Epígrafe (Templeton): "as quatro palavras mais dispendiosas da língua inglesa são desta vez é diferente."
Três componentes sobrepostos (Fig. 3.1)
| Componente | Duração | O que é |
|---|---|---|
| Longa (tendência secular) | Décadas (até 60 anos) | Conduzido por mudança técnica, econômica e regional |
| Curta (ciclo econômico) | 3 a 12 anos entre picos | É o que se chama "ciclo do transporte marítimo" |
| Sazonal | Dentro de 1 ano | Flutuação regular da demanda (grão fraco jul.–ago.; petróleo p/ inverno) |
Ciclo de longa duração (tendência secular)
- Kondratieff: 3 ondas de ~50 anos (retomadas 1790, 1844, 1895). Schumpeter atribuiu cada onda a uma inovação: vapor → ferrovia → automóvel/eletricidade.
- Mudanças de fundo derrubam fretes reais: vela→vapor (1869–1914); mecanização e gigantismo (1945–1995).
Ciclo de curta duração — 4 estágios (Fig. 3.2)
| Estágio | Sinais |
|---|---|
| 1. Baixa | Excedente de navios (filas, navegação lenta); fretes caem ao custo operacional; desarmamento; venda forçada/demolição "semeiam" a recuperação |
| 2. Retomada | Oferta↔demanda ao equilíbrio; fretes sobem pouco acima dos custos; confiança alterna com falsas recuperações |
| 3. Pico/patamar | Frota a toda força; fretes a 2–3× (raro 10×) o custo operacional; euforia, crédito fácil, "nova era"; usados valem mais que novos; explodem encomendas |
| 4. Colapso | Oferta > demanda; fretes despencam, reforçados por choque econômico (crises do petróleo 1973/1979); chegam navios encomendados no pico |
Ciclos sazonais · O que dizem os analistas
- Sazonais: grão sobe set.–out. (colheita norte-americana); frigorífico segue a fruta; petróleo forma estoque p/ inverno.
- O ciclo é mais psicologia que estatística: Kirkaldy → propósito darwiniano (fracos saem); Fayle → baixa barreira de entrada (fretes altos atraem enchente especulativa; expansão curta → recessão longa); Hampton → "drama de emoções humanas" (medo × ganância).
O que é o risco (Fig. 3.3)
Três opções de gerenciamento de risco (Fig. 3.4)
| Opção | Como | Quem assume o risco |
|---|---|---|
| 1. Navios próprios | Dono da carga compra a frota (ex.: GNL; porta-contêineres até 1990) | Todo com o dono da carga |
| 2. Afretamento por tempo (longo) | Diária acordada, use ou não (ex.: shikumisen japoneses; FFA como alternativa) | Dividido |
| 3. Mercado aberto (carga a carga) | Afreta a cada viagem; carga some → navio ocioso; oferta curta → frete-prêmio | Todo com o armador |
As opções não mudam o tamanho do risco — só o redistribuem. Petróleo: anos 50–60 petrolíferas tinham/afretavam por tempo a maioria (só 5–10% no spot); pós-1973 migraram p/ spot — em 1983, 140 mi tpb no aberto × 28 mi por tempo.
| Era | Pico (anos) | Baixa | Ciclo total |
|---|---|---|---|
| Vela (1741–1871) | 6,1 | 8,7 | 14,9 |
| Linhas não regulares (1871–1937) | 2,6 | 6,7 | 9,2 |
| Granel (1947–2007) | 3,0 | 5,0 | 8,0 |
| Conjunto (1741–2007) | 3,9 | 6,8 | 10,4 |
- Ciclos encurtaram: ~12,5 anos (1743) → ~7,5 anos (2003) — efeito da tecnologia/comunicações globais (~1865). Daí a "regra de ouro dos 7 anos".
- A própria duração era cíclica: ciclos longos (12–15 anos) separados por sequências de ciclos curtos.
Após as Napoleônicas (1815): tendência de queda dos fretes = transporte mais eficiente/barato → concorrência entre veleiros melhores + primeiros vapores a hélice. Navios cresceram: 300 tab (séc. XVIII) → navio de ferro de 2.000 tab comum por 1865.
Tendência tecnológica nos fretes (1869–1913)
- Travessia do Atlântico encurtou pela metade; carregar/descarregar caiu a 1/3 do tempo/trabalho/custo.
- 3 avanços: aço barato · motor a vapor de expansão tripla (caldeiras de alta pressão) · Canal de Suez (1869) — deu ao vapor a vantagem decisiva.
