1. Elementos de uma onda
A onda do mar nasce de uma única coisa: a transferência de energia do vento para a água. Basta uma brisa leve atuando algum tempo sobre um mar plano para surgir uma pequena ondulação; com ela aumenta a superfície de contato e o vento passa a empurrar mais. Como a pressão é maior a barlavento do que a sotavento da pequena crista, a onda cresce até um equilíbrio. Atingido o equilíbrio, a altura não aumenta mais e o excesso de energia se gasta arrebentando algumas cristas — é o mar encarneirado, com a espuma branca das arrebentações.
Fonte: LOBO, Paulo Roberto Valgas. Meteorologia e Oceanografia — Usuário Navegante. Vol. I. 4. ed. rev. atual. ampl. Petrópolis: Vozes, 2019. Cap. VIII — Ondas, vagas e marulhos (elementos e classificação das ondas; escala de estados do mar; ondas em águas profundas e rasas; arrebentação e ressaca; áreas geradoras de vagas; marulhos/swell e mar cruzado; cartas de ondas; marinharia de mau tempo; tsunamis).
Edital: Anexo 2-A, Área V (Meteorologia e Oceanografia): oceanografia — ondas e estado do mar (elementos da onda; vagas e marulhos; escala de estados do mar/Beaufort; ondas em águas profundas e rasas; arrebentação); áreas geradoras de vagas (intensidade do vento, pista, persistência; identificação na carta sinótica); marulhos e ressaca; cartas de ondas; segurança da navegação / marinharia de mau tempo; tsunamis · Anexo 2-B, Área V, item 3 (Lobo/Soares — escopo definido pelo 2-A).
1.1 As definições do navegante (DHN)
Antes de avançar, é preciso fixar o vocabulário. Onda é o movimento ondulatório da superfície do mar, que reúne dois tipos distintos: as vagas e os marulhos. A diferença entre eles atravessa todo o capítulo.
| Elemento | Definição |
|---|---|
| Vagas | Ondas formadas no interior de uma zona de turbulência atmosférica, pela ação direta dos ventos. |
| Marulho (swell) | Vagas que se afastam do local de origem e se propagam a regiões distantes, onde já não se faz sentir o vento que as formou. |
| Crista | Parte superior do perfil da onda. |
| Cavado | Parte inferior do perfil da onda. |
| Comprimento (L) | Distância horizontal entre duas cristas (ou dois cavados) consecutivos. |
| Altura (H) | Distância vertical entre uma crista e o cavado consecutivo. |
| Período (T) | Tempo que leva para passar, por um mesmo ponto, duas cristas (ou dois cavados) consecutivos. |
| Frequência | Inverso do período (1/T): número de cristas que passam por um ponto na unidade de tempo. |
| Velocidade de propagação | Distância horizontal percorrida por uma crista (ou cavado) na unidade de tempo. |
| Direção | Ponto ou setor do horizonte de onde vem a onda. |
| Trem de ondas | Conjunto de ondas com características iguais ou parecidas, propagando-se na mesma direção. |
| Declividade | Razão entre a altura e o comprimento da onda (H/L). Indica a possibilidade de arrebentação quando H/L > 1/7. |
$$ \text{frequência} = \frac{1}{T} \qquad \text{declividade} = \frac{H}{L} \qquad \text{arrebenta quando } \frac{H}{L} > \frac{1}{7} $$
A frequência é o inverso do período. A declividade é a razão altura/comprimento; ao ultrapassar 1/7 a onda não se sustenta e arrebenta.
Regra de ouro do capítulo: em meteorologia e oceanografia trabalha-se sempre com a direção de onde vem a onda — nunca para onde ela vai. O comprimento é o parâmetro principal: dele dependem o volume de água da arrebentação e a distância em que o fundo começa a interferir.
