CG Cap. 4 — Oferta, Demanda e Taxas de Frete

1. Visão geral — o jogo do mercado marítimo

Operar navios é uma tarefa digna, mas não enriquece ninguém. A fortuna no transporte marítimo vem de estar no lugar certo, no momento certo, para acumular capital no pico do ciclo. A cada reviravolta, o fluxo de caixa do proprietário pode saltar de uma gota para uma enchente, e o valor de sua frota muda em milhões de dólares. É por isso que Stopford trata o investimento marítimo como um jogo de pôquer: não basta ter razão sobre o futuro do mercado; é preciso acertar quando os outros estão errados.

Este capítulo abre a caixa-preta do mecanismo econômico que produz os ciclos vistos no capítulo anterior. Para isso, Stopford usa o modelo da oferta e da demanda — uma versão simplificada da realidade, que deixa de fora o que é secundário para enxergar com clareza o que determina as taxas de frete. O percurso é o do próprio modelo: primeiro a demanda de transporte, depois a oferta, e por fim o mercado de fretes que liga as duas.

Fonte: STOPFORD, M. Economia marítima. 3. ed. Trad. Léo Tadeu Robles e Ana Cristina F. C. P. Casaca. São Paulo: Blucher, 2017. Parte 2, Cap. 4 — Oferta, demanda e taxas de frete.

Edital: Anexo 2-A, item 7.2.2 (Economia Marítima e Amazônia Azul → Economia do mercado marítimo → Oferta, demanda e taxas de frete) · Anexo 2-B, item 9, Parte 2, Cap. 4 (Stopford).

2. O modelo do mercado marítimo (§4.1–4.2)

Do ponto de vista econômico, cada ciclo é único. Para melhorar a leitura do mercado, Stopford constrói uma explicação teórica de como os ciclos nascem — exercício que os economistas chamam de análise fundamental: explicar de forma consistente os mecanismos que determinam o frete. O primeiro passo é simplificar, escolhendo as variáveis mais importantes.

2.1 As dez variáveis-chave

A economia marítima é complexa, mas dez influências se destacam: cinco do lado da demanda e cinco do lado da oferta, reunidas na Tabela 4.1. A demanda é a função da demanda; a oferta, a função da oferta.

Demanda (5 variáveis)Oferta (5 variáveis)
Economia mundialFrota mundial
Tráfegos das mercadorias transportadas por via marítimaProdutividade da frota
Distância médiaProdução da construção naval
Choques aleatóriosDemolição e perdas
Custos de transporteReceitas do frete

Tabela 4.1 — As dez variáveis do modelo do mercado marítimo.

A demanda final mede-se em toneladas-milhas (tonelagem da carga × distância média percorrida), e não simplesmente em toneladas: assim evita-se julgar de antemão a eficiência com que os navios são usados — isso pertence ao lado da oferta.

2.2 Os três módulos: A, B e C

O modelo tem três componentes, ilustrados na Figura 4.1. O módulo A (demanda) parte da economia mundial, que determina o volume de mercadorias movimentado por mar. O módulo B (oferta) parte da frota, que no curto prazo é um estoque fixo de capacidade. O módulo C (mercado de fretes) é a caixa de distribuição que liga os dois: regula o fluxo de caixa que vai dos embarcadores para os proprietários de navios, e é esse dinheiro que move o mercado.

Fig. 4-1
Fig. 4-1 Figura 4.1 — Modelo da oferta e da demanda (módulos A, B e C)

Como o modelo funciona. Quando há escassez de navios, o frete sobe e o dinheiro flui para os proprietários. Eles correm a comprar navios de segunda mão; quando estes ficam caros, encomendam navios novos — entregues só após uma defasagem de 18 meses a 3 anos. Aí a oferta cresce. Quando há navios demais, o processo se inverte: o frete cai, as reservas se esgotam, vendas forçadas levam à demolição e a oferta diminui devagar.

2.3 No coração do modelo estão pessoas

O modelo é movido por gente. No módulo da demanda estão os embarcadores da carga, que decidem fontes de suprimento e localização das fábricas e negociam fretes, fretamentos a tempo e FFA. No módulo da oferta estão os investidores em transporte marítimo — proprietários, sociedades alemãs KG, negociantes de petróleo, companhias petrolíferas com frota própria —, que negociam fretes e têm a tarefa crucial de encomendar navios novos e mandar os velhos para sucata.

