Este capítulo abre a caixa-preta do mecanismo: modelo de oferta e demanda → primeiro a demanda, depois a oferta, por fim o mercado de fretes que liga as duas.
As dez variáveis-chave (Tab. 4.1)
| Demanda (5) | Oferta (5) |
|---|---|
| Economia mundial | Frota mundial |
| Tráfegos das mercadorias | Produtividade da frota |
| Distância média | Produção da construção naval |
| Choques aleatórios | Demolição e perdas |
| Custos de transporte | Receitas do frete |
Três módulos (Fig. 4.1)
- Módulo A (demanda): parte da economia mundial → volume de mercadorias por mar.
- Módulo B (oferta): parte da frota — no curto prazo, estoque fixo de capacidade.
- Módulo C (mercado de fretes): caixa de distribuição que liga os dois; regula o fluxo de caixa embarcadores→proprietários.
Escassez → frete sobe → dinheiro flui aos donos → compram usados → encomendam novos (defasagem 18 meses a 3 anos) → oferta cresce. Navios demais → frete cai → reservas esgotam → venda forçada → demolição → oferta cai devagar.
① Economia mundial (a mais importante)
- Ciclo econômico (curto): relação próxima comércio marítimo ↔ PIB (recessões 1975, 1983, 1988 coincidiram).
- Causas internas: multiplicador/acelerador · defasagens (navios da expansão chegam na recessão) · criação de estoques (efeito contrário; ex. Coreia 1952–53) · psicologia de massa (otimismo/pessimismo autorrealizáveis — Pigou).
- Ciclo de desenvolvimento (longo): economias amadurecem (Europa/Japão 1960, Coreia 1990, China séc. XXI); maduras consomem menos recursos por unidade.
② Tráfegos de produtos primários
| Mudança de longo prazo | Exemplo |
|---|---|
| Na demanda da mercadoria | Petróleo cresceu 2–3× o PIB nos 1960 (substituiu carvão); estagnou nos 1970 |
| Nas fontes de suprimento | Mar do Norte/Alasca (1970); China importa minério do Brasil/Austrália |
| Na localização do processamento | Refinar bauxita→alumina corta o volume em 2/3 antes de embarcar |
| Na política do embarcador | Petrolíferas controlavam (spot <10% antes de 1973); chegou a 50% nos 1990 |
③ Distância média e toneladas-milhas
④ Choques aleatórios · ⑤ Custos
- Choques aleatórios = únicos, imprevisíveis, graves. Os mais importantes são os econômicos (Depressão de 1930; choques do petróleo 1973/1979; crise asiática 1997).
- Custos de transporte: matéria-prima só vem de longe se o frete couber no bolso. Início dos 1980: frete chegava a 20% do custo do granel sólido na CE. Navios maiores baixaram esse custo (carvão Atlântico→Pacífico ~US$ 10–15/t em 1950 e ainda 40 anos depois).
Os quatro decisores da oferta
- Proprietários (principais: encomendam, demolem, desarmam) · embarcadores/afretadores · bancos (crédito comanda o investimento) · reguladores (segurança/ambiente).
- Ex. regulatório: Regra 13G da IMO (dez. 2003) exigiu fim gradual dos navios-tanque de casco simples até 2010.
Frota mercante (Tab. 4.2)
| Tipo (m.tpb) | 1980 | 2007 |
|---|---|---|
| Graneleiros | 140,7 | 369,7 |
| Petroleiros | 339,3 | 363,9 |
| Combinados (OBO) | 47,4 | 9,4 |
| Porta-contêineres | 9,9 | 128,0 |
| GNL | 2,9 | 15,2 |
Frota total: 82 m.tpb (1963) → 740 m.tpb (2004). Mobilidade lateral: tipos não são estanques — donos deslocam excesso a setores mais rentáveis. Gigantismo: maiores/eficientes empurraram fretes dos menores p/ baixo.
Produtividade da frota (Figs. 4.8–4.9)
- t-milhas/tpb: pico 35.000 (1973) → 22.000 (1985, uso ineficiente) → 32.000. Navio médio ~7 t/tpb/ano.
- VLCC médio (1991): só 137 dias transportando carga (1/3 do ano); 111 em lastro; 40 em manuseio; 21% não comercial.
