, a intensidade do mau tempo, a temperatura (cada cor indica uma temperatura) e o nível de altitude do topo da nuvem. Com mais recursos à disposição, o navegante consegue identificar bem o sistema frontal, as frentes fria, quente e oclusa e o centro de baixa pressão (B).

2.3 O sistema frontal visto na imagem

Um sistema frontal é identificado na imagem pelas características distintas das suas três frentes. A posição da nebulosidade da frente fria indica a posição do eixo do cavado e separa, na imagem, as regiões de ventos frios (depois da frente fria) das de ventos quentes (antes dela).

Assinatura de cada frente na imagem de satélite.
FrenteFaixa de nebulosidade na imagem
Frente friaFaixa estreita, de branco intenso
Frente quenteFaixa bem larga, de branco esmaecido e cinza-claro
Frente oclusaFaixa branca com acentuada concavidade

A imagem também indica, pelo eixo do cavado, as regiões de ondas: na direção da navegação costeira depois da frente fria e na direção do mar aberto antes dela, na Metárea V. Em região escura observa-se o centro de alta da célula de Hadley, cujo bloqueio se manifesta com a ocorrência de frente fria estacionária na Metárea V.

Fig. VI-9
Fig. VI-9 Imagem de satélite IR realçada (24/out/2017) — frente fria na área Charlie/Delta (Cabo Frio), nebulosidade na ZCIT, sistema frontal no Atlântico Sul e centro de baixa (B) do cavado.
Fig. VI-10
Fig. VI-10 Imagem de satélite infravermelho (24/out/2017) — dois sistemas frontais no Atlântico Sul, centro de baixa (B) na extremidade da frente oclusa, ZCIT e sistema frontal na costa da África.

O que a análise das imagens do Atlântico Sul revela:

  • a ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul), com extensa banda de nebulosidade da Amazônia ao Atlântico Sul;
  • a Alta da Bolívia, com gigantesca circulação anticiclônica em altos níveis, sobretudo no verão do HS;
  • vórtices ciclônicos em baixos níveis, associados ao cavado e à frente fria;
  • vórtices em altos níveis, associados à alta da Bolívia, à alta do Atlântico Sul e à corrente de jato;
  • queda significativa de temperatura e geada, associadas a cavado em altos níveis e à entrada de segunda frente fria (onda polar secundária);
  • o tempo é intensificado quando a ZCAS coincide com a passagem de frente fria.

3. Boletins meteorológicos e Meteoromarinha

As informações de interesse do navegante são elaboradas pelo Serviço Meteorológico Marinho, na DHN, e agrupadas, conforme o fim a que se destinam, em: boletim de previsão para áreas portuárias; boletim de condições e previsão do tempo (o Meteoromarinha); boletim especial de previsão; e carta meteorológica por internet. Hoje a intensidade do vento é referida à escala Beaufort, e divulga-se a direção de onde vêm vagas e marulhos, com as alturas em metros.

3.1 As áreas de previsão e a Metárea V

Os oceanos foram divididos em áreas de responsabilidade de divulgação de informações de segurança da navegação, identificadas pelo termo NAVAREA ou METÁREA seguido de algarismos romanos. Coube ao Brasil a NAVAREA V e a METÁREA V, que abrange da costa do Brasil até o meridiano de 020° W e das latitudes de 07° N a 037° S. A OMM (Organização Meteorológica Mundial), órgão da ONU, estabelece as normas e procedimentos.

Fig. VI-11
Fig. VI-11 NAVAREAS e METÁREAS (a e b) — divisão das áreas oceânicas de responsabilidade de divulgação de segurança da navegação; destaque para a METÁREA V (Brasil) e cobertura INMARSAT.

No Meteoromarinha, a previsão do tempo é elaborada separadamente para 8 áreas costeiras, de Alfa a Hotel (do sul para o norte), e 2 áreas oceânicas, November (Norte oceânica) e Sierra (Sul oceânica).