Por isso a oferta é lenta e pesada e a demanda é volátil e rápida. A "tartaruga" da oferta persegue a "lebre" da demanda pelo gráfico de fretes, mas raramente a alcança. No curtíssimo prazo, a psicologia pesa tanto quanto a economia: um navio fechado a US$ 20 mil/dia na segunda-feira pode ter um irmão fechado a US$ 30 mil/dia na terça, só porque os afretadores entraram em pânico durante a noite.

3. A demanda de transporte marítimo (§4.3)

A demanda de navios, medida em toneladas-milhas, é volátil varia 10% a 20% ao ano — e ainda sofre tendências de longa duração (forte crescimento nos anos 1960; estagnação após a crise do petróleo de 1973). Stopford a examina por cinco variáveis.

3.1 A economia mundial

A influência isolada mais importante sobre a demanda é a economia mundial, que gera a maior parte do comércio marítimo. A relação aparece em dois aspectos: o ciclo econômico (curto prazo) e o ciclo de desenvolvimento do comércio (longo prazo).

O ciclo econômico estabelece os alicerces dos ciclos de frete. A Figura 4.2 mostra, de 1966 a 2006, a relação próxima entre a taxa de crescimento do comércio marítimo e o PIB: as recessões do comércio de longo curso em 1975, 1983 e 1988 coincidiram com recessões da economia mundial.

Fig. 4-2
Fig. 4-2 Figura 4.2 — Ciclos do PIB mundial e do comércio marítimo (1966–2006)

As causas dos ciclos econômicos combinam fatores externos (guerras, saltos de preço de produtos primários) e internos:

Causa internaComo age sobre a demanda de navios
Multiplicador e aceleradorInvestimento gera renda e consumo, que geram mais investimento; quando mão de obra e capital se esgotam, o processo se reverte bruscamente — instabilidade básica da "máquina econômica".
Defasagens temporaisO atraso entre decidir e executar agrava o ciclo. No mar: navios encomendados na expansão chegam na recessão, tornando picos e baixas mais extremos.
Criação de estoquesEfeito de curto prazo contrário: nas recessões a indústria esgota estoques; na retomada há corrida para repô-los, criando explosões súbitas de demanda (ex.: Guerra da Coreia 1952–53).
Psicologia de massaSe as pessoas agem por imitação (e não de forma independente), os erros não se anulam: otimismo e pessimismo tornam-se autorrealizáveis (teoria dos erros não compensados, de Pigou).

No longo prazo, o ciclo de desenvolvimento do comércio domina: as economias amadurecem como pessoas. Europa e Japão cresceram rápido nos anos 1960 e estagnaram nos 1970; Coreia do Sul nos 1990; China no início do século XXI (Figura 4.3). Economias maduras consomem menos recursos por unidade de produto, reduzindo a importação de matérias-primas.

Fig. 4-3
Fig. 4-3 Figura 4.3 — Ciclos de desenvolvimento do comércio regional (1950–2005)

3.2 Os tráfegos de produtos primários

A segunda variável são os tráfegos das mercadorias. No curto prazo, a sazonalidade é a grande fonte de volatilidade: o grão do Golfo dos EUA pode crescer até 50% entre setembro e o fim do ano; o petróleo acompanha o consumo de inverno do Hemisfério Norte; o tráfego de linha regular tem picos no Ano-Novo Chinês e no Natal. Como cargas sazonais são difíceis de planejar, seus embarcadores dependem muito do mercado aberto — por isso o grão influencia o frete mais do que tráfegos maiores, como o minério (servido por contratos de longa duração).

No longo prazo, há quatro tipos de mudança a observar:

Mudança de longo prazoExemplo do livro
Na demanda da mercadoriaPetróleo bruto (maior carga isolada — Figura 4.4): cresceu 2–3× o PIB nos anos 1960 quando substituiu o carvão; com a alta de preços nos 1970, estagnou e recuou.
Nas fontes de suprimentoNos anos 1970, Mar do Norte e Alasca reduziram a importação de longo curso; a China, esgotando o minério local, passou a importar do Brasil e da Austrália.
Na localização do processamentoRefinar bauxita em alumina antes de embarcar corta o volume transportado em dois terços (3 t de bauxita → 1 t de alumina; 2 t de alumina → 1 t de alumínio).
Na política de transporte do embarcadorAntes de 1973 as petrolíferas controlavam o transporte e o mercado aberto cobria <10% do petróleo; nos anos 1990 chegou a 50%.

