Origem
Como nasceA onda vem de uma única coisa: transferência de energia do vento para a água. O vento empurra mais a barlavento que a sotavento da crista → a onda cresce até o equilíbrio; o excesso arrebenta cristas = mar encarneirado (espuma branca).
Vocabulário DHN — vagas × marulho
| Termo | Definição (DHN) |
|---|---|
| Vagas | Ondas formadas dentro da zona de turbulência, pela ação direta dos ventos. |
| Marulho (swell) | Vagas que se afastam da origem, onde já não se faz sentir o vento que as formou. |
Elementos geométricos (Fig. VIII-2)
Crista = topoCavado = fundoL = crista a cristaH = crista ao cavadoT = período
- Comprimento (L): distância horizontal entre 2 cristas (ou 2 cavados) consecutivos.
- Altura (H): distância vertical entre crista e cavado consecutivos.
- Período (T): tempo entre a passagem de 2 cristas por um mesmo ponto.
- Frequência = inverso do período (1/T).
- Declividade = razão H/L.
frequência = 1/T › declividade = H/L › arrebenta quando H/L > 1/7
Regra de ouro do capítulo: trabalha-se sempre com a direção de onde vem a onda — nunca para onde ela vai.
O comprimento é o parâmetro principal: dele dependem o volume da arrebentação e a distância em que o fundo começa a interferir.
As ondas têm sete critérios de classificação. Para navegar destacam-se a influência do fundo (águas profundas × rasas) e o tipo de mar (vagas × marulhos).
| Critério | Classes / números |
|---|---|
| Influência do fundo | Profundas: profundidade > L/2. Rasas: < L/2. |
| Tipo de mar | Vagas: irregulares, perfis agudos, declividade 1/10 a 1/20. Marulhos: regulares e arredondados, declividade 1/30 a 1/100. |
| Altura dos marulhos | Pequeno H < 2 m; moderado 2 a 4 m; grande H > 4 m. |
| Comprimento | Curta L < 100 m; regular 100 a 200 m; larga L > 200 m. |
| Declividade | Pequena < 1/100; moderada 1/100 a 1/25; grande 1/25 a 1/7; arrebentação > 1/7. |
Escala de estados do mar (Beaufort — WMO)
AmplitudeVai da força 0 (calmaria, mar espelhado) à força 12 (furacão, mar branco de espuma).
O ponto a decorar é a força 7 — vento de 28 a 33 nós, vagas de ~4,8 m: o mar grosso, valor crítico do aviso de vento forte; a espuma dispõe-se em estrias indicando a direção do vento.
| Força | Designação | Vento (nós) | Vagas |
|---|---|---|---|
| 0 | Calmaria | < 1 | espelhado |
| 4 | Moderado | 11 a 16 | ~1,5 m |
| 6 | Muito fresco | 22 a 27 | ~3,6 m |
| 7 | Forte | 28 a 33 | ~4,8 m (mar grosso) |
| 8 | Muito forte | 34 a 40 | 5,5 a 7,5 m |
| 12 | Furacão | ≥ 64 | mar branco |
Movimento das partículas
- Atrito do ar + gravidade → partículas descrevem movimento circular no plano vertical; o diâmetro do giro = altura da onda.
- O que avança é só o movimento ondulatório — não há deslocamento de massa d'água (o flutuador sobe, desce, gira, mas fica no lugar).
EnergiaDividida em 2 metades iguais: potencial (subida/descida do nível) + cinética (giro). Em águas profundas só a potencial viaja com a onda; a cinética mantém o giro e não é transladada → só metade da energia viaja até dissipar no litoral.
Regra P × L/2
P > L/2 › águas profundas (fundo não interfere) › P < L/2 = águas rasas, o fundo interfere
O fundo só começa a interferir a partir de P = L/2 (metade do comprimento de onda).
Ao entrar em águas rasas
L diminui › H aumenta › declividade H/L cresce › em H/L = 1/7 → arrebenta
Na arrebentação a energia potencial vira cinética: há deslocamento horizontal de massa d'água, dissipada na costa como calor. Quanto maior a altura, maior o impacto.
Por que as ondas longas preocupam mais
IdeiaQuanto maior L, mais afastada da costa fica a linha P = L/2 e mais tempo a onda tem para crescer.
L = 10 m › só cresce em P = 5 m (junto à praia) → arrebenta pequena › L = 100 m › cresce já na isóbata de 50 m (L/2 = 50) → muito tempo p/ chegar alta
Atenção redobrada com ondas longas vindas de águas profundas, sobretudo perpendiculares à costa — responsáveis por avarias sérias. Cuidado ainda com o ângulo de incidência (crista roda até ficar paralela à costa) e altos-fundos (a onda encurta e cresce sem arrebentar — pior com mar de través).
