1. Visão geral — o navio que comercializa em quatro mercados
O capítulo anterior explicou a teoria que produz as taxas de frete; este mostra como, na prática, esse mercado realmente funciona. Stopford resume a virada: antes estudamos os "ossos" da oferta e da demanda; agora vamos revestir os ossos de carne — ver como os navios são afretados, comprados, encomendados e sucateados no dia a dia.
O fio condutor é uma história real. Um proprietário recebe dois VLCC de 300.000 tpb e uma petrolífera oferece afretá-los por cinco anos a US$ 37 mil/dia cada — receita segura, mas retorno de só 6% ao ano sobre o capital próprio. Ele recusa, comercializa no mercado aberto e usa contratos de futuros de frete para travar parte do ganho. O mercado cai, e para pagar o banco ele é forçado a vender dois Suezmax velhos a um sucateiro por US$ 5 milhões cada — navios que dois anos antes valiam US$ 23 milhões. Nesse único episódio, o proprietário operou nos quatro mercados: encomendou (novas construções), afretou (fretes), tentou vender (compra e venda) e sucateou (demolição).
Os quatro mercados do transporte marítimo. Cada um negocia uma mercadoria diferente: o mercado de fretes negocia transporte; o mercado de compra e venda negocia navios de segunda mão; o mercado das novas construções negocia navios novos; o mercado de demolição negocia navios para sucata. Não há estrutura formal nem leis imutáveis — são pessoas tratando dos seus negócios.
Fonte: STOPFORD, M. Economia marítima. 3. ed. Trad. Léo Tadeu Robles e Ana Cristina F. C. P. Casaca. São Paulo: Blucher, 2017. Parte 2, Cap. 5 — Os quatro mercados do transporte marítimo.
Edital: Anexo 2-A, item 7.2.3 (Economia Marítima e Amazônia Azul → Economia do mercado marítimo → Os quatro mercados do transporte marítimo) · Anexo 2-B, item 9, Parte 2, Cap. 5 (Stopford).
2. As decisões do proprietário e o glossário de afretamento (§5.1)
O objetivo do capítulo é explicar como cada mercado funciona na prática e identificar o que os distingue. As perguntas que organizam o texto são concretas: como um navio é de fato afretado? Como os FFA gerenciam o risco de frete? O que determina o valor de um navio num dado momento? Qual a diferença entre comprar um navio novo e um de segunda mão? E como esses mercados interagem? Antes de respondê-las, é preciso dominar o vocabulário do afretamento.
2.1 Glossário de termos de afretamento (Destaque 5.1)
O contrato que rege todo o negócio é a carta-partida. Em torno dela giram dois atores e vários tipos de aluguel.
| Termo (inglês) | Significado |
|---|---|
| Embarcador (shipper) | Indivíduo ou empresa com carga para transportar. |
| Afretador (charterer) | Indivíduo ou empresa que aluga o navio. |
| Carta-partida (charter-party) | Contrato que estabelece os termos do transporte da carga ou do aluguel do navio. |
| Fretamento por viagem (voyage charter) | O navio ganha por tonelada de carga; a carta-partida fixa carga, portos e o tempo de estadia e sobre-estadia. Todos os custos são do proprietário. |
| Viagens consecutivas (consecutive voyage) | O navio é alugado para uma série de viagens seguidas entre A e B. |
| Afretamento a volume (COA) | O proprietário transporta quantidades de uma carga em rota e período dados, usando navios à sua escolha. |
| Fretamento por período (period charter) | Navio alugado por um período mediante taxa diária, mensal ou anual. |
| Afretamento por tempo (time charter) | Aluguel mensal/quinzenal; o proprietário mantém a posse e opera o navio sob instruções do afretador, que paga os custos de viagem. |
| Afretamento por tempo de viagem (trip charter) | Afretamento por tempo limitado a uma viagem específica; o proprietário ganha "aluguel" por dia. |
| Casco nu (bare boat) | O proprietário contrata a operação por outra parte, que opera o navio como se fosse o dono. |
| Tempo de estadia (laytime) | Período acordado em que o proprietário disponibiliza o navio para carregar/descarregar. |
| Sobre-estadia (demurrage) | Dinheiro pago ao proprietário pelo atraso, não imputável a ele, além do tempo de estadia. |
| Subestadia (despatch) | Dinheiro que o proprietário paga se o navio carregar/descarregar em menos tempo que o permitido (habitualmente, a metade da sobre-estadia). |
Destaque 5.1 — Glossário de termos de afretamento.
c.i.f. × f.o.b. (quem organiza frete e seguro). Em c.i.f., o preço de compra inclui seguro e frete, organizados pelo exportador. Em f.o.b. (free on board), a mercadoria é comprada ao custo e o importador organiza seu próprio seguro e frete.
