O enquadramento
Os três segmentos (fio condutor do capítulo)
Transporte a granel · transporte de linhas regulares · transporte especializado → costurados pelo mercado de afretamento (onde os fretes são negociados).
Não são compartimentos estanques: concorrem pela mesma carga e investidores migram de um para outro.
Escala global
Tabela 2.1 — cinco grupos de atividade oceânica (2004)
| Grupo | US$ bi | % |
|---|---|---|
| Operações de navios (mercante, guerra, cruzeiros, portos) | 646 | 47% |
| Construção naval + equipamento | 173 | 13% |
| Recursos marinhos (óleo/gás offshore, minerais) | 117 | 8% |
| Pesca marítima | 206 | 15% |
| Outras (turismo, telecom submarina, P&D) | 244 | 18% |
| Total | 1.387 | 100% |
Números de tamanho
- Frota mundial 2007: 74.398 navios (47.433 cargueiros + 26.880 não cargueiros).
- Comparável à aviação: ~15 mil aviões (bem mais rápidos).
- Emprega ~1,23 milhão de marítimos (404 mil oficiais + 823 mil mestrança/marinhagem).
- Construção naval ~US$ 170 bi/ano; +300 estaleiros grandes (>5.000 tpb); cadeia de equipamento ~US$ 90 bi.
Tabela 2.2 — três áreas de transporte
| Área | Indústria | Veículo |
|---|---|---|
| 1. Inter-regional | Marítimo de longo curso · carga aérea | Navio · avião |
| 2. Curta distância | Navegação costeira | Navio / ferry |
| 3. Terrestre | Rios/canais · rodoviário · ferroviário | Barcaça · caminhão · trem |
Longo curso × carga aérea
- Longo curso = único modo econômico entre massas continentais para grande volume.
- Aéreo (desde anos 1960, alto valor): 111 bi t-milhas em 2005 = só 0,4% do inter-regional (mar: 28,9 trilhões t-milhas). Disputa carga "premium": eletrônicos, têxteis, perecíveis, peças.
Curta distância
Integração dos modos
Logística moderna integra os modos por: padronização das unidades (contêiner, palete, fardo) + sistemas de manuseio integrados + veículos que se encaixam nas instalações.
Mercado de concorrência E cooperação: concorre onde o frete pesa no preço (carvão Virgínia ferrovia × Colômbia mar); coopera no desenvolvimento técnico (portos/terminais entre modos).
O produto e os três segmentos
Três segmentos: linhas regulares · granel · especializado (carros, florestais, químicos, GNL, frigorificados).
Modelo de demanda global (Fig. 2.1)
Tabela 2.3 — mercadorias transportadas (2006)
| Grupo | Exemplos | % peso |
|---|---|---|
| 1. Energéticos | Petróleo, derivados, carvão térmico, GLP, GNL | 44% |
| 2. Metalúrgicos | Minério de ferro, carvão coque, siderúrgicos, bauxita | 18% |
| 3. Agrícolas/florestais | Trigo, soja, açúcar, fertilizantes, florestais | 9,4% |
| 4. Outras | Cimento, manufaturados, conteinerizados (~1,1 bt) | 28% |
PSD — distribuição da dimensão das partidas (Fig. 2.2)
A PSD comanda a divisão central: granel = grandes partidas que enchem o navio × carga geral = muitas partidas pequenas a consolidar.
Diferenciação do produto (4 aspectos)
- Preço: frete petróleo Oriente Médio→Europa caiu de 35% do c.i.f. (anos 1950) p/ ~2,5% (anos 1990). Demanda inelástica ao preço.
- Velocidade: trânsito vira custo de inventário (viagem 3 meses, US$ 1 mi a 10%/ano = US$ 25 mil).
- Confiabilidade: com just-in-time, paga-se mais por cumprir prazo.
- Segurança: perda/avaria seguráveis, mas pesam em carga valiosa e frágil.
Modelo econômico (Fig. 2.3)
Granel
- Firmou-se após a 2ª Guerra: navios-tanque e graneleiros substituem os de coberta. Granel sólido ~3/4 da frota mundial.
- Granel líquido — petróleo, derivados, químicos, óleos vegetais (até ~500 mil t).
- Cinco granéis sólidos principais — minério de ferro, grão, carvão, fosfatos, bauxita.
- Granéis secundários — siderúrgicos, sucata, cimento, açúcar, sal, florestais, químicos.
Linhas regulares
Especializado
Fica entre linhas regulares e granel, com traços de ambos → navio concebido p/ carga específica + grupo definido de clientes (investimento arriscado).
Limitação estatística: tonelagem de carga geral não se calcula com segurança (muitas mercadorias viajam parte a granel, parte como carga geral).
Tabela/Fig. 2.4 — tipos de navios (2007)
| Categoria | Navios | Observação |
|---|---|---|
| Navios-tanque | 8.040 | VLCC→Handy; idade média long. curso ~9 anos |
| Graneleiros sólidos | 6.631 | Capesize p/ minério/carvão; idade ~11 anos |
| Navios combinados | 85 | Granel sólido / petróleo / minério |
| Carga geral | 25.784 | Dos quais 4.205 porta-contêineres — o mais dinâmico |
| Carga especializada | 6.978 | Frigoríficos, químicos, veículos, gases |
| Não cargueiros | 26.880 | Rebocadores, dragas, offshore, cruzeiros, ferries |
| Total | 74.398 | Idade média geral ~21,8 anos |
Fronteiras com "áreas cinzentas" — tanque de derivados é difícil de distinguir de tanque de petróleo bruto.