Áreas marítimas de previsão sob responsabilidade do Brasil (Metárea V).
ÁreaLimites
AlfaDo Arroio Chuí ao Cabo de Santa Marta
BravoDo Cabo de Santa Marta ao Cabo Frio (oceânica)
CharlieDo Cabo de Santa Marta ao Cabo Frio (costeira)
DeltaDe Cabo Frio a Caravelas
EchoDe Caravelas a Salvador
FoxtrotDe Salvador a Natal
GolfDe Natal a São Luís
HotelDe São Luís ao Cabo Orange
NovemberNorte oceânica (oeste de 020° W, de 7° N a 15° S)
SierraSul oceânica (oeste de 020° W, de 15° S a 36° S)

Cada área ainda pode ser subdividida em parte norte/sul e leste/oeste, para detalhar as variações do tempo dentro da mesma região.

3.2 As partes do Meteoromarinha

O Meteoromarinha é constituído de seis partes. As Partes I, II e III são transmitidas em linguagem clara em português e repetidas em inglês após a Parte VI.

Estrutura do boletim Meteoromarinha.
ParteConteúdo
IAviso de mau tempo
IIResumo descritivo do tempo (sinopse com data-hora HMG da análise)
IIIPrevisão do tempo (próximas 24 h)
IVAnálise e/ou prognóstico do tempo (código FM46-IV IAC FLEET)
VSeleção de mensagens meteorológicas de navios (SHIP)
VISeleção de mensagens de estações terrestres costeiras (SYNOP)

Na Parte II divulga-se de forma abrangente a ocorrência de baixas, altas e sistemas frontais, além da ZCIT, com a trajetória da frente fria e a sua velocidade de deslocamento. O normal é 10 nós; quando mais lenta, indica-se 5 nós, e mais rápida, 15 nós. Pode-se ainda usar a expressão "quase estacionária" quando há bloqueio ao deslocamento normal.

3.3 A Parte III — previsão do tempo

A previsão do tempo (Parte III) sempre cobre um período de 24 horas e inicia adiantada de 12 horas em relação à data-hora do boletim. Assim, num boletim de 0000 HMG, a previsão cobre das 1200 HMG às 1200 HMG do dia seguinte; num boletim das 1200 HMG do dia 04, cobre das 0000 HMG do dia 05 às 0000 HMG do dia 06. São indicadas as direções, as rondas das direções e as alturas das ondas (em metros), e as direções dos ventos, suas rondas e velocidades (em escala Beaufort).

3.4 Parte I — avisos de mau tempo

Os avisos de mau tempo são emitidos quando uma ou mais condições estão previstas. Cada um dos quatro tipos só é divulgado quando o respectivo parâmetro iguala ou supera seu valor crítico. O aviso sempre indica a área afetada e a intensidade; no de vento forte, também a direção de onde vem o vento; no de mar grosso, a direção de onde vêm as ondas.

Os quatro avisos de mau tempo e seus valores críticos.
AvisoCritério (iguala ou supera)
Vento forteVento de força 7 Beaufort (28 nós ou mais)
Mar grossoOndas de 3 metros ou mais, em águas profundas
RessacaOndas na arrebentação de 2,5 metros (ondas longas, na direção da costa)
NevoeiroNévoa úmida intensa, visibilidade abaixo de 1 km

Como funcionam os avisos:

  • todo aviso traz um período de duração ou validade;
  • seguem uma numeração anual, para referência caso o mau tempo se estenda além da validade;
  • na ausência de mau tempo, o boletim divulga NIL ou NÃO HÁ;
  • como a Parte III não detalha as situações de mau tempo, elas são destacadas na Parte I para alertar o navegante comum.

3.5 Escalas: Beaufort, estado do mar e visibilidade

O navegante interpreta os boletins com três escalas padronizadas pela DHN. A intensidade do vento é informada em força Beaufort (de 0, calmaria, a 12, furacão); o estado do mar, por um código de 0 a 9 com faixas de altura; e a visibilidade, em quatro categorias.