3. Os quatro mercados marítimos (§5.2)
3.1 O que é um mercado
Mercado não é um lugar físico. O economista Jevons o definiu como "um grupo de pessoas em relações comerciais estreitas que efetuam grandes transações de qualquer mercadoria" — os comerciantes podem estar espalhados por um país e ainda formar um mercado, desde que mantenham contato próximo. As comunicações modernas libertaram os negociantes do contato físico, mas o princípio de Jevons continua válido.
3.2 Os quatro mercados e a mercadoria de cada um
Os serviços de transporte são oferecidos em quatro mercados muito ligados, cada um com sua mercadoria. Não há estrutura formal nem leis imutáveis: o comportamento passado não garante o futuro. As melhores oportunidades, aliás, costumam surgir quando o mercado se comporta de forma inconsistente — encomendar no pico costuma ser mau negócio, mas a regra não vale se, por algum motivo, poucos navios forem encomendados. O juízo comercial deve assentar na dinâmica do mercado, não em princípios econômicos fora de contexto.
3.3 Como se integram — o balanço no centro
Como os mesmos proprietários atuam nos quatro mercados, suas atividades são correlacionadas. A Figura 5.1 mostra o mecanismo: o balanço da indústria — consolidação dos balanços de cada companhia — fica no centro, e os fluxos de caixa entram e saem dele conforme os navios negociam nos quatro mercados.
| Mercado | Efeito no caixa da indústria |
|---|---|
| 1. Fretes | Gera a receita dos fretes, principal fonte de capital. É a única fonte real de riqueza — a negociação das cargas. |
| 2. Compra e venda | Apenas movimenta dinheiro de um balanço para outro: vender um navio por US$ 20 milhões transfere o valor de uma conta de transporte marítimo para outra. É um jogo de soma zero. |
| 3. Novas construções | Retira dinheiro do setor: o capital sai para os estaleiros pagarem materiais, mão de obra e lucro. |
| 4. Demolição | Devolve um pequeno encaixe pelos navios velhos — fonte de capital útil, sobretudo nas recessões. |
Tabela — O papel de cada mercado no fluxo de caixa (Figura 5.1).
Essas ondas de dinheiro orientam o ciclo. No começo, o frete sobe e o caixa enche; os proprietários pagam mais por navios de segunda mão; com os preços altos, voltam-se para as novas construções e encomendam em excesso. Anos depois os navios chegam, o frete cai e o ciclo se inverte. Os proprietários fracos são forçados a vender no mercado de segunda mão — e é aí que começa o "mercado de ativos" para quem tem balanço forte. Para os navios mais velhos, sem compradores, resta a demolição; à medida que se demole, a oferta cai, o frete sobe e tudo recomeça.
3.4 Características distintas
Pela natureza internacional do negócio e pela mobilidade dos navios, os mercados são competitivos em escala global e próximos da concorrência perfeita dos economistas clássicos. Mas não são homogêneos: há subsegmentos para cargas e navios especializados, e a entrada e saída de empresas é fácil — o que torna a estrutura eficiente em custo e responsiva às necessidades dos embarcadores.
4. O mercado de fretes (§5.3)
4.1 O que é e como se arranja emprego para um navio
O mercado de fretes é onde o transporte marítimo é comprado e vendido. Nasceu na Baltic Shipping Exchange de Londres, em meados do século XIX, onde mercadores que buscavam transporte encontravam comandantes que buscavam carga; hoje o negócio se faz por telefone e correio eletrônico. Há um único mercado internacional, mas com seções separadas por tipo de navio — navios-tanque, graneleiros, porta-contêineres, gaseiros, químicos — que no curto prazo se comportam de forma diferente, embora um setor influencie o outro.
O mercado tem duas transações básicas: o contrato de frete, em que o embarcador compra o transporte a um preço fixo por tonelada e deixa o gerenciamento com o proprietário; e o afretamento por tempo, em que o navio é alugado por dia e o operador experiente gerencia o transporte. Quando se fecha o negócio, diz-se que o navio foi "contratado". Três partes atuam: o proprietário (com o navio livre, "aberto" em data e porto definidos), o embarcador/afretador (com a carga) e o corretor marítimo, que descobre cargas e navios, conhece as expectativas de preço e negocia o contrato. Como corretagem é informação, os corretores se concentram em centros marítimos — Londres é o maior, seguido de Nova York, Tóquio, Hong Kong, Singapura, Pireu, Oslo e Hamburgo.
