Levantar capital = persuasão: convencer quem tem dinheiro de que o retorno justifica o risco. O financiamento "lubrifica os carris da montanha-russa", mas não conduz o mercado.
- Anos 1850 (vapor): navio britânico registrado em 64 ações; cada acionista vende/hipoteca sua parte. 1848: 89% de indivíduos, só 18% hipotecados.
- Britânicos avessos a dívida pós-recessão 1904–11 ("empréstimos = anátema"); alavancagem de só 16% (Rochdale 1969) → estagnação (retorno ~6%).
| Fase | Modelo |
|---|---|
| 1950–60 | Garantido por afretamento: embarcadores industriais davam afretamento longo → garantia p/ empréstimo. Companhia de um só navio (alavancagem alta, pouca transparência) |
| 1970 | Garantido por ativos: 1ª hipoteca do casco ("imobiliário flutuante") — rompeu o vínculo oferta/demanda |
| 1980 | Asset play: comprar barato/vender caro no fundo; K/S norueguesas; fundos auto-liquidáveis |
| 1990 | Finanças corporativas: sindicalização, KG alemãs, IPOs, obrigações de alto rendimento |
Crédito à construção naval: governos veem estaleiro como indústria estratégica → crédito subsidiado (ECGD, Hermes, Kexim), regulado pelo Convénio da OCDE (1969).
Os três mercados de títulos
| Mercado | O que negocia |
|---|---|
| Monetários | Dívida de curto prazo (<1 ano); referência Libor |
| Obrigacionistas | Dívida de >1 ano (10–15 anos); precisa de rating (abaixo de BBB-/Baa3 = alto rendimento) |
| De ações | Capital; oferta pública (regulação SEC); subscrição 7–9% |
Rating (S&P, Moody's, Fitch, Duff & Phelps): AAA é o melhor; de BBB-/Baa3 p/ cima = "nível de investimento". Pela volatilidade, navegação raramente alcança nível de investimento.
As 14 opções em 4 métodos (Fig. 7.4)
| Método | Opções |
|---|---|
| 1. Fundos privados | Fundos próprios · investimento privado (família) |
| 2. Bancos | Hipotecário · empresarial (balanço) · crédito do estaleiro · mezanino |
| 3. Mercado de capitais | Colocação privada · IPO de ações · obrigações |
| 4. Titularização | SPC/SPAC · comandita (K/S, KG) · leasing financeiro · leasing operacional · securitização |
- Forma mais antiga: recursos próprios + ganhos de outros navios + família/amigos. Principal capital inicial (ex.: Stelmar Tankers, 1992, US$ 30 mi do pai).
- Propriedade familiar comum na Grécia, Noruega, Hong Kong (toleram melhor a volatilidade).
- Na expansão 2003–08, o private equity entrou, primeiro em nichos de menor volatilidade (ferries europeus).
Empréstimo hipotecário — 7 questões-chave
| # | Questão |
|---|---|
| 1 | Montante (50–80% do valor de mercado) |
| 2 | Prazo (5–7 anos) |
| 3 | Reembolso (prestações iguais; reembolso-balão; graça) |
| 4 | Taxa (spread 0,2–2% sobre a Libor) |
| 5 | Comissões (tramitação, autorização) |
| 6 | Garantia (hipoteca do navio) |
| 7 | Covenants (positivos: manter classe/valor; restritivos: limitar dívida/dividendos) |
Alavancagem só compensa se o retorno > custo do empréstimo. No setor, o retorno fica perigosamente próximo do custo dos fundos.
Economia do empréstimo (Basileia)
- Basel I (1988): 8% de capital próprio do banco; Basel II até 12% (alto risco). Restantes 88–92% o banco toma à Libor; lucro = spread + comissões.
- Lições: economias de escala decisivas (admin não cresce com o volume; sindicalização atraente); rentabilidade cai com o tempo (favorece reembolso-balão).