2. Classificação das ondas e estado do mar
As ondas são classificadas por sete critérios. Para a navegação, destacam-se a influência do fundo (separa águas profundas de rasas) e o tipo de mar que produzem (vagas ou marulhos).
| Critério | Classes |
|---|---|
| Tipo de movimento | Progressivas — propagam-se em uma direção (a do vento), notadas longe da origem. |
| Influência do fundo | Águas profundas: profundidade maior que L/2. Águas rasas: profundidade menor que L/2. |
| Tipo de mar | Vagas — vento como causa direta; irregulares, perfis agudos, declividade 1/10 a 1/20. Marulhos — vento passado; formas regulares e arredondadas, declividade 1/30 a 1/100; deslocam-se a grandes distâncias amortizando-se. |
| Altura dos marulhos | Pequeno (H < 2 m); moderado (2 a 4 m); grande (H > 4 m). |
| Comprimento da onda | Curta (L < 100 m); regular (100 a 200 m); larga (L > 200 m). |
| Declividade | Pequena (H/L < 1/100); moderada (1/100 a 1/25); grande (1/25 a 1/7); arrebentação (H/L > 1/7). |
| Altura das ondas | Pela Escala de Estados do Mar (ver abaixo). |
2.1 A escala de estados do mar (Beaufort)
A altura das ondas é descrita pela escala de estados do mar, ligada à escala Beaufort de vento (Fonte: WMO). Vai da força 0 (calmaria, mar espelhado) à força 12 (furacão, mar branco de espuma). O ponto que o navegante precisa decorar é a força 7: vento de 28 a 33 nós, vagas de cerca de 4,8 m — o mar grosso, valor crítico do aviso de vento forte; a partir daí a espuma se dispõe em estrias indicando a direção do vento.
| Força | Designação | Vento (nós) | Aspecto do mar |
|---|---|---|---|
| 0 | Calmaria | < 1 | Espelhado. |
| 1 | Bafagem | 1 a 3 | Mar encrespado, pequenas rugas com aparência de escamas, sem cristas. |
| 2 | Aragem | 4 a 6 | Ligeiras ondulações curtas, ~30 cm, cristas viradas mas sem arrebentação. |
| 3 | Fraco | 7 a 10 | Ondulações de ~60 cm, princípio de arrebentação; alguns carneiros. |
| 4 | Moderado | 11 a 16 | Pequenas vagas de ~1,5 m, frequentes carneiros. |
| 5 | Fresco | 17 a 21 | Vagas moderadas, longas, ~2,4 m; muitos carneiros, alguns borrifos. |
| 6 | Muito fresco | 22 a 27 | Grandes vagas de ~3,6 m; muitas cristas brancas, frequentes borrifos. |
| 7 | Forte | 28 a 33 | Mar grosso: vagas de ~4,8 m; espuma em estrias indica a direção do vento. |
| 8 | Muito forte | 34 a 40 | Vagalhões de 5,5 a 7,5 m, faixas espessas de espuma, fraca arrebentação. |
| 9 | Duro | 41 a 47 | Vagalhões de 7 a 10 m, faixas de espuma densa; o mar rola, visibilidade afetada. |
| 10 | Muito duro | 48 a 55 | Vagalhões de 9 a 12 m; vento arranca a espuma, visibilidade reduzida. |
| 11 | Tempestuoso | 56 a 63 | Vagalhões até 16 m; navios médios desaparecem no cavado. |
| 12 | Furacão | ≥ 64 | Mar branco de espuma; respingos saturam o ar; visibilidade seriamente afetada. |
3. Ondas em águas profundas e rasas
O atrito do ar combinado com a gravidade faz as partículas de água descreverem um movimento circular no plano vertical; o diâmetro do giro corresponde à altura da onda. Na teoria, o que avança é só o movimento ondulatório — não há deslocamento de massa d'água. Um flutuador à deriva prova isso: ele sobe, desce e gira, mas permanece praticamente no mesmo lugar.
A onda é energia dividida em duas metades iguais: potencial (subida e descida do nível do mar) e cinética (o giro das partículas). Em águas profundas, a energia potencial viaja com a onda; a cinética é totalmente consumida para manter o giro e não é transladada. Por isso só metade da energia inicial viaja até ser dissipada no litoral — e essa dissipação na costa é proporcional à altura das ondas, podendo atingir valores extraordinários.