4.2 Os quatro tipos de contrato (Tabela 5.1)
Quatro acordos distribuem custos e responsabilidades de modo diferente.
| Tipo | Quem instrui o comandante | Custos pagos pelo proprietário |
|---|---|---|
| Por viagem (voyage) | Proprietário | Capital, operacionais, portuários e combustíveis — todos. Receita depende da carga × taxa por tonelada. |
| A volume (COA) | Proprietário | Mesmo perfil do fretamento por viagem (todos os custos). |
| Por tempo (time charter) | Proprietário (navio) e afretador (carga) | Só capital e operacionais; os custos de viagem (combustível, portos, canais) são do afretador. |
| Casco nu (bare boat) | Afretador (que nomeia a tripulação) | Só o capital. É essencialmente um acordo financeiro; o afretador paga operacionais e de viagem. |
Tabela 5.1 — Distribuição dos custos por tipo de afretamento.
No afretamento por viagem, transporta-se uma carga de A a B por preço fixo por tonelada (por ex., grão de Port Cartier a Tilbury a US$ 5,20/t). Se o tempo em porto exceder o tempo de estadia, o proprietário cobra sobre-estadia; se for menor, o afretador cobra subestadia. A sobre-estadia torna-se crítica em congestionamento portuário — em 2007, com Capesizes ganhando mais de US$ 200 mil/dia, poucos dias já pesavam muito.
O contrato de afretamento a volume cobre uma série de partidas (por ex., dez carregamentos de 50 mil t de carvão da Colômbia para Roterdã, a cada dois meses) por preço fixo por tonelada, deixando os detalhes de cada viagem com o proprietário — o que lhe permite otimizar a frota. É o "transporte marítimo industrial", típico de minério e carvão para siderúrgicas.
O afretamento por tempo dá ao afretador o controle operacional, mantendo posse e gerência com o proprietário, que conhece seus custos e recebe taxa diária ou mensal (por ex., US$ 5 mil/dia). A carta-partida define velocidade, consumo e capacidade — e as condições de frete suspenso (off-hire), em que o afretador não paga durante reparos. A subcontratação compensa por três razões: o embarcador pode não querer ser proprietário; o aluguel pode sair mais barato que comprar; ou o afretador pode ser um especulador antecipando o mercado.
A Figura 5.2 ilustra a virada de política das petrolíferas: no início dos anos 1970, cerca de 80% dos navios-tanque independentes estavam sob afretamento por tempo; vinte anos depois, apenas 20%.
No afretamento em casco nu, o investidor — muitas vezes uma instituição financeira, não um marítimo — compra o navio e o entrega a um afretador por 10 a 20 anos, que paga todos os custos. É só um investimento, com vantagem fiscal e sem imobilizar o capital da companhia de navegação.
4.3 A carta-partida e o formulário Gencon
Fechado o negócio, prepara-se a carta-partida, que deve antecipar os problemas prováveis — atraso na chegada, greve portuária, avaria no mar. Uma boa carta-partida define com clareza quem responde pelos custos em cada caso; uma carta-partida pobre leva as partes a gastar com advogados. Por isso a indústria usa modelos padronizados por tráfego e tipo de afretamento. Um exemplo geral básico é a Gencon da BIMCO: a Parte I (Figura 5.3) registra os detalhes do afretamento; a Parte II contém as cláusulas e não é reproduzida.
Tomando a Gencon como exemplo, as seções principais agrupam-se em seis componentes: (1) detalhes do navio e das partes; (2) descrição da carga; (3) condições de carregamento (datas, portos, tempo de estadia, sobre-estadia, despesas); (4) condições de pagamento do frete; (5) penalizações por não cumprimento; e (6) cláusulas administrativas (agentes, estivadores, conhecimentos de embarque, greves, guerra, gelo). As cartas-partidas por tempo seguem os mesmos princípios, mas acrescentam caixas para o desempenho do navio (consumo, velocidade, quantidade e preços dos combustíveis na entrega e reentrega).
4.4 Relatórios do mercado de fretes (Lloyd's List)
As taxas dependem das condições de mercado, e o ponto de partida de toda negociação é o "último contrato realizado" (last done). Por isso proprietários e afretadores acompanham os relatórios das transações recentes. O Lloyd's List publica um relatório diário: a Figura 5.4 traz um relatório do mercado de cargas sólidas e a Figura 5.5, um do mercado de navios-tanque (sem figura própria aqui — reproduzidos como contratos representativos abaixo).
