Mercado = maratona sem distância fixa (corre até concorrentes caírem de exaustão) → a métrica concreta da sobrevivência é o fluxo de caixa.
Epígrafe de Micawber: renda £20, despesa £19,19,6 = alegria; despesa £20,0,6 = infelicidade. A diferença entre prosperar e quebrar pode ser uma única moeda de caixa.
Caso London Pride (Fig. 6.1) — 9 influências sobre vender/demolir
① desempenho financeiro · ② idade/dimensão · ③ expectativas de mercado · ④ custos operacionais · ⑤ preços de demolição · ⑥ mercado de 2ª mão · ⑦ valor contábil × sucata · ⑧ fluxo de caixa · ⑨ políticas do gerenciamento.
As cinco categorias de custo
| Categoria | Abrange |
|---|---|
| 1. Operacionais | Gestão diária (tripulação, provisões, manutenção rotina, seguro, admin) — independentes do tráfego |
| 2. Manutenção periódica | Docagens e vistorias especiais; capitalizada e amortizada |
| 3. De viagem | Combustível, encargos portuários, direitos de canal |
| 4. De capital | Dependem do financiamento: dividendos ou juros/reembolsos |
| 5. De manuseio da carga | Carga, estiva, descarga — sobretudo linhas regulares |
Custo × idade (Fig. 6.3)
Quando os ganhos caem ao custo operacional do navio de 20 anos, ele é desarmado, mas o moderno continua. Na 4ª vistoria especial (US$ 2,2 mi) o pessimista vende p/ sucata — mecanismo da demolição.
Custos unitários e economias de escala (Tab. 6.1)
| tpb | US$/tpb·ano |
|---|---|
| 30.000 | 191 |
| 68.000 | 120 |
| 170.000 | 74 |
Por isso navios crescem (Handy: 2.000 t em 1870 → ~50.000 t). Penalidade do tamanho: menos portos acessíveis + dificuldade de carga de retorno.
Os 4 grupos (Capesize 10 anos, Fig. 6.4)
| Grupo | % total |
|---|---|
| Operacionais | 14% |
| Manutenção periódica | 4% |
| Viagem | 40% |
| Capital | 42% |
Combustível + capital = ~⅔ do total. Índice de custo do navio subiu 5,5%/ano (1965–2007) vs 4,6% do IPC dos EUA — muito mais volátil.
Operacionais (~14%)
OC = M + ST + MN + I + AD | tripulação · mantimentos · reparos/manutenção · seguro · administração.
- Tripulação até ~metade: lotação caiu de 40–50 (1950) p/ ~17 (moderno). Sob bandeira europeia custa até 50% mais que registro aberto.
- Seguro: ⅔ casco/máquinas, ⅓ P&I (responsabilidade a terceiros; clubes mútuos).
Viagem (~40%) — combustível domina
VC = FC + PD + TP + CD | combustível · portos/farolagem · reboque/pilotagem · direitos de canal.
- Combustível ~47% dos custos de viagem. 1970–1985: preço do combustível subiu 950%; parcela no total foi de ~13% para 34%.
- Balanço energético de um Panamax a 14 nós (Fig. 6.6): só 23% chega à propulsão (27% resfriamento, 30% escape, 10% hélice, 10% casco).
- Regra do cubo (Eq. 6.4): F = F*·(S/S*)^a, com a≈3 (diesel), a≈2 (turbina). Reduzir Panamax de 16→11 nós corta consumo a ⅓ (44→14 t/dia).
- Canais relevantes: Suez (tonelagem líquida + SDR) e Panamá (taxa fixa por tonelada líquida).
Lucro × fluxo de caixa
Alavancagem · Tributação
- À vista → sem custos financeiros (sobrevive com frete = operacionais + viagem). Empréstimo → reembolsos quase dobram o pagamento diário.
- Bancos raramente financiam 100%; dívida/capital próprio = alavancagem (quanto maior, mais arriscada). Garantia: 1ª hipoteca sobre o navio, cessão de afretamento longo, etc.
- Tributação: registro aberto isenta (49% da tonelagem mundial em 2005). Europa respondeu com taxa de tonelagem (~imposto zero) — ex. DIS dinamarquês (1988).
| Contrato | Risco do proprietário |
|---|---|
| Por viagem | Operacional + mercado (paga quase tudo) |
| Por tempo | Só operacional (afretador paga combustível/portos + risco de mercado) |
| Casco nu | Só custos financeiros; afretador assume o resto |
S = velocidade média · LD = dias carregado no mar · DWU = utilização do porte bruto
- Velocidade: frete alto compensa correr; frete baixo pode compensar ir devagar (economia de combustível > perda de receita). Há velocidade ótima por par preço-combustível × frete.
- Dias em lastro = fator mais importante: tanque/carga única sem retorno passa metade do tempo no mar em lastro; "quanto maior o navio, maior o tempo em lastro".
- Utilização do porte: aceitar carga parcial é comum nas recessões. Panamax no grão Golfo→Japão não enche (Panamá limita a 55.000 t).
| Demonstração | O que mostra |
|---|---|
| Resultados (DRE) | Lucro do período (a "velocidade do rio"): receita − custos − depreciação |
| Folha de balanço | Riqueza num momento: ativos − passivos = capital próprio |
| Fluxo de caixa | Quanto entrou/saiu e por quê (operacionais · financiamento · investimento) |
Insolvência muitas vezes vem não da dívida bancária, mas do fornecedor de combustível que arresta o navio. Caixa operacional > lucro líquido (readiciona itens não monetários como depreciação). Coordenação internacional: IFRS do IASB.
Medida usual = Ebitda (ganhos antes de juros, impostos, depreciação e amortização).
| Método | Para que serve |
|---|---|
| VCF (por viagem) | Decisões diárias: escolher carga, decidir desarmar |
| ACF (anual) | Caixa do negócio num exercício — o mais usado |
| RFR (taxa de frete exigida) | Variante da ACF só pelo custo: "que frete cobre os custos?" |
| DCF (descontado) + TIR | Valor temporal do dinheiro; compara investimentos no tempo |
O momento certo de questionar custos e capital é antes de comprar o navio, não na recessão.
| Valor | Como se obtém |
|---|---|
| De mercado | Tipo, dimensão, idade (perde 4–5%/ano; vida ~20–25 anos), estaleiro; subjetivo se não há vendas recentes |
| De sucata | Bancos passam a usar após certa idade. = deslocamento leve (lwt) × preço de sucata (US$/lwt; oscilou US$ 100–550) |
| Residual | Valor futuro (ex. fim de leasing): depreciação + inflação de construção + ciclo (move ±70%) |
Navios muito especializados (tanque químico) são difíceis de avaliar — só 2–3 compradores.
- A estratégia inicial (novo×velho, flexível×especializado, dívida×capital próprio) fixa os grandes itens de custo/receita; depois o dono só otimiza o caixa diário.
- Custos: operacionais (fixos), viagem (variáveis, combustível domina), capital. Tripulação = quase metade dos operacionais.
- Receita: jogar no mercado aberto (assume risco) ou afretar a tempo (transfere); ganhos dependem da produtividade.