O que éRegião onde o vento sopra com intensidade e direção suficientes, por tempo bastante, para criar trens de onda. Dentro dela as ondas seguem a mesma direção do vento.
Na carta sinótica identifica-se pelo trecho de isóbaras retilíneas e paralelas = a pista (o vento se ajusta à orientação das isóbaras).
As três condições propícias
- Intensidade e direção do vento — depende do gradiente de pressão (isóbaras estreitas = vento forte).
- Pista — extensão da área na direção do vento; quanto mais longa, mais energia a mesma vaga absorve.
- Persistência — tempo em que o vento se mantém em mesma direção e intensidade.
DesenvolvimentoAntes do valor crítico de persistência → mar em desenvolvimento (regime transitório); ao igualar/superar → mar desenvolvido (regime estacionário/de equilíbrio).
Área estacionária × móvel
| Deslocamento da pista | Efeito |
|---|---|
| Mesma direção das ondas | Reforça e acelera; pista curta que se desloca no rumo do vento > pista estacionária maior. |
| Oposta às ondas | Abranda as ondas. |
| Perpendicular às ondas | Abranda (amortece). |
Limite da áreaO que delimita a área geradora é a mudança acentuada da direção do vento. Ultrapassado o limite, as ondas seguem como marulhos, mantendo a direção em que foram geradas.
Frase-síntese: o vento faz curva, mas a onda não faz curva.
- Vagas: direção coincide com a do vento que as gera.
- Marulho: propaga-se sem o vento que o originou, por centenas de milhas, mantendo a direção da origem.
Alerta ao navegante costeiro: a direção do marulho pode não concordar com o vento local na costa.
AntecipaçãoA área geradora dá a direção das vagas (= vento = eixo da pista) — mesma direção da futura propagação dos marulhos. Identificá-la na carta sinótica permite alterar o rumo a tempo.
Costa do BrasilO mar severo costeiro vem com marulhos de SE — quase perpendiculares ao litoral, que se orienta na direção NE (Sul, Sudeste, Leste, Nordeste). O navegante lê a Parte 3 do Meteoromarinha.
Mar cruzado (mar confuso)
Quando ocorreUma área geradora de vagas está na trajetória de propagação de marulhos → interação de fases e amplitudes de direções diferentes.
É o mar confuso: não se identifica o ângulo de ataque nem um rumo seguro. Após cruzar, os marulhos seguem com as mesmas características — prova de que a onda transporta só impulso de energia.
Da interferência do fundo à linha de arrebentação
- A energia potencial é conservada;
- a velocidade na superfície é conservada, mas a velocidade no fundo se reduz;
- a altura aumenta, o comprimento diminui, a declividade cresce.
Na linha de arrebentação a declividade atinge 1/7: a crista fica mais rápida que a onda, adianta-se, não se sustenta e arrebenta. A potencial vira cinética e surge a corrente de retorno (paralela à praia, busca faixa de convergência).
Ressaca
DefiniçãoArrebentação violenta no litoral, por ondas de grande comprimento com direção quase perpendicular à costa. Chega com altura superior a 2,5 m e grande volume de água.
Condições propícias (costa do Brasil)
- ondas de grande comprimento; altura na arrebentação > 2,5 m;
- direção perpendicular à costa — ondas de SE são bom indício;
- propagação de marulhos do mar para a costa; após frente fria as direções ficam favoráveis;
- frente fria estacionária nas áreas Charlie e Delta da Metárea V (vento e vagas rondam para SE);
- pistas longas com isóbaras retilíneas bem estreitas.
Na Metárea V é normal a ressaca ligada à frente fria estacionária: o vento frio muda de SW para S/SE (HS); a situação mais favorável é com vento de SE, perpendicular ao litoral (áreas C e D).
FonteSite da DHN: cartas de previsão de alturas significativas de ondas, a cada 3 horas até 96 horas.
Sequência divulgada › 00 h · 24 h · 48 h · 72 h · 84 h · 96 h
O grande mérito da carta de ondas é informar o parâmetro direção das ondas em todo o litoral.
| Prazo | Leitura típica (exemplo do livro) |
|---|---|
| 00 h | Sistema frontal na Argentina/Sul; desloca-se para NE/E; ondas altas de direções diferentes. |
| 24 h | Sistema muito desenvolvido: ondas superiores a 10 m no mar aberto da Argentina; constância no N/NE/Leste. |
| 48 h | N/NE/Leste com constância pela célula de Hadley; ondas de SE no NE, de NE no Norte (ao norte da ZCIT). |
| 72 h | SW/Sul com variação (frente fria); na célula de Hadley ondas ≤ 2,5 m; SE/Sul podem ter mar costeiro severo. |
| 96 h | Chegada de outro sistema frontal pelo sul da Argentina — reforça observar a sequência diariamente. |
Saber o estado do mar não basta. O ponto-chave é a relação entre o comprimento do navio e o comprimento da onda. Mar severo afeta cada embarcação de forma diferente — às vezes navios maiores sofrem mais.