O relatório de cargas sólidas traz um comentário do mercado seguido dos afretamentos por rubrica (grão, carvão, afretamentos por tempo). Como ler uma linha de contrato:
| Contrato (Fig. 5.4 — cargas sólidas) | Leitura |
|---|---|
| Por viagem: Seven Islands → Roterdã — Rubena N, 180.000 t, US$ 19,50/t, fio 7 dias sc, 20-30 maio (TKS) | Minério de Seven Islands (Canadá) a Roterdã; taxa US$ 19,50/t; fio (free in and out) = o proprietário não paga manuseio da carga; sc = domingos e feriados incluídos; afretador ThyssenKrupp Steel. |
| Por tempo: Mineral Hong Kong (175.000 tpb, 14/54,7 carregado · 14,5/47,3 lastro, 2006) entrega mundial 1 nov-31 dez 2008, reentrega mundial, 3 anos, US$ 52.500/dia (Glory Wealth) | Afretamento por período; velocidade/consumo entre parênteses (14 nós queima 54,7 t/dia carregado; 14,5 nós queima 47,3 t/dia em lastro). Entrega e reentrega "mundial" por ser de longa duração. |
Figura 5.4 — Relatório do mercado de cargas sólidas (Lloyd's List, 11 maio 2007).
O relatório de navios-tanque divide os afretamentos entre "brancos" (derivados claros: gasolina, diesel, querosene de aviação) e "pretos" (petróleo bruto e derivados escuros). As viagens isoladas costumam ser cotadas em Worldscale.
| Classe (Fig. 5.5 — navios-tanque) | Contratos representativos |
|---|---|
| Brancos (clean) | Golfo do Oriente Médio → Reino Unido: Galway Spirit, 90.000 t, US$ 2.250.000 global, 24 maio (Fleet) · Golfo OM → Japão: BW Captain, 52.000 t, W175, 20 maio (St Shipping) · Mar Negro → Mediterrâneo: Indra, 30.000 t, W285, 15 maio (Sibneft). |
| Pretos (dirty) | Golfo OM → Japão: Falkonera, 257.000 t, W80, 30 maio (Idemitsu) · Golfo OM → Ulsan: Sunrise, 260.000 t, W80, 7 jun (SE Corp) · Sidi Kerir → Itália: Iran Amol, 80.000 t, W220, 18 maio (Eni). |
Figura 5.5 — Relatório do mercado de navios-tanque (Lloyd's List, 11 maio 2007).
Economias de escala numa linha de contrato. O Falkonera levou 257.000 t a W80; o BW Captain levou 52.000 t a W175 na mesma rota. A taxa Worldscale do navio grande é metade da do pequeno, mas a carga é cinco vezes maior — economia de escala explícita.
4.5 Estatísticas das taxas e o índice Worldscale
Três unidades medem as taxas. As taxas por viagem (granéis) vêm em US$/tonelada para uma viagem-padrão (por ex., US$ 12/t de grão do Golfo dos EUA a Roterdã). As taxas de afretamento por tempo vêm em milhares de US$/dia, cotadas por viagem redonda, 6 meses, 12 meses e 3 anos. A terceira, mais complexa, é o Worldscale.
O Worldscale é um índice criado na Segunda Guerra para padronizar as taxas dos navios-tanque por rota. Para cada rota, o livro mostra o custo de transportar uma tonelada num navio-padrão numa viagem completa — esse custo é o "Worldscale 100". Um painel reúne-se anualmente em Nova York e Londres para atualizá-lo. Negociar uma fração do WS 100 é simples: se a tarifa Jubail→Roterdã é US$ 17,30/t no WS 100, uma taxa WS 50 rende metade — US$ 8,65/t.
| Navio-tanque-padrão Worldscale (2007) | Parâmetro |
|---|---|
| Capacidade total | 75 mil toneladas |
| Velocidade média de serviço | 14,5 nós |
| Consumo navegando | 55 t/dia (+ 100 t por viagem redonda; 5 t/porto) |
| Taxa de afretamento diária fixa | US$ 12 mil/dia |
| Preço do combustível | US$ 116,75/t (380 cSt) |
| Tempo de estadia em porto | 4 dias por viagem entre porto de carga e descarga |
Tabela 5.2 — Navio-tanque-padrão do Worldscale (Associação Worldscale, Londres).
5. O mercado de derivativos de frete (§5.4)
5.1 O que é um derivativo e o contrato de frete
Os mercados marítimos mudaram pouco em séculos, mas o derivativo de frete é uma inovação radical. Um contrato de derivativos é um acordo em que duas partes se comprometem a compensar uma à outra conforme o resultado de um evento futuro, cobrindo o risco de oscilações adversas. Stopford usa a analogia do cavalo de corrida: o proprietário (favorito a ganhar US$ 1 milhão) e um apostador (que aceitou US$ 1 milhão em apostas) preferem não ficar no "tudo ou nada" e redigem um contrato — quem ganhar paga US$ 0,5 milhão ao outro, de modo que ambos travam US$ 0,5 milhão. É exatamente isso que os FFA fazem com o risco do frete.