Estado do mar (DHN) — código e altura.
CódigoDescriçãoAltura (m)
0calmo0
1encrespado0 – 0,1
2suave0,1 – 0,5
3fraco0,5 – 1,25
4moderado1,25 – 2,5
5grosso2,5 – 4
6muito grosso4 – 6
7alto6 – 9
8muito alto9 – 14
9fenomenalacima de 14
Escala de visibilidade (DHN).
PortuguêsInglêsMilhas náuticaskm
Muito restritaVery poor< 0,5< 1
RestritaPoor0,5 a 21 a 4
ModeradaModerate2 a 54 a 10
BoaGood> 5> 10

3.6 Boletim para áreas portuárias e boletim especial

O boletim de previsão para áreas portuárias dá as condições previstas nas proximidades de um porto, em linguagem clara, normalmente por radiotelefonia: área e validade (HMG), aviso de mau tempo, previsão do estado do tempo, do céu, dos ventos predominantes, de ondas, de visibilidade e da tendência da temperatura. O boletim especial de previsão atende área restrita e finalidades específicas — reboque, socorro e salvamento, deslocamento de plataformas, regatas oceânicas — seguindo o modelo das Partes I, II e III; deve ser solicitado à DHN e pode estar sujeito a pagamento.

4. Cartas sinóticas

A carta de pressão atmosférica ao nível do mar — conhecida simplesmente como carta sinótica — é elemento de grande importância para avaliar o tempo presente e prever sua evolução. Nela estão traçadas as isóbaras, espaçadas de 4 em 4 hPa. Onde as isóbaras fechadas envolvem valores mais baixos, plota-se um centro de baixa (B) ou ciclone; onde envolvem valores mais altos, um centro de alta (A) ou anticiclone.

Fig. VI-12
Fig. VI-12 Carta sinótica — carta de pressão ao nível do mar com isóbaras de 4 em 4 hPa, centros de baixa (B) e alta (A), frentes coloridas e simbologia do vento/cobertura do céu.
Fig. VI-14
Fig. VI-14 Carta de pressão ao nível do mar (24/out/2017) — Sea Level Pressure Chart do Serviço Meteorológico Marinho da DHN; referência 2400008/007/2017.

4.1 A simbologia do vento e do céu

Os ventos à superfície são plotados com uma seta: a extremidade com traços indica a direção de onde sopra o vento, e o número de traços, a sua intensidade (em nós, para validar o modelo); o pequeno círculo na outra extremidade indica a cobertura do céu em oitavos. Em princípio, o vento sopra quase paralelo às isóbaras. Indica-se também a intensidade da atividade convectiva na ZCIT (fraca, moderada ou forte — I, II ou III).

Fig. VI-15
Fig. VI-15 Simbologia usada na carta sinótica — representação da ZCIT, da cobertura do céu (oitavos), do vento (seta com traços de intensidade) e das condições do tempo presente.
Fig. VI-16
Fig. VI-16 Representação da circulação do ar — configuração das isóbaras e simbologia do vento; seta indica direção, traços a intensidade, círculo a cobertura do céu; circulação horária na baixa (HS).

O que a configuração das isóbaras revela:

  • o espaçamento entre isóbaras indica o gradiente horizontal de pressão e, portanto, a intensidade do vento — isóbaras estreitas indicam ventos fortes;
  • isóbaras retilíneas e estreitas indicam ocorrência de vagas e propagação de marulhos nas horas seguintes (na mesma direção das vagas);
  • os centros de baixa indicam convergência, movimento ascendente e nebulosidade; os centros de alta, divergência, movimento descendente e céu limpo;
  • o sentido de circulação do ar permite identificar a direção do vento em cada ponto.

Fig. VI-13
Fig. VI-13 Carta sinótica — simbologia de frente fria estacionária nas áreas E e F; extensas áreas geradoras de vagas; evolução da frente fria no sul do Atlântico Sul.