Fig. 4-4
Fig. 4-4 Figura 4.4 — Principais tráfegos marítimos por mercadoria

3.3 Distância média e toneladas-milhas

A distância importa tanto quanto o volume. Uma tonelada de petróleo do Oriente Médio para a Europa pelo Cabo da Boa Esperança navega cinco vezes mais que da Turquia para Marselha. Por isso a demanda mede-se em toneladas-milhas. O fechamento do Canal de Suez ilustra o efeito: a distância do Golfo Pérsico à Europa saltou de 6 mil para 11 mil milhas, disparando a demanda de navios.

A Figura 4.5 mostra a distância média de 1963 a 2005. No petróleo bruto, saltou de 4.500 milhas (1963) para 7 mil uma década depois, caiu para 4.500 em 1985 e voltou a ~5.400 milhas. A causa de fundo é o equilíbrio entre fornecedores de longa e de curta distância: quanto mais o Oriente Médio domina, maior a distância média.

Fig. 4-5
Fig. 4-5 Figura 4.5 — Distância média dos tráfegos de produtos primários (1963–2005)

3.4 Os choques aleatórios

Os choques aleatórios diferem dos ciclos por serem únicos, imprevisíveis e muitas vezes graves. Os mais importantes são os choques econômicos (a Depressão de 1930 após o crash de 1929; os choques do petróleo de 1973 e 1979 — visíveis na Figura 4.2; a crise asiática de 1997). Acontecimentos políticos também perturbam o comércio, geralmente por vias indiretas.

Nove incidentes políticos com efeito marcante na demanda de navios desde 1945: (1) Guerra da Coreia (anos 1950, criação de estoques); (2) crise/fechamento do Suez (1956); (3) Guerra dos Seis Dias (1967, Suez fechado); (4) fechamento do oleoduto Tap Line (1970); (5) nacionalização dos bens petrolíferos líbios (1973); (6) Guerra do Yom Kippur + corte da Opep (out. 1973, colapso dos navios-tanque); (7) Revolução Iraniana (1979); (8) Guerra do Golfo (1990–91, oleoduto Dortyol + estoques); (9) greve petrolífera na Venezuela (2002–03).

3.5 Os custos de transporte

A quinta variável da demanda é o custo de transporte: matérias-primas só vêm de longe se o frete couber no bolso. No início dos anos 1980, o transporte chegava a 20% do custo da carga sólida a granel entregue na Comunidade Europeia. No último século, navios maiores e operações mais eficientes baixaram esse custo: transportar carvão do Atlântico ao Pacífico custava US$ 10–15/t em 1950 (navio de 20.000 tpb) e ainda US$ 10–15/t quarenta anos depois (navio de 150.000 tpb) — Figura 4.6.

Fig. 4-6
Fig. 4-6 Figura 4.6 — Custos do transporte de carvão Hampton Roads–Japão (1950–2006)

4. A oferta de transporte marítimo (§4.4)

A oferta é lenta e pesada. Um navio leva cerca de um ano para ser construído (2 a 3 anos se os estaleiros estão cheios) e vive de 15 a 30 anos. Por isso o mercado não responde rápido a um salto de demanda, nem se livra rápido de um excesso. Esta seção explica como esse ajustamento é controlado.

4.1 Os quatro decisores da oferta

A oferta é controlada por quatro grupos: os proprietários de navios (decisores principais — encomendam, demolem e desarmam temporariamente); os embarcadores/afretadores (podem virar proprietários ou influenciar via cartas-partidas a tempo); os bancos (o crédito comanda o investimento e a pressão financeira força a demolição); e os reguladores (segurança e meio ambiente). Exemplo regulatório: a Regra 13G da IMO (dez. 2003) exigiu o fim gradual dos navios-tanque de casco simples até 2010.

Atenção (pôquer outra vez). Como a oferta é controlada por pessoas, as relações do lado da oferta são comportamentais — não puramente econômicas. O fato de fretes altos terem estimulado encomendas no passado não garante que isso se repita. Em 1973, com fretes altíssimos, encomendou-se mais navios-tanque do que a previsão mais otimista justificava; em 1982–83 e 1999, com fretes baixos, cresceram as encomendas de graneleiros.