O mercado funciona porque embarcadores e proprietários enfrentam riscos opostos: quando o frete sobe, o embarcador perde e o proprietário ganha; quando cai, ocorre o inverso. Stopford ilustra com um negociante europeu que compra 55 mil t de milho em julho/2002 para embarcar em março/2003. O preço do grão é fixo, mas o frete pode dobrar e eliminar seu lucro. Ele faz um contrato a ser liquidado contra o índice de base da rota:
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Taxa em julho/2002 (Golfo EUA → Japão) | US$ 18,60/t |
| Taxa de liquidação acordada (mar/2003) | US$ 22,50/t |
| Resultado A: índice sobe a US$ 30/t | O proprietário paga US$ 7,50/t ao negociante. |
| Resultado B: índice cai a US$ 15/t | O negociante paga US$ 7,50/t ao proprietário. |
Tabela — O contrato da Figura 5.6: ambos travam US$ 22,50/t.
A taxa real em março/2003 foi US$ 30/t: o negociante recebeu US$ 7,50/t (US$ 412.500 nas 55 mil t), compensando o frete físico extra. O proprietário, desde que o índice seja preciso, ganha esses US$ 7,50/t a mais no mercado aberto e continua nos US$ 22,50/t planejados.
Cobertura × especulação. A cobertura (hedge) usa o derivativo para segurar uma posição física de custo. Sem posição física, o mesmo contrato é pura especulação no ciclo do transporte marítimo.
5.2 Requisitos para um mercado de derivativos
Três problemas práticos precisam ser vencidos: (1) um índice de base fiável, para não haver dúvida sobre a taxa real na liquidação; (2) liquidez suficiente, já que negociar derivativo é opcional e pode faltar contraparte; e (3) o controle do risco de crédito, maior que no mercado físico, exigindo um sistema que garanta o cumprimento na data da liquidação.
5.3 Índices de frete: BFI, BDI e a família do Báltico
Os derivativos dependem de índices que reflitam com precisão o risco e que não possam ser manipulados — serviço prestado pela Baltic Exchange de Londres. Em 1985 ela criou o índice de Fretes do Báltico (BFI), média ponderada de onze tráfegos (grão, carvão, minério, viagens), coletados diariamente de um painel de corretores. Em outubro de 2001 o índice único foi substituído por quatro índices de carga sólida — Capesize (BCI), Panamax (BPI), Handymax (BHMI) e o índice de Cargas Sólidas a Granel (BDI); o BFI foi descontinuado e o BDI passou a ocupar seu lugar nas séries.
Ao longo de 1987-2005, o índice teve valor médio 1.787 e desvio-padrão semanal de 1.210 pontos — sinal de altíssima volatilidade. Em 2007 a Baltic já publicava 53 rotas de cargas sólidas e navios-tanque, com taxas de 47 painelistas em catorze países.
5.4 De BIFFEX a FFA
O mercado começou em 1985 com a BIFFEX, bolsa de futuros de frete: contratos padronizados liquidados contra o BFI, com câmara de compensação que ajustava as contas diariamente (reduzindo o risco de crédito a um dia). Cada unidade valia US$ 10 por ponto do índice. No fim dos anos 1990, os FFA (Forward Freight Agreements, também "permutas financeiras de fretes", freight swaps) substituíram os futuros: são contratos entre mandantes, em geral via corretor, sem compromisso físico. O cliente indica cinco parâmetros — rota, preço, mês, quantidade/período e índice de liquidação. Em 2006 o volume dos FFA chegou a US$ 56 bilhões (287.745 lotes no mercado de balcão e 32.200 compensados pelas câmaras de compensação). A prática de passar as transações para câmaras de compensação cresceu em 2006-2007, em resposta ao risco de crédito do balcão puro.
Como base para marcar os contratos a mercado, a Baltic publica diariamente uma "análise da taxa futura":
| Período | Capesize C4 (US$/t) — Richards Bay→Roterdã | VLCC TD3 (WS) — Golfo OM→Japão |
|---|---|---|
| Aberto | 35,20 | 57,94 |
| Nov/2007 | 35,02 | 87,20 |
| Jan/2008 | 32,83 | 80,00 |
| Cal 2008 (ano todo) | 28,79 | 74,00 |
| Cal 2009 | 23,87 | 69,80 |
| Cal 2010 | 18,66 | — |
Tabela 5.3 — Avaliação da taxa futura da Baltic (31 ago. 2007). A curva descendente indica mercado forte enfraquecendo; os contratos de janeiro do TD3 (WS 80) acima do aberto (WS 57,94) sugeriam melhora sazonal.