4.2 A simbologia das frentes

Por convenção internacional, a carta sinótica representa as frentes por cores. As frentes frias (azul) deslocam-se das altas para as baixas latitudes: o símbolo aponta para baixo no HN e para cima no HS. As frentes quentes (vermelho) deslocam-se das baixas para as altas latitudes: o símbolo aponta para cima no HN e para baixo no HS — por isso os desenhos aparecem invertidos nos dois hemisférios.

Fig. VI-17
Fig. VI-17 Representação gráfica de frentes (a e b) — frente fria (azul) e quente (vermelha) com símbolos apontando em sentidos invertidos no HN e no HS; frente fria das altas para as baixas latitudes, frente quente o contrário.

Cores das frentes na carta sinótica.
FrenteSímbolo
FriaLinha azul
QuenteLinha vermelha
OclusaLinha azul e vermelha do mesmo lado (a partir do centro de baixa B)
EstacionáriaLinha azul e vermelha em lados opostos (na extremidade)

No eixo do alongamento do cavado observa-se a simbologia da frente fria em azul; na extremidade da circulação do ar quente dentro do cavado, a da frente quente em vermelho; a partir do centro de baixa (B), a da frente oclusa nas duas cores do mesmo lado. Na frente estacionária as isóbaras próximas da extremidade ficam paralelas à frente; na Metárea V isso ocorre normalmente na área Delta, e o vento frio passa a soprar de SE junto à frente.

Lobo/Soares, Cap. VI, §3 e bloco "Cartas Sinóticas" (capítulo 6).

A carta traz ainda, em duas pequenas linhas paralelas, a linha de instabilidade (que pode receber simbologia de tempo presente — chuva, chuvisco ou pancadas) e, em linha tracejada com grandes traços, o eixo do cavado. Frontogênese é a formação de cavado/sistema frontal; frontólise, a dissipação.

5. Análise sinótica

O navegante da costa brasileira, ao consultar diariamente a carta sinótica, observa que a frente fria, ao deslocar a massa de ar frio para a região tropical, aparece como uma linha quase perpendicular ao litoral sul. Conforme avança pela costa sul e sudeste, ela vai se afastando rumo ao oceano; ao atingir as latitudes da Bahia, fica praticamente paralela à costa e afastada do litoral, afetando quem navega em alto-mar. Como planejamento, pode-se esperar frentes frias em intervalos de 5 a 7 dias, sobretudo no inverno; durante quase todo o ano, a frente leva cerca de 48 horas para ir do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro.

5.1 Identificar a passagem de uma frente fria

Sinais da passagem de uma frente fria:

  • mudança brusca do vento — principal indício no HS, de NW/SW; ventos do quadrante norte (quentes) passam para o quadrante sul (frios). No HN, de SW/NW (quadrante sul para o norte);
  • queda da temperatura (chegada do ar frio);
  • queda de pressão na aproximação e elevação após a passagem;
  • mudança na umidade relativa do ar;
  • ocorrência de nebulosidade e precipitação.

5.2 Classificar a frente pelo vento e pela pressão

Pela direção do vento à superfície no lado do ar frio e pela tendência barométrica, o navegante classifica a frente da região.

Classificação da frente pelo vento no lado do ar frio e pela tendência da pressão.
Observação no lado do ar frioFrente
Vento na direção do deslocamento da frenteFrente fria
Vento paralelo à frenteFrente quase estacionária
Vento com componente oposta ao deslocamentoFrente quente
Pressão para de cair / passa a subir (cavado vai para o ar quente)Frente fria
Tendência de pressão igual nos dois ladosQuase estacionária
Pressão para de subir / passa a cair (cavado vai para o ar frio)Frente quente

Na costa brasileira, uma mudança brusca do quadrante norte para o sul indica frente fria; ventos fortes com precipitação torrencial indicam frente fria de deslocamento rápido (acima de 20 nós). A circulação do vento em torno do centro de baixa dá à frente oclusa o aspecto de vírgula.