- Tamanho médio (rio Wear): 509 tab (1869) → 4.324 (1913).
| Frota mundial (mi tab) | Vapor | Vela | Total |
|---|---|---|---|
| 1870 | 2,6 (16%) | 14,1 | 16,7 |
| 1910 | 26,1 (76%) | 8,4 | 34,5 |
Ciclos entreguerras (1920–1940)
- 2 décadas: 1922–1926 volátil e modestamente rentável; 1927–1938 Grande Depressão do transporte.
- 1920: expansão extrema — índice britânico a 140 (4× o normal); cargueiro de £55 mil (1914) a £232.500 (1919) e despenca a £60 mil. Causa: indenizações de guerra + sobrecapacidade dos estaleiros (Hog Island).
- Depressão dos 1930: comércio −26% (1931–34); tonelagem desarmada 3 mi tab (1930) → 14 mi (1932) = 21% da frota; valores caíram 50%; gregos compraram a preço de liquidação. Só 1937 superou 1929.
Tendência tecnológica e especialização
- Tendência dos fretes reais caiu de 15 para <5 → tecnologia reduziu o custo em ~2/3.
- Comércio explodiu: 500 mt (1950) → 3,2 bt (1973). Frota se especializou: granel→graneleiro, petróleo→VLCC, carga geral→porta-contêineres, veículos→car carrier.
- Especialização permitiu o gigantismo: Capesize >100 mil tpb; porta-contêineres 2.000 TEU (1970) → +10.000 TEU (2007).
Ciclos em ação (8 ciclos, 1947–2007)
| Ciclo | O que aconteceu |
|---|---|
| 17: 1957–69 (Suez I) | Fechamento do Suez (1956) gerou euforia; quando o Egito mostrou operar o canal → depressão de 10 anos |
| 19: 1973–78 (Yom Kippur) | 1973 grande ano (diária VLCC dobrou); após embargo OPEP, VLCC de WS 300 → WS 15 (1975) |
| 20: 1979–87 (Depressão 80) | Pior desde 1930; petróleo US$ 11→40/barril; comércio 1,4 bt→900 mt; excedente ~50%; Panamax a US$ 4.200/dia; encomenda anticíclica Sanko afundou a recuperação |
| 22: 2003–07 (China) | Pico mais extremo; aço chinês 144 mt (2002) → 468 mt (2007); fretes a máximos históricos por 4 anos |
Tom do mercado por período (Tab. 3.3)
| Demanda | Oferta | Tom |
|---|---|---|
| Muito rápida | Escassez | Próspero (1945–56; 1998–2007) |
| Rápida | Em expansão | Competitivo (1869–1914; 1956–73) |
| Rápida | Sobrecapacidade | Fraco (1920–30) |
| Em contração | Sobrecapacidade | Deprimido (1930–39; 1973–88) |
Padrão: prosperidade = demanda rápida + escassez de estaleiros; depressão = sobrecapacidade + queda do comércio. A oferta/capacidade de estaleiros pesa muito — é onde o economista marítimo ajuda ("gerenciamento do lado da oferta").
- Quem quer retorno acima de 4–5% ao ano precisa absorver risco. Estratégia (Alderton): comprar na baixa, vender na alta — o princípio é fácil, a execução é a competência.
- Ciclos não são "cíclicos" (regulares): sequência solta de picos e baixas; "7 anos" é pouco confiável.
- Fatores analisáveis: condições econômicas, ciclo econômico, comércio, encomendas, demolições. Sobram os "curingas" (Bôeres, Suez, estoques, greves).
Como no pôquer: para cada vencedor há um perdedor; o jogo é sobre risco, não sobre carga. Indivíduos superam grandes companhias — "ninguém joga bem pôquer sob a direção de um conselho de administração".
- 3 componentes: tendência secular (longa), curtos, sazonais. Risco = risco do investimento no casco (embarcador = transporte industrial; armador = risco de mercado).
- Ciclo curto: episódico, 4 estágios (baixa/recuperação/pico/colapso), sem regra de tempo. Coordena oferta↔demanda: faltam navios → fretes sobem → encomendas; sobram → fretes caem até demolição reequilibrar.
- Ciclo longo (secular) governado pela tecnologia: vapor→vela, diesel→vapor, conteinerização, granel — transições de ~20 anos.
- 1741–2007: 22 ciclos, média 10,4 anos (14,9 vela → 9,2 não regulares → 8,0 granel).