- Empréstimo empresarial (garantido pelo balanço) para grandes; crédito renovável (revolving) dá flexibilidade. Bancos raramente seguram > US$ 25–50 mi por transação → sindicalização (banco líder, 20–30 bancos) ou club deals.
Navios novos (Fig. 7.7)
2 problemas: capital alto demais p/ os ganhos + precisa de dinheiro antes de haver casco-garantia. Pré-entrega acompanha pagamentos escalonados, coberto por "garantia de reembolso" do estaleiro. Governo ajuda por: garantia governamental · bonificação de juros · moratória.
Para grandes companhias de capital intensivo. A maioria das companhias é pequena demais; os mercados de capitais são "um estilo de vida" que exige estruturas que atrasam decisões.
IPO de ações (Fig. 7.8)
- 2007: 181 companhias públicas, capitalização US$ 315 bi; Maersk + Carnival = US$ 90 bi (29%). Frota pública ~47% da mundial (472 m.tpb).
- Precificação: NAV ajustado + EBITDA + comparáveis. IPO sai com desconto p/ garantir subscrição. Processo 10–15 semanas (roadshow), custa ~9% em NY (~7% em Londres).
Obrigações (Fig. 7.9)
| Veículo | Característica |
|---|---|
| Fundos / SPAC | Capital antes de comprar navios (blind pool); SPAC compromete-se a investir ~80% em 18 meses (gregas em NY) |
| PIPE / RD | Colocação privada de companhia pública; menos divulgação, custo 4–6% |
| K/S norueguesa | Fim dos 1980: US$ 3 bi; vantagem fiscal; 20% à vista + 20% em 2 anos + 80% banco; benefícios cortados nos 1990 |
| KG alemã | Anos 1990: 50–70% banco + 30–50% investidores ricos; financiou +600 navios; sucesso = linhas tirando contêineres do balanço + estaleiros alemães + investidores ricos + bancos |
Leasing (Fig. 7.12)
| Tipo | Característica |
|---|---|
| Operacional | Curto; locatário pode terminar; risco/manutenção do locador; fora do balanço (porta-contêineres) |
| Financeiro | Longo; locatário assume tudo; no balanço dele; benefício fiscal (depreciação acelerada). GNL/cruzeiros |
Securitização (Fig. 7.13): carteira vendida a SPC "em falência remota" que emite obrigações em tranches. 1ª marítima só em 2006 (CMA CGM) — menos usada que na aviação (banco comercial muito competitivo).
Conclusão: estrutura que dependa dos ganhos p/ pagar juros+capital na primeira metade do período tende a sofrer. Obrigação funciona por adiar o capital p/ o fim — se houver capital de giro e o refinanciamento não coincidir com mercado ruim.
3 categorias de risco: econômico · operacional · de mercado marítimo (lista de verificação de 11 itens: ciclo, contrapartes, diversificação, estrutura financeira, resolução, ambiental…).
3 abordagens: (a) apoiar o proprietário; (b) fechar e operar com nova gestão; (c) fechar e vender (privadamente = melhor preço; venda do Almirantado afasta queixas). Idealmente: escolher clientes que não entrem em inadimplência.
- Fases: garantido por afretamento (1950–60) → por ativos (1980, fundos/K/S) → corporativo (1990, IPOs/empresarial).
- Dinheiro vem de 3 mercados: monetários (curto), de capitais (longo), de ações. Maioria institucional. Acesso direto (estruturas formais) ou indireto via banco comercial (o mais usado).
| Grupo | Síntese |
|---|---|
| Fundos privados | Capital inicial (família); depois o navio gera seu fluxo |
| Bancos comerciais | A fonte mais importante; "companhia de um só navio"; grandes se sindicalizam |
| Mercados de capitais | IPO ou obrigações (companhias estabelecidas) |
| Independentes | SPC, comanditas (K/S, KG), leasing, securitização |
A parte mais difícil é a resolução (inadimplência), agravada por ocorrer raramente. O financiamento, como tudo no transporte marítimo, altera-se com o tempo.