- 4 fatores: velocidade (opera abaixo do projeto; incrustação reduz com a idade) · tempo em porto (contêiner derruba; congestionamento aumenta) · utilização do porte (~95% granel, ~96% tanque) · dias carregado no mar.
Construção · Demolição · Receita
- Construção ajusta a frota devagar: defasagem encomenda→entrega de 1 a 4 anos; carteira guia a frota com 12–18 meses de antecedência. Produção variou de 12% (1974) a 4,7% (1996) a 9% (2007).
- Demolição: em 1982, pela 1ª vez desde a 2ª Guerra, demolição (30 m.tpb) > entregas (26). Idade de demolição depende de 5 fatores: idade · obsolescência técnica · preços de sucata · ganhos correntes · expectativas. É decisão empresarial — só em massa quando reservas e otimismo se esgotam.
- Receita do frete: 2 regimes — granel (atacado, poucos clientes, negociado) × linhas regulares (varejo, muito concorrencial). Curto prazo: ajusta velocidade/desarmamento; longo prazo: guia demolição/encomenda.
Funções de oferta e demanda (Fig. 4.12)
- Oferta = curva em J: abaixo de um frete o dono desarma (oferta zero); acima, navega na mínima viável; subindo o frete, ganha-se ~36% de capacidade extra de um único navio (velocidade).
- Em concorrência perfeita, o dono opera onde o custo marginal iguala o frete.
- Demanda quase vertical (rígida): embarcadores expedem quase a qualquer custo (falta modo concorrencial; frete é fração pequena do custo do material).
S = velocidade ótima · R = frete da viagem · p = preço do combustível · k = constante de combustível · d = distância
Equilíbrio e os três horizontes de tempo
| Horizonte | O que se ajusta |
|---|---|
| Momentâneo | Nada — navios/cargas "prontos"; fecha já |
| Curto prazo | Desarmamento, reativação, troca de mercado (combinados), velocidade |
| Longo prazo | Encomendar novos, demolir velhos; reorganizar suprimentos |
Equilíbrio momentâneo (Fig. 4.13) — o sentimento manda
Mercado aberto fragmentado por regiões. Com mais navios que cargas, frete cai ao custo operacional (~20¢/barril); +10 cargas e o frete dispara a ~US$ 1/barril. Quando oferta↔demanda quase equilibram, é o sentimento — não a física — que dá a forma da curva ("curva de expectativas").
Curto prazo (Fig. 4.14)
Curva da oferta: A (ineficientes desarmados) › B (todos operando) › C (velocidade máxima) › D (vertical). No trecho íngreme (C), pequeno aumento de demanda triplica o frete — ditado pelos navios mais velhos/ineficientes.
Longo prazo (Fig. 4.15) — origem do ciclo
Sentimento, modelo composto e dinâmica
- Sentimento move a curva na vertical (Fig. 4.16): no mesmo equilíbrio, S₂ dá US$ 19 mil/dia, S₃ dá US$ 37 mil/dia — quase o dobro. Recessão favorece o afretador; expansão, o proprietário.
- Modelo composto (Fig. 4.17): 5 modelos — A econômico mundial · B princípios básicos · C investimento (sentimento) · D risco · E microeconômico da empresa.
- 4 aspectos complicam o ajustamento: defasagem da construção · mudança de direção da demanda na espera · emoção nos picos/baixas · crises grandes.
- Adam Smith: preço de mercado (variável) × preço natural (cobre o custo, "central para o qual todos gravitam"). Marshall alertou: só prevaleceria num mundo estacionário — não numa indústria cujo produto dura 20+ anos.
- Modelo de 2 lados (oferta × demanda) ligados pelo frete; demanda rápida + oferta lenta → ciclos irregulares.
- 5 da demanda: economia mundial (a mais importante), tráfegos, distância média, acontecimentos políticos, custos. 5 da oferta: frota, produtividade, construção, demolição, frete — todas comportamentais e pouco previsíveis.
- Escala de tempo importa: momentâneo (leilão de navios prontos) · curto (velocidade/desarmamento) · longo (entrega 2–3 anos, fixa o ciclo em 7–8 anos).