5.3 O que cada parâmetro meteorológico indica

Leitura dos parâmetros:

  • temperatura e umidade revelam as propriedades da massa de ar; alteração brusca pode ser a chegada de outra massa;
  • pressão — alteração brusca também sinaliza nova massa de ar;
  • TSM (temperatura da superfície do mar) com a do ar mostra a interação atmosfera-oceano: TSM mais fria favorece nevoeiro (afeta a visibilidade); TSM mais quente instabiliza o ar e forma Cumulus;
  • vento + carta de pressão posicionam o navio em relação à depressão e ao anticiclone;
  • aproado ao vento no HS, o navegante tem a baixa à esquerda (bombordo) e a alta à direita (boreste); no HN, o contrário;
  • a intensidade do vento cresce com o gradiente horizontal de pressão;
  • umidade relativa elevada favorece nevoeiro com pequeno resfriamento;
  • Cirrus de uma mesma direção podem ser pré-frontais, indício de tempo severo próximo da frente.

6. Circulação dos ventos e geração de ondas

Ao analisar a carta sinótica, o navegante observa com atenção a configuração das isóbaras para avaliar a evolução do estado do mar. Como o vento sopra quase paralelo às isóbaras, a sua direção e a variação da intensidade (pelo espaçamento das isóbaras) podem ser deduzidas da carta — observação muito valiosa na área marítima, carente de dados. O estado do mar é afetado por vagas e marulhos, e a formação das ondas depende da circulação dos ventos sobre o mar, que é função da configuração das isóbaras.

6.1 As três condições para gerar ondas

Para o vento gerar ondas, a circulação precisa ser favorável: os ventos têm de soprar na mesma direção, por grande distância e por bastante tempo. Reúnem-se, então, três condições — todas necessárias.

Condições propícias para a geração de ondas.
CondiçãoO que éNa carta
IntensidadeVento forte, que transfere energia ao oceanoIsóbaras estreitas
PistaExtensão retilínea da área geradora, na direção do ventoIsóbaras retilíneas e longas
PersistênciaTempo durante o qual o vento mantém direção e intensidadeConfirmada nas cartas anteriores

Isóbaras quase retilíneas por extensa área são fator importante, mas não suficiente: é preciso consultar as cartas anteriores para confirmar a persistência e haver intensidade de vento suficiente. Quanto mais tempo persistirem, mais agitado o estado do mar.

6.2 A área geradora e seu deslocamento

Na delimitação da área geradora, quando as isóbaras são quase retas, considera-se a área retangular ampliada lateralmente em setores de 30°; quando curvas, a ampliação chega a 45°. Mudanças bruscas na orientação das isóbaras marcam os limites da área geradora — o que ocorre nas tempestades associadas às frentes. Dentro da área, as ondas chamam-se vagas; ao ultrapassar o limite (quando o vento muda de direção), mantêm a direção mas passam a chamar-se marulhos, propagando-se por centenas de milhas.

Fig. VI-18
Fig. VI-18 Área geradora de onda — isóbaras retas dão setor de ampliação lateral de 30°; isóbaras curvas dão 45°; mudanças bruscas das isóbaras marcam os limites da área geradora.
Fig. VI-19
Fig. VI-19 Pistas associadas às frentes (HN) — configurações típicas de pistas de frentes fria e quente; a tempestade desloca-se de NW/W (trajetória SE/E).
Fig. VI-20
Fig. VI-20 Pistas associadas às frentes (HS) — configurações típicas de pistas de frentes fria e quente; a tempestade desloca-se de SW/W (trajetória NE/E).