6. O mercado de compra e venda de navios (§5.5)
6.1 O que faz e os cinco estágios da venda
Em 2006 venderam-se cerca de 1.500 navios mercantes de longo curso — US$ 36 bilhões de investimento. O traço notável é que navios de dezenas de milhões de dólares são comercializados "como sacos de batatas num mercado campestre". O proprietário chega com um navio para vender — em geral com entrega imediata, em dinheiro, livre de afretamentos, hipotecas ou arrestos. As razões variam: política de substituição por idade, navio que já não serve ao tráfego, expectativa de queda de preços ou a "venda forçada" para obter capital. O comprador pode precisar de um navio específico ou ser um investidor que sente o momento certo. A maioria das transações passa por corretores marítimos.
| Estágio | O que ocorre |
|---|---|
| 1. Colocação no mercado | Comprador ou vendedor nomeia um corretor (ou trata por conta própria); os detalhes do navio circulam entre interessados. |
| 2. Negociação de preço e condições | Começa ao se identificar um comprador. Em mercado efervescente decide-se com pouca informação; em mercado fraco, inspeciona-se muito. Fecha-se com uma "recapitulação" (recap). |
| 3. Memorando de acordo | Redige-se o MOA com as condições da venda; em geral usa-se o Norwegian Sales Form. Ainda não é vinculativo (cláusulas "sujeito a..."). |
| 4. Inspeções | Inspeção física (possivelmente em doca seca ou por mergulhadores) e dos registros da sociedade classificadora. Muitas vendas falham aqui. |
| 5. Fechamento | O navio é entregue e o saldo é transferido ao banco do vendedor, com reunião simultânea a bordo e em terra entre as partes e credores. |
Tabela — Os cinco estágios do procedimento de compra e venda.
6.2 O memorando de acordo (MOA / Norwegian Sales Form — Destaque 5.2)
O contrato proforma de sete páginas tem dezesseis cláusulas; as principais:
| Cláusula | Conteúdo |
|---|---|
| 1-3. Preço, depósito e pagamento | Preço de compra; depósito de 10%; o saldo pago na entrega, em até três dias bancários após o aviso de prontidão. |
| 4. Inspeções | Inspeção dos registros de classe e do navio; após a inspeção física, o comprador tem 72 horas para aceitar por escrito, sob pena de nulidade. |
| 5. Entrega e cancelamento | Local (faixa de portos) e datas de entrega e de cancelamento; se não entregue até a data de cancelamento, o comprador pode cancelar. |
| 6. Docagem / mergulhadores | Inspeção ao fundo em doca seca pela classificadora, ou por mergulhadores; defeitos que afetem a classe são corrigidos pelo vendedor. |
| 7-12. Sobressalentes, documentação, hipotecas, taxas, condição, nome | Combustível e óleos a preço de mercado; nota de venda legal; navio livre de hipotecas; entregue na condição inspecionada e em classe; comprador muda nome e insígnias. |
| 13-16. Inadimplência e arbitragem | Inadimplência do comprador (perda do depósito) e do vendedor (cancelamento + indenização); representantes a bordo; jurisdição e arbitragem. |
Destaque 5.2 — Memorando de acordo (MOA), Norwegian Sales Form 1993.
6.3 A volatilidade dos preços
O mercado de compra e venda vive da volatilidade do preço — os lucros do "jogo de ativos" são fonte importante de renda, e os banqueiros se interessam porque a hipoteca sobre o casco é a garantia dos empréstimos. A Figura 5.8 mostra os ciclos: um graneleiro Panamax caiu a US$ 6 milhões em 1977, subiu a US$ 22 milhões em 1980, voltou a US$ 7 milhões em 1982 e atingiu US$ 92 milhões em dezembro de 2007 — quinze vezes o piso de 1977.
Expresso como desvio de uma tendência de regressão (Figura 5.9), o preço do Panamax atingiu +90% acima da tendência em 1980, −60% em 1986 e +125% em 2007. Não há regra: as vendas forçadas nas baixas são impostas pela pressão de caixa (combustível, banco executando a hipoteca); os preços altos surgem quando há muitos compradores e ninguém quer vender.