Os seis movimentos do navio (6 graus de liberdade — Lewis, 1989)
| Eixo | Linear (translação) | Angular (rotação) |
|---|---|---|
| x | Surge — avanço/recuo longitudinal | Roll — balanço |
| y | Sway — abatimento lateral | Pitch — caturro (trim) |
| z | Heave — arfagem | Yaw — cabeceio (guinada) |
Pegadinha: a tabela impressa em Lobo/Soares troca as glosas (Surge "afastamento lateral" / Sway "avanço"). O correto (Lewis) é Surge = eixo longitudinal (avanço/recuo); Sway = eixo transversal (abatimento lateral).
Manobrar contra o sincronismo
PerigoO sincronismo: quando o período da onda se aproxima do período natural do navio → ressonância e balanço muito grande. Rompe-se alterando rumo e velocidade — com antecedência.
- Atravessado ao mar → balanço sincroniza → alterar rumo e velocidade;
- aproado com navio = comprimento da onda (proa/popa em 2 cristas) → alterar o rumo;
- aproado com navio = metade do comprimento (popa na crista, proa no cavado) → mudar rumo ou aumentar velocidade;
- melhor: navegar um pouco acima ou abaixo da velocidade das vagas (movimento relativo evita ressonância).
Ciclones e o eixo dos cavados
- Nunca enfrentar o mar de proa; mar do través para ré > da proa ao través;
- evitar o eixo dos cavados — balanço violento; escapar guinando a favor do vento com velocidade p/ dar bom leme;
- 3 vitais: estabilidade, flutuação, energia elétrica; manter CG baixo, navio lastrado, tanques cheios ou vazios (sem superfície livre);
- mau tempo: navio derrabado (trim pela popa) → reserva de flutuabilidade na proa e hélices n'água;
- visibilidade < 1 milha → sinais do RIPEAM, parar máquinas ao ouvir cerração para vante do través; navegar pela mão direita dos canais.
Estudo da marinha americana: custos de avaria crescem de 1 para 100 e para 2.000 vezes com vagas de 3 m, 6 m e 10 m.
O que sãoMaremotos = trens de ondas gerados por atividade sísmica submarina (terremoto, erupção, deslizamento). Grande velocidade, grande período, enorme comprimento e alto poder de destruição na costa.
O que devasta não é a altura, mas a correnteza da massa d'água, que avança quilômetros continente adentro.
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Nº de ondas / período | 3 a 10 ondas; período 10 a 45 min cada; em geral a 2ª é a maior. |
| Profundidade média 4.000 m | propaga-se a ~400 milhas/hora; L de 100 a 300 km. |
| Amplitude em águas profundas | poucos centímetros, quase imperceptível; cresce a metros perto da costa. |
- embarcação em alto-mar não é afetada;
- embarcação em águas rasas ou atracada é arrastada para dentro da costa;
- ao saber de tsunami: afastar-se do litoral imediatamente.
Sinal típico: a chegada se manifesta primeiro por um recuo do mar que deixa o fundo à mostra e atrai curiosos — aumentando o número de vítimas.
AlarmeSistema internacional do Pacífico, sede em Honolulu (Havaí). Casuística: Arica/Chile (1868, 14 m), Sumatra (2004, magnitude 9,1, +220 mil mortes), Palu (2018, magnitude 7,5).
Toda a leitura parte de uma informação específica: para o porto e proximidades, a direção de onde vêm as ondas, a altura e o comprimento.
- A onda não faz curva — a vaga mantém a direção ao longo da área geradora (obrigatoriamente retilínea); os marulhos seguem nessa mesma direção;
- pista mais longa = mais energia; isóbaras mais estreitas = vento mais forte;
- desenvolvimento das vagas ∝ intensidade do vento × pista × persistência;
- a energia das ondas é potencial; não transportam massa — só na arrebentação a potencial vira cinética e a água se desloca;
- o fundo interfere a P = L/2; ondas longas e correntes de retorno são as que mais preocupam na costa;
- na Metárea V, a ressaca aparece no Sul/Sudeste após a frente fria (ondas e ventos do quadrante sul: SW, S, SE), sendo SE bom indício;
- o Meteoromarinha dá só as siglas cardinais — é essencial visualizar as direções; ondas de SW propagam-se paralelas à costa.
Atenção do prático em águas rasas: calcular o squat máximo de proa e conhecer os fatores da Folga Dinâmica Abaixo da Quilha (FAQ) — squat + efeito das ondas, sobretudo em mar severo. Lição clássica: encalhe do petroleiro Capella Voyager (Whangarei, Nova Zelândia, 2003).