3.1 A regra P × L/2
O comportamento da onda depende da relação entre a profundidade (P) e o comprimento de onda (L). O fundo só começa a interferir a partir de P = L/2.
$$ P > \tfrac{L}{2} \;\Rightarrow\; \text{águas profundas (sem interferência)} \qquad P < \tfrac{L}{2} \;\Rightarrow\; \text{águas rasas (com interferência)} $$
Acima da metade do comprimento de onda a interferência do fundo é nula: a onda viaja sem alterar suas características. Abaixo dessa profundidade, o fundo interfere.
Ao penetrar em águas rasas, a onda muda: o comprimento diminui, a altura aumenta e, portanto, a declividade (H/L) cresce. A altura sobe até a declividade atingir o valor crítico, quando ocorre a arrebentação.
Declividade crítica: a onda arrebenta quando H/L > 1/7. Na arrebentação a energia potencial vira cinética, há deslocamento horizontal de massa d'água e a energia é dissipada na costa sob a forma de calor. Quanto maior a altura, maior o impacto e a dissipação.
3.2 Por que as ondas longas preocupam mais
Quanto maior o comprimento, mais distante da costa está a linha de interferência (P = L/2) e mais tempo a onda tem para crescer. Uma onda de 10 m de comprimento só cresce em profundidades de 5 m, já junto à praia, e arrebenta ainda pequena. Já uma onda de 100 m começa a crescer ao cruzar a isóbata de 50 m (L/2 = 100/2 = 50) e, dessa linha até o litoral, tem bastante tempo para chegar à costa com boa altura.
$$ \text{linha de interferência: } P = \tfrac{L}{2} \quad\Rightarrow\quad L = 100\,\text{m} \;\Rightarrow\; P = 50\,\text{m} $$
Para L = 100 m, o fundo passa a interferir já a 50 m de profundidade — bem longe da costa, dando à onda muito espaço para crescer.
Por isso, ao demandar a barra ou o canal de acesso de um porto, o navegante deve ter atenção redobrada com ondas longas vindas de águas profundas, sobretudo quando se propagam perpendiculares à linha da costa — são as responsáveis por avarias sérias em embarcações e instalações. Dois outros fatores afetam o comportamento das ondas perto da costa: o ângulo de incidência da frente da onda (quando inclinada, a extremidade junto ao litoral se atrasa e o eixo da crista roda até ficar paralelo à costa) e a presença de altos-fundos (sobre os quais a onda se encurta e cresce sem arrebentar — situação muito incômoda, em especial com mar de través).
4. Áreas geradoras de vagas
A área geradora é a região da superfície oceânica onde o vento sopra com intensidade e direção suficientes, durante tempo bastante, para criar trens de onda capazes de se propagar a distância. Dentro dela as ondas seguem a mesma direção do vento. Na carta sinótica, ela é identificada pelo trecho de isóbaras retilíneas e paralelas — a pista —, porque a direção do vento se ajusta sensivelmente à orientação das isóbaras.
4.1 As três condições propícias
Para gerar ondas bem desenvolvidas, três condições devem atuar juntas:
- Intensidade e direção do vento — a intensidade depende do gradiente de pressão, indicado pelo espaçamento das isóbaras (isóbaras estreitas = vento forte);
- Pista — a extensão da área geradora na direção do vento (trecho retilíneo das isóbaras); quanto mais longa, mais energia a mesma vaga absorve;
- Persistência — o tempo durante o qual o vento se mantém na mesma direção e intensidade.
Para cada pista e força do vento existe um valor de persistência a partir do qual a ondulação não cresce mais. Antes desse valor crítico, o estado do mar está em desenvolvimento (regime transitório); ao igualá-lo ou superá-lo, atinge-se o estado do mar desenvolvido (regime estacionário ou de equilíbrio).