6.4 Correlação entre tipos de navio (Destaque 5.3)
Os preços dos diferentes tipos de navio movem-se de forma sincronizada, porque a pressão de caixa passa de um setor a outro. O coeficiente mede quanto do movimento de um preço explica o do outro.
| Par de navios (1976-2004) | Coeficiente |
|---|---|
| Graneleiros de 30.000 tpb e 65.000 tpb | 0,79 |
| Navio-tanque de 30.000 tpb e 280.000 tpb | 0,58 |
| Graneleiro 65.000 tpb e navio-tanque 280.000 tpb | 0,62 |
| Graneleiro 30.000 tpb e navio-tanque de derivados 30.000 tpb | 0,63 |
Destaque 5.3 — Correlação dos preços de segunda mão (R²). Como os preços são tão correlacionados, o tipo de navio importa pouco nas grandes oscilações — mas faz diferença nos ciclos moderados (ex.: 1991-1995, graneleiros estáveis enquanto os navios-tanque grandes caíam).
6.5 Os quatro fatores do valor: frete, idade, inflação e expectativas
Quatro fatores determinam o valor de um navio. As taxas de frete são a influência primária: a Figura 5.10 mostra a correlação estreita entre o preço de segunda mão e a taxa de afretamento a um ano.
Método do ganho bruto. Com o frete alto, o mercado avalia um navio de cinco anos em cerca de quatro a seis vezes seus ganhos anuais correntes (base afretamento por tempo de um ano). Ganhando US$ 4 milhões/ano, o navio vale ~US$ 24 milhões. Mas depende da fase do ciclo: quando o mercado cai, o múltiplo tende a subir; quando cresce, cai.
A idade é a segunda influência: a regra geral dos corretores é a perda de 5%-6% do valor ao ano; quando o valor de mercado cai abaixo do valor de sucata, o navio segue para demolição (Figura 5.11). A idade média de demolição em 2006 foi de 26 anos (até 35 em tráfegos protegidos).
A inflação age no longo prazo. O índice mais adequado não é o de preços ao consumidor, mas o preço da nova construção, pois é o custo de substituição: vender por dobro de preço não é lucro se o navio novo também dobrou. Deflacionado por esse índice (Figura 5.12), o preço do Aframax revela tendência muito mais clara — subindo cerca de 2% ao ano em 27 anos.
As expectativas são, por vezes, a influência mais forte: aceleram as viragens do mercado. Compradores e vendedores seguram-se para ver o que acontece e depois correm para negociar — o mercado pode passar de depressão a atividade intensa em semanas (caso do navio Volare, avariado, comprado por US$ 7 milhões e revendido por US$ 9,5 milhões dois meses depois).
6.6 Valoração dos navios mercantes
A valoração é tarefa de rotina dos corretores. É exigida pelos bancos (avaliar e monitorar a garantia), pelos prospectos de oferta pública e pelas contas anuais; nas locações financeiras, calcula-se também o valor residual ao fim do empréstimo — tarefa mais difícil que avaliar o valor corrente.
7. O mercado das novas construções (§5.6)
7.1 Em que difere do de compra e venda
Embora ligado ao de compra e venda, este mercado negocia navios que ainda não existem — têm de ser construídos. Daí três consequências: a especificação precisa ser determinada (e os estaleiros pressionam por um projeto padronizado, mais barato e rápido); o processo contratual é mais complexo; e o navio só estará disponível em dois a três anos, quando as condições podem ter mudado — por isso as expectativas pesam. O comprador entra por vários motivos: precisa de um navio sem similar no mercado de segunda mão; tem projeto industrial (siderúrgica, GNL); pratica substituição regular; ou é um especulador atraído por preços baixos. Os estaleiros são cerca de trezentos principais, do pequeno (rebocadores, pesca) aos gigantes sul-coreanos (porta-contêineres, gaseiros).
7.2 Negociação, pagamentos escalonados e contrato
A negociação é complexa e pode levar de seis meses a um ano. Um procedimento comum é o concurso entre estaleiros adequados; em mercado a favor do vendedor, porém, os estaleiros fixam termos e insistem num projeto padronizado. A negociação cobre quatro áreas: preço, especificação do navio, termos do contrato e financiamento. O mais importante é o preço, pago em prestações escalonadas durante a construção — o estaleiro quer ser pago conforme constrói, para não precisar de capital de giro.
| Fase de produção | Pagamento devido |
|---|---|
| Assinatura do contrato | 10% |
| Corte do aço | 22,5% |
| Assentamento da quilha | 22,5% |
| Lançamento | 22,5% |
| Entrega | 22,5% |
Destaque 5.4 — Padrão típico dos pagamentos escalonados (H. Clarkson). Varia com o mercado: a favor do vendedor, o estaleiro pode exigir 50% na assinatura; em 2002 (mercado pobre), pagava-se 70% só na entrega.