4.2 A frota mercante

O ponto de partida da oferta é a frota mercante, que cresceu de 82 m.tpb em 1963 para 740 m.tpb em 2004 (Figura 4.7). Como a vida econômica média de um navio é de 25 anos, só uma pequena fração é demolida por ano — por isso o ajustamento se mede em anos, não em meses. O ciclo da frota de petroleiros entre 1962 e a década de 1980 é o exemplo clássico: a demanda quase quadruplicou até 1974, a oferta não acompanhou e os fretes explodiram em 1973; depois a demanda caiu 60% e levou cerca de catorze anos para reequilibrar, com VLCC que custaram US$ 50–60 milhões sendo vendidos por US$ 3 milhões no início dos anos 1980.

Fig. 4-7
Fig. 4-7 Figura 4.7 — A frota mercante por tipo de navio (1973–2006)

Os navios combinados (OBO) ligam os mercados de carga sólida e líquida (pico de 48,7 m.tpb em 1978, depois <20 m.tpb nos anos 1990). Os graneleiros de carga sólida cresceram de 17 m.tpb (1963) para 237 m.tpb (1996). E os porta-contêineres celulares — o primeiro entrou em serviço em 1966 — chegaram a 128 m.tpb em 2007, crescendo ~10% ao ano. A Tabela 4.2 resume a frota mundial.

Tipo de navio (m.tpb)1980199020002007
Graneleiros140,7203,4266,8369,7
Petroleiros339,3262,9307,0363,9
Combinados47,430,314,99,4
Porta-contêineres9,926,364,7128,0
GNL2,93,97,115,2
Subtotal (todos os tipos de carga)565,1568,6711,6947,2

Tabela 4.2 — A frota mundial de carga em 1.º de janeiro (m.tpb). A tabela mostra uma seleção dos tipos; o subtotal é o da frota completa (inclui também MPP, frigoríficos, transportadores de carros, ro-ro e GLP, não listados aqui). Fonte: CRSL, Shipping Review and Outlook.

Os tipos não operam em mercados estanques: há forte substituição entre eles. Esse é o princípio da mobilidade lateral — os proprietários deslocam navios em excesso para serviços mais rentáveis em outros setores. A marca da virada do século foi o gigantismo: os navios maiores e mais eficientes empurraram para baixo os fretes dos menores.

4.3 A produtividade da frota

Embora a frota seja fixa em tamanho, a produtividade adiciona flexibilidade (Figura 4.8). Em toneladas-milhas por tpb, o pico foi de 35.000 em 1973; caiu a 22.000 em 1985 (um terço a menos, porque com fretes baixos os navios foram usados de forma ineficiente) e voltou a 32.000 depois. Em tempos normais, o navio médio transporta ~7 toneladas de carga por tpb por ano.

Fig. 4-8
Fig. 4-8 Figura 4.8 — Desempenho (produtividade) da frota mercante mundial (1963–2005)

O detalhe surpreende: um VLCC médio, em 1991, passou só 137 dias transportando carga — pouco mais de um terço do ano (Figura 4.9). Em lastro foram 111 dias; manuseio de carga, 40 dias; e 21% do tempo em atividades não comerciais (incidentes, reparos, desarmamento, espera, armazenagem).

Fig. 4-9
Fig. 4-9 Figura 4.9 — Tempo usado por um VLCC médio num ano

Fator da produtividadeO que controla
VelocidadeMesmo em bom mercado, navega-se abaixo da velocidade de projeto (em 1991, tanques >200.000 tpb: projeto 15,1 nós, operação média 11,5 nós). Incrustação reduz a velocidade com a idade.
Tempo de estadia em portoA conteinerização derrubou esse tempo; o congestionamento o aumenta (Hampton Roads nos anos 1980: filas de mais de cem graneleiros).
Utilização do porte brutoRegra geral: ~95% em graneleiros, ~96% em navios-tanque; cargas parciais nas recessões derrubam esse índice.
Dias carregado no marReduzir o tempo improdutivo aumenta a oferta efetiva; em mercado fraco, a frota primeiro reduz a velocidade, depois desarma navios.