4.2 Área geradora estacionária e móvel
Se a área geradora é estacionária, seu contorno se define pela direção do vento (ou das isóbaras) na qual é máxima a transferência de energia. Se é móvel, a direção do deslocamento decide se o mar se intensifica ou abranda.
| Deslocamento da pista | Efeito |
|---|---|
| Na mesma direção das ondas | Reforça e acelera a formação. Uma pista curta que se desloca na direção do vento produz mar mais forte que uma pista estacionária maior. |
| Em direção oposta às ondas | Abranda as ondas. |
| Perpendicular às ondas | Abranda (amortece) as ondas. |
5. Marulhos, swell e mar cruzado
O que delimita uma área geradora é a mudança acentuada da direção do vento. As ondas, porém, não acompanham essa curva: ultrapassado o limite da área geradora, elas seguem como marulhos, mantendo a direção em que foram geradas as vagas. A frase que resume tudo: o vento faz curva, mas a onda não faz curva.
Por isso a direção de onde vêm as vagas coincide com a do vento que as gera; já o marulho se propaga sem a presença do vento que o originou. O navegante costeiro é o mais afetado: recebe marulhos vindos das regiões oceânicas, que percorrem centenas de milhas mantendo constante a direção desde a origem. Daí o alerta: a direção do marulho pode não concordar com o vento local na costa.
Antecipar o marulho pela carta sinótica: a chegada dos marulhos pode ser identificada com boa antecedência. A área geradora fornece a direção das vagas (igual à do vento e à do eixo da pista) — e essa é a mesma direção da futura propagação dos marulhos por longas distâncias, nas horas e dias seguintes. Identificá-la permite alterar o rumo a tempo e evitar regiões de mar severo.
A gravidade limita a altura mas favorece o comprimento: a energia potencial contínua é armazenada como comprimento de onda. Eis por que a grande preocupação é sempre com ondas longas, em especial seu comportamento em águas rasas. O navegante deve ler a Parte 3 do Meteoromarinha, que informa a direção de onde vêm marulhos e vagas. Na costa do Brasil, o mar severo costeiro vem com marulhos de SE — ondas do mar para a costa, quase perpendiculares ao litoral, que se orienta na direção NE nas regiões Sul, Sudeste, Leste e Nordeste.
5.1 Mar cruzado (mar confuso)
Mar cruzado ocorre quando uma área geradora de vagas está na trajetória de propagação de marulhos. Há interação contínua de fases e amplitudes de ondas vindas de direções diferentes. Os navegantes o chamam de mar confuso: não conseguem identificar o ângulo de ataque da onda nem determinar um rumo seguro contra avarias. Curiosamente, após cruzarem essa região, os marulhos seguem sua trajetória com as mesmas características de antes — prova de que a onda transporta apenas impulso de energia.
6. Arrebentação e ressaca
Em águas profundas a onda conserva sua energia potencial por centenas de milhas, pois não transporta massa de água — só impulso de energia. Ao entrar em águas rasas, o fundo interfere e, no percurso até a linha de arrebentação, observa-se uma sequência ordenada de mudanças.
Da interferência do fundo até a linha de arrebentação:
- a energia potencial é conservada;
- a velocidade da onda na superfície é conservada, mas a velocidade no fundo vai se reduzindo;
- a altura aumenta, o comprimento diminui e a declividade cresce.
Na linha de arrebentação: a declividade atinge o valor crítico de 1/7; a crista (superfície) fica mais rápida que a própria onda e se adianta; não se sustenta e arrebenta. Nesse instante toda a energia potencial vira cinética, a massa de água ganha forte correnteza, aquece-se por atrito com o fundo e, ao retornar, forma uma corrente paralela à praia que busca uma faixa de convergência para vencer a arrebentação (corrente de retorno).
6.1 Ressaca
A ressaca é a arrebentação violenta no litoral, causada por ondas de grande comprimento com direção quase perpendicular à costa. Essas características fazem a onda chegar à arrebentação com altura superior a 2,5 m (pela interferência do fundo) e com grande volume de água (pelo grande comprimento). Para ocorrer, exige condições propícias.