Propriedade da frota
- Todo navio tem pavilhão nacional (define jurisdição), mas o negócio não tem filiação nacional estreita → frota registrada ≠ frota controlada.
- 2006: 35 maiores nações (95% da frota) → 303 m.tpb bandeira nacional + 603 m.tpb pavilhão estrangeiro (muitas de conveniência).
- Grécia = maior nação proprietária (163 m.tpb, só 47,5 sob pavilhão grego). Japão: 91% sob pavilhão estrangeiro.
Envelhecimento e substituição
Os ciclos clarificam: fretes em alta → encomendar navios novos · fretes em baixa → velhos p/ sucata. Ciclo a ciclo, a frota se renova.
Comércio mundial e custo do frete (Fig. 2.5)
- 1960–2004: preços médios em dólar subiram 6×, mas o frete marítimo se segurou.
- Frete no barril Arabian Light na Europa: 30% (1960) → ~5% (2004).
- Contêiner: expedir um par de tênis Extremo Oriente→Reino Unido custava 24 centavos de dólar (2004).
Dimensão e economias de escala (Fig. 2.6)
Partidas/profundidades/distâncias variam → navios de 1.000 a +400.000 tpb. Dimensão média cresce no tempo (Handy: 25 mil tpb (1970) → 50 mil (2007)).
Mas nem sempre sobe: tanque médio caiu 96→86 mil tpb (1981–2005, tráfegos de curta distância); graneleiro subiu 34→56 mil tpb.
A função de custo unitário (Fig. 2.7)
LC = custo de capital do navio · OPEX = custo operacional · CH = custo de manuseio · PS = dimensão da partida
Economia do granel (Fig. 2.8) × linhas regulares
- Princípio "um navio, uma carga". Saltos de escala: Handy→Handymax ~22%; +Panamax ~20%; +Capesize ~36% → maiores cortam custo em + da metade.
- Petrolíferas tinham ~22,7 m.tpb de tanques em 2005 (7% da frota). Fluxo previsível (siderúrgica) → frota dedicada ou afretamento por 10–15 anos; imprevisível (grão) → mercado por viagem.
- Linhas regulares: serviço calendarizado, preço fixo, despesas gerais altas; vulneráveis ao custo marginal de concorrentes na rota.
- Conferências marítimas: defesa das linhas regulares (testada em 1875, GB–Calcutá); ~350 nos anos 1980; enfraquecidas por recessão, contêiner e regulação.
Três definições
Porto = interface crítica terra↔mar. Funções: canais/postos profundos, manuseio eficiente, armazenagem, integração ferrovia/estrada/vias interiores. Indústria portuária tão competitiva quanto o mercado marítimo (Roterdã × Hamburgo × Antuérpia).
Quatro níveis de desenvolvimento portuário (Fig. 2.9)
| Nível | Tipo | Característica |
|---|---|---|
| 1 | Local pequeno | Instalações básicas, navios pequenos, mistura geral+contêiner; países em desenvolvimento |
| 2 | Local grande | Terminal de granel (~35 mil tpb), garra, ferrovia e rodovia |
| 3 | Regional grande | Terminais especializados (unitária + granéis alto volume); navios 60 mil tpb+ |
| 4 | Centro de distribuição regional | Federação de terminais (Roterdã, Hong Kong, Singapura); concentra/distribui longo curso |
Tarifação portuária
Encargos cobrem o custo unitário (elemento fixo + variável) → taxa "tudo incluído" ou "por acréscimo" (base + extras), com pontos de gatilho conforme a quantidade de carga.
Tipos de companhias
- Participantes diretos: donos de carga (petrolíferas, mineradoras) e armadores; + comerciantes de produtos primários (viram afretadores) e operadores que afretam p/ arbitragem; gerentes e corretores na operação diária.
- 2004: 5.518 companhias possuíam 36.903 navios de longo curso — média de 7 navios/companhia.
- Distribuição: 1/3 da frota em 112 companhias (>50 navios: COSCO, Mitsui OSK, NYK, Maersk, Teekay); 1/3 em 716 companhias (10–49 navios); resto em ~4.690 pequenas (2,3 navios cada).
Quem toma as decisões? (Destaque 2.1)
Registram empresas em jurisdições favoráveis (Bahamas, Libéria, Ilhas Marshall, Chipre).
Consórcios / pools (Fig. 2.10)
- Outros temas: entrada de países em desenvolvimento (CNUCED, anos 1960), subsídios à construção naval, regulação das linhas regulares, segurança, poluição e tripulação.
- Conclusão: análise econômica não pode ignorar as influências regulatórias sobre custos, preços e livre concorrência.
- Demanda de navios depende de preço, velocidade, confiabilidade, segurança.
- Tráfegos analisados por grupos econômicos: energia, metalúrgicos, agrícolas, florestais, outros.
- Organização gira em torno da PSD: divisão central granel (partidas do tamanho do navio) × carga geral (muitas quantidades pequenas).
| Segmento | Princípio |
|---|---|
| Granel | "Um navio, uma carga"; frota dedicada ou afretamento conforme previsibilidade |
| Linhas regulares | Carga geral a tarifa fixa; conteinerização homogeneizou, mas segue distinto |
| Especializado | Meio-caminho; volumes altos e cargas difíceis (veículos, florestais, químicos, gás) |
Frota de ~74 mil navios nunca atinge condição ótima — recurso usado da forma mais rentável até a demolição. Portos e companhias têm estruturas muito variadas — fato que os analistas devem sempre lembrar.