4.4 A produção da construção naval

A construção naval ajusta a frota, mas devagar: a defasagem entre encomenda e entrega é de 1 a 4 anos. Por isso a carteira de encomendas funciona como guia da frota mundial com 12 a 18 meses de antecedência. A produção variou de ~12% da frota em 1974 a 4,7% em 1996, voltando a 9% em 2007 (Figura 4.10). Os navios-tanque ilustram a oscilação extrema: subiram de 5 m.tpb (1963) para 45 m.tpb (1975, 75% da produção mundial), despencaram a 3,6 m.tpb em 1984 e voltaram a 25,8 m.tpb em 2006. Os graneleiros assumiram o protagonismo dos VLCC em meados dos anos 1980 — e herdaram o mesmo excesso crônico.

Fig. 4-10
Fig. 4-10 Figura 4.10 — Entregas da construção naval mundial por tipo (1963–2007)

4.5 Demolição e perdas

O crescimento da frota depende do saldo entre entregas e supressões (demolição + perdas no mar). O equilíbrio virou no fim dos anos 1970: em 1973 demoliram-se ~5 m.tpb contra 50 entregues; em 1982, pela primeira vez desde a 2.ª Guerra, a demolição (30 m.tpb) superou as entregas (26 m.tpb) — Figura 4.11.

Fig. 4-11
Fig. 4-11 Figura 4.11 — Vendas para demolição da frota mundial por tipo (1963–2006)

Prever a idade de demolição é difícil porque ela depende de cinco fatores: idade (em 2007, média de 27 anos para tanques e 32 para carga sólida), obsolescência técnica (multicobertas mortas pela conteinerização; turbinas a vapor ineficientes), preços de sucata, ganhos correntes e expectativas de mercado. O mais importante: a demolição é uma decisão empresarial — só ocorre em massa quando reservas e otimismo se esgotam.

4.6 A receita dos fretes

A última variável da oferta é o próprio frete — o regulador que incentiva os decisores a ajustar a capacidade. Há dois regimes de preço: o mercado de fretes a granel (venda por atacado, carregamentos completos a poucos clientes industriais, preços negociados) e o mercado de linhas regulares (venda a varejo, muitos clientes, muito concorrencial). No curto prazo a oferta responde ajustando velocidade e desarmamento; no longo prazo, o frete guia a demolição e a encomenda de navios. É como isso opera no granel que a próxima seção detalha.

5. O mecanismo das taxas de frete (§4.5)

O módulo C liga oferta e demanda. A mecânica é simples: proprietários e embarcadores negociam uma taxa que reflete o equilíbrio de navios e cargas disponíveis. Muitos navios, frete baixo; poucos navios, frete alto. Stopford analisa isso com o modelo de concorrência perfeita: função da oferta, função da demanda e preço de equilíbrio.

5.1 As funções da oferta e da demanda

A função da oferta de um navio é uma curva em J (Figura 4.12a). Para um VLCC de 280.000 tpb: abaixo de US$ 155/milhão de toneladas-milhas o dono o desarma temporariamente (oferta zero); acima disso ele navega a 11 nós (a mínima viável), ofertando 10,1 btm/ano; a US$ 220 atinge 15 nós e oferta 13,8 btm/ano. Subindo o frete, o mercado ganha 36% de capacidade extra de um único navio.

Fig. 4-12
Fig. 4-12 Figura 4.12 — Funções da oferta e da demanda (painéis a, b, c, d)

A teoria define a forma da curva: em concorrência perfeita, o dono maximiza o lucro operando na velocidade em que o custo marginal iguala o frete. Daí a Equação 4.1, que relaciona velocidade e frete:

S=R3pkd(4.1)S = \sqrt{\dfrac{R}{3\,p\,k\,d}} \qquad (4.1)

S = velocidade ótima (milhas/dia); R = taxa de frete da viagem; p = preço do combustível; k = constante de combustível do navio; d = distância. A velocidade ótima também depende, portanto, do preço do combustível, da eficiência do navio e da duração da viagem.

A função da oferta de uma frota (Figura 4.12b) soma as curvas individuais: numa frota de dez VLCC com idades de 2 a 20 anos, o navio 1 (mais novo) desarma a US$ 155 e o navio 10 (mais velho) a US$ 165. Conforme o frete cai, navios saem de serviço um a um. A inclinação da curva no curto prazo depende de três fatores: navios mais velhos têm custo operacional maior; navios maiores têm custo por tonelada menor (e empurram os menores ao desarmamento); e a relação velocidade-frete da Equação 4.1.