Condições propícias à ressaca na costa do Brasil:
- ondas de grande comprimento;
- altura na arrebentação superior a 2,5 m;
- direção das ondas perpendicular à linha da costa — ondas de SE são bom indício no litoral brasileiro;
- propagação de marulhos do mar para a costa;
- após a passagem de frente fria, as direções de vagas e marulhos ficam favoráveis (é quando o surfista vai à praia, no Sudeste e no Sul);
- ocorrência de frente fria estacionária nas áreas Charlie e Delta da Metárea V, situação em que o vento e as vagas rondam para SE;
- áreas geradoras com pistas longas e isóbaras retilíneas bem estreitas.
Na Metárea V é normal ocorrer ressaca associada à frente fria estacionária. Sempre que ela ocorre, o vento frio muda de SW para S/SE (no HS); a situação mais favorável à ressaca é com vento de SE, perpendicular ao litoral (áreas C e D).
7. Cartas de previsão de ondas
O navegante dispõe, no site da DHN, de cartas de previsão de alturas significativas de ondas, a cada 3 horas até 96 horas. A sequência divulgada — 00 h, 24 h, 48 h, 72 h, 84 h e 96 h — permite acompanhar com antecedência a evolução do estado do mar na região de interesse. O grande mérito da carta de ondas é informar o parâmetro direção das ondas em todo o litoral.
| Prazo | Leitura típica |
|---|---|
| 00 h | Sistema frontal na Argentina/Sul do Brasil; pela trajetória tradicional desloca-se para NE/E; sistema desenvolvido traz ondas altas de direções diferentes. |
| 24 h | Sistema muito desenvolvido pode apresentar ondas superiores a 10 m no mar aberto da Argentina; constância de direção nas regiões Norte, Nordeste e Leste (não afetadas pelos sistemas frontais). |
| 48 h | Norte/Nordeste/Leste com constância de vento e ondas pela permanência da célula de Hadley; ondas de SE no Nordeste e de NE no Norte (ao norte da ZCIT, no HN). |
| 72 h | Sudoeste/Sul com variação de direção (passagem de sistema frontal, cavado e frente fria); na célula de Hadley as ondas não passam de 2,5 m; Sudeste/Sul podem ter mar costeiro severo. |
| 96 h | Chegada de outro sistema frontal pela zona sul da Argentina — reforça o valor de observar a sequência diariamente. |
8. Comportamento, manobras e marinharia de mau tempo
Saber o estado do mar não basta para prever como o navio vai se comportar. É preciso avaliar o conjunto: estado do mar, características das ondas, características do navio, rumo, ângulo de incidência das ondas, velocidade e o olho marinheiro de quem manobra. O mar severo afeta de forma diferente cada embarcação — dependendo da situação, navios maiores podem sofrer mais avarias que os menores. O ponto-chave é a relação entre o comprimento do navio e o comprimento da onda.
8.1 Os seis movimentos do navio
Do estado do mar e do rumo resulta o ângulo com que as ondas incidem no costado, gerando seis movimentos — três de translação (lineares) e três de rotação (angulares) nos eixos x, y e z.
| Eixo | Lineares | Angulares |
|---|---|---|
| x | Surge — avanço/recuo longitudinal | Roll — balanço |
| y | Sway — abatimento lateral | Pitch — caturro (variação de trim) |
| z | Heave — arfagem | Yaw — cabeceio (guinada) |
Atenção a uma inconsistência da tabela impressa em Lobo/Soares: ela grafa as glosas em português trocadas — "Surge — afastamento lateral" e "Sway — avanço". A atribuição fisicamente correta (e a do próprio Lewis, 1989) é a acima: Surge no eixo longitudinal (x) = avanço/recuo; Sway no eixo transversal (y) = abatimento lateral.
Quanto maior o período (logo, o comprimento de onda), mais energia e volume de água a onda tem e mais influência exerce sobre o navio. Esses movimentos e vibrações podem causar danos, embarque d'água, corrimento de carga, acidentes pessoais e perda da capacidade operativa.