Efeito do deslocamento da área geradora sobre as ondas.
Deslocamento da pista em relação às ondasEfeito
Mesma direçãoO processo de formação se intensifica
Direção opostaO processo se enfraquece
Direção perpendicularO processo se amortece

Fig. VI-21
Fig. VI-21 Deslocamento na mesma direção — quando a área geradora (pista) se desloca na mesma direção das ondas, o processo de formação é intensificado.
Fig. VI-22
Fig. VI-22 Deslocamento em direções opostas — quando a pista se desloca em direção oposta às ondas, o processo de formação fica enfraquecido.
Fig. VI-23
Fig. VI-23 Deslocamento em direções perpendiculares — quando a pista se desloca perpendicularmente às ondas, o processo se amortece.

7. Marulhos, ressaca e cartas de ondas

A chegada de marulhos pode ser identificada com razoável antecedência na carta sinótica. A área geradora fornece a direção das vagas — a mesma do vento e do eixo da pista — e, portanto, a mesma direção da futura propagação dos marulhos, por longas distâncias, nos dias seguintes. Identificar essa direção alerta o navegante, com antecedência, para alterar o rumo e evitar regiões de mar severo.

A ressaca — que atinge o litoral e os portos menos protegidos com fortes ondas — ocorre quando as isóbaras apresentam longos trechos quase retilíneos perpendiculares à costa, com ondas de grande comprimento (grande volume de água a se deslocar após a arrebentação). Os demais fatores de formação de onda — persistência, intensidade e extensão da pista — também precisam estar presentes. Nessas situações, atenção à possibilidade de corrente de ressaca.

7.1 Cartas de ondas (WAM)

No site da DHN, o navegante deve consultar o produto WAM — cartas de ondas —, com previsão de ondas e marulhos de 3 em 3 horas, até 96 horas. A carta mostra a direção de onde vêm as ondas e o vento que as originou; nas áreas do Nordeste percebe-se a constância dos alísios (ondas de SE e E no HS, de NE no HN). As cores destacam áreas com onda superior a 3 m; as linhas pretas contínuas indicam ondas menores de 2,5 m.

Fig. VI-24
Fig. VI-24 Previsão numérica do tempo — produto do modelo numérico que sustenta as cartas de ondas e de pressão.
Fig. VI-25
Fig. VI-25 Carta de ondas (WAM, 03/SET/2016) — direção de onde vêm as ondas e o vento; áreas com altura de onda superior a 3 m em cores; linhas pretas contínuas para ondas menores de 2,5 m.

8. Circulações do ar no HN e no HS

Em rotas que cruzam os dois hemisférios, o navegante deve atentar para que fenômenos semelhantes têm sentido de circulação contrário no HN e no HS. Como os principais portos de destino dos navios brasileiros estão no HN, são longas travessias com grandes deslocamentos em latitude, em que se constatam os efeitos da força de Coriolis — desvio para a esquerda no HS e para a direita no HN. Observam-se alísios de SE no HS, de NE no HN e ventos de leste na ZCIT; e correntes oceânicas formando circuitos fechados em cada hemisfério.

Sentido de circulação por hemisfério.
SistemaHNHS
Centro de baixa (ciclone)anti-horáriohorário
Centro de alta (anticiclone)horárioanti-horário
Eixo do cavado aponta paraSul (o Equador)Norte (o Equador)
Eixo da crista aponta paraNorte (altas latitudes)Sul (altas latitudes)

O eixo do cavado aponta sempre para o Equador, pois o cavado leva ar das regiões frias para as quentes; o eixo da crista aponta sempre para as altas latitudes. Saber disso é o que permite ao navegante perceber o deslocamento correto das frentes frias (e cavados) e das frentes quentes (e cristas) ao interpretar cartas e imagens de ambos os hemisférios.

Ciclone tropical e manobra evasiva. Numa tormenta, é preciso localizar-se em relação à trajetória. O semicírculo perigoso fica à direita da trajetória no HN e à esquerda no HS; nele, recebe-se o vento pela bochecha de boreste (HN) ou de bombordo (HS). O semicírculo navegável fica à esquerda (HN) ou à direita (HS); nele, recebe-se o vento pela alheta de boreste (HN) ou de bombordo (HS). Em resumo: num furacão, recebe-se o vento por boreste no HN e por bombordo no HS.