A função da demanda (curva D₁, Figura 4.12c) é praticamente vertical: os embarcadores precisam da carga e a expedem quase a qualquer custo, pois falta um modo de transporte concorrencial e o frete costuma ser pequena parte do custo do material.

5.2 O equilíbrio e a importância do tempo

Oferta e demanda cruzam-se no preço de equilíbrio — US$ 170/milhão de toneladas-milhas no exemplo (Figura 4.12d): a esse preço, dez navios são afretados e dez são ofertados. Mas o preço depende do enquadramento temporal, pois mistura expectativas presentes e futuras. Há três horizontes:

HorizonteO que se pode ajustar
MomentâneoNada — navios e cargas "prontos"; o negócio tem de ser fechado já.
Curto prazoDesarmamento, reativação, troca de mercado (combinados), mudança de velocidade.
Longo prazoEncomendar navios novos, demolir os velhos; embarcadores reorganizam suprimentos.

5.3 Equilíbrio momentâneo

É a taxa do dia a dia para navios e cargas "prontos" — o mercado aberto, fragmentado por regiões (Golfo Pérsico, Caribe, Atlântico). A Figura 4.13 traz o exemplo: 75 cargas no mês, com a demanda D₁ cruzando o eixo nas 75 cargas; 83 navios disponíveis, com a oferta S subindo de 15 a 21 centavos/barril e depois ficando vertical. Com mais navios que cargas, o frete cai ao custo operacional (~20 centavos/barril). Se as cargas sobem para 85 (D₂), faltam navios e o frete dispara para quase US$ 1/barril — uma oscilação de dez cargas tem efeito dramático.

Fig. 4-13
Fig. 4-13 Figura 4.13 — Equilíbrio momentâneo no mercado de VLCC

O sentimento é o motor. No muito curto prazo, isto é um leilão. Se há navios a mais mas os donos creem que o frete vai subir, eles esperam; de repente faltam navios, o frete sobe e os relutantes fecham "de acordo com o último efetuado". É a curva de expectativas da Figura 4.13. Quando oferta e demanda estão quase equilibradas, é o sentimento — e não os princípios físicos — que dá a forma da curva da oferta.

5.4 Equilíbrio de curto prazo

No curto prazo há tempo para desarmar e reativar. A curva da oferta (Figura 4.14a) percorre quatro pontos: em A, só 50 btm/ano (navios ineficientes desarmados); em B, todos operando, ~85 btm/ano; em C, frota à velocidade máxima; em D, a curva fica vertical — nem frete altíssimo gera mais oferta.

Fig. 4-14
Fig. 4-14 Figura 4.14 — Equilíbrio de curto prazo: (a) função da oferta; (b) ajustamento

Cruzando a demanda (Figura 4.14b): no ponto A o frete fixa-se baixo (F₁); um grande aumento de demanda até B mal mexe no frete (navios saem do desarmamento); mas um pequeno aumento até C, no trecho íngreme, triplica o frete, porque a taxa passa a ser ditada pelos navios mais velhos e menos eficientes. Sem mais navios, os afretadores licitam uns contra os outros e o frete sobe a qualquer nível.

5.5 Equilíbrio de longo prazo

No longo prazo, a frota se ajusta por três outros mercados (Capítulo 5): compra e venda, novas construções e demolição. A Figura 4.15 acompanha o mercado de navios-tanque de 1980 a 1992 (frete em US$/dia no eixo vertical; frota em m.tpb no horizontal):

Ano (painel)O que aconteceuFrete médio
1980 (a)Mercado perto do equilíbrio; demanda cruza a "dobra" da curva da oferta.US$ 15 mil/dia
1985 (b)Demolição intensa cortou a frota de 320 para 251 m.tpb, mas a demanda caiu ainda mais (<150 m.tpb); 60 m.tpb desarmados.US$ 7 mil/dia
1991 (c)Frota quase estável; demanda +30%; a armazenagem pós-invasão do Kuwait empurrou a demanda à direita (linha pontilhada).US$ 29 mil/dia
1992 (d)Entregas intensas e fim da armazenagem trouxeram a demanda de volta ao "normal".US$ 15 mil/dia

Fig. 4-15
Fig. 4-15 Figura 4.15 — Ajustamento de longo prazo da oferta e da demanda (1980–1992)

É a combinação de demanda volátil com defasagem da oferta que cria os ciclos: encomenda-se com frete alto, mas os navios chegam anos depois, quando a demanda já mudou. Como mostra o Capítulo 3, o ciclo médio dura ~8 anos — soma de 2–3 anos para entregar, 2–3 para demolir e 2–3 para a próxima rodada de encomendas.