8.2 Manobrar contra o sincronismo
O navio tende a oscilar segundo sua frequência natural de balanço e arfagem, qualquer que seja o movimento da onda. O perigo é o sincronismo: quando o período da onda se aproxima do período natural do navio, surge ressonância e o balanço fica muito grande. Para romper o sincronismo, o navegante altera rumo e velocidade — e deve fazê-lo com antecedência, pois depois é mais difícil.
Regras de manobra em mar severo:
- navegando atravessado ao mar, o balanço sincroniza com as ondas — alterar rumo e velocidade;
- aproado à onda com comprimento do navio igual ao da onda (proa e popa sobre duas cristas/dois cavados) — alterar o rumo;
- aproado com o navio medindo metade do comprimento da onda (popa na crista, proa no cavado) — modificar rumo ou aumentar a velocidade;
- o melhor processo é navegar um pouco acima ou abaixo da velocidade das vagas, criando um movimento relativo que evita a ressonância;
- na ressaca, a configuração mostra isóbaras perpendiculares à costa — atenção às correntes de retorno.
O período de balanço mede a frequência natural: é o tempo de ir da posição de equilíbrio ao extremo de boreste, ao extremo de bombordo e voltar. Quanto maior o momento de endireitamento, menor o período de balanço. Se a superfície livre diminui esse momento, o período aumenta e a estabilidade cai — por isso o comandante deve conhecer o período natural de balanço da sua embarcação.
8.3 Ciclones e o eixo dos cavados
Em ciclones e furacões: nunca enfrentar o mar de proa. Rumos com vento e mar do través para ré são melhores que da proa ao través. Evitar o eixo dos cavados das ondas — nele o balanço é violento e, uma vez dentro, leme e máquinas podem não bastar para sair. Para escapar, navegar com velocidade suficiente para dar bom leme e guinar a favor do vento, ganhando o maior intervalo até a próxima onda.
Como as vagas vêm em trens, o navegante pode escolher um período menos crítico para iniciar e concluir a manobra. Em paralelo, deve preservar três elementos vitais para sobreviver à tempestade: estabilidade, flutuação e energia elétrica. A perda de energia elétrica costuma vir do efeito terra nos quadros quando a água salgada os atinge — condutos de ventilação, escotilhas e vigias devem ficar bem fechados. Para enfrentar um ciclone, manter baixo o centro de gravidade, o navio lastrado e os tanques completamente cheios ou vazios (sem superfície livre).
Baixa visibilidade e trim em mau tempo: se a visibilidade baixar para 1 milha, cumprir os sinais sonoros do RIPEAM para nevoeiro e parar as máquinas ao ouvir sinal de cerração para vante do través sem determinar a posição do outro navio. Em cerração, navegar pela mão direita dos canais. Em mau tempo, recomenda-se a embarcação derrabada (trim pela popa, calado da popa maior que o da proa): isso garante reserva de flutuabilidade na proa ao cortar as cristas e mantém os hélices dentro d'água.
Um estudo da marinha americana mostrou que os custos de avarias crescem de 1 para 100 e para 2.000 vezes quando a embarcação enfrenta vagas de 3 m, 6 m e 10 m, respectivamente — sem contar o consumo extra de combustível.
9. Tsunamis
Os maremotos ou tsunamis são trens de ondas gerados por atividade sísmica submarina — terremoto, erupção vulcânica ou deslizamento de encostas submarinas. Caracterizam-se por grande velocidade de propagação, grande período, enorme comprimento de onda e, geralmente, grande poder de destruição ao chegarem à costa. O que devasta o litoral não é tanto a altura, mas a correnteza da massa d'água, que avança vários quilômetros continente adentro.
O que o navegante precisa saber:
- embarcação em alto-mar não é afetada pela passagem da onda tsunami;
- embarcação em águas rasas ou atracada é arrastada para dentro da costa pela correnteza;
- ao saber de um tsunami, afastar-se do litoral imediatamente.