9. Tempo presente, prognóstico e aspectos relevantes

O entendimento do tempo começa pelo tempo presente: observação local somada à Parte II do Meteoromarinha. Comparando com a situação de algumas horas antes, percebe-se a tendência dos parâmetros — temperatura do ar e TSM, pressão, umidade, escoamento dos ventos — e, daí, a intensificação ou o abrandamento do tempo e do mar. Quando não se recebe o boletim, o próprio navegante pode prever pela tendência, registrando observações de preferência de 3 em 3 horas. Como a superfície do mar é homogênea, a extrapolação da posição dos centros de pressão vale para período curto, nunca superior a 24 horas.

9.1 As variações dos parâmetros na aproximação das frentes

Comportamento dos parâmetros na aproximação e passagem das frentes.
ParâmetroFrente friaFrente quente
PressãoCai até a chegada; sobe após a passagemCai lentamente; comportamento gradual
TemperaturaSobe pouco antes (compressão do ar quente); cai apósEstável ou cai um pouco; sobe acentuadamente após
Vento (HS)Brusca mudança de N/NW para S/SWMudança gradual

Tendências que o navegante deve acompanhar:

  • pressão — plotar em papel milimetrado (hPa × HMG) revela a chegada de sistemas de pressão e frontais;
  • umidade — quanto menor a diferença entre a temperatura do ar e a do ponto de orvalho, menor o resfriamento para saturar (UR = 100%); advecção de ar quente e úmido sobre mar frio alerta para nevoeiro;
  • direção do vento — no HS a circulação é horária; com a depressão associada a frente fria, o lado quente varia de NE para N e NW (anti-horário) e o lado frio de SE para S e SW (horário); com o avanço da frente, brusca mudança de N/NW para S/SW;
  • marulho — indica a direção da fonte geradora; no HS, a depressão está sempre à esquerda da direção de onde vem o marulho;
  • nuvens — Cirrus em forma de garras, vindos do topo de grandes Cb, antecipam sistemas frontais e ciclônicos.

9.2 Intensificação do mau tempo

O mau tempo por atividade convectiva exige desencadeamento e intensificação. O desencadeamento é espontâneo quando há forte aquecimento do ar à superfície (energia do calor sensível, medida pela temperatura), ou forçado quando o ar quente ascende por uma superfície frontal ou montanha inclinada, ou por convergência em baixos níveis. A intensificação, em ambos os casos, vem da liberação do calor latente do vapor d'água (indicada pela umidade relativa). Ar muito aquecido e muito úmido tem condições propícias para desencadear e intensificar o mau tempo — caso dos conglomerados de Cb nas frentes frias e na ZCIT.

9.3 Aspectos relevantes — conceitos para fixar

Definições essenciais:

  • as massas de ar caracterizam-se por pequenas diferenças horizontais de temperatura e umidade;
  • orvalho — umidade que se condensa sobre a superfície; geada — umidade que se congela sobre a superfície;
  • inversão térmica — o contrário do normal: temperatura maior em níveis altos e massa fria nos baixos níveis;
  • num centro de baixa, usam-se os termos aprofundar e encher; num centro de alta, enfraquecimento e intensificação;
  • frontólise é dissipação de frente; frontogênese, formação de frente;
  • névoa úmida e nevoeiro são obstruções da visibilidade por gotículas de água em suspensão; abaixo de 1 km de visibilidade, chama-se nevoeiro;
  • pancadas de chuva têm curta duração e início/fim bem definidos (nuvens convectivas); nuvens estratiformes dão precipitação contínua;
  • rajada é o rápido aumento da intensidade do vento, com variação de pelo menos 10 nós sobre a média;
  • nas médias e altas latitudes ocorrem cavados; dentro do cavado, partindo da baixa (B), está todo o sistema frontal (frentes fria, quente e oclusa), que se desloca a cerca de 10 nós — trajetória NE/E no HS e SE/E no HN.

Ressacas são arrebentações violentas no litoral, causadas por ondas de grande comprimento, com direção de propagação quase perpendicular à linha de costa; a onda chega à arrebentação com altura superior a 2,5 metros e grande volume de água.

Lobo/Soares, Cap. VI, "Aspectos Relevantes".

10. Interpretação integrada e recomendações

A força do método está no uso conjunto das três fontes: o boletim dá a visão abrangente, a carta sinótica posiciona as frentes e mostra a circulação do vento, e a imagem de satélite revela a intensidade da atividade convectiva pela nebulosidade. Acompanhar uma sequência de boletins, cartas e imagens permite identificar com antecedência as regiões propícias à geração de ondas — e um mar muito severo requer tempo para se desenvolver, de modo que o navegante atento dificilmente é surpreendido.

Fig. VI-27
Fig. VI-27 Estado do mar severo — mar que requer bastante tempo para se desenvolver; o acompanhamento de cartas e boletins permite antecipar regiões propícias à geração de ondas.

10.1 A frente fria na imagem IR e o efeito na costa

Numa sequência de imagens IR, o sistema frontal aparece pela faixa branca e estreita da frente fria, que afeta de modo diferente o estado do mar antes e depois da sua passagem. No Atlântico Sul, antes da frente o vento sopra da costa (Argentina/Uruguai/Brasil) para o oceano, inibindo a pista: mar calmo na costa e severo no oceano. Depois da passagem, o vento sopra do mar para o continente, favorecendo a pista, a formação de ondas e a propagação de marulhos: mar severo na costa e no oceano.

Frente fria na costa sul/sudeste do Brasil (HS) — antes e depois.
MomentoDireção do ventoEstado do mar costeiro
Antes da passagemda costa para o mar (quadrante norte: NW/N/NE)tranquilo na costa, severo no oceano
Depois da passagemdo mar para a costa (quadrante sul: SW/S/SE)severo na costa

Há situações de tempo bom — sem vento e sem nebulosidade — mas com mar severo: marulhos gerados em alto-mar, cuja pista está direcionada para a costa, penetram em águas rasas, crescem em altura até a arrebentação e causam sérias avarias em pequenas embarcações, com correntes de retorno ou de ressaca. Atenção sempre à direção de propagação dos marulhos, não só ao vento local.

Na navegação costeira, o que decide o estado do mar é a direção do vento costeiro, que possibilita ou não a pista: vento do continente para o mar dá mar bom; vento do oceano para o continente dá mar que pode ser severo e afetar bastante a navegação. Some-se a isso a propagação de marulhos de alto-mar dirigidos à costa.

10.3 Recomendações ao navegante

O que buscar em cada fonte:

  • cartas sinóticas — se as isóbaras são longas ou curtas, retilíneas ou curvas, espaçadas ou estreitas, de direção definida ou variável;
  • imagens de satélite — se a nebulosidade é branca intensa ou esmaecida, em faixa larga ou estreita, nuvens espessas (Cb) ou finas (Stratus/Cirrus), e o tipo de frente (fria, quente ou oclusa);
  • boletins Meteoromarinha (HS) — se ventos e ondas apresentam mudanças acentuadas de direção, rondando do quadrante norte para o sul (de NW para SW), sinal de massa de ar quente passando a fria.

Por fim, vale lembrar que as informações climatológicas — consultadas no Atlas de Cartas Piloto (tratado no Cap. 13) — dão o comportamento esperado da atmosfera por época do ano e servem de referência para o planejamento de longo prazo, complementando o monitoramento diário do tempo presente. O site da DHN ainda oferece a versão em inglês do Meteoromarinha, glossário de termos técnicos em português e inglês, previsões de ondas (modelo WAM) e avisos de mau tempo.