Fechadas as negociações, redige-se uma "carta de intenções" e depois o contrato de construção naval — bem mais detalhado que o de compra e venda, com 70 a 80 páginas. O Destaque 5.5 resume suas cláusulas:
| Cláusula | Trata de |
|---|---|
| 1-3. Descrição/classe, preço, ajuste | Descrição e classificação do navio; preço, moeda e prestações; indenização se velocidade, capacidade ou consumo das provas de mar falharem. |
| 4-6. Planos, modificações, provas | Aprovação de planos e inspeção durante a construção; regras para modificações pedidas pelo comprador; provas de mar e aceitação. |
| 7-9. Entrega, atrasos, garantia | Local e data de entrega; forças maiores e cancelamento se o atraso exceder 210 dias; período de garantia contra defeitos. |
| 10-12. Cancelamento, inadimplência, arbitragem | Carta de garantia de reembolso (juros de 8% se cancelado); inadimplência de comprador e construtor; regime de arbitragem. |
| 13-17. Cessão, propriedade, seguro, despesas, patentes | Venda a terceiros; quem possui planos e navio durante a obra; seguro pelo construtor; rateio de taxas; infrações de patente. |
Destaque 5.5 — Cláusulas de um contrato típico de construção naval.
7.3 Preços da construção naval
Como os de segunda mão, os preços de construção são fixados pela oferta e pela demanda — mas aqui os vendedores são os estaleiros. Do lado da demanda pesam frete, preço dos navios modernos de segunda mão, liquidez, crédito e, sobretudo, expectativas; do lado da oferta, os custos de produção, os picadeiros disponíveis e o tamanho da carteira de encomendas. Os preços são tão voláteis quanto os de segunda mão e fortemente correlacionados com eles (Figura 5.13). Assumindo vida de 25 anos, um navio de 5 anos deveria custar ~80% do preço do novo; mas no início dos anos 1990 caiu a 60% (mercado contraído, ninguém queria navio pronto), enquanto em 2006 o preço de segunda mão superou o do navio novo, por causa do frete altíssimo e da disputa por navios prontos.
8. O mercado de demolição / reciclagem (§5.7)
O quarto mercado é o da demolição, hoje chamado de reciclagem. A mecânica lembra a do mercado de segunda mão, mas os clientes são os estaleiros de sucata (scrap yards), não proprietários de navios. Um proprietário com um navio que não pode vender para navegar oferece-o no mercado de demolição; em geral um corretor com "departamento de demolição" trata da venda e divulga os detalhes, incluindo o deslocamento de navio leve (lightweight), a localização e a disponibilidade.
Os compradores finais são os estaleiros de demolição, a maioria no Extremo Oriente (Índia, Paquistão, Bangladesh e China), mas a compra é feita por intermediários que pagam em dinheiro e revendem aos estaleiros. O preço depende da oferta de navios e da demanda de sucata metálica — em grande parte usada nas minissiderúrgicas locais —, e por isso segue o mercado de aço da região. É muito volátil: oscilou de US$ 100/tonelada de deslocamento leve nos anos 1980 a mais de US$ 400/tonelada em 2007, e ainda varia de navio para navio conforme a sua adequação para sucata. Usa-se às vezes o Norwegian Sales Form, mas como poucas cláusulas se aplicam, os corretores preferem contratos próprios, mais simples. Ao final, o comprador toma posse do navio e, se for um intermediário, providencia a entrega no estaleiro de demolição.
9. Resumo (§5.8)
Os quatro mercados marítimos — fretes (incluído o de derivativos), compra e venda, novas construções e demolição — gerenciam, juntos, o negócio da oferta de navios. Como são lugares práticos, entendê-los exige estudar o que de fato acontece.
O mercado de fretes reúne proprietários, afretadores e corretores, com quatro contratos (por viagem, a volume, por tempo e casco nu) firmados numa carta-partida; as estatísticas vêm em US$/tonelada, Worldscale ou US$/dia, e o mercado de derivativos permite cobrir risco ou especular via FFA. O mercado de compra e venda negocia navios de segunda mão entre proprietários, com preços muito voláteis (Norwegian Sales Form) cujo valor depende de frete, idade, inflação e expectativas — embora não altere o caixa da indústria como um todo. O mercado das novas construções reúne proprietários e estaleiros, com negociação mais complexa (preço, especificação, entrega, escalonamento, financiamento). O mercado de demolição vende navios velhos para sucata, muitas vezes via especuladores intermediários.
Os quatro funcionam ligados pelo fluxo de caixa e pelo sentimento, mas o mercado não tem controle total: o que acontece amanhã depende do que as pessoas fazem hoje. Stopford fecha com a metáfora do mercado rural — quando o agricultor chega com o porco e descobre que todos criaram suínos, é tarde; a situação foi criada um ano antes, no pico de preços. A companhia de navegação bem-sucedida, como o agricultor esperto, precisa saber a hora de ficar longe dos porcos.