Um tsunami é uma série de 3 a 10 ondas, com período de 10 a 45 minutos cada; em geral a segunda é a maior e de maior poder destrutivo. Numa profundidade média de 4.000 m, propaga-se a cerca de 400 milhas por hora, com comprimento de onda de 100 a 300 km. Em águas profundas sua amplitude é de poucos centímetros, quase imperceptível; ao se aproximar da costa, a diminuição da profundidade somada ao enorme comprimento gera energia cinética e a onda pode atingir vários metros. Um sinal típico: a chegada se manifesta primeiro por um recuo do mar, que deixa o fundo à mostra e atrai curiosos — aumentando o número de vítimas.
Existe um sistema internacional de alarme de maremotos do Pacífico, com sede em Honolulu (Havaí) e estações em vários países, que transmite a magnitude e a hora estimada de chegada às costas leste e oeste do oceano. A casuística confirma a escala: Arica/Chile (1868, ondas de 14 m, sentidas no Havaí 14 h depois e no Japão 25 h depois); Aleutas (1946, registro em Valparaíso a mais de 7.000 milhas); Sumatra/Indonésia (2004, magnitude 9,1, mais de 220 mil mortes, ondas acima de 15 m); e Palu/Donggala (2018, magnitude 7,5, ondas de até 6 m). Os tsunamis não ameaçam o navegante em alto-mar, mas trazem grande perigo perto da costa, em portos e fundeadouros pouco abrigados, e sobretudo às populações costeiras.
10. Aspectos relevantes — conceitos para fixar
O capítulo fecha amarrando ondas e navegação prática. Vale reter que toda a leitura parte de uma informação específica: para o porto e suas proximidades, a direção de onde vêm as ondas, a altura e o comprimento.
Conceitos de síntese (bloco de revisão do capítulo):
- A onda não faz curva — a vaga mantém sempre a mesma direção ao longo da área geradora, que é obrigatoriamente retilínea; os marulhos seguem nessa mesma direção;
- quanto mais longa a pista (trecho retilíneo de isóbaras), mais energia a mesma vaga absorve; isóbaras mais estreitas = vento mais forte;
- o desenvolvimento das vagas é proporcional à intensidade do vento, à extensão da pista e à persistência;
- a energia das ondas é potencial; elas absorvem a cinética do vento como impulso e não transportam massa de água — só na arrebentação a potencial vira cinética e há deslocamento de água;
- o fundo começa a interferir a uma profundidade igual à metade do comprimento da onda; ondas longas e correntes de retorno são as que mais preocupam na navegação costeira;
- na Metárea V, a ressaca aparece no Sul e Sudeste depois da frente fria (ondas e ventos do quadrante sul: SW, S, SE), sendo a direção SE bom indício; na área Delta e norte da Charlie, com frente fria estacionária;
- o Meteoromarinha dá só as siglas cardinais das direções — é essencial visualizar essas direções para perceber as ondas que vão para a costa; ondas de SW propagam-se paralelas à costa (do Sul ao Nordeste até Natal);
- carneiros e borrifos ocorrem em áreas de isóbaras bem estreitas com ventos fortes, retilíneas ou curvas.
Navegação em águas rasas (atenção do prático): calcular o squat máximo de proa quando se espera variação de profundidade e conhecer os fatores que afetam a Folga Dinâmica Abaixo da Quilha (FAQ) — squat e o efeito das ondas, sobretudo em mar severo com vagas ou marulhos. O encalhe do petroleiro Capella Voyager (canal de Whangarei, Nova Zelândia, 2003), com ondas afiladas ao eixo do canal, é a lição clássica.
"Por vezes ouve-se dizer que determinado navegante teve mais sorte do que juízo. Que isto sirva de alerta: uma perigosa combinação de erro de avaliação, treinamento inadequado, falta de conhecimento e de informação específica, e parâmetros ambientais adversos pode resultar em grave acidente, com consequências ambientais incalculáveis."
Lobo/Soares, Cap. VIII, §10 (Aspectos relevantes — conceitos e exercícios).