5.6 O efeito do sentimento na curva da oferta

As curvas vistas até aqui se movem na horizontal (princípios físicos: demolição e entrega). Mas o sentimento move a curva na vertical: afretadores fortes e bem-informados baixam a curva; proprietários confiantes a elevam, ganhando mais para o mesmo equilíbrio. A Figura 4.16 traça os ganhos de um Aframax contra o excesso/déficit de capacidade (1990–2007): os anos fracos (1998, 1999, 2002, 2003) caem para a curva S₂; os anos fortes (2000, 2005–2007) sobem para a curva S₃.

Fig. 4-16
Fig. 4-16 Figura 4.16 — Movimento vertical da curva da oferta (sentimento)

O efeito é grande: no exato equilíbrio de mercado, S₂ dá US$ 19 mil/dia ao proprietário e S₃ dá US$ 37 mil/dia — quase o dobro. Nos anos de recessão a negociação favorece o afretador; nos de expansão, o proprietário. Como o sentimento muda mais rápido que os princípios físicos, prever o frete fica muito mais difícil.

5.7 O modelo composto do ciclo

Os ciclos são irregulares porque não vêm de um único modelo, mas da interação de cinco modelos (Figura 4.17):

SegmentoModelo
AModelo econômico mundial (ciclos econômicos, choques econômicos, tendências seculares)
BModelo dos princípios básicos do transporte marítimo (oferta e demanda)
CModelo de investimento de mercado (onde o sentimento age)
DModelo de gerenciamento do risco (quem assume o risco e como é compensado)
EModelo microeconômico da empresa

Fig. 4-17
Fig. 4-17 Figura 4.17 — Modelo composto do ciclo de transporte marítimo

5.8 Dinâmica do ajustamento e os preços de longo prazo

Quatro aspectos complicam o ajustamento: a defasagem da construção naval; a mudança de direção da demanda durante a espera pela entrega; a emoção nos picos e baixas; e as crises grandes, que exigem ajustes maiores do que os pequenos saldos de entrega/demolição conseguem dar.

E o frete de longo prazo? Adam Smith distinguia o preço de mercado (variável) do preço natural (que apenas cobre o custo) — "o preço central para o qual todos gravitam". Mas Marshall alertou: o preço natural só prevaleceria se o mundo ficasse estacionário tempo bastante, o que não ocorre numa indústria cujo produto dura 20 anos ou mais. A teoria não dá garantias — e, como visto no Capítulo 2, os retornos têm sido baixos (o retorno sobre o investimento é retomado no Capítulo 8, com o modelo de precificação de ativos de risco, RAP).

"O preço natural é o preço central para o qual os preços de todas as cargas estão constantemente a gravitar." — Adam Smith (citado por Stopford, §4.5)

6. Resumo (§4.6)

O mercado marítimo é um jogo cujas regras são as relações econômicas que criam os ciclos de frete. O modelo tem dois lados — oferta e demanda — ligados pelo frete; como a demanda muda rápido e a oferta é lenta, os ciclos são irregulares.

Cinco variáveis da demanda: economia mundial (a mais importante), tráfegos de mercadorias, distância média, acontecimentos políticos e custos de transporte. Cinco variáveis da oferta: frota mundial, produtividade, construção naval, demolição e frete — todas comportamentais, logo pouco previsíveis, e dependentes do sentimento.

As taxas de frete ligam os dois lados, e a escala de tempo importa: o equilíbrio momentâneo (navios prontos disputando cargas), o de curto prazo (ajuste de velocidade e desarmamento) e o de longo prazo (entrega de navios, 2–3 anos — que ajuda a fixar o ciclo em 7–8 anos). A função da oferta tem forma em J e a demanda é rígida; ao chegar à "dobra" da curva, o frete fica muito volátil e passa a depender de um leilão. No longo prazo, o frete deveria nivelar-se ao preço "natural", mas Marshall avisou que não se deve contar com isso: num mundo em mudança, não há regra para os ganhos médios — só a experiência, o acesso à economia e à política, e o olho clínico para um bom negócio garantem sucesso no